42 - Nihsies Dame
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Kinmyuu se levantou, com um longo e pesaroso suspiro e com ambas as mãos na cintura, andou alguns passos de um lado para o outro, desconcertado, e se esforçando o máximo que podia para não sair de si e ir atrás de Heimewdall imediatamente.
— Filho, por que… disse que “parece” que Heimewdall apontou uma espada para o Magistrado Mewhicann?
Kin pensou muito antes de perguntar, e aquele questionamento foi o melhor que considerou usar; pois embora precisasse de mais detalhes, a última coisa que gostaria era passar a impressão que duvidava da palavra do príncipe.
— Porque eu não vi direito já que continuei escondido no banheiro com só uma frestinha da porta aberta, mas… eu ouvi claramente a voz da vovó Dia chegando e mandando o Heimewdall abaixar a espada imediatamente e parar de ameaçar o Magistrado. Ela deu uma bronca nele e estava tipo muito, mas muito brava mesmo. Acho que nunca a vi tão zangada, não é à toa que ele apanhou dela…
Kinmyuu arregalou os olhos, estático, como se seu sistema tivesse sofrido uma pane por alguns instantes. Saber que sua própria mãe estava envolvida foi a gota d’água para o Grande Rei. Agora entendia o “incidente com uma dama” que Heimewdall mencionou mais cedo, irritado pelo descaramento do tio em ainda dizer que a mencionada dama não entendeu suas intenções. Percebia que o príncipe aparentemente tinha toda razão quando disse que, justamente por ela ter entendido, Heimewdall deu motivos para ter apanhado.
Fazendo o máximo para não perder a compostura, o Rei Supremo respirava profundamente, contendo a torrente de palavras afiadas que ameaçava escapar de seus lábios, e que provavelmente não seriam apropriadas para serem proferidas na frente do filho. No entanto, seu coração batia com uma cadência acelerada, e por mais que ainda não soubesse dos demais detalhes do ocorrido, Kinmyuu sentia arder em cada fibra de seu corpo o desejo de tirar toda essa história a limpo, indo atrás de Heimewdall naquele exato instante. Ele não tinha certeza de por quanto tempo mais aguentaria conter a tempestade interna que se desencadeava por sua indignação.
Pensar que tudo aquilo aconteceu durante sua ausência provocava um sentimento amargo de traição no Rei Supremo, pois sabia que Heimewdall jamais ousaria tomar tal atitude deplorável se ele estivesse presente. E se devido ao que fez ao Magistrado Mewhicann, chegou ao ponto de sua mãe tê-lo agredido com tamanha ferocidade, de certo o tio havia feito ou dito algo inadmissível para despertar a fúria dela de tal forma.
Kin não precisava ouvir mais para saber que definitivamente, Heimewdall passara de todos os limites.
— Isso tudo é simplesmente inaceitável! Cuidarei disso agora mesmo! — O Grande Rei exclamou, se deixando levar momentaneamente por seus impulsos, virando-se de supetão pronto a deixar o quarto do príncipe.
Akenmyuu não sabia ao certo como introduzir o assunto sobre o fato da avó ter agredido Heimewdall sem que ele parecesse a vítima, e por um instante, pensou que seu pai poderia estar irritado com ela também por ter batido nele. Sendo assim, o filhote temeroso segurou no braço do pai para impedi-lo de sair.
— Espera, papai! Não fica bravo com a vovó, ela só tava defendendo o Magistrado! Eu sei que você e o vovô Dim dizem que violência sempre é a última opção, mas acredite, o Heimewdall mereceu apanhar, ele merecia coisa muito pior!
O príncipe exclamou, disposto a explicar a situação numa última tentativa quase desesperada de mostrar quem era o verdadeiro culpado ali. Contudo, assim que notou a expressão intrigada do pai pelo que acabara de dizer, Aken cogitou que pudesse ter falado um pouco demais.
— Como assim, merecia coisa pior, filho? — O rei parou e se agachou para ficar na altura dos olhos do príncipe, o encarando com um semblante preocupado enquanto apoiava ambas as mãos em seus ombros — Aken, seu tio-avô te fez alguma coisa? Porque se sim, eu juro que farei ele…!
