20 - Pacto


No início da criação, Ghaceus se tornou o pai do primeiro felin mortal ao criá-lo com a própria essência de seu ser e seu sangue divino.

Ludibriando seu irmão para obter uma chama do fôlego de vida, Ghanog foi capaz de realizar o mesmo feito, obtendo seu próprio herdeiro terrestre: o primeiro reverso que criou com toda a essência do puro mal por qual se deixara dominar e seu próprio sangue; algo que ele não fez ao criar os outros reversos.

O sangue de Ghanog deu origem aos portadores das Sombras para contrabalancear os representantes da Luz, com a existência do primeiro Arquêmonio, Ciffermyuu - o filho mortal do Deus da Escuridão. Tão vil, sádico e impiedoso quanto seu pai divino. Imperando sobre a primeira geração de reversos como um temido ditador sanguinário, ele governou com punho de ferro através de um regime opressivo, reinando absoluto durante os primórdios do Mundo Reverso.

Até que, traído por um de seus próprios filhos cansado de se submeter a suas atrocidades, Ciffermyuu encontrou seu destino final na primeira Grande Guerra, derrotado na batalha contra sua nêmesis - Kinmyuu Mewkhael, o filho de Ghaceus. No entanto, a morte não trouxera seu fim permanente, afinal, ele era um Arquemônio. Seu progenitor divino transcendeu o espírito de semideus do filho o revivendo em Vilhell, o consagrando como o diabólico governante do plano infernal e rei de todos os demônios que ainda estavam por vir.

E agora, ali estava ele. Com os enormes chifres de capricórnio, olhos negros como um vasto mórbido de escuridão e aquelas íris tão vermelhas quanto chamas e sangue, responsáveis por devorar incontáveis almas ao longo dos séculos. De dentro do Sombríage, o Primeiro Arquemônio fitava o Terceiro, encarando com desaprovação seu descendente rebelde.

Em troca, Devimyuu apenas o fitou com despeito. Não temeu a Ciffermyuu, nem na primeira vez que se manifestou para ele, aos 15 anos, durante a primeira transformação do jovem Lorde das Trevas em sua verdadeira forma divina. Devimyuu o rejeitou naquela ocasião, e mesmo que as circunstâncias não permitissem que o rejeitasse agora, de forma alguma o Arquemônio Original teria sua devoção e muito menos seu respeito.

- O que você quer? Eu estou ocupado. - Ralhou Devimyuu, dando as costas para o espelho amaldiçoado.

- Não. Não estás. Caso contrário, eu não estaria aqui, sendo obrigado a encarar tua face de herege. Me responda, Terceiro Arquemônio, por acaso após três anos, esqueceu quais são tuas únicas prioridades?

- Não sei do que está falando - Devimyuu respondeu apenas isso, embora no fundo, soubesse exatamente ao que Ciffermyuu se referiu. Durante os três últimos anos vinha agindo no limite entre burlar e não quebrar aquela maldita cláusula de seu pacto com Ghanog. Mas se Ciffermyuu estava ali, ele temia que tivesse se arriscado demais.

- O tempo urge para agir segundo seu destino como o escolhido do Soberano Ghanog e libertar meu pai, enfim realizando sua vontade. Foi isso que se dispôs a fazer e sabes o que acontecerá se não cumprir tua parte, traidor desleal...

O atual Lorde das Trevas enfim se virou para o deus demoníaco no espelho arcano. Seus olhos o fitavam com ódio.

- Eu ESTOU cumprindo! O feitiço do Mizantri já foi obtido, meus subordinados estão com quase todos os itens necessários para o ritual, eu só preciso...

