39 - O Mal Que Reluz
Simultaneamente, no Mundo Puro, a família do Rei Supremo da Luz se reunia na opulente sala de jantar do palácio. O ambiente era um espetáculo de luxo e requinte, com as paredes revestidas de madeira nobre com detalhes em branco pérola, refletindo a luz suave emitida pelos lustres imponentes e cintilantes que pendiam das abóbadas decoradas do teto alto.
Kinmyuu, sua rainha, e filhos se encontravam todos envolta da longa mesa coberta pela toalha de seda bordada com fios de ouro e prata, onde os servos androides, com movimentos graciosos e silenciosos, serviam os pratos elaborados com maestria para o cardápio da noite.
A arquitetura da sala trazia grandes janelas adornadas com cortinas pesadas de brocado, todas abertas para darem vista aos deslumbrantes jardins iluminados do palácio. Jantares familiares eram considerados um momento praticamente sagrado pela tradição da família real nihsiana. Por isso, apesar dos tensos e atípicos acontecimentos do dia, Kin e Anmy deixaram tais problemas de lado visando ter um momento tranquilo com seus filhotes, aproveitando para lhes perguntar como passaram o dia, visto que devido a tantas ocorrências envolvendo o roubo do Grimório, não puderam passar o mesmo tempo costumeiro com eles.
No entanto, em meio a sutil sinfonia dos talheres de ouro tilintando nos pratos de porcelana fina, entre pequenos risos e conversas simples, o príncipe Akenmyuu parecia disperso. Por mais que tentasse participar animado e se envolver como naturalmente sempre fazia, sua mente de apenas dez anos persistia em voltar para os eventos daquela tarde. Afinal, depois de tudo que viu, ouviu, e a descoberta para onde isso o levou, seria realmente impossível fingir que aquele era apenas mais um jantar comum onde Aken falaria com os pais sobre seu dia. Porque o príncipe sabia que a partir do momento em que contasse a eles sobre as partes que podia, provavelmente tudo envolvendo sua família - e aqueles que não deveriam fazer parte dela - mudaria.
Algumas Horas Atrás:
No meio do curto caminho para a casa dos avós maternos, a pequena Myu-Tsuki começou a choramingar para o irmão mais velho que tinha esquecido um de seus pôneis de pelúcia, e que seria impossível brincar de festa do chá com a vovó sem ele. Sendo assim, Aken a deixou na porta da antiga porém bela mansão dos pais sua mãe, e se dispôs a voltar para o buscar o bichinho de Tsuki no palácio, a pouco mais de uma quadra dali. Assim, além de ser um bom irmão, ele teria uma bela desculpa para dar mais uma voltinha pelo bairro real no novo quadriciclo elétrico que ganhou de aniversário.
Não demorou a encontrar a pelúcia de Myu-Tsuki, porém, antes de ir resolveu dar uma passada rápida no toalete mais próximo, perto do saguão que levava até a sala do trono. Um pouco antes de deixar o lavabo, o príncipe percebeu uma agitação do lado de fora. O menino parou antes de dar mais um passo; sabia que não deveria escutar as conversas dos adultos, no entanto, não fez de propósito. Ao ouvir o tom de voz furioso da avó Diamewd numa aparente discussão com o tio avô Heimewdall, Aken simplesmente congelou no lugar. Parado e escondido atrás da porta, o príncipe queria saber o que acontecia, pois nunca tinha ouvido sua gentil e elegante avó soar tão raivosa.
"... eu não posso contar ao meu filho o que você fez há vinte anos pelo próprio bem dele e deste reino, mas posso e vou contar o que você fez aqui hoje! Se acha que sua atitude deplorável com os reversos está tão correta, por que não mostra esse seu lado pra ele?! Qual o problema em deixar seu sobrinho saber que você não passa de um verme racista detestável?!"
"— Como assim?! O que o tivô Heimewdall fez há 20 anos que o papai não pode saber?! E por que a vovó tá tão nervosa? O que tá acontecendo?!"
Aken se perguntava mentalmente, enquanto seguia estático, ouvindo tudo do hall onde os adultos se encontravam.
A situação tensa se atenuou por alguns instantes quando Aken ouviu uma dupla de guardas se aproximar perguntando se estava tudo bem. A avó do príncipe disse que estava tudo sob controle e educadamente os dispensou, porém, assim que o som de seus passos marchando em sincronia se afastou, as coisas pareceram piores do que nunca, quando Aken escutou Heimewdall mencionar a morte de Odimyuus, e a fúria de sua avó chegou ao estopim.
Ao ouvir o forte estalo de um tapa, Akenmyuu não resistiu a abrir milimetricamente um pouco mais da porta do toalete masculino e espiar pela fresta do esconderijo, torcendo para que em meio a situação acalorada, ninguém o notasse. Foi o suficiente para ver em partes a expressão incrédula de seu tio avô enquanto segurava a bochecha ensanguentada.