— Não, não é isso! — Akenmyuu o interrompeu, gesticulando com suas mãozinhas e com um olhar um tanto aflito, percebendo que de fato tinha se exasperado na última frase. Era preciso ter cautela agora, pois sabia que qualquer palavra dita a mais talvez pudesse comprometer a “missão” passada pela tia-avó sacerdotisa; de entregar Heimewdall sem mencionar o envolvimento dele com a morte do avô Odimyuus.
O príncipe pensou um pouco, antes de continuar.
— É que… ele não é uma boa pessoa, papai… — o filhote desviou os olhos púrpura, exalando um suspiro profundo, enquanto seu semblante tão jovem refletia uma expressão consternada sob o olhar pesaroso, torcendo para que seu pai pudesse enxergar a sinceridade refletida nele.
Ainda com a expressão intrigada, Kinmyuu continuou fitando seu príncipe com total atenção, notando que claramente ainda restava algo que o menino guardava e ansiava dizer. E com seus impulsos agora controlados, o rei não sairia dali enquanto o filho não lhe dissesse cada palavra.
— Pode contar ao papai o motivo de pensar assim, filhote?
Vendo que o pai tinha se relativamente acalmado e aguardava atentamente que ele continuasse, em sua mente infantil de apenas dez anos, Aken procurou organizar seus pensamentos, aliviado por ter a chance de cumprir sua missão outra vez e não ter estragado tudo. Só precisava encontrar um meio de fazê-lo dentro dos limites do que podia revelar.
— Miahn… é que, é tipo… — o filhote ainda estava em dúvida, até que uma luz iluminou seus pensamentos, quase como uma inspiração divina dentro de seus limites de criança — Já sei! Papai, você conhece aquele filme chamado “O Corcunda de Nihsies-Dame”? É um desenho meio antigo, mas eu assisti na escola, no dia dos filmes clássicos.
— Sim conheço, eu também… já assisti — Kin respondeu, mesmo sem entender muito bem a razão do filho estar mencionando o tal filme; e sem querer completar a frase dizendo que assistiu quando criança, já que Aken havia dito ser um “clássico filme antigo”. Só porque não envelheciam fisicamente, não queria dizer que felins gostassem de se sentirem “velhos”.
— Então, você lembra do vilão? O juiz Fromewllo? — Akenmyuu perguntou, seguindo com sua curiosa linha de raciocínio.
— Sim, ele era um felin horrível, de vários modos diferentes… Um dos piores vilões, eu diria. — Kinmyuu respondeu, ao que viu seu filhote reagir assentindo com uma expressão ansiosa. Parece que estavam chegando onde o principezinho queria.
— Sim, exatamente! E você não nota uma certa semelhança, pai? Igual a ele, Heimewdall também é um felin horrível! Ele quer condenar todos os reversos, sendo malvados ou não, só por serem reversos. Eu acho que ele odeia todos eles, mesmo que não tenham feito nada, é só ver como tratou o Lorde Mewhicann! E ele ainda acha que está certo, que é o bonzinho da história; e como você mesmo disse, esses são os piores tipos de vilões… — o filhote então respirou fundo, e fixou seu olhar mais verdadeiro diretamente nos olhos safira do pai, que ainda o encarava sem palavras, apenas escutando e refletindo sobre cada frase dita.
— Talvez eu não tenha muitas provas, papai, mas acredite em mim… Heimewdall é mau. Eu não quero mais que ele engane você, e juro que vou fazer o que for preciso pra te proteger dele.
O sentimento genuíno que o príncipe acabara de demonstrar fez toda a indignação que fervilhava internamente em Kin se esvair por um momento. O coração do Rei Supremo se encheu com uma mistura de emoções ao ouvir as palavras sinceras e corajosas do filho. Ele sentiu uma onda de gratidão e admiração inundando sua alma, diante de toda a determinação e amor inabaláveis que seu filhote demonstrava por ele.
Seus olhos chegaram a umedecer diante da bravura e lealdade de seu amado príncipe, enquanto estendeu os braços em direção ao filhote, envolvendo-o em um abraço caloroso e reconfortante.
