47 - Céu de Carmim


Tempo e espaço não eram fatores delimitantes para os anjos. Ainda mais um da categoria de Odimyel — os chamados Teremins, classificados como anjos alfa, estando abaixo apenas dos próprios arcanjos na hierarquia. 

Anmyuu precisava conversar pessoalmente com sua amiga e aliada, no entanto, a mesma residia em Darkelvânia, capital do reino dos biotipos Noturnos, Lockenait. Reino esse que ficava há mais de mil e quinhentos quilômetros de distância de Nihsies. Seria um voo de três horas até lá, ou então, numa categoria de mais urgência, mesmo que usasse um Ponto de Teleporte (cabines desenvolvidas a partir da mais alta tecnologia unida a magia, preparadas para teletransportar veículos espeedar de um reino para o outro) levaria quase uma hora para chegar ao seu destino, tempo este que ela não tinha. 

Por isso pediu esse enorme favor ao espírito de seu falecido sogro. Com seus poderes angelicais, Odimyel poderia levá-la até o reino noturno num piscar de olhos; literalmente. 

O prelúdio dos primeiros raios de luz surgiam timidamente no horizonte de Lockenait, espalhando um brilho rubro que se infiltrava nas sombras do reino noturno, tingindo a atmosfera com tons de vermelho profundo e ardente. Era como se o sol emergisse de um mar de sangue, com seus raios filtrados por uma bruma enevoada em mistério. O céu rubro durante o dia era uma característica marcante e única do território daquela nação, cujos habitantes eram todos felins vampíricos. 

Através de um lampejo de luz dourada, Odimyel surgiu com Anmyuu num ponto discreto aos fundos de um elegante casarão, longe de olhares curiosos dos vizinhos que poderiam estar se recolhendo para seu sono diurno e de repente, presenciarem a própria Rainha Suprema surgindo do nada na frente deles acompanhada de um anjo celeste.

— Me chame quando terminar, que eu te levo de volta ao palácio. 

Disse Odimyel com sua costumeira expressão gentil e desinibida. 

— Claro, eu chamo sim. Obrigada por ter me trazido, e desculpe se eu estiver abusando, sogrinho. É que… 

Odimyel gesticulou meneando a cabeça antes que ela terminasse, esboçando um sorriso tranquilo.
— Não se preocupe, querida. Pode contar comigo para o que precisar, afinal, sabe que eu não sou um anjo lá muito convencional, não é? — ele deu uma piscadela com um sorrisinho malandro —  Além do mais, posso imaginar o que está planejando e porque precisam conversar. Estou por dentro de tudo que está rolando, parece que as engrenagens do destino final da nossa família finalmente começaram a girar, e vocês duas serão uma parte essencial disso. 

Anmyuu o encarou com um olhar surpreso e curioso, fazendo o anjo perceber que talvez tivesse falado demais. 

— Ooops, hehe! É melhor eu parar por aqui, não posso correr o risco de acabar te dando algum spoiler divino. Nos vemos quando terminar.

Ele disse já se despedindo.

A rainha sabia que de nada adiantaria insistir no assunto para quem sabe obter alguma resposta antes da hora, sendo assim, apenas lhe assentiu, ciente que o melhor a fazer era continuar a seguir seus planos, deixando-se guiar por seus instintos. Ela sorriu para ele.

— Certo, muito obrigada de novo. E sogro…  — sua feição simpática então tornou-se séria. — Nós duas esperamos por essa oportunidade há muito tempo, e não só por Devimyuu e pelo Kin, mas por você também. Eu juro que farei tudo ao meu alcance para que Heimewdall pague por toda a dor que causou a nossa família. E sei que posso contar com a ajuda de Rogue pra isso. 

  Odimyel se virou para ela, e assentiu sorrindo. No entanto, diferente do habitual, não se tratava de um sorriso de simpatia despretensioso. Trazia um tom mais emotivo, de agradecimento. 

— Sei que sim, conto com vocês, minhas queridas. Ah! E diga a minha outra nora que mandei lembranças. 

