23 - Destino de Outrora (Parte Final)

(Capítulo com + 3k de palavras)

Duas semanas depois:

Grande parte dos reversos refugiados no Mundo Puro em Nova Homsafetown eram felins mais jovens e filhotes pequenos resgatados. Para acomodá-los apropriadamente, a ilha escondida contava com um grande orfanato como uma de suas instituições principais. Ali, filhotes órfãos e/ou desamparados eram acolhidos pelas autoridades do reino e instalados com toda segurança e conforto que jamais imaginaram ter em suas vidas anteriores, à mercê do abandono e sofrimento que enfrentaram no Mundo Reverso. Oitenta por cento dos custos do orfanato eram arcados pelo grande reino Nihsies e mais alguns dos poucos reinos associados que estavam cientes da existência da ilha refúgio. Sendo assim, recursos financeiros não eram problema algum para proporcionar às crianças acolhidas um ambiente equiparado a um internato luxuoso.

— Ficamos extasiados quando soubemos que o senhor e sua rainha estavam interessados em nossas crianças, Rei Supremo Odimyuus. — Dizia a diretora do orfanato, conforme guiava o Grande Rei atravessando os corredores do primeiro andar da instituição a caminho do playground, onde os filhotes mais novos costumavam ficar àquela hora do dia.

— Bem, nós já tínhamos tomado essa decisão há um tempo, só estávamos esperando nosso Kinmyuu ficar um pouquinho mais velho. Ele já vai fazer seis anos, então achamos que era o momento ideal. Sem contar que ele mesmo nos pede um irmãozinho desde que praticamente aprendeu a falar, hehe!

O Grande Rei disse com um tom divertido. 

— É uma pena não poderem ter vindo, não teria problema remarcar sua visita, majestade.

— Oh, não. Sei que vocês estavam esperando e não queria desapontá-los, além do mais, um rei não pode faltar com seus compromissos, não é? — ele sorriu amigável — Sem contar que a culpa tecnicamente foi minha… Kin ficou tão ansioso com a ideia de finalmente conhecer o novo irmão hoje que não conseguiu dormir ontem e eu tive a não tão brilhante ideia de dar um passeio com ele no jardim à noite. Imagino que o sereno que o fez acordar espirrando, e caso fosse um possível resfriado, não podíamos arriscar ele passar para as outras crianças. Então minha esposa achou melhor ficar cuidando dele.

A diretora assentiu devolvendo o sorriso.

— Compreendo. Bem, quem sabe sua majestade não volta para o palácio com o novo irmão do príncipe? Aposto que ele ficará muito feliz!

— É exatamente isso que ele espera, caso contrário, já até sei que ele vai ficar emburrado a semana inteira, hah!

Ambos seguiram caminhando, enquanto a diretora explicava em maiores detalhes ao rei Odimyuus como se dava o processo de adoção, e sobre o importante momento de conhecer as crianças. Seguia calma e extremamente profissional por fora, no entanto, por dentro, ainda estava impressionada com o fato do Rei Supremo da Luz e o pai do  novo semideus Arcanjo dos puros estar buscando por um filhote reverso como filho. Já tinha ouvido dizer que o rei Odimyuus não via diferença alguma entre puros e reversos, e que seu real desejo era que na realidade, os reversos habitantes de Nova Homsafetown parassem de se esconder do resto do mundo e voltassem a se integrar na sociedade como um todo, assim como nos tempos há mais de um milênio, antes do ataque genocida do Arcanjo da Morte. 

Isso apenas não havia acontecido por desejo dos próprios habitantes da ilha refúgio, que no geral, não se sentiam prontos para revelar sua existência no Mundo Puro novamente. Ainda mais após o terrível ataque há quatro anos, que ceifou a vida de praticamente toda a família real, e os fez perderem seus amados governantes. O reino ainda se recuperava de tamanha tragédia, tentando seguir sem seu rei, que inconsolável após a perda de sua esposa e o filho recém-nascido, se tornou recluso e abdicou da coroa, recusando-se terminantemente a voltar ao trono.

Sendo assim, Odimyuus respeitou a vontade deles de se manterem incógnitas, contudo, agora a diretora tinha certeza que os dizeres sobre o Grande Rei ser adepto ao retorno da União eram a mais pura verdade. E quem sabe, agora que um filhote reverso estava prestes a ser parte da família real da Luz, o sonho da União de raças que parecia ainda distante se tornasse um passo mais perto da realidade.