— Aken, meu filho querido… — sua voz estava um pouco embargada pela emoção — … é claro que acredito no que me disse. Eu confio em você mais do que posso expressar em palavras, e estou muito, mas muito, orgulhoso diante da posição correta e corajosa que tomou nessa situação, mesmo sendo tão novinho. Se bem que, em vista de como agiu, talvez o meu garotinho esteja crescendo mais rápido do que imaginei… — com um suspiro comedido, o rei sorriu de modo sentimental antes de se recompor — Eu agradeço por ter vindo relatar isso, e muito obrigado também por querer me proteger. Quero que saiba que sempre estarei ao seu lado, o protegendo e guiando assim como você protege e guia o meu coração. Eu te amo muito, meu príncipe.
A revolta que há pouco crescia em Akenmyuu também se esvaiu conforme se reconfortava no abraço e nas palavras do pai. Sentia que conseguiu cumprir pelo menos a primeira parte de sua missão sagrada de revelar a verdade sobre Heimewdall para que enfim a justiça o alcançasse e fizesse pagar por seus atos cruéis.
— Também te amo, papai. Obrigado por acreditar em mim — o filhote sorriu, após retribuir o abraço — Mas e então… o que vai acontecer com Heimewdall agora? Você não vai deixar ele fazer essas coisas ruins e ficar impune, vai, pai?
Considerando as palavras do filho, Kin ergueu-se com sua majestade imponente; os músculos de seu rosto estavam tensos e sua expressão extremamente séria, porém sua voz soou firme e controlada.
— De forma alguma, meu filho. Eu não seria digno de ocupar minha posição se não fizesse nada. A Luz que guia nosso reino não distingue raça ou origem, ela brilha para todos os felins que a aceitam de coração. Sendo assim, as palavras e ações de Heimewdall são intoleráveis. Eu não vou permitir esse tipo de preconceito e a violência gratuita sob o meu governo. Seu tio avô compreenderá isso nem que eu tenha que obrigá-lo.
— Sim, tá certo…
Akenmyuu disse apenas isso, e seu pai notou a expressão dele mudar para um olhar relutante no instante em que disse o termo tio avô, se referindo. O Rei era atento o bastante para associar isso ao fato que desde o início daquela conversa, em nenhum momento o príncipe se referiu a Heimewdall pelo parentesco, o citando apenas pelo nome.
— Parece que você não quer mais citá-lo como seu tio avô, não é?
O príncipe olhou ligeiramente surpreso pelo pai ter acertado em cheio.
— Não. Estou irritado com ele, e como eu disse, ele é uma pessoa horrível e eu não quero nenhum vilão assim na nossa família, hmpf! — o garotinho exclamou cruzando os braços e empinando o focinho com uma postura irredutível.
Embora o momento fosse de seriedade, lá no fundo Kinmyuu não pode deixar de achar a postura de “braveza” de seu filhote um tanto fofa.
— Compreendo. Não quero que faça nada que o deixe desconfortável. Bem, papai precisa ir cuidar desse assunto imediatamente, mas se tiver mais alguma coisa que queira contar, não hesite em me procurar, tá bom, filho?
Akenmyuu assentiu em resposta, observando o pai caminhar com urgência em seus passos em direção a porta. No entanto, pouco antes de deixar o aposento, parou e virou o rosto na direção dele enquanto atravessava as portas duplas entreabertas.
— Ah, e Aken… Quero que saiba que eu não poderia estar mais orgulhoso de ver o tipo de rei que meu herdeiro do trono está se tornando.
Kinmyuu disse com um sorriso contemplativo de admiração para seu príncipe, conforme saía do quarto.
Ainda teve tempo de ver a expressão contente de Aken ao ser elogiado e saber que o orgulhou. Contudo, assim que as portas se fecharam, o semblante do Rei Supremo transformou-se numa máscara de fúria tangível, enquanto ele solicitava por telepatia para que sua rainha mandasse a guarda real avisar que a presença de Heimewdall diante dele era requerida imediatamente — e para garantirem que ele de fato fosse encontrá-lo naquele exato instante.