Aken arregalou os olhos, custando a acreditar que a avó tão ponderada e dócil que conhecia tinha mesmo o agredido com tamanha ferocidade. Estava prestes a se perguntar por que ela teria ficado nervosa a esse ponto, entretanto, logo teve sua resposta diante da próxima fala dela; e o que o filhote ouviu, simplesmente o deixou em choque.
"...se você tivesse ido e lutado ao lado do Odimyuus conforme ele, conforme todos nós imploramos para que você fizesse, ele não teria morrido! Ninguém teria... Mas você se recusou, mesmo sabendo que se lutasse sozinho ele morreria! Tudo por causa desse seu maldito preconceito! É tão responsável pela morte do seu irmão quanto Mewpester!"
"— O-o que?! O tivô Heimewdall... deixou o vovô Dim... morrer?!"
O coração de Aken batia acelerado, quase ensurdecedor, enquanto ele permanecia escondido atrás da porta do toalete. Seus olhos refletiam uma mistura de incredulidade e dor, e suas mãos tremiam ligeiramente enquanto ele tentava processar o que acabara de ouvir.
Certa vez, o filhote havia perguntado ao avô por que Heimewdall não queria que Odimyel manifestasse sua presença angelical física diante dele, e que não entendia o motivo dele não querer rever o próprio irmão mais velho. Odimyel então respondeu que em sua vida passada como um mortal, Heimewdall e ele só podiam ser considerados irmãos por carregarem o sangue dos mesmos pais, mas que fora isso, não significavam mais nada um para o outro há muito tempo. Akenmyuu não entendeu o que o avô anjo quis dizer na época, e ao questionar, ele apenas respondeu que gostaria que Aken nunca precisasse entender aquilo, mas que era inevitável que infelizmente, um dia ele entendesse.
Parece que esse dia havia chegado, pois toda a animosidade que permaneceu entre seu tio-avô e o irmão, mesmo após a morte dele, agora fazia total sentido. Já que, de acordo com o que o príncipe acabara de ouvir, Heimewdall podia ter evitado que Odimyuus morresse mas optou por não fazer nada. Sendo assim, tal morte era também responsabilidade dele.
A voz alterada de Diamewd aos prantos continuou a ressoar, mas tudo agora para Akenmyuu soava como um murmúrio inaudível desconexo e distante. A descoberta devastadora que acabara de presenciar estava gravada em sua expressão infantil, como se um véu tivesse sido retirado, revelando um mundo sombrio que ele nunca imaginou.
Mesmo sob o choque atordoante daquela revelação e as inúmeras dúvidas e indagações que inundavam sua mente, o principezinho tentou se recompor, mas quando voltou a si, aparentemente a discussão havia acabado, e tudo que ele pôde escutar foi o estalar do salto alto de sua avó se afastando rapidamente, junto ao pisar duro das botas de couro de Mewhicann.
Aken olhou através da fresta mais uma vez apenas para ver a sombra de Heimewdall se afastar de súbito, após uns instantes em que ele permaneceu ali parado como se estivesse paralisado.
O filhote deixou seu esconderijo assim que presenciou a saída brusca do tio-avô, tendo certeza de que o hall estava novamente vazio. A realidade do que acabara de presenciar ainda deixava Akenmyuu atordoado, como se fosse um pesadelo do qual ele acabava de acordar. Seus olhos, antes vivos e brilhantes, agora carregavam o peso da verdade, refletindo a traição exposta pelas palavras acusatórias da avó, que ressoavam em sua mente como uma melodia amarga.
Mesmo se sentindo perdido em um labirinto de emoções complexas que ele nunca tivera que lidar antes, Aken resolveu voltar para a casa dos avós maternos que o esperavam, para que não ficassem preocupados com sua demora. Entretanto, assim que atravessou as elegantes portas ricamente entalhadas do lar onde sua mãe cresceu, foi nítido para a avó do menino que havia algo errado.
A fim de ter um tempo a sós com o neto mais velho, pediu que Myu-Tsuki fosse preparar uma grande festa do chá com várias flores do jardim para que brincassem logo mais. E assim que a pequena se afastou, a avó Mewsther chamou Aken de canto.
— Ake, querido, aconteceu alguma coisa no caminho para cá? Você está um pouco pálido, seu rosto está abatido e suas mãos estão frias. O que houve, meu bem? - Ela perguntou com ternura, porém, visivelmente preocupada.
Aken suspirou, a encarando com seus chamativos olhos púrpura um pouco trêmulos. A verdade obscura ainda pairava sobre sua cabeça como uma nuvem negra, obscurecendo a visão que ele tinha de sua família, e ele não sabia ao certo se ou quanto deveria contar sobre o que ouviu. Portanto, o menino resolveu responder com uma pergunta.
