24 - A Verdade Refletida
Dentro da câmara do Oráculo de Hecatta, a manifestação astral do corpo do Lorde das Trevas ainda se via parado em desafio à gravidade, rodeado por espelhos das mais diversas formas e tamanhos que o cercavam como uma muralha. Contudo, nenhum deles refletia sua imagem, pois essa não era sua função.
Estavam ali para mostrar a Devimyuu a verdade refletida em sua alma, que após anos e anos, ele se recusava a ver. Persistindo em mentir para si mesmo, tentando enterrar seu passado o mais fundo que poderia para nunca mais precisar enfrentá-lo, para quem sabe assim, conseguir se convencer de que o mesmo não importava mais.
No entanto, suas ancestrais não aceitariam escapatórias covardes baseadas em ilusões fúteis. Em seu Oráculo, Hecatta apenas permitiria a verdade límpida e imutável da qual seu descendente não poderia fugir.
"Kimy! Conheça o seu novo irmãozinho! O nome dele é Devimyuu." A frase ecoou de dentro de um dos espelhos, junto a imagem refletida daquela lembrança recôndita no subconsciente do rei Arquêmonio. Uma voz a décadas não ouvida, porém, que soava inconfundível para o Lorde das Trevas. Era seu pai adotivo, aquele que por praticamente toda infância acreditara ser seu único e verdadeiro pai.
"De verdade, papai?! Eu finalmente tenho um irmãozinho?!" A lembrança refletida continuou, dessa vez trazendo a imagem e a voz de Kinmyuu aos seis anos de idade, correndo até Devimyuu de apenas quatro, e o encarando deslumbrado.
"Aww! Ele ainda é um neném, e é tão fofinho! Vamos brincar, irmãozinho!"
"Calma, filhote. Tudo é muito novo pra ele, e como você mesmo disse, ele ainda é praticamente um neném. Você é oficialmente um irmão mais velho agora, então tem que cuidar dele direitinho. Promete que fará isso?" A voz do Rei Supremo Odimyuus ecoava novamente, com o pequeno Devimyuu em seu colo.
"Claro, papai, eu juro!" Odimyuus colocava Devimyuu no chão próximo ao príncipe da Luz, que o abraçou imediatamente "Bem-vindo, irmãozinho! Eu tava te esperando há muito tempo, sabia? Agora você finalmente chegou! E não se preocupa, maninho, eu prometo que sempre vou te proteger, tá bom?"
Num próximo espelho, outra lembrança projetada, essa de alguns anos depois.
"Psst! Devi, acorda... Maninho!" O Devimyuu de oito anos acordava de súbito, assustado e com a respiração arfante, diante do rosto do irmão adotivo ao lado de sua cama, o encarando com uma feição preocupada.
"Tá tudo bem? Te vi se revirando na cama, acho que estava tendo um pesadelo. Era com aquele...monstro de novo?"
O pequeno Devimyuu assentia, os olhos quase a lacrimejar. Mesmo com suas lembranças traumáticas a respeito de Mewpester seladas, a imagem de um monstro cruel portando lâminas ainda assombrava seus pesadelos.
"Entendi... Mas olha só, já acabou, tá? Foi só um pesadelo, eu tô aqui com você e não vou deixar nenhum monstro idiota chegar perto do meu irmãozinho. Você quer dormir comigo?" O irmão de dez anos sorriu diante do assentir do mais novo, que pegando seu travesseiro e coberta se dirigia para a cama dele, já se sentindo mais seguro apenas por esse simples ato.
Mais alguns anos, outro espelho, outra recordação. Essa refletida mais nítida, e consideravelmente mais agitada do que as outras.
"Você quebrou o meu focinho!" A voz incrédula e irritada de um garoto musculoso demais para apenas 14 anos gritava para Kinmyuu, que se colocava à frente do irmão de 12, num pátio ajardinado aos fundos de seu colégio.