Kinmyuu foi diretamente para seu escritório real, a fim de aguardar pelo tio. Localizado no coração do palácio, era uma sala espaçosa, com altos tetos adornados com afrescos dourados que capturavam a luz do sol durante o dia, e a refletiam em tons cintilantes através das grandes janelas em formato prismático — um local definitivamente planejado para inspirar a admiração e o respeito dignos de um Rei Supremo, desde o instante em que se adentrava no lugar.
Contudo, no momento em que o Rei entrou na sala, sua figura imponente carregando uma expressão furiosa contrastou com a beleza serena do ambiente. Seus passos pesados ressoaram no chão de mármore lustroso conforme ele caminhava até sua luxuosa mesa de mogno, adornada com detalhes em ouro incrustado em padrões esculpidos.
Num movimento tenso, Kin praticamente se jogou, sentando-se em sua cadeira ricamente estofada de aspecto presidencial e encosto alto, adornada com o brasão real.
Ele bufou, tamborilando de forma impaciente e irritadiça os dedos com as garras expostas sobre a superfície da mesa, esperando pela chegada do tio. Nesses breves instantes que pareceram uma eternidade, se pegou curiosamente refletindo sobre o fato de que Akenmyuu não queria mais se referir a Heimewdall como tio avô, pois segundo as palavras do filhote, não queria “um vilão na família”. Não estava muito centrado nisso a princípio, porém, refletir no sentimento por trás da fala do príncipe de repente lhe trouxe uma sensação de dejá-vú.
“Por que está me chamando assim, Kinmyuu?!” — a voz de Heimewdall questionava, num tom descontente.
“Porque esse é o seu nome, ué. Se não gosta, vai no cartório trocar.” — Kinmyuu de 13 anos retrucava com deboche, soando irreverente e propositalmente pirracento. Era nítido que seu objetivo era irritar o tio.
“E todos nesta família querem me condenar quando eu digo que ele está exercendo uma má influência sobre você por todos esses anos! Antes você não era malcriado assim a ponto de me responder e se recusar a me chamar de tio!”
O Kinmyuu pré-adolescente se virava com uma raiva palpável, que podia ser facilmente perceptível por seu tom de voz e expressão facial.
“Ninguém tá me influenciando em nada! Foi você quem começou com isso! Porque se diz que não é tio dele, então também não é meu tio, simples assim!”
“Ora, por favor! Não sei até onde pretende levar essa birra, Kinmyuu, mas não importa o quanto pirrace, isso nunca mudará o fato de que eu sou e sempre serei seu tio. Temos o mesmo sangue superior precioso herdado do próprio Lorde Ghaceus, e portanto, EU sim sou sua real família, e não o herdeiro de nosso inimigo! Aceite isso!”
As palavras de Heimewdall fizeram uma fúria incisiva despertar no coração do jovem Kin como uma tempestade iminente, prestes a explodir dentro dele e varrer tudo ao seu redor. A ira de um semideus, em seu primeiro estopim.
“Chega! Cala a boca! Eu já cansei disso, cansei de você!” — ele gritava, apontando um dedo em riste para o tio — “Saiba que enquanto tratar ele assim, eu não te quero na minha família!”
Foi como se um objeto perfurante atravessasse o âmago de seu ser, conforme o vislumbre de tal diálogo tenso surgiu na mente de Kinmyuu, vendo a cena clara bem diante de seus olhos. Voltando a si como se fosse violentamente desperto de um transe, com o coração acelerado, respiração oscilante e mãos trêmulas, num misto de choque de realidade e incredulidade ao mesmo tempo.
Pressionou por reflexo uma das mãos sobre a testa devido a pontada aguda que sentiu em sua cabeça, parecendo que a dor ali e em seu pulso competiam para ver quem o afligia mais. No entanto, essa era sua última preocupação no momento, pois mal podia acreditar no que acabara de acontecer.
Uma lembrança.
Após duas décadas, ele enfim tinha uma memória sobre um momento de sua vida antes dos 17 anos. Kinmyuu já nem sabia mais há quanto esperava por isso. Por muitas vezes tentou se forçar, mas as dores lancinantes em sua cabeça e principalmente pulso durante tais tentativas venciam seu desejo de tentar se recordar. E agora, de forma relativamente esporádica, finalmente acontecera.