Com isso, o anjo desapareceu no mesmo lampejo de luz que os trouxe ali.

Mais determinada do que nunca, Anmyuu deu a volta no jardim de arbustos charmosamente retorcidos e roseiras tão profundamente vermelhas e vibrantes quanto sangue, em meio a outras raras rosas negras cujas pétalas se assemelhavam a uma delicada peça de veludo.

 Ela se dirigiu até a entrada; o casarão diante de si esbanjava a arquitetura gótica característica do reino vampírico. A aura de elegância e mistério que a construção emanava parecia dominar a paisagem circundante, com suas paredes escuras adornadas com entalhaduras e uma pequena torre no centro, cujas vidraças das janelas em arco refletiam as matizes escarlates do amanhecer. Uma residência digna da posição que sua proprietária ocupava.


Segurando nos puxadores de ferro forjados em formato de serpentes entrelaçadas, Anmyuu preferiu bater diretamente na porta de madeira maciça a tocar a escandalosa campainha.

Logo, uma linda felin de pelagem descorada e longos cabelos cor de vinho com mechas violeta atendeu a porta. Suas íris hipnotizantes eram como rubis, trazendo um vermelho tão vívido quanto de seus lábios carmim. Ela sorriu surpresa ao avistar Anmyuu, dando ainda mais destaque para suas presas proeminentes de vampira, tão belas quanto mortais. 

— Miuau… Quando disse que nos veríamos “daqui a pouco”, você realmente estava falando sério!

Anmyuu a recebeu com um abraço amigável e ambas estalaram beijos no ar se cumprimentando de forma calorosa.

— Peguei uma “carona” angelical com nosso sogro. Como eu tinha te falado, o assunto é mesmo bem urgente. Aliás, ele te mandou lembranças. — Anmy disse enquanto adentrava a residência elegante da amiga vampira.

Mewrogue Ramewven Moldark e a Rainha Suprema se conheciam desde muito antes de Anmyuu obter tal título. Tudo começou quando estudavam juntas no colégio real Royal Mirai. Mesmo pertencendo a séries diferentes, ambas se aproximaram através de um fator em comum; que era ninguém menos que o próprio Devimyuu. 

Desde os nove anos de idade, Anmy tinha a Devimyuu como seu melhor amigo, e após alguns anos, com a chegada da pré-adolescência, ele passou a namorar Mewrogue — aquela que até os dias atuais mantinha o título como a única que sempre amou.

Era engraçado para Mewrogue se lembrar que quando começou a também se interessar pelo príncipe Devimyuu, sentiu ciúmes de Anmy, por achar que poderiam ser mais do que apenas amigos. Mas logo tudo foi esclarecido, o jovem casalzinho apaixonado não demorou a ficar junto, e rapidamente Anmyuu e Mewrogue também se tornaram amigas. 

Tal amizade perdurava até os dias atuais, e pareceu se fortalecer mais a cada ano após a perda devastadora de Devimyuu, ignorando a distância e as ocupações da vida adulta. Não precisavam se ver ou se falar todos os dias para saber que poderiam contar uma com a outra quando precisassem. 

Além disso, Mewrogue não era só uma velha amiga de Anmy. Como uma das ministras judiciais de seu reino, ela era uma importante aliada da Rainha Suprema numa sigilosa missão de longa data. Missão essa que poderia ter chegado ao seu estopim devido aos acontecimentos recentes. 

— Sempre acendo um incenso para ele em datas cerimoniais. Fico feliz de saber que ele está bem. Quer dizer, acho que não teria como não estar já que ele é um anjo agora, mas enfim, você entendeu, heh. Sinto saudades… 

Disse Mewrogue ainda se referindo a Odimyel, sua voz soando um pouco mais emotiva ao final da frase. 

— Se um dia precisar de qualquer coisa, mesmo que seja só matar as saudades, pode chamá-lo, Rogue. Sabe que ele sempre vai te considerar da família. Você já fazia parte dela antes mesmo de eu entrar. 

