22 - O Oráculo de Hecatta
O Pátio das Invocações se localizava no exato epicentro da fortaleza do Lorde das Trevas. Uma arena circular, propositalmente construída estrategicamente entre as seis torres de vigilância a sudeste do palácio principal. Toda a arquitetura do local fora projetada meticulosamente de acordo com o objetivo a que tal área era destinada.
Sua estrutura era suspensa por treze colunas de quase vinte metros de altura em granito preto absoluto; todas com runas diferentes esculpidas em seu entorno. Da Ponte Imperial - o mirante no ponto mais alto do palácio - podia-se notar claramente o traçado escavado no piso do pátio de modo a formar um colossal círculo mágico em volta de um hexagrama, cujo cada ponta se conectava a uma das seis torres que emergiam ao redor da área.
Devimyuu adentrou no lugar, indo direto para o meio do pátio, onde no piso havia gravado um círculo menor contendo quatro glifos em seu interior, cada um representando as quatro diferentes fases da lua. O astro associado à magia e também o guardião da noite estava representado das mais diversas formas por todo aquele lugar sacro, pois sua energia era essencial para executar os rituais realizados ali.
O sol fraco e apático do Mundo Reverso ainda seguia estagnado no céu cinzento do início da tarde. Mas isso não seria empecilho algum para que Devimyuu realizasse sua evocação. Se a luz da vil lua reversa era o que precisava, então o Lorde das Trevas faria a lua vir a si, pois como um semideus, podia fazer até mesmo ela se curvar a sua vontade.
O rei despiu a parte superior de kimono real, deixando exposto o tronco demarcado por seus músculos, e com a marca negra em forma de lua crescente que ficara gravada em seu abdômen logo acima do quadril esquerdo após a primeira vez que se transformou em sua real forma de Arquemônio. E agora, reivindicando parte dessa transformação, a marca propriamente dita assumia um brilho violeta, à medida que o Lorde sombrio materializava o magnífico par de grandes asas negras procedentes de sua semi divindade.
O mesmo brilho fúlgido em tons violeta sobre a marca lentamente envolvia as penas negras como o ébano das asas, conforme o rei semideus erguia um de seus braços em direção ao céu e invocava a magia das raízes mais profundas de seu verdadeiro poder.
- "Novus, Crescia, Plenus, Acstus. Quatro faces de Guardia Nocturne aos quatro elos da magia não consumada. Que as trevas do abismo mais profundo subjuguem as leis da natureza e curvem os astros perante minha vontade..."
À medida que o rei bruxo recitava seu poderoso feitiço, círculos mágicos equivalentes à circunferência da arena eram criados a partir de sua mão levantada, se erguendo sob o céu acima do palácio um acima do outro até que houvesse sete deles. Iluminados em tons de roxo com uma sutil remanescência em azul prússia, cada um deles girava lentamente em sentido contrário em relação ao anterior, catalisando e expandindo ao máximo o poder daquela magia notável.
- "Que os céus se tornem umbra, que o luar regente se erga e devore toda luz que remanesce diante do Eclipse de Sua Magestade: Moon Regem!"
Com as palavras finais sendo proferidas, um turbilhão de trevas condensadas foi disparado atravessando os círculos mágicos como o tiro devastador de um canhão em direção ao céu monocromático. A carga de energia acumulou-se na forma de uma esfera, que não demorou a se tornar uma mórbida lua de sombras, que facilmente encobriu o ponto pálido de luz sempre entre nuvens que se tratava do sol reverso. Imediatamente, o breu de uma noite antinatural encobriu o reino de Kyoflan e todos os territórios adjacentes, deixando apenas um anel solar em fraco tom de prata à vista.
Todos na cidadela real da capital Keiser puderam ver o eclipse mágico acontecer, visto que a fortaleza de seu soberano fora erguida no monte sem cume onde se localizava o ponto mais alto e quase inacessível do reino. E nenhum deles precisou pensar duas vezes para saber que aquilo se tratava de um feito do ser mortal mais poderoso daquele mundo - seu rei absoluto e semideus daquela Era.
No entanto, por mais magnânima que fosse aquela demonstração de poder, Devimyuu estava apenas começando. Agora que o céu estava escuro, a lua carmesim do Mundo Reverso podia ser vista, e ela forneceria ao rei a energia necessária para o principal ritual que precisaria invocar.
Ainda dentro do círculo lunar gravado no chão, com um simples gesto das mãos, Devimyuu conjurou um conjunto de treze velas negras, as materializando a partir das sombras que controlava. As mesmas se acenderam em chamas azuis fantasmagóricas, enquanto o rei se sentou em posição de lótus no centro do círculo, porém, levitando, sem permitir que seu corpo tocasse o chão.
