10 - Veneno Escarlate


A expressão de Devimyuu mudou assim que ouviu essas palavras. Até Mewosek sabia que, a partir daquele momento, as coisas provavelmente não acabariam bem.

- Eu não acredito! O único objetivo de você armar todo esse movimento elaborado foi apenas para isso, Mewleficent?! Estou ficando farto dessa sua recente obsessão pelo trono! Em primeiro lugar, você nem tem idade para que esse assunto seja sua preocupação! E em segundo, quantas vezes vou ter que mandar desistir dessa ideia? Não importa quantos ataques você invente; já disse que você não pode herdar o trono e ponto final!

O Lorde das Trevas não foi o único a se irritar. Suas palavras também despertaram a indignação de sua filha.

- Isso não é justo! O trono era meu até você escolher aquele bebê tonto ridículo! Por que você fez isso?! Eu odeio ele! Odeio!

A filhote exclamou num ataque de raiva birrento, batendo fortemente os pés contra o chão.

Devimyuu estava inconformado com a atitude mal comportada de sua filha. Sabia que seria hipocrisia atribuir toda a responsabilidade por aquele comportamento apenas a ela, já que nos últimos três anos, não estava tão presente na criação dela como costumava ser. No entanto, também sabia que não podia simplesmente permitir tal birra sem aplicar uma repreensão.

- Basta! Pare com essa malcriação agora ou eu juro que vou castigá-la! Eu não tenho que me justificar pra você por ter escolhido Mewhades como próximo rei, e você não tem o direito de odiar seu irmão por isso!

- Aquele bebê bastardo idiota NÃO é meu irmão! Ele nem é seu herdeiro legítimo, eu que sou! Eu tenho o direito ao trono, ele não tem direito a nada! Ele nem devia existir! - exclamou Mewleficent, inconformada.

A princesa não poderia ter feito pior escolha de palavras. Por mais que estivesse irritado ao perceber o real motivo da filha ter se dedicado tanto a executar um movimento perigoso para impressioná-lo e consequentemente coagi-lo, Devimyuu tentava se controlar para não ser mais rígido do que o necessário. No entanto, ao ouvir a última fala dela, qualquer limite que ele tentou estabelecer acabara de ser atravessado. Principalmente, por desconfiar que aquela atitude não era proveniente exclusivamente da menina.

Ele se agachou, ficando na altura dos olhos de Mewleficent e a encarou ameaçadoramente, a segurando pelo braço.

- Quem foi que te disse isso?!

- N-ninguém...! - Retrucou a princesa entre os dentes, tentando se desvencilhar do pai.

- Não minta pra mim, Mewleficent Renesmew! Eu duvido que você saiba o significado de metade das palavras que acabou de dizer! Eu vou perguntar de novo: Quem te disse isso?!

- Me solta! - Mewleficent gritou, enquanto tentava se manter firme em sua postura revoltosa. Porém, o modo furioso como Devimyuu sibilou pausadamente quando a questionou fez a princesa vacilar. Ela desviou o olhar nervosamente; seus finos e delicados lábios de boneca tremulavam um pouco, mas ainda assim estava disposta a não ceder. - E-eu... Posso não saber exatamente o que significam mas eu sei que é ruim, e é isso que aquele bebê ridículo é! Você acha que ele pode tomar o lugar do meu único irmão de verdade porque deixou ele morrer! Mas ele nunca, NUNCA vai substituir o Mewdarthe!

Mewleficent por fim explodiu furiosa, encarando o pai com tristeza e raiva.

Devimyuu arregalou os olhos, visivelmente abalado pelo que a filha acabara de dizer sobre o irmão gêmeo.

- Já chega! Nunca mais repita isso! - disse o rei, entre os dentes, exalando dor e fúria em seu olhar, enquanto segurava fortemente a filha pelos braços.

Com um estalar de dedos, ele os fez desaparecerem dali num teletransporte mágico, que deixou uma fina camada de brilho negro se dissipando no ar.

Ambos reapareceram no pavilhão a leste do palácio principal, no quarto respectivo a Mewleficent numa enorme mansão adjacente ao território do castelo, nomeada como Palacete Carmim.


Devimyuu soltou a filha sobre um divã roxo felpudo que ficava próximo a uma das enormes janelas retangulares do quarto, no segundo andar.

- Vai ficar aqui até aprender a pensar no que diz! - ele esbravejou, deixando Mewleficent sem reação, apenas encarando-o com um olhar assustado.

Imóvel, a princesa viu o pai deixando o quarto e selando a porta com um feitiço para trancá-la ali dentro. Ela se levantou do divã e correu para a porta, apertando inúmeras vezes o botão que a fazia se abrir deslizando para o lado, mas nada aconteceu. A magia dele não a deixaria sair.