O Rei semideus só se lamentava e se perguntava porquê tinha que ser logo aquela memória. Seu primeiro dia na escola, quando aprendeu a andar de bicicleta, seu primeiro beijo, ou ainda o tão marcante aniversário de 16 anos, considerado como um rito de passagem para felins adolescentes, quando foi dito a ele que ganhou e dirigiu seu tão sonhado primeiro espeedar… Haviam inúmeros outros momentos importantes que ele almejava com toda força se se recordar…
Mas, não; no lugar deles, viera a lembrança de um momento de fúria com o tio, que parecia estar sendo tão repreensível em suas atitudes preconceituosas inadmissíveis naquela época quanto foi com Mewhicann.
Uma lembrança desagardável, de fato, mas talvez, necessária, já que imediatamente, como numa sobrecarga de informações, outra frase dita pelo filho durante a conversa de há pouco ecoou na mente de Kin: “Eu não quero mais que ele engane você, e juro que vou fazer o que for preciso pra te proteger dele.”
“— Enganar… É isso. Sou eu mesmo que estou me enganando. A questão com o Magistrado não foi um incidente isolado. Meu tio provavelmente sempre foi assim. Mas por alguma razão, era como se eu não pudesse ver isso tão claramente quanto agora. Provavelmente em parte por não conseguir me lembrar, e em outra talvez por tudo que ele fez quando Akenmyuu nasceu, eu cometi a estupidez de chamá-lo de volta para viver aqui e trabalhar como meu vice-rei, na esperança de tentar ver o lado bom dele, principalmente como alguém da minha família… Mas a verdade nunca esteve tão estampada diante de mim! Aken não poderia estar mais certo, Heimewdall não é uma boa pessoa! Mas como meu filho de apenas dez anos pôde estar tão ciente disso antes mesmo de mim? Eu sou assim tão inútil… tão… frágil e patético? Que outras coisas estariam acontecendo sem que eu saiba? Até onde minhas memórias perdidas levaram minha ingenuidade?”
Kinmyuu se encontrava afundando num mar de dúvidas e emoções conflitantes. Aquele lampejo de memória mudara as coisas de forma irremediável, fazendo o rei semideus se sentir perturbado com a descoberta de que seu tio não era quem pensava que fosse. Kin na realidade, chegava a conclusão que ele nem sequer sabia quem Heimewdall era de verdade.
Um conflito interno intenso se desencadeou, fazendo o Rei da Luz questionar até mesmo sua própria identidade, enquanto tentava conciliar os sentimentos que a lembrança recém recuperada provocava.
Todo aquele turbilhão de emoções duvidosas e pensamentos angustiantes foi interrompido momentaneamente, com o som de batidas firmes ressoando na porta.
Kinmyuu sabia que não havia tempo para se afundar em sua crise pessoal, pois havia uma ainda maior que ele precisava resolver ali e agora.
Sendo assim, pediu que os guardas aguardassem um minuto. Fez o melhor que podia para se recompor. Respirou fundo, passando a mão sobre os cabelos platinados charmosamente desalinhados, tentando colocá-los de volta no lugar. Em seguida, ajeitou a elegante gravata de cetim azul no pescoço e endireitou a postura austera. Estava prestes a dizer para que seu pérfido tio entrasse, quando notou no tampo de sua mesa marcas recentes de arranhões de suas próprias garras, criando vincos profundos no luxuoso mogno lustrado da peça.
Provavelmente os causou inconscientemente no momento em que o lampejo da discussão com Heimewdall lhe sobreveio. Sua versão de 13 anos ali estava furiosa, e ao que tudo indicava, tal fúria se esboçou externamente em seu eu atual.
Por toda sua vida, Kinmyuu sempre buscou o pacifismo e o auto-controle, no entanto, por alguma razão que ele ainda não compreendia muito bem, observar aquela demonstração física de seu furor lhe trouxe uma sensação quase libertadora, como se a crise de identidade que lhe afligia desaparecesse momentaneamente. E ironicamente, aquele símbolo de fúria lhe trouxe a contenção emocional que lhe faltava, o fazendo sentir-se pronto para lidar com o que estava por vir.
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