- PRECISAS PARA DE AGIR COMO SE AINDA VIVESSE ENTRE A ESCÓRIA DOS PUROS E SER O LORDE ARQUEMÔNIO QUE JUROU QUE SERIAS! - Ciffermyuu vociferou, com seu timbre demoníaco fazendo tremer as paredes do Santuário das Sombras, aumentando a pressão espiritual sufocante no ambiente. - Acha que não estamos o observando? Tens um pacto a cumprir, mas, ao invés disso, parece que preferes quebrar uma cláusula dele. E acho que já passou da hora de cobrar o preço por isso

A face de Ciffermyuu sumiu do espelho, dando lugar a imagem de Mewleficent, ainda em sua sala de estudos, finalizando a poção de invisibilidade segundo as instruções que o pai havia lhe dado. A menina estava de pé em frente a mesa de mogno negro com o livro aberto, mexendo em seu caldeirão de um modo que parecia até contente.

Quando de repente, sem que a pequena sequer fosse capaz de perceber, um vórtice negro formou-se atrás dela. Do espiral de sombras, um braço espectral envolto em chamas infernais com garras horríferas tão longas e afiadas quanto pontas de punhais, esticou-se ameaçadoramente em direção ao frágil pescoço da filhote distraída.

E nesse momento, Devimyuu perdeu totalmente sua compostura, finalmente demonstrando o temor que Ciffermyuu tanto almejava. Expressando pânico no rosto em choque, de olhos arregalados com as íris trêmulas, ele correu até o Sombríage e agarrou fortemente em suas bordas rubras com desespero e fúria.

- NÃO! NÃO SE ATREVA! FIQUE LONGE DELA! - O rei das Trevas bradou numa ira incontida, socando a superfície encantada do espelho arcano num surto violento. - SE TOCAR EM MINHA FILHA, NÃO IMPORTA EM QUE BURACO SUJO DO INFERNO ESTEJA, EU JURO QUE TE MATO, SEU FILHO DA PUTA!

- Podes até tentar, mas isso não anulará o que posso fazer a essa sua cria simplória nesse exato momento. E não, os feitiços e selos de proteção que conjura sobre ela toda noite não poderão protegê-la de mim. Portanto, eu lhe darei uma única chance para se por em seu mísero lugar. A não ser que deseje que ela acabe tão morta quanto teu primogênito. E eu garanto que dessa vez, não haverá pacto algum que poderás fazer para ter ambos de volta.

Naquele momento, a realidade de com quem de fato estava lidando recaiu pesadamente sobre o Terceiro Lorde. O rei do inferno não estava blefando.

Devimyuu se arriscara e fora pego, havia falhado em partes com eles, e sabia que depois disso, não haveria mais outras chances. Sem barganhas ou segundas opções, só lhe restava obedecer.

Ciente de que sua fúria era inútil - de que qualquer coisa que fizesse seria inútil - temendo por sua filha amada, ele finalmente cedeu. Já tinha perdido Mewdarthe, e de forma alguma por mero orgulho, arriscaria que algo acontecesse a Mewleficent também. Afinal, se submetera a compactuar com a causa da Escuridão justamente para salvar o futuro de seus três filhotes, que amava mais que sua própria vida.

Com um suspiro profundo, batendo outra vez o punho na superfície do mesmo, Devimyuu pressionou a cabeça contra o espelho, enquanto seu corpo involuntária e lentamente prostava-se joelhos sobre o piso frio.

- Não... Tudo bem, eu admito... Deixei-me distrair, fui fraco, não agi como o Arquemônio que jurei ser. Não vai acontecer de novo, tem a minha palavra. Só... deixe minha filha fora disso...

Um sorriso vil e sádico esboçando fileiras de dentes afiados pútridos surgiu no rosto diabólico de Ciffermyuu.

- Quero ver-te implorar. Mostre que reconhece o lugar em que um verme desleal como você está diante de mim, aquele que carrega o sangue do próprio Deus da Escuridão e que rege os sete círculos do inferno.

- Não a machuque, eu te imploro, Rei de Vilhell... Cumprirei com minha parte do pacto, todas elas. Falta muito pouco, e não irei vacilar novamente. Apenas não... não faça minha filha pagar pelas minhas falhas. Ela também não... por favor...