Respondeu Anmyuu, tomando um assento sobre o sofá em veludo cor de vinho que dominava uma extremidade da sala, repleta de mobílias refinadas numa mistura de antiguidades e peças contemporâneas. 

Mewrogue respondeu assentindo com um sorriso discreto, enquanto ia até a cristaleira de mogno negro apanhar duas taças de estilo vintage. Se sentou ao lado de Anmyuu e serviu ambas com um líquido roxo escuro, de uma garrafa rebuscada que estava sobre a mesinha de centro. 

No entanto, assim que ofereceu uma delas a Anmyuu, a amiga de pelagem rosa recusou imediatamente quase que de modo automático.

— Miahn… Acho melhor não, amiga, obrigada. 

— Relaxa, é só suco de amora e… — foi então que percebeu — ai caramba…! Anmy, por acaso você está carregando mais um “passageiro” aí?! 

Ela perguntou desacreditada, olhando em choque para Anmyuu.

Anmy suspirou e cobriu o rosto com ambas as mãos, esboçando um facepalm. 

 — Até ontem eu podia jurar que não, mas, hoje enquanto mandava mensagem pra você às cinco e meia da manhã, eu devorei um pote inteiro de doce de leite misturado com biscoitinhos de queijo, então… Não tenho certeza absoluta, mas acho que as evidências não estão muito a meu favor.

— Miuau…. — Mewrogue continuava a encará-la estática. — Kinmyuu já sabe dessa nova façanha dele? Aposto que ele vai pirar.

— Não exatamente, mas imagino que desconfie. Ele me viu colocar tudo pra fora na pia do banheiro ontem, e até quis conversar sobre o assunto mas eu ainda estava em negação. Além do mais, estávamos discutindo coisas mais importantes no momento.

Anmyuu respondeu dando um gole na taça, já que se tratava de apenas suco.

— É, tá tudo bem óbvio. Devo te dar os parabéns ou dizer “só lamento”?

— Ainda estou decidindo, não sei bem como me sinto a respeito. De qualquer forma, não era pra isso ter acontecido! Kin disse estar tomando as injeções dele. Ele não mentiria sobre isso, aliás ele não mente pra mim sobre absolutamente nada!

— Claro que não, mas, ele é um semideus, né? O corpo dele se regenera praticamente de imediato e reage diferente às coisas, talvez tenha neutralizado os efeitos da injeção…

Rogue argumentou, dando de ombros.

Mewrogue pôde ouvir outro longo suspiro exalar dos lábios da amiga rainha.

— Que ótimo! — exclamou Anmy com nítido sarcasmo — Não é que eu não queira, eu acho… É só que… Planejamos Aken e Tsuki, foi muito difícil pra eles virem, e agora aqui estamos com essa “surpresa”... 

A felin vampira tranquilamente bebericou o que restava na própria taça.

— Olha, independente do que acontecer, dá uns tapas na orelha do Kinmyuu por isso, tenho certeza que vai fazer você se sentir melhor. 

Rogue disse com um sorrisinho malvado, o que acabou fazendo Anmyuu rir.

— Sabe que taí um ótimo conselho? Hah!

As duas riram mais um pouco, mas de repente, a expressão de Mewrogue mudou, trazendo um olhar nostálgico e emotivo.

— O Devi sempre me deixava dar soquinhos no ombro dele quando eu estava de TPM… Engraçado que, eu sei que ele não entendia exatamente o motivo disso me deixar tão irritada, afinal, que garoto de 15 anos entende, né? Mas ainda assim, ele dizia que se era pra eu me sentir melhor, podia fazer com ele o que quisesse. Era aí que ele me mimava mais ainda, conjurando doces com magia só pra me agradar, hah! Eu não poderia ter desejado um namorado mais incrível e apaixonado do que ele…

O clima na sala mudou drasticamente para uma atmosfera mais melancólica. Anmyuu pôde notar os olhos carmesim de Mewrogue ficando vítreos ao citar suas lembranças com o felin que era seu único e verdadeiro amor. Fossem vinte ou duzentos anos; enquanto ela existisse sentiria falta dele, e a dor de perdê-lo permaneceria em seu coração até seu último suspiro.