—  Há um bom tempo que eu, minha esposa e meu filho queremos muito mais um filhotinho na nossa família, mas, confesso que me sinto um pouco mal de tecnicamente estar “escolhendo” uma criança… Eu penso em como as outras podem se sentir. Se dependesse de mim, imagino que acabaria levando várias comigo, mas como o irmão mais velho de três, eu sei muito bem como pode acabar faltando um pouco de atenção exclusiva para todas quando numa família existem mais crianças do que pais… A senhorita teria algum conselho para mim?

Odimyuus perguntou, virando-se para a felin reversa em elegantes trajes sociais que caminhava ao seu lado. Ele realmente pareceu preocupado nesse momento, sendo uma das raras vezes em que a diretora o viu com um semblante um pouco mais sério. No entanto, ela apenas sorriu calmamente.

— Não se preocupe majestade. Como combinado, vamos apenas dizer às crianças que só veio vê-las numa visita corriqueira, assim o senhor pode conversar tranquilamente com cada uma e ir às conhecendo. E quanto a “escolha”, bem, eu também não me preocuparia. Sabe, todos os nossos novos pais costumam dizer que é o filhote quem os escolhe, e que, quando encontrar o seu novo filho, ou melhor, quando ele o encontrar, em seu coração, o senhor simplesmente saberá que é aquela criança. Eu gosto de acreditar nisso. 

O rei Odimyuus refletiu brevemente no conselho dela, e sentiu a ligeira preocupação que o acometia desaparecer, disposto a acreditar naquelas palavras também. Estava prestes a dizer algo quando notou a diretora ser abordada por uma das orientadoras do orfanato, após a jovem tê-lo saudado com uma rápida reverência.

— Diretora Clamewvel, os filhotes do Maternal estão no playground, mas novamente, o Bluezinho não quis ir. Ele estava ficando agitado, então achamos melhor deixá-lo quietinho na brinquedoteca. 

— Tudo bem, não é bom forçá-lo, temos que ir aos poucos com ele. Obrigada por me avisar.

A jovem orientadora assentiu e se retirou após outra rápida reverência ao rei. Odimyuus pôde notar a diretora suspirar de forma contida, com um semblante um tanto consternado.

— Algum problema, lady Clamewvel? Algo em que eu possa ajudar, talvez?

— Não se preocupe, majestade. É que… estamos com uma criança que é um caso em especial. Numa manhã bem cedo, há cerca de duas semanas, um  casal de adolescentes estava a caminho do colégio, atravessando pela praça do palácio real, fechada desde o… incidente… como o senhor sabe. Eles realmente não deviam estar lá, mas foi como uma obra do destino, já que ao passarem, viram uma criança pequena perambulando por ali aparentemente perdida e chorando sem parar. Eles disseram que ficaram preocupados porque além de um filhote tão novo estar sozinho ali tão cedo, havia respingos de aparente sangue em suas roupas e sapatos. Quando foram se aproximar para ajudar, ele se assustou e correu. O casal conseguiu rapidamente resgatá-lo, mas ele ainda estava muito agitado e assustado, tentando fugir deles. Por sorte a jovem que estava lá era biotipo fádico e usou um tipo de pó encantado para acalmá-lo. Após checarem que o sangue em suas roupas não era dele, o levaram até um posto da guarda próximo e então os agentes do resgate infantil foram acionados, e eles trouxeram o Bluezinho para cá. 

Odimyuus escutou atentamente cada palavra dita. Milhões de perguntas borbulhavam em sua mente, como se a cada segundo, ficasse mais interessado no filhote que chamavam de Bluezinho.

— Então ele não foi resgatado no Mundo Reverso como os outros, o Bluezinho já estava aqui na ilha?!

Perguntou o rei, intrigado.

— Exatamente. Acreditamos que ele deva ter três ou quatro anos, e uma criança da idade dele aparecer aqui sozinha não é comum, ainda mais no estado em que ele se encontrava. Os agentes do resgate infantil continuaram investigando para ver se encontravam algum familiar dele que poderia ser um refugiado se escondendo na ilha, já que há muitos reversos que por acaso acabam atravessando portais que os trazem para Nova Homsafetown e pensam que serão atacados e presos se encontrados, então se escondem. Também espalhamos avisos que o encontramos, mas ninguém veio até o orfanato procurá-lo. Tudo indica que o Bluezinho está sozinho aqui.