Lágrimas teimavam em tentar brotar de seus olhos fechados com força.

Uma gargalhada nefasta e gutural ecoou no ambiente, com o deus do inferno plenamente satisfeito por ter conseguido o que queria. Era assim que gostava de vê-lo, impotente e subjulgado perante as forças da Escuridão que o acorrentavam num ciclo de desesperança.

- Olhe para você, não poderia ser mais patético! Se não fossem os conhecimentos agregados ao poder herdaste, te tornando a chave que libertará meu pai, jamais serias o escolhido do Soberano Ghanog! Chorando por uma mera cria insignificante, e para piorar uma fêmea! Inaceitável! Ridículo! No entanto, é melhor que sejas assim, pois foram graças a esses teus sentimentos pífios e repugnantes que enfim aceitou seu propósito e se submeteu a um pacto com meu pai, tudo em troca de ter de volta teu primogênito fraco. Assim como eu, poderia gerar inúmeros outros que fossem mais fortes e se mostrassem mais úteis, mas você se apega a esses como se de fato tivessem alguma relevância. Não passas de uma vergonha, uma grande blasfêmia para a essência da Escuridão que corre em tuas veias!

Ainda obrigado a se sujeitar aquela posição de subjugo, Devimyuu cerrava os punhos tão fortemente que as próprias garras retráteis chegavam a penetrar em sua carne o fazer sangrar, pelo ódio do modo como Ciffermyuu se referia aos seus filhos. Embora soubesse que não podia contestá-lo agora, naquele momento jurou que depois que conseguisse o que Ghanog lhe prometeu, ele se vingaria do Rei dos Demônios, aniquilando a existência dele por completo, nem que precisasse descer ao próprio inferno para isso.

- Mas, se quer continuar assim, então que seja. Apenas lembre-se do que acontecerá caso falhe outra vez conosco. - Disse ainda Ciffermyuu - Solemn Hour se aproxima, o que significa que seu tempo está se esvaindo. Aja como o Arquemônio que foste escolhido para ser, ou arque com as consequências.

Com isso, o rei do inferno desapareceu em meio a um tornado de chamas negras dentro do espelho, levando consigo a pressão espiritual imensa que esmagava o ar e com ela o repulsivo cheiro de enxofre. A superfície do Sombríage voltou ao que era, mas não por muito tempo, pois assim que a presença nefasta de Ciffermyuu se foi, Devimyuu esbravejou um rugido de frustração com toda sua ira.

O rosto do rei semideus se contorcia em uma expressão assustadora, seus olhos outrora dourados ardiam com um fogo carmesim à medida que a fúria do felin bruxo atingia o ápice e seu coração pulsava sua raiva contida. Uma energia sombria e malévola emanava das profundezas de seu ser. Com um gesto trêmulo da mão, ele a condensou em uma tempestade turbulenta de sombras em movimento. Com um urro que ecoava pelas profundezas de sua câmara, Devimyuu desencadeou toda sua ira contra o espelho arcano.

Os estilhaços do vidro fragmentado voaram como facas em todas as direções, refletindo os pedaços da alma atormentada do Lorde das Trevas, que arfava com a respiração pesada em meio ao cenário de caos. O Sombríage havia servido como um recipiente para seu ódio, canalizando sua ira em uma explosão concentrada de poder sombrio.

Contudo, sua aparente destruição era irrelevante, pois o Sombríage se tratava de um objeto demoníaco arcano. Fora forjado com a mais forte magia sombria, sendo assim, um ataque da mesma nunca poderia destruí-lo. Pouco a pouco, os cacos partidos espalhados pelo Santuário assumiram um brilho fúlgido avermelhado, erguendo-se do chão e indo magicamente em direção à base rubra de molduras de ébano que compunha o espelho, se encaixando perfeitamente uma a uma como peças de um quebra-cabeça sobrenatural. Logo, o espelho estava como sempre foi, como se tal explosão turbulenta de sombras jamais tivesse o atingido.