— Vovó Sther, posso perguntar uma coisa? — A adulta assentiu com um olhar terno, afagando os cabelos dele.
— Você sabe como o meu avô Dim morreu?
A pergunta pegou a felin de surpresa, a princípio. No entanto, seu rosto continuou tranquilo e neutro, afinal, como uma psicóloga formada e experiente, sabia perfeitamente como lidar com a situação.
— Nunca conversou com ele a respeito? — Ela respondeu ao neto com outra pergunta.
— Perguntei uma vez. Ele disse que se feriu mortalmente numa batalha quando o meu pai era adolescente, mas Lorde Ghaceus deixou ele voltar como um anjo em sua forma física de mortal pra poder terminar de criar o papai até ele estar pronto pra governar...
— Bem, creio que essa é a resposta para sua pergunta, querido.
Ela disse calmamente, embora supunha que essa não fosse a real dúvida de seu neto e portanto, não seria a resposta que ele gostaria. Queria deixar que fosse sincero quanto ao verdadeiro motivo que o incomodava por iniciativa própria.
— Tá mas, o que você sabe sobre essa batalha? O vovô Thony era um dos capitães da Doutrina Dourada na época, não era? Ele foi junto? Ele te contou o que aconteceu? Tipo se alguém... se alguém talvez pudesse ter lutado com o vô Dim pra que nada disso tivesse acontecido, mas... deixou ele morrer de propósito...
Conforme Aken falava, seu pequeno peito se enchia de uma dor que ele nunca pensou que pudesse experimentar. Sentia sua inocência da infância desvanecendo e sendo substituída por uma realidade cruel. Cada palavra proferida naquela discussão ainda reverberava em sua mente, se transformando em um peso tremendo sobre seus ombros frágeis.
Uma lágrima chegou a escorrer por seu rosto, enquanto o menino lutava para segurar as demais. Sabia que se ficasse demasiado triste, era provável que Odimyel se manifestasse como seu anjo guardião para saber o que lhe afligia, e a última coisa que Aken queria era ter que falar com o amado avô sobre o irmão que o deixou morrer, e provavelmente trazer à tona lembranças dolorosas para ele.
Testemunhando o conflito interno que o filhote enfrentava, com uma expressão consternada, Mewsther se agachou para poder olhar em seus olhos e delicadamente enxugou as lágrimas presas ali. Mesmo com todo seu conhecimento em ajudar outros felins a lidarem com suas angústias, pela primeira vez, ela se encontrava num impasse sobre o que dizer. Era nítido que Akenmyuu sabia de algo a mais sobre a morte de seu avô paterno e que esse era o motivo de sua aflição. E se isso se tratava da verdade oculta há décadas que ela também conhecia, Mewsther não tinha certeza do quanto poderia dizer realmente. Era preciso agir com cautela.
— Aken, meu amor, olhe para mim... Tem algo que você está guardando que gostaria de contar?
— É que... - o menino enxugou outra lágrima vindoura com a palma de uma das mãos — ... eu não sei se devo, vovó Sther... ou até, se eu quero... Acho que antes de tudo, eu só... preciso de respostas, sabe? Isso é tudo que eu queria...
Aken seguia em sua luta interna para não deixar o choro dominá-lo, enquanto esfregava o rosto freneticamente com as mãos, limpando algumas poucas lágrimas teimosas que escapavam.
Mewsther apenas o abraçou, ciente de que o que se passava com o pequeno príncipe estava além de seu controle.
"Talvez tenha chegado o momento que Mewthony me disse, aquele que tanto esperamos para que finalmente haja justiça sobre o que aconteceu com o rei Odimyuus e com o príncipe Devim. Talvez tudo comece com Aken de alguma forma descobrindo a verdade... Sei que pode ser um peso muito grande pro meu neto que ainda é só uma criança, mas, infelizmente, esse é o preço de ser o príncipe herdeiro de um Rei Supremo... Se minha teoria estiver certa, não posso atrapalhar tentando poupá-lo. Cabe a mim direcioná-lo para o caminho certo, e sei exatamente onde ele encontrará as respostas que precisa."
A felin pensou consigo mesma, antes de enfim ter algo a dizer para Aken.
— Imagino que esse é um assunto que não possa ou queira dividir com seu avô Odimyel justamente por se tratar da morte dele, não é? - com um olhar melindroso, o filhote acenou em concordância - Bem, eu não tenho as respostas que busca, meu amor, quer dizer... talvez eu até tenha algumas, mas não acho que cabe a mim revelá-las. No entanto, eu sei onde pode consegui-las. A sua tia-avó Myusif, no Templo de Ghaceus. Ela terá todas as respostas que você procura.
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