O Rei Supremo ficava cada vez mais intrigado e também comovido com a história daquele filhote. Só de imaginá-lo perdido, chorando sozinho por sabe-se lá quanto tempo, sentia seu coração pesar.

— Tentaram perguntar ao Bluezinho de onde ele veio e o que teria acontecido com ele?

A diretora suspirou levemente outra vez, mostrando o mesmo semblante consternado.

— Sim, mas o caso é que desde que foi encontrado, ele não disse uma só palavra…. Por isso o chamamos de “Bluezinho”, pois não sabemos o nome dele. O apelido é devido a cor da pelagem.

Aquela resposta deixou o Grande Rei surpreso.

— Será que ele não sabe ou talvez não seja capaz por algum problema físico?

Clamewvel balançou a cabeça lentamente, em negação.

— Receio que não seja isso, majestade. O Bluezinho parece estar acima da média em diversos quesitos quando comparado a outros filhotes da idade dele. Esses dias constatamos que ele aparentemente sabe ler uma quantidade considerável de palavras, então acho pouco provável que não saiba falar. Além disso, o psicólogo do orfanato o avaliou, como costumamos fazer com todos os filhotes que recebemos. Ele disse que o mais provável é que ele tenha passado por uma grande perda pouco antes de ser acolhido, e ele não fala porque ainda está muito abalado por esse evento traumático.

Como biotipo psíquico, para Odimyuus era fácil compreender questões emocionais relacionadas ao psicólogo. Sendo assim, ele nem conseguia imaginar por quais traumas aquela pobre criança havia passado para chegar ao ponto de não conseguir falar. Seu coração se apertou novamente, a cada segundo se sentindo mais preocupado com aquele filhote, como se só de ouvir falar a seu respeito, já estivesse desenvolvendo algum tipo de ligação com ele. O Grande Rei não precisou pensar muito para tomar uma decisão.

— Lady Clamewvel, será que eu poderia vê-lo?

A pergunta não surpreendeu a diretora. A reputação de gentileza e  senso de justiça do oitavo Rei Supremo Odimyuus o precediam. Era de se imaginar que ele não viraria as costas a uma questão tão delicada como aquela envolvendo um filhote inocente que precisa de todo o amparo possível.

A felin assentiu.

—  Certamente, majestade. Por favor, venha comigo.

A diretora o guiou até a ala do Maternal onde os filhotes de três a cinco anos ficavam instalados. Chegaram até uma sala ampla, com tapetes emborrachados no piso, figuras coloridas, letras do alfabeto e desenhos feitos pelas crianças na parede. Havia pequenas mesas coloridas com folhas de papel, gizes de cera entre outros materiais de pintura, prateleiras com inúmeros brinquedos e uma grande piscina de bolinhas ao final de um tobogã de plástico no canto esquerdo da sala. Indubitavelmente, um verdadeiro paraíso de brincadeiras para qualquer criança pequena.

No entanto, como a senhorita Clamewvel já imaginava, nenhum daqueles brinquedos era o suficiente para cativar o filhote apelidado de Bluezinho, mas que na realidade, se tratava de Devimyuu. O pequeno estava amuado, sentado num dos sofás próximos à janela telada. Com os bracinhos em volta dos joelhos, os abraçando, seus chamativos olhos dourados sempre tão tristes e perdidos desde que chegara ali miravam o nada na paisagem distante, entre as altas torres dos prédios e o céu tão azul quanto o mar que cercava o conjunto de ilhas. 

— Ele parece tão… triste…

Odimyuus comentou ao observá-lo da porta, a certa distância. Tinha agora uma expressão compelida em seu rosto, lembrando-se de seu próprio filho Kinmyuu, e percebendo que nos seis anos desde que nasceu, nunca havia visto nele uma expressão como a do filhote ainda mais jovem que estava diante de si. Afinal, a vida privilegiada de seu príncipe dera a ele um lar seguro e repleto de amor onde seus pais dedicados jamais permitiriam que algo fizesse seu amado filho derramar uma lágrima de tristeza sequer. Simplesmente não era justo que o mesmo não pudesse se aplicar àquele ou a todos os outros filhotes reversos que estavam naquele orfanato. Apesar de agora estarem protegidos, cuidados e relativamente felizes, aquilo não mudava o que já haviam sofrido, o fato de terem perdido ou sido abandonados pelas famílias que deveriam amá-los. Mas aquela era a realidade do Mundo Reverso, e Odimyuus sabia que não poderia mudá-la. No entanto, talvez pelo menos a vida daquele pequeno filhote de pelagem azul e brilhantes cabelos negros ele pudesse mudar.