Entretanto, mesmo após desencadear aquele montante de ira, Devimyuun não se sentia melhor. Seu coração e alma estavam tão despedaçados quanto os estilhaços de seu espelho, poucos instantes atrás.

O pacto que firmara com Ghanog exigiria que usasse seu poder mágico sombrio como um Arquêmonio no ápice de toda a Escuridão que deveria conter.

Magia vinha das emoções - magos benignos usavam os bons sentimentos e as boas intenções para intensificá-la, ao passo que bruxos pérfidos usavam todo o mal que os dominava, suprimindo qualquer sentimento bom que um dia tenha existido, cultivando apenas os ruins até que as trevas em seus corações se tornassem irreversíveis.

A questão, é que esse jamais fora o caso do Terceiro Lorde das Trevas. A bondade que existia em Devimyuu se sobrepunha a escuridão nele, escuridão essa que era cada vez mais ofuscada pelos sentimentos que nutria por sua família. Por esse motivo, era visto por Ghanog e seus asseclas demoníacos como um traidor desleal, pois não era assim que um rei Arquemônio deveria agir. Arquemônios não demonstraram amor, piedade, e muito menos davam razão a outros sentimentos "tolos e inúteis". Eram frígidos, ímpios e impassíveis. E se para conseguir o que queria, Devimyuu estava disposto a enfim cumprir as vontades de Ghanog, ele teria que ser igual, caso contrário, mesmo que tentasse ao máximo, seu poder não seria capaz de cumprir o objetivo do Deus da Escuridão, pois não haveriam trevas o suficiente em seu coração.

Ghanog precisava tanto de seu escolhido quanto Devimyuu acreditava que precisava dele. Então para garantir que mais nada afastasse a escuridão dele, foi exigido como cláusula de seu pacto que Devimyuu se abstivesse de qualquer "distração" que o impedisse de se tornar o Lorde das Trevas que Ghanog desejava.

E que "distração" maior haveria do que a filhote que lhe restou? A filha tão amada que desejou antes mesmo de saber que teria gêmeos, a garotinha tão sonhada que ele sempre quis? O amor por Mewleficent e o que ela sentia pelo pai eram fortes empecilhos para que o plano de Ghanog se concretizar de acordo com sua vontade. Por essa razão, o deus da Escuridão havia dito que se Devimyuu não se afastasse por contra própria, daria a ele o direito de eliminar tais "contratempos".

Essa era a razão por trás de toda a aparente ausência paterna de Devimyuu. Por isso os dias sem vê-la, por isso dizer estar sempre ocupado. Se afastar de Mewleficent logo quando ela mais precisava, após a perda do irmão, doía no Lorde das Trevas como uma tortura lascinante que o matava lentamente. Mas não podia deixar que os demônios de Ghanog a fizessem pagar por suas decisões, não podia arriscar a segurança dela.

E mesmo achando que tivera toda cautela possível, sentia que era exatamente o que acontecera. Ir assistir a execução de seu novo ataque, a pequena festa do chá para conversar, procurar o livro para ajudá-la em suas lições, e o corvilhete - mesmo tais ações que pareciam ínfimas perante a atenção que um pai deveria dar a uma filha pequena foram o suficiente para alertar a Ciffermyuu, e colocar Mewleficent sob a ameaça de suas garras imundas.

Sendo assim, por mais que lhe destruísse por dentro, Devimyuu não podia cometer tal vacilo outra vez. Era perigoso demais. No entanto, como o próprio senhor do inferno o lembrara, o tempo estava acabando; não somente o tempo de Devimyuu cumprir com seu pacto, mas também para ter o que lhe foi prometido, e finalmente se livrar das correntes que o prendiam a escória demoníaca de Ghanog.

E então, não importando quanto tempo levasse, ele se vingaria de cada um deles.

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