Furiosa, Mewleficent socou o botão mais algumas vezes e chutou a porta, com lágrimas de frustração, tristeza e, principalmente, raiva jorrando de seus olhos.

Naquele momento, na mente da filhote, seu pai era o grande vilão da história. Entretanto, em seu ponto de vista infantil de princesa mimada, ela sequer poderia imaginar que embora aparentando estar furioso com ela, Mewleficent de longe era a felin que verdadeiramente despertou a fúria do Lorde das Trevas.

As atarefadas servas do Palacete Carmim; sempre resignadas a lustrar e polir os incontáveis adereços decorativos de cada cômodo da enorme mansão - que eram tão exageradamente opulentes quanto inúteis - ficaram todas em polvorosa quando de repente notaram a presença do rei em pessoa, cruzando os corredores. Quando raramente acontecia de avistarem sua majestade, ele nunca ia além da porta do quarto da princesa. No entanto, ali estava o temido Lorde das Trevas atravessando a mansão que nem mesmo ele se lembrava ser tão grande. Marchando a passadas pesadas e rítmicas correspondentes a sua raiva incontida, com a capa lateral rubra que caía sobre um de seus ombros agora esvoaçante atrás de si, conforme caminhava de maneira naturalmente intimidadora. Como se a mesma representasse uma bandeira de sangue hasteada em proclamação de guerra.

A casa de banho era uma das áreas principais do Palacete Carmim. Junto a mesma havia um SPA particular e diferentes salas preparadas para todo tipo de procedimentos estéticos e tratamentos de beleza. E embora o local fosse denominado como "casa de banho", não havia uma gota de água ali presente. O ambiente semelhante a uma sauna elevada em graus de calor que beiravam o insuportável, contava com uma piscina circular esculpida em rocha vulcânica, contendo litros escaldantes e mortais de lava em seu interior, tornando a mesma uma réplica ideal do topo de um pequeno vulcão.

Todo o lugar foi propositalmente adaptado segundo as ordens daquela a quem o Palacete Carmim pertencia: Mewlith Guttler, conhecida como "a progenitora do rei".

À parte da piscina de lava, Mewlith se encontrava imersa numa banheira flamejante, cujas labaredas que cobriam as curvas de seu corpo cintilavam exalando um aroma doce e picante ao mesmo tempo. A felin de aparência estonteante era uma mestiça de biotipo duplo, Psíquico e Fogo. De pelagem sutilmente avermelhada, ela tinha cabelos ruivos volumosos sobre os chifres curvilíneos retorcidos, uma labareda flamejante acesa na ponta de sua cauda e íris multicoloridas entre âmbar e azul, em seus olhos sedutores.

Sua beleza de fato era capaz de deixar qualquer um a seus pés; com exceção de Devimyuu, que sempre se mostrou indiferente e apático diante das investidas sensuais da escolhida para ser sua noiva, mas que fora terminantemente rejeitada por ele. Pois o que Mewlith tinha de bela equivalia a toda a ambição gananciosa, os dons manipulativos e a falsidade traiçoeira que faziam parte de sua personalidade egocêntrica.

Ao redor da felin estavam três servas também de biotipo fogo, todas suas esteticistas. Duas eram garricures, e uma em cada mão de Mewlith tratava de pintar suas longas garras afiadas com um reluzente esmalte feito com partículas de rubis, pois Mewlith não aceitaria nada inferior a isso. A terceira serva se concentrava em seus cabelos ruivos e ardentes como chamas, passando cuidadosamente em cada mecha um preparo cremoso alaranjado, que garantia que suas madeixas mantivessem seu impecável brilho vívido.

O ritual de embelezamento, no entanto, foi interrompido por uma das criadas que acabara de retornar afoita. Ela deveria ter ido buscar uma loção específica exigida por sua senhora, porém, voltou de mãos vazias logo após sair, com uma expressão de choque em seu rosto.

- M-milady Mewlith! - Ela chamou acalorada, o que foi o bastante para incomodar Mewlith.

- Silêncio, criada estúpida! Sabe que não tolero incômodos durante minhas sessões estéticas!

A pobre criada que já aparentava um certo nervosismo, pareceu ainda mais aflita diante do esporro de Mewlith. Contudo, sabia que se não a informasse do que acabara de ver, seria punida ainda mais severamente.

- M-mas minha senhora, o Rei está aqui no Palacete! Parece que está vindo pra cá!

No mesmo instante, Mewlith arregalou os olhos, erguendo seu corpo da banheira em chamas.

- O Rei? Aqui?! - disse para si mesma num tom incrédulo - Saiam! Todas vocês! Chamem Kámewra imediatamente!

Ela exclamou, chamando exasperada por sua mordoma.