"Não, foi você mesmo quem quebrou." Kinmyuu demonstrava um olhar satisfeito, e um sorriso lateral que por pouco quase poderia ser vil.
"Você que usou esses seus poderes mentais bizarros pra fazer eu dar um soco em mim mesmo! E ainda tá rindo?!" O garoto tentava conter a cachoeira vermelha que escorria do focinho triangular desfigurado.
"É lógico que estou. Você não achou graça quando machucou meu irmão ontem, enquanto eu não estava? Quem é que tá rindo agora, seu otário?!"
"Você é o príncipe supremo que nasceu o tal semideus da Luz e toda essa palhaçada! Não pode se vingar! Não pode usar seu poder pra machucar os outros! A professora já me castigou por isso, sua obrigação era perdoar e deixar pra lá!"
Kinmyuu esboçava uma gargalhada despretenciosa e debochada, diante da afirmação do outro príncipe.
"Minha obrigação? Haha! O riso desdenhoso do Kinmyuu adolescente ressoava maldoso, enquanto usando a telecinese, erguia o colega de classe bully no ar e o fazia se aproximar de si, ficando cara a cara com ele. O sorriso malvado desaparecia, dando lugar a um olhar intimidante e ameaçador. "Deixa eu te falar uma coisa, Amewres. Quando mexem com o Devimyuu, eu não sou o novo semideus arcanjo, nem o próximo rei da Luz, ou nada dessa 'palhaçada' como você mesmo disse. Sou só o irmão mais velho dele, e não me importo de fazer o que for preciso pra protegê-lo de vermes feito você! Chegue perto do meu irmão de novo, e eu te farei quebrar bem mais do que só o seu focinho. E saiba que isso não é uma ameaça... É uma promessa."
"V-você vai ver! Vou contar pra todo mundo o que fez comigo e você vai ser suspenso por isso! No mínimo!" Como um último apelo desesperado, o outro garoto tentou retrucar.
Um olhar malicioso de superioridade refletia nos olhos intimidadores de Kinmyuu.
"Eu tô pouco me importando, seu valentão de bosta." O príncipe supremo então o soltava do controle telecinético, deixando o agressor agora agredido, cair fortemente no chão. "Vem, Devz. Vamos embora, irmãozinho, te pago um sorvete no caminho pro palácio, que tal?" E o príncipe mais velho saía, contornando um dos braços ao redor dos ombros do mais novo, que encarava seu grande herói com admiração.
No vácuo imaterial, o Devimyuu adulto em sua manifestação astral fechava os olhos apertado e tentava tapar as orelhas as cobrindo com as mãos, sobre o rosto oculto com os braços. Ele não queria ouvir e muito menos rever. A última coisa que desejava era reviver tais memórias; no entanto, cobrir os olhos e orelhas de nada adiantaria, pois os espelhos refletiam as lembranças retidas direto de seu subconsciente, e ali, no Oráculo, Devimyuu não podia tentar calar sua mente e se esconder de si mesmo.
Um grande espelho hexagonal diante do Lorde das Trevas trazia mais uma última memória à tona. Um ocorrido pouco antes do evento que mudou seu destino e a relação que tinha com seu irmão para sempre. A imagem refletida mostrava Kinmyuu aos dezesseis anos, gesticulando de forma inconformada e irritadiça ao conversar com Devimyuu de catorze. No entanto, nem de longe o irmão caçula era o motivo de sua irritação.
"Devz, você sonha em visitar o Vale de Arcanatus desde quando entrou na academia de magia, não pode desistir só por causa do babaca do Mewthazar! E daí que aquele imbecil não quis ser seu Precursor Mágico? Você acabou de ser condecorado um dos Magos Superiores da sua turma, o que
não vai faltar serão candidatos querendo te guiar, e você não precisa que alguém que mal consegue usar a própria magia te ensine coisa nenhuma! Não vai estar perdendo nada em ir pra sua merecida excursão sem aquele viado fresco racista, pode ter certeza!