— Tudo bem se eu for até ele? — O Rei perguntou.

— Claro. Mas já aviso que o Bluezinho não sabe interagir muito com outras crianças e se mostra bem arisco com adultos. Achamos que seu comportamento arredio se deve a como vivia antes de chegar aqui. Porém, pelo menos de mim ele não tem fugido mais, então vou me aproximar primeiro e avisar sobre o senhor, está bem? 

A senhorita Clamewvel tirou seu elegante par de sapatos de salto e pisou apenas de meia calça no piso emborrachado da sala de brinquedos, se aproximando cuidadosamente do pequeno Devimyuu, sentado no parapeito da janela. Assim que sentiu a mínima aproximação dela, virou-se para a fêmea adulta; seu olhar triste seguia desconfiado, porém, dela não fugiu. Estava naquele lugar tão estranho para ele há duas semanas, e embora ainda se mostrasse arisco quanto aos outros adultos ao redor, já sabia que pelo menos aquela não era uma ameaça.

No caminho até o filhote, a diretora apanhou um dos desenhos presos ao painel numa das paredes, feito pelo próprio Devimyuu. E a figura que ele tinha desenhado ali há alguns dias não poderia ter sido a mais apropriada para tentar convencê-lo a deixar que o Rei Supremo se aproximasse dele.

— Oi, Bluezinho, tudo bem? Como você está hoje, lindinho? A felin perguntou com um tom de voz amável. cuidadosamente se sentando ao lado dele no estofado.
— Sabe, a tia pegou esse desenho lindo que você fez outro dia pra olhar de pertinho de novo. Esse felin aqui está usando uma capa muito bonita, e esse chapéu pontudo na cabeça dele é uma coroa, não é? Você desenhou um rei, não foi? 

Devimyuu assentiu. Havia reproduzido como conseguiu, o desenho que se lembrava de sua mãe ter feito certa vez, a primeira em que ele se lembrava dela ter dito que seu pai era um rei, e ele perguntou o que de fato era um rei. Então ela retratou em algumas linhas simples a imagem de uma macho adulto, com uma longa capa em suas costas e uma coroa sobre sua cabeça.

Em seu feitiço pós mortem,  Renésmew conseguiu fazer com que sua varinha Soríbia também fosse levada a tempo através do portal, e se manifestasse junto a Devimyuu do outro lado no Mundo Puro, mais precisamente, nas ruínas do que sobrou do palácio de Nova Homsafetown após o ataque destrutivo de quatro anos atrás. Através do objeto mágico, agora em posse de seu herdeiro, seu espírito preso ali conseguiu transmitir ao filho uma última orientação, antes de por conta própria, a varinha encantada se desmaterializar. As seguintes palavras ecoaram diretamente na mente de Devimyuu:

“Devi, meu querido filho, infelizmente eu não pude atravessar com você. A mamãe vai precisar ficar descansando por muito tempo em outro lugar agora, um lugar onde não posso te manter comigo. Mas, mesmo que pareça que está sozinho, por favor não pense que a mamãe te abandonou.  Por mais que eu não possa estar aí, estarei sempre cuidando de você, meu amorzinho… E lembre-se do que eu te disse, você é filho de um rei, e tenho certeza que o seu pai vai te encontrar. Então espere por ele, e eu sei que logo estarão juntos. Até logo, meu principezinho… Eu te amo muito, e juro que um dia, nós nos veremos outra vez. Até lá, seja muito feliz com o papai, e diga a ele que também o amo.”

Devimyuu era muito pequeno e havia passado por diversas situações estressantes tendo tão pouca idade. Isso contribuiu para que ele não conseguisse se lembrar exatamente de tudo que sua mãe havia contado sobre o pai dele antes, como seu nome ou aspectos de sua aparência. Mas os dizeres do espírito dela ainda estavam bem frescos em sua memória. Que seu pai era um rei, e que bastava esperar, e ele iria encontrá-lo.