Os demais ingredientes que ele invocava também eram trazidos magicamente ao local e posicionados sobre pontos específicos no interior da camada rúnica do círculo: Ramos de abeto, o incenso que queimava a fumaça sagrada de zimbro, pétalas de belladonna negra e algo do próprio Devimyuu; no caso, uma pequena mecha de seus longos e invejáveis cabelos negros.
O feitiço antigo que estava prestes a realizar não era de autoria sua. O Oráculo de Hecatta era uma magia ancestral criada pela primeira bruxa e passada apenas a suas descendentes femininas. No entanto, Devimyuu foi o primeiro macho a obter acesso a tal conhecimento graças a bruxa druidesa que fora sua estimada e antiga mentora. Num acordo com os espíritos das antigas bruxas irmãs, ela abriu mão de seu contato com elas para passar esse lugar ao seu pupilo, pois como o rei legítimo e semideus Arquemônio, sabia que tal conhecimento possibilitaria que ele realizasse grandes feitos que ela mesma jamais poderia.
No entanto, o fato de ser um homem cobrava um preço a mais quando Devimyuu realizava o feitiço. Ele sempre deveria oferecer o coração arrancado de um de seus "semelhantes" - ou seja, outro felin macho - que deveria ser sacrificado em nome de tal feito. E de preferência, um que tivesse se mostrado um inimigo em oposição às bruxas ou a outras fêmeas em questão.
Mas isso jamais se mostrou ser problema algum para o rei semideus. Suas masmorras estavam cheias dos condenados que foram contra seus métodos de governo desde que tomou seu trono por direito, sendo ótimos "voluntários" para oferta.
A misoginia deplorável do Mundo Reverso ainda resistia, o tornando um mundo muito mais impiedoso e cruel para as fêmeas, principalmente quanto àquelas como as bruxas, que desde os tempos antigos sempre buscavam formas de se opor perante a submissão opressiva de machos que tentavam subjugá-las.
Ao retomar a coroa, como alguém que passara os primeiros anos da infância tendo a própria mãe objetificada, violentada e por fim, covardemente assassinada, Devimyuu estabeleceu novas leis imutáveis em favor e defesa às fêmeas reversas, causando a revolta e a inaceitação de muitos que não estavam dispostos a abrir mão de sua suposta supremacia machista. Estes mesmos foram condenados pelo rei ao achar que podiam quebrar tais leis, centenas deles enchiam as masmorras do Lorde das Trevas, sujeitos a trabalhos forçados cruéis e vexatórios.
E agora, era o coração de um deles que jazia arrancado na última das seis pontas do hexagrama recém formado do círculo, pronto a ser usado como oferenda.
Com todos os ingredientes necessários, uma brisa gélida e sepulcral que parecia vinda de lugar algum passou a soprar em volta do círculo, fazendo as laberedas azuis das velas ritualísticas tremeluzir fortemente, porém, sequer demonstrando qualquer indício de que se apagariam. Um a um, os ramos de abeto, as pétalas de belladonna e os fios do cabelo do Lorde das Trevas foram envoltos por chamas cor púrpura que os consumiram quase instantaneamente. O incenso com a fumaça de zimbro também extinguiu-se por completo, restando apenas o coração sacrificado que, embora já sem vida há tempos, começou a sangrar como se o corpo eviscerado ao qual pertenceu estivesse ali presente.
O sangue denso e muito mais rubro do que o natural começou a escorrer lentamente preenchendo os sulcos esculpidos no piso de pedra que desenhavam o círculo de invocação. Enquanto as mesmas chamas púrpuras o incineravam, as camadas do traçado circular junto a cada glifo rúnico passaram a acender. O rei bruxo fechou os olhos e respirou fundo, concentrando seu poder interior ao máximo. Ao atingir o pleno estado de transe, entoou as seguintes palavras:
- Lua rubra, noite escura, sombras profundas e segredos sombrios. Para me unir ao invisível, clamo aos espíritos de todas as Grandes, mães bruxas e irmãs. Feitiço ancestral, magia antiga, façam com que os portões de Hall'ween se abram. Guiem e libertem o seu filho do sangue que as chama: Hecatta!
No mesmo instante em que terminou de proclamá-las, Devimyuu sentiu uma forte rajada de magia espiritual atingi-lo e tomar cada célula de seu corpo. Então, o felin abriu os olhos, já ciente de que acabara de ser conduzido a uma travessia extracorpórea.
Se encontrava agora no que muito se assemelhava a um pedaço do que um dia foi o grande saguão de reuniões de algum antigo palácio, à deriva num vórtex de paredes de aspecto galáctico e etéreo em tons de roxo, e encoberto por uma névoa mística cintilante.
Tanto o teto quanto o piso eram compostos cada um por único espelho amplo, trazendo a sensação quase incompreensível de infinidade.