"Eu sei disso, Kimu... o Mewthazar não quer ser o meu guia porque sabe que eu sou reverso, e diz que tem medo de me treinar e depois eu crescer e ficar 'maligno'... Mas pra começar, quem disse que eu com o poder que tenho, ia querer um fracassado sem Nei como ele pra ser meu Precursor?! Sei que São Mizantri vai indicar alguém bem melhor pra mim no próximo ritual lunar, alguém que realmente me mereça. Só que... todos os outros alunos condecorados a Magos Superiores estarão com seus Precursores, a excursão serve exatamente pra se conhecerem melhor. Eu... não quero ser o único sozinho lá... vai ser humilhante, é por isso que não quero ir mais...
Kinmyuu se aproximava de seu irmão mais novo sentado na cama do quarto de ambos com o olhar cabisbaixo. Embora em parte realmente estivesse sendo sincero quanto a preferir outro no lugar de Mewthazar, é claro que por outro lado, a rejeição meramente preconceituosa ainda lhe doía, enquanto ele fingia não se importar.
"Mas não precisa estar sozinho. Não disseram que já que era assim, você podia levar quem quisesse? Eu vou com você. Sempre quis que eu participasse de algum jeito das suas aulas de magia, né? Acho que finalmente é nossa chance!" O irmão mais velho o cutucava levemente com o cotovelo, tentando animá-lo, sorrindo pra ele.
"Mas você já combinou de passar essa semana em Frozdelle, esquiando com a Mewelsya, não foi? Não quero que dê bolo na sua namorada por minha causa..." Devimyuu dizia com a voz um pouco sentida, contudo, Kinmyuu continuava lhe sorrindo com a expressão tranquila.
"Posso esquiar com a Elsy qualquer outro dia, ela vai entender se remarcarmos. O que eu não posso e não vou, é deixar o meu irmãozinho só. Isso jamais.
Devimyuu o encarava "Você tem certeza? Sei que magia não é o seu lance, talvez você curtisse mais ficar com ela. Não prefere mesmo?"
Kinmyuu contornava o braço ao redor do caçula e o segurava com uma firmeza reconfortante. "Devz, a Elsy pode ser a minha namorada, e eu gosto muito dela. Mas você é meu irmão mais novo, o irmãozinho que eu sempre desejei. Nunca vou preferir nenhuma outra pessoa no seu lugar. Prometi que cuidaria de você e é o que vou fazer. Precisando ou não, eu estarei aqui pra você. Sempre e pra sempre."
A memória refletida finalizava com Devimyuu mais jovem sorrindo e abraçando o adorado irmão com força. "Valeu, irmãozão. É por isso que eu amo você!"
"Haha, eu também te amo, maninho!"
A última frase daquela lembrança no espelho mítico à sua frente foi demais para Devimyuu, que enfim parou de tentar ignorar o que sua própria mente trazia à tona e se entregou aos reais sentimentos que a tanto tempo renegava.
- Chega... CHEGA! Não me venha com as suas mentiras, Kinmyuu! Você não passa de um mentiroso e um traidor assim como todos os outros que fingiram se importar comigo, mas me abandonou no momento em que eu mais precisei de você! O irmão que dizia que sempre ia me proteger nunca existiu de verdade! No final, você só via um ser das Trevas a ser destruído, como todo mundo! E eu nunca, NUNCA vou te perdoar por isso!
A memória congelada no espelho terminou por desaparecer com o impacto de um dos punhos de Devimyuu atingindo sua superfície. E quando ergueu os olhos lacrimejantes repletos de mágoa e fúria, enfim viu sua imagem refletida. Porém, para sua surpresa, a manifestação astral de si mesmo não era mais a de sua forma atual, e sim, a de seu eu aos 15 anos, pois ali, naquela versão mais jovem, era possivelmente a última vez em de fato fora sincero consigo mesmo sobre os sentimentos a respeito de sua fraternidade perdida.