A comoção de Mewlith era justificável, já que não via Devimyuu face a face há cerca de seis meses, precisamente o tempo correspondente ao nascimento do terceiro filho do Lorde das Trevas. Quando soube da chegada do segundo príncipe, numa atitude impulsiva, Mewlith foi até o rei se achando no direito de criar um escarcéu pelo fato de o mais novo herdeiro ter sido concebido através de outra fêmea se não ela. E desde esse dia, Devimyuu a expulsou de sua vista a proibindo tanto de vê-lo novamente como de adentrar no palácio principal sem ser requisitada.

Sendo assim, ela não fazia ideia do porquê ele estaria pessoalmente na residência dela, entretanto, independente dos motivos dele, estava determinada a não desperdiçar tal oportunidade.

Kámewra a ajudava a se vestir da forma mais provocante possível, no momento em que ouviram o som de punhos repletos de fúria se chocarem contra a porta da sala de banho.

- Mewlith! Venha aqui agora, isso é uma ordem! - Devimyuu esbravejou do lado de fora.

Não demorou muito e a mordoma de Mewlith saiu para atendê-lo. Ela se curvou, prestando uma reverência ao rei.

- Nosso soberano, é uma honra tê-lo aqui no Palacete Carmim. Eu peço perdão em nome de lady Mewlith. Não sabíamos que vossa alteza nos visitaria e ela estava em seu banho de chamas diário, sendo assim ela está terminando de se vestir apropriadamente e virá receber sua majestade num minuto.

A mordoma tentou se justificar por sua senhora, no entanto, Devimyuu não estava com paciência para os já conhecidos caprichos de Mewlith.

- Qual parte do meu chamado ser uma ORDEM Mewlith não entendeu?!

Devimyuu afastou Kámewra e abriu forçosamente as portas duplas da entrada, fazendo bater uma contra outra no impacto. Assim que entrou, avistou Mewlith sentada numa banqueta de ouro maciço e marfim, em frente a um grande espelho de bordas também com o metal precioso. Usando um vestido provocante com uma grande abertura a partir da cintura e um decote voluptuoso que ia até abaixo do umbigo, a fêmea encarava o próprio reflexo enquanto tranquilamente terminava de se adornar com um punhado dos adereços de luxo que mais amava acima de todos: joias. Com seu cabelo perfeitamente penteado e a maquiagem impecável, ela não parecia com pressa em terminar, como se já soubesse que Devimyuu entraria ali de qualquer forma. E para Mewlith, era incomparavelmente mais satisfatório fazer o próprio Rei ir atrás dela do que a mesma se dirigir a ele, por mais que fosse ordenada.

- Ah, my lord, mas que surpresa vê-lo aqui... - ela disse despretensiosa, ao se virar pra ele, com uma das mãos sobre o busto em evidência, fingindo espanto.

- Que merdas andou dizendo pra minha filha dessa vez?!

Gritou Devimyuu, com muito esforço segurando sua vontade de agarrar Mewlith pelos ombros e sacudi-la com toda sua força. Sempre teve para si mesmo que jamais encostaria a mão em uma fêmea, por mais que Mewlith por diversas vezes testasse os limites da convicção dele a esse respeito.

- Hm? Posso perguntar ao que exatamente você se refere? - Mewlith perguntou, se fazendo de desentendida e voltando a encarar o espelho novamente. Ela segurava um brinco castata de diamantes negros diante da orelha, tentando se decidir entre este ou o de pedras de jasper. Era clara sua indiferença, como se aquilo fosse uma conversa banal, deixando nítido que a preocupação com sua aparência era muito maior do que discutir sobre Mewleficent.

Contudo, enquanto ela se deliciava com a visão de si mesma, sua pose irreverente deu lugar a uma breve centelha de medo quando, com um estalo audível, o espelho de ouro começou a vibrar e estilhaçou em centenas de estilhaços prateados, cobertos pelo pérfido brilho negro remanescente do poder que o destruiu.

Mewlith gritou de susto e olhou horrorizada para o que sobrou do espelho, em seguida virando-se para Devimyuu, apenas para encontrá-lo a encarando de forma odiosa. A fêmea sabia que aquilo era um aviso. Ela estremeceu por dentro, mas ainda assim, se levantou e caminhou na direção do rei semideus mantendo o ar de superioridade e a expressão desafiadora, apesar do medo latente

- Pois muito bem, então. Considerando o histórico comportamental de Mewleficent, imagino que ela disse algo que considerou desapropriado, correto, meu soberano?

- Mewleficent não sabe o significado de metade das coisas que disse. E a única pessoa de quem ela pode ter ouvido isso é você!

A felin oportunista tentou se fazer de inocente de novo.