Por isso, Devimyuu havia feito o desenho, enquanto naquele lugar que embora não fosse ruim e nem um pouco escuro, frio e assustador como onde costumava viver com sua mãe, para ele ainda era estranho. Onde já tinha entendido que ela não poderia estar com ele de novo, só lhe restou esperar dia após dia pelo pai que não conhecia, acreditando nas palavras dela que esse pai que tanto o amava logo iria encontrá-lo. 

A diretora devolveu o desenho para Devimyuu, que o apanhou com suas pequenas mãos e o olhou sem entender muito bem porque ela fizera aquilo.

— Olha que coisa legal — A felin adulta continuou a falar
— Você desenhou um rei, e o Grande Rei Odimyuus queria muito conhecer você. Olha ali ele te esperando. 

Ela apontou em direção às grandes portas duplas coloridas e abertas da sala, onde Odimyuus aguardava. Devimyuu não tinha percebido a presença do outro felin adulto ao longe. Assim como a diretora havia feito, o rei tirou suas longas botas de couro e detalhes de ouro e adentrou na sala, se aproximando devagar. E quando o pequeno olhou na direção dele, o bondoso rei acenou, lhe oferecendo um alegre e genuíno sorriso. 

No exato instante em que o viu, pela primeira vez os lindos olhos dourados sempre tristes do pequeno Devimyuu ganharam um brilho como a diretora nunca havia presenciado. Seu rostinho se mostrava estático. O desenho soltou-se de suas mãos involuntariamente, conforme o filhote se levantou do estofado do parapeito sem tirar os olhos do outro adulto. Ele deu dois passos, pausados e cautelosos, como se diante dele, enxergasse uma miragem .

Vendo que o filhote dito ser arredio com qualquer adulto, parecia intencionar vir em sua direção, o rei quis se mostrar o mais receptivo o possível. Sendo assim, apoiando um dos joelhos no chão, se agachou e estendeu os braços abertos para ele de modo convidativo, ainda sorrindo alegremente, chamando o pequeno até si. 

Devimyuu parou novamente diante daquela atitude, o brilho em seu olhar tornou-se ainda maior, se é que isso era possível. Ali estava: a capa, a coroa, e o maior sorriso do mundo para ele, exatamente como nas palavras de sua
mãe. Na mente do filhote, não havia mais dúvidas: era ele. 

O mais rápido que suas perninhas curtas poderiam, Devimyuu correu até o rei, se jogando nos braços de Odimyuus e agarrando-se num abraço em volta do pescoço dele o mais forte que podia. Lágrimas se agrupavam em seus olhinhos , enquanto se agarrava a ele com ainda mais força, acreditando que sua espera finalmente havia chegado ao fim.

— P-pa…papai! — O pequeno exclamou, para a surpresa de todos. A partir daquele instante, foi como se toda a questão de sua falta de fala nunca tivesse existido — A…a mamãe disse… disse que você ia me achar e eu te esperei, eu esperei! Você veio me levar pra casa? Para as flores e as fadinhas, papai?

A diretora olhava a cena incrédula, não somente por ter ouvido a voz do pequeno pela primeira vez, como por nunca ter presenciado nada parecido durante todos os anos de sua carreira no orfanato. Ela mesma havia dito que eram as próprias crianças que acabavam escolhendo seus novos pais, no entanto, a reação de ‘Bluezinho’ ao se deparar com o Grande Rei Odimyuus fora surreal de tão literal, para se dizer o mínimo.

Ainda com o filhote agarrado a si, e retribuindo o abraço, Odimyuus ficou surpreso nos primeiros instantes, ao ver que o pequeno se referiu a ele como pai. De certo, algo havia acontecido para que na cabeça dele aquela fosse a verdade. O Grande Rei não sabia exatamente o que era, mas logo chegou à conclusão que no final, isso não importava. A diretora Clamewvel dissera que no momento certo, ele simplesmente saberia em seu coração que tinha encontrado seu novo filho. Agora, tinha plena certeza de que a felin não poderia estar mais certa. 

Odimyuus se colocou de pé segurando Devimyuu carinhosamente em seus braços. Afastou o filhote gentilmente de seu pescoço para que pudesse olhar em seus olhos, e com a ponta de um dos dedos, limpou uma pequena lágrima que descia deslizando em seu rostinho. E então sorriu, encostando delicadamente seus focinhos num gesto terno e paternal. 

— Sim, é isso mesmo, filhinho. O papai veio te levar pra casa.

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