- Vocês venceram... Queriam a verdade, então aqui está. Estavam certas, como sempre. Não odeio o Kinmyuu por ser meu nêmesis como o semideus Arcanjo. O que eu sinto por ele não tem nada a ver com a rivalidade de Luz
e Escuridão imposta por deuses estúpidos que não conseguem resolver seus próprios problemas. Ele era o meu irmão, o sol que iluminava os meus sonhos, a luz que fazia eu não temer as sombras que haviam em mim. Mas esse sol se apagou quando ele me traiu e tudo que eu acreditava passou a ser mentira. Ele me abandonou na Escuridão, ele deixou que eu me transformasse no demônio que todos queriam que eu fosse. Eu esperaria isso de qualquer um, menos dele. Mas foi o que aconteceu, enquanto ele me segurou pra que o tio maldito dele enfiasse uma espada no meu coração e me assistiu morrer, enquanto eu implorava pra que aqule dito irmão que me protegeria de tudo me salvasse. E foi aí que eu percebi que esse irmão nunca existiu... Kinmyuu me enganou de todas as formas possíveis... a traição dele doeu muito mais do que aquela espada atravessando meu peito, mais do que todas as torturas as quais já fui submetido. E agora, ele está no caminho entre eu e minha única chance mínima de ter alguma felicidade outra vez... Só irei conseguir isso se der o que Ghanog quer. E o que ele quer, é o escolhido de Ghaceus derrotado e subjugado, para que as Trevas possam sair vitoriosas quando eu trouxer a libertação do deus da Escuridão. Então é exatamente isso o que eu farei. Portanto, mais uma vez eu suplico; bruxas ancestrais, me mostrem a única arma capaz de derrotar aquele que um dia eu chamei de irmão.
Quando Devimyuu terminou de falar, sua representação astral já era novamente a mesma de sua real forma na atual idade adulta. Um a um, os espelhos que antes traziam suas lembranças refletidas congeladas, tiveram suas superfícies tomadas por uma bruma descorada. Rachaduras começaram a surgir nos mesmos simultaneamente, até que todos se partiram em milhares de estilhaços a chover em meio ao vácuo místico, caindo lentamente, ao passo que se tornavam nada mais que finas partículas prateadas se dissipando antes de desaparecer por completo.
Diante do Lorde das Trevas, degraus translúcidos como cristal passaram a surgir formando uma escada em espiral levitante, em meio ao vácuo espiritual em tons violeta. Havia espelhos retangulares intercalados randomicamente aos degraus, porém, suas superfícies não refletiam nada além do vazio de uma névoa roxa em seu interior. Talvez representando que ao finalmente ser sincero consigo mesmo, não havia mais nenhuma lembrança oculta retida no subconsciente de Devimyuu para ser mostrada.
Ciente de que os espíritos de suas ancestrais bruxas enfim estavam satisfeitas e ele estava outra vez em harmonia com elas, Devimyuu subiu a escadaria que sob seus pés refletia outro espiral de degraus, dando-lhe um aspecto infinito. Entretanto, concentrando-se apenas em olhar para cima, rei semideus logo chegou à câmara principal onde se encontrava antes.
A névoa cinza e cintilante que ocupava parte do espaço começou a se condensar a sua frente, tomando forma e cor. As mil vozes unidas das bruxas ancestrais ecoaram, conforme tal figura se definia. Uma aparente adaga, cuja empunhadura reta era negra como o ébano, emanando reflexos parte esverdeados como resquícios de uma velha maldição e parte rubros como as chamas condenadas do próprio inferno. Sua lâmina fina, afiada e letal, era esculpida num cristal quimérico de formato prismal nunca visto antes de sua criação, e refletia um azul pálido e gélido como a impiedade da morte.
"A Presa do Leviathan, é a arma que procura, filho do sangue. E sob a posse de um Príncipe do Inferno é onde a encontrará."
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