— Ele era mesmo… alguém muito especial… 

Anmy disse, sentindo um nó se formando em sua garganta, compelida pelos sentimentos de Rogue.

A felin vampira soltou um suspiro pesaroso, abraçando as pernas dobradas sobre o sofá. Seu olhar estava distante e cabisbaixo.

— Sabe, Anmy, eu sei que não devia me torturar pensando nisso, mas… Às vezes não posso deixar de imaginar como seria minha vida hoje se o meu Devi não tivesse partido… Acho que nossos filhotes provavelmente estariam brincando com os seus e do Kin…

A face de Mewrogue seguia com o olhar desenganado, e agora esboçava um sorriso triste. Anmyuu se aproximou mais ao seu lado no sofá e segurou a mão dela num gesto empático de carinho e conforto.

— É claro que sim, e tenho certeza que não haveria primos melhores pra eles. Três lindos vampirinhos mágicos que provavelmente te deixariam louquinha.

Anmy disse com um tom mais descontraído na esperança de animar um pouco a amiga. 

E parecia ter funcionado, já que imediatamente, Mewrogue se virou para ela com uma sobrancelha erguida e um olhar de indagação.

— Por que logo três?!

— Porque Kin e Devim faziam tudo igual, e eram praticamente parte um do outro. Se nós vamos ter três agora, então vocês também teriam. Simples assim. 

Anmyuu respondeu cruzando os braços com uma expressão convencida.

— E a fonte disso são as vozes da tua cabeça, né? — Rogue questionou com ironia. Parecia ter voltado ao normal, graças a distração provocada por Anmy.

— Miga, só aceita que dói menos.

Mewrogue revirou os olhos meneando a cabeça, enquanto segurava um meio sorriso no canto dos lábios carmim.

— Não é à toa que na escola diziam que você era meio maluca… Tsc! Tá, eu aceito a teoria da sua fanfic, contanto que pelo menos um desses três fosse menina. Afinal, foi o que Devi e eu sempre quisemos desde que ele passou a ser o pai das minhas bonecas.

— Eu sabia, sou muito convincente. — Anmyuu disse, jogando o cabelo para trás com um sorrisinho de orgulho.

A amiga rainha tinha conseguido fazê-la abstrair antes que seus sentimentos melancólicos a dominassem. No entanto, por mais que se sentisse melhor, Mewrogue sabia que de nada adiantaria fantasiar sobre o que, em seu ponto de vista, jamais aconteceria. Pois por mais que no fundo algo a fizesse se recusar a acreditar, era certo para todos que conheceram Devimyuu como o Segundo Príncipe Supremo, que ele havia sido assassinado tal como seu pai adotivo Rei Odimyuus, na mesma trágica noite há 20 anos. 

Sendo assim, Mewrogue achou melhor retomarem a seriedade do assunto, já que Anmyuu havia dito que tinha algo urgente a tratar. 

— Mas então, Anmy… O que você tinha de tão importante pra gente conversar? 

Anmyuu encarou a amiga com o semblante também sério. Contudo, seus olhos refletiam uma chama incandescente de ambição e satisfação como Mewrogue jamais viu antes. Indubitavelmente, tratava-se de algo grande, muito grande.

— Aconteceu, Rogue. O momento que esperávamos desde que aquela víbora traiçoeira se enfiou no palácio outra vez, há dez anos,  finalmente aconteceu! A máscara do maldito do Heimewdall caiu, e ontem a noite, Kinmyuu mandou prendê-lo. Ele saiu do palácio arrastado pelos nossos guardas com um par de algemas e uma coleira de contenção no pescoço, conduzido para uma das celas na base da Doutrina Dourada. Chegou a hora de usarmos tudo que temos para garantir que ele nunca mais saia de lá! 

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top