- Mas por que acha que fui eu, majestade? Não sou a única adulta com quem a princesa tem contato. Posso saber o que exatamente ela disse para aborrecê-lo tanto?

O descaramento de Mewlith estava fazendo o sangue do Lorde das Trevas fervilhar. Num movimento súbito ele percorreu a pouca distância que ainda havia entre eles, ficando com seu rosto moldado em fúria a poucos centímetros do dela.

- Sobre o meu novo herdeiro ser um bastardo, que eles não são irmãos e que ele nem deveria existir. E para piorar, ainda disse que estou tentando substituir o único irmão verdadeiro dela! Um discurso absurdo idêntico ao seu no dia em que teve a audácia de achar que podia me confrontar! E pelo visto, não aprendeu sua lição ainda, não é?!

Devimyuu a agarrou por um dos braços, o que fez Mewlith arregalar os olhos pela atitude inesperada. Era perceptível em seus olhos diabólicos que o desejo de líquida‐lá crescia cada vez mais, porém, Mewlith sabia que enquanto pudesse contar com seu trunfo, ele jamais encostaram sequer um dedo nela.

- Com todo respeito, majestade, mas talvez sua filha tenha mais entendimento das coisas do que o senhor imagina. O que te faz pensar que ela não pode ter dito tudo isso por iniciativa própria?

- Ela tem nove anos, Mewlith! NOVE! E ela mesma me confessou que a única coisa que entendia daquelas palavras eram que significavam algo ruim! Ainda acha que não foi por influência de um adulto?! Até quando você acha que vai se esquivar da culpa?!

Mewlith tentava se soltar, porém discretamente, para não deixar evidente que de fato Devimyuu estava conseguindo intimidá-la.

- Nesse caso, concordo plenamente que tenha um adulto envolvido. Mas não sei por que presume que seja eu. Peço mil perdões pelo que vou dizer, alteza, mas é um fato que existem muitas opiniões controversas a respeito do seu novo "herdeiro". Ela pode ter ouvido isso de qualquer um dos criados!

Devimyuu a apertou com um pouco mais de força, olhando dentro de seus olhos ameaçadoramente.

- Com quem pensa que está lidando? Acha que eu sou idiota? Eu SEI que foi você, Mewlith! Vamos deixar uma coisa bem clara aqui. Na primeira vez em teve a ousadia de me questionar a respeito do meu novo filho, eu só não te mandei apodrecer numa prisão por ser a mãe de Mewleficent! Eu já matei muito mais, por muito menos! Mas se você continuar a tentar influenciar minha filha ao seu favor e contra mim ou contra o novo irmão dela, pode ter certeza que nem o amor de Mewleficent por você irá salvá-la Este é meu primeiro e último aviso. Estamos entendidos?

Por mais que os lábios carnudos e delineados por um marcante batom preto de Mewlith estivessem ligeiramente trêmulos enquanto pressionavam um ao outro, ela seguiu o encarando firmemente, sem desviar os olhos por nenhum instante. A felin assentiu, engolindo seco.

- Claro, majestade... - Proferiu entre os dentes, deixando escapar um certo tom de desprezo e ódio no modo como o chamou de majestade.

Devimyuu finalmente a soltou. Estava para sair quando parou no último instante, virando a cabeça levemente, mas não o suficiente para se dar ao trabalho de olhar em seu rosto outra vez.

- E saiba que os recursos disponibilizados a você e enviados ao Palacete Carmim serão reduzidos pela metade.

Diante da ira tremenda e de tudo que Devimyuu disse, aquela foi a que mais impactou Mewlith. Poderia lidar facilmente com outra ameaça de morte - preferia, aliás - mas não com aquilo. Finalmente perdendo a compostura de seu ar soberbo, com o rosto incrédulo ela correu até Devimyuu e o segurou num ato de desespero antes que ele deixasse o recinto.

- Espere, milorde! Meus ganhos já foram reduzidos pela metade há seis meses! Esse novo corte me deixará apenas com ¼! Uma fêmea do meu patamar não pode viver apenas com uma miséria dessas! Nós tínhamos um acordo! Já não basta não me fazer sua consorte, irá mesmo me condenar a essa humilhação, majestade?!

- Deveria ter pensado nisso antes de insultar meu novo herdeiro e achar que podia tirar satisfações sobre com quem eu o concebi. E pra terminar, ainda teve o fato inaceitável de dizer que eu o estava usando para substituir o meu primeiro príncipe! Agradeça por eu não te mandar de volta para a verdadeira miséria de onde você veio!

Dizendo isso, Devimyuu puxou bruscamente o punho onde Mewlith estava agarrada e simplesmente desapareceu através de um teletransporte, não ficando para ver seu olhar estagnado de indignação, e o ataque de raiva da fêmea que viria em seguida.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top