Algumas partes de estrutura em arquitetura gótica ainda estavam inteiras, como as armações em refinado ferro negro trançado que levavam até as abóbadas do teto, com um luxuoso lustre de obsidiana pendurado no centro. Duas fileiras contendo quatro pilastras de ébano de cada lado conduziam a três vitrais em formato prismal ao final do saguão astral, sendo o do centro maior do que os outros. E através deles, apenas se podia enxergar o vácuo em tons violeta junto a névoa cintilante, se unindo como um só.
O reflexo do chamativo e bem definido corpo do belo semideus como viera ao mundo refletiu no piso espelhado conforme o mesmo trocou um passo descalço; aquela era uma manifestação astral de sua aura em um plano de magia espiritual isolado, portanto, obviamente uma representação de algo tão físico e banal quanto suas roupas não se manifestaria junto a ele.
Na primeira vez que esteve ali, aos 16 anos, Devimyuu de fato ficou sem palavras, quase não acreditando que aquilo era real. No entanto, atualmente aos seus 35 anos já havia feito tantas visitas em busca de respostas, que estar no Oráculo de Hecatta se tornou algo normal para ele.
Caminhando mais alguns passos, Devimyuu parou no centro do saguão espectral, já sabendo o que sucederia.
"Filho do sangue que se opõe aos outros homens. O que te faz ousar a se por perante Hecatta uma vez mais?!"
Ressoou uma voz feminina como composta de mais de mil outras. Todos os espíritos das antigas bruxas unidas como uma só consciência através de sua irmandade milenar que prevalecia. Todas elas eram Hecatta.
- Como um filho e neto de bruxas, e como o executor em seu nome que traz punição aos seus inimigos, eu rogo pelo conhecimento de minhas ancestrais para encontrar o que busco.
Ele disse ao se apoiar sobre um dos joelhos com o punho fechado sobre o peito, demonstrando uma reverência respeitosa.
"E o que é que busca?" - O coro das vozes indagou.
- A arma necessária para subjulgar o meu inimigo. A única capaz disso.
"Não existe arma neste mundo que possa usar para subjulgar o próprio deus da Escuridão." Responderam.
Devimyuu a princípio ergueu uma sobrancelha com uma expressão desentendida. No entanto, Hecatta não estava errada, Ghanog definitivamente podia ser considerado seu inimigo, contudo, não era a ele que Devimyuu se referia.
- Não me refiro a ele. Quero a arma que pode derrotar o meu nêmesis, o semideus arcanjo da Luz.
"Os filhos de homens como sempre são mentirosos. Acha que pode vir a proferir suas mentiras enquanto roga pela ajuda de Hecatta? Insolências como tais não serão perdoadas."
O rei reverso ergueu os olhos, desejando que aquelas vozes possuíssem um corpo para que ele pudesse ter a quem direcionar seu olhar confuso e indignado.
- Eu não disse nenhuma mentira. - Retrucou em sua própria defesa, franzindo o cenho.
"Mentiras e mais mentiras! Irá renegar a verdade arraigada até perante si mesmo?! Enxergue além de sua mera vaidade, pois ousa enganar os espíritos das ancestrais?! Mentiroso e insolente!"
- Chega! - Devimyuu exclamou, ficando irritado. - Por que insistem que estou mentindo?! Kinmyuu é o meu inimigo! Ele é a pessoa a quem eu mais odeio e desprezo dentre todos os malditos do Mundo Puro!
Ele bradou numa fúria incontida. Porém, mesmo que o próprio Devimyuu se negasse a aceitar, os espíritos de suas ancestrais sabiam que não era apenas ódio que fervilhava em seu coração todas as vezes em que pensava no Rei Supremo dos Puros. E enquanto ele não admitisse isso, jamais teria a resposta que buscava delas.
"Já que se recusa a enxergar a própria verdade que o divide, o que busca não será revelado. Faremos com que veja, filho do sangue, até que aceite a corrupção que o despedaça."
- O que?! Mas não foi isso que eu...!
Devimyuu estava prestes a dizer que não era aquele tipo de ajuda que ele buscava. Na realidade, ser obrigado a enxergar a verdade em relação a Kinmyuu era a última coisa que ele iria desejar. Porém, ali era o território de Hecatta. E quando Hecatta tomava uma decisão, nada poderia mudá-la, e tampouco Devimyuu poderia fugir dela.
O Lorde das Trevas mal teve tempo de terminar de falar quando o piso espelhado sob seus pés se partiu, o conduzindo a uma queda lenta em desafio às leis da gravidade, caindo junto com enormes estilhaços do espelho que compunha o teto.
Parado em pleno ar, Devimyuu agora se via como numa segunda câmara igualmente espelhada. Os pedaços partidos que caíram com ele se transformaram em inúmeros espelhos inteiros que o cercavam por todos os lados.
Ele sabia muito bem o que aquilo significava. O mesmo havia acontecido a primeira vez que esteve ali aos dezesseis anos, porém, o que precisou encarar na época fora diferente, e embora difícil, nem de longe se comparava a verdade que estava prestes a enfrentar refletida naquelas superfícies.
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