08 - Artifício das Sombras

O deus supremo da Escuridão criou os reversos com um único objetivo em mente: destruir os puros colocando sua frágil mortalidade em evidência, e subsequentemente, apontando a falha de seu irmão em criá-los. Contudo, seu plano malevolente mostrou falhas logo em sua fase inicial, resultando na expulsão de Ghanog da dimensão dos deuses junto às próprias criações que ele tanto desprezava.

Na dimensão onde foi trancafiado, Ghanog criou um mundo à sua imagem - o Mundo Reverso, onde governava como o único deus supremo. O repúdio aos mortais que ele mesmo trouxe à existência o tornou um deus cruel, e seu mundo distorcido era um lugar tenebroso onde os felins reversos sofriam em demasia, cercados por um ambiente caótico, violento e imoral; onde acima de tudo imperava a maldade.

No topo deste mundo como seu governante absoluto, estava o Rei Reverso; que apesar do título, mais se equiparava a um temível imperador em sua soberania incontestável.
Este era Devimyuu Nekohashi - atual Lorde das Trevas, e terceiro semideus Arquemônio dessa era, como o nemesis do semideus Arcanjo.
O poder mágico que herdado em seu sangue o tornou um bruxo de poder implacável. Nada, nem ninguém abaixo dos deuses podia se igualar com a força de sua magia.

Devimyuu era um felin cujo físico atraente fazia jus a beleza de um semideus. Alto, e de postura imponente, seus hipnotizantes e intimidadores olhos dourados contrastavam perfeitamente com sua pelagem em azul profundo.

Ele possuía três chifres; dois menores perto das orelhas e outro um pouco mais grosso e afiado no meio da testa, com boa parte oculta entre os pesados cabelos negros majestosos que iam quase até a cintura. Também havia quatro espinhos longos em seu rosto - dois de cada lado - e a peculiar ponta de sua longa cauda com a forma exata de um tridente sendo a marca de sua identidade como um semideus arquemônio.

A manhã no Mundo Reverso havia nascido há apenas algumas horas. Fria e apática como de costume, onde o miasma impregnado no ar do lado de fora quase não permitia que os fracos fachos do opaco sol reverso atravessassem muito além de seu lugar naquele céu cinzento.

Numa sala umbria no topo de uma torre da fortaleza impenetrável de sua majestade, o Rei Arquemônio se encontrava sentado numa espécie de trono macabro, em meio ao cenário sobrenatural mórbido. O local tinha as paredes preenchidas por livros de bruxaria - alguns tão antigos quanto as primeiras escritas - inúmeros vidros de poções e ingredientes para feitiços, guardados em receptáculos estranhos.

Num lado da sala, sobre um tripé redondo de prata, apoiava-se um grande e fundo caldeirão de ferro. Negro, reluzente e com a imagem de um crânio felino encrustado em sua superfície, cujos olhos eram duas gemas mágicas vermelhas hipnotizantes.

Havia um enorme espaço entre o trono macabro adornado com os ossos dos falecidos inimigos que ousaram se opor a seu dono e um tenebroso espelho encantado diante deste. A sala era o Santuário das Sombras, e o espelho era um artefato arcano chamado Sombríage.


Um felin de biotipagem dupla - exótico e alado, com asas procedendo dos braços de harpia e pelagem cor de canela com pintas como de um guepardo, o acompanhava. Sobre seu olho direito permanecia uma cicatriz antiga, e seus trajes adornados deixavam claro sua posição elevada. Seu nome era Mewosek Askari, o leal Chanceler de sua majestade desde sua tomada e ascensão ao trono, quando Devimyuu tinha dezenove anos e Mewosek apenas dezesseis. Como chanceler, ele detinha a maior autoridade na corte reversa depois do próprio rei, devido à confiança que o mesmo tinha nele. Ambos se conheceram quando ainda eram apenas garotos, dois felins adolescentes sem família, guardando rancor de feridas passadas em seus corações tão jovens.

O rei reverso segurava um cálice dourado de vinho, à medida que olhava impaciente para o Sombríage.
O espelho mágico maligno se encontrava ativo, com suas bordas de ébano irradiando um demoníaco brilho vermelho pulsante. Em sua superfície distorcida como se o vidro se tornasse líquido, uma figura misteriosa foi se formando até que a imagem ficou nítida, revelando um felin encapuzado e com a face oculta.

- Heil, Soberano Rei Arquemônio - saudou a figura.

- É melhor que tenha boas notícias - respondeu secamente o rei.

- Deveras, majestade. A operação foi bem-sucedida - informou um dos mais poderosos e possivelmente o mais importante subordinado de sua majestade, outro habilidoso feiticeiro negro conhecido apenas pelo codinome Conde DarMage.

- Alguma complicação? - perguntou Devimyuu, apático, sem esboçar qualquer reação diante das "boas notícias".

- Nenhuma. Consegui apanhar o Grimório facilmente, conforme lhe garanti.

Devimyuu tomou outro gole, em seguida apoiou o cálice pela metade sobre uma pequena mesa redonda de ouro, ao lado do trono. Ele se recostou no mesmo, com um olhar intenso e compenetrado, encarando seu aliado de forma impassível.

- Ele está bem escondido? Os puros não podem encontrá-lo antes de eu seguir com meu próximo passo - questionou o rei.

- Está, soberano. Com a âmbar-coração que me forneceu, nem mesmo o rei mago deles o encontrará facilmente.

- Ótimo. É bom que faça valer, pois fui contra os meus princípios para conseguir aquela âmbar.

Quando mencionou que foi contra seus princípios para conseguir a tal âmbar, o chanceler pôde jurar que notou brevemente um relapso de culpa em seu olhar sombrio.
Mewosek não se surpreendeu com tal reação. Contudo, ele conhecia Devimyuu há praticamente duas décadas, e o fato do Lorde das Trevas seguir um código de conduta próprio sempre o impressionou. Afinal, foi graças a este mesmo código que Mewosek teve sua vida salva por Devimyuu quando ele era um menino de treze anos escravizado, na ocasião em que encontrou o semideus também ainda adolescente que se tornou seu salvador, e a quem ele jurou lealdade até o último dia de sua vida.

- Com todo respeito, milorde, isso não é algo costumeiro de se ouvir de um Lorde das Trevas... - disse a figura no espelho.

O rei não respondeu. Seu olhar intimidador foi suficiente para deixar claro que ele não estava ali para perder tempo com conversas paralelas e que os comentários de DarMage eram totalmente dispensáveis.

- Bem, majestade... - o feiticeiro prosseguiu - Se estiver de acordo, daremos prosseguimento à próxima fase. Poderei entrar em contato daqui a algumas horas, ao fim da tarde no mundo dos puros, para não comprometer minha ocultação. Daí poderemos combinar como será feita a entrega.

Devimyuu encarou o subordinado com um olhar duvidoso. Odiava quando DarMage parecia querer se envolver demais, afoito em realizar aquilo que as Sombras há muito aguardavam ser feito. Devimyuu vinha trabalhando exclusivamente nisso durante os últimos três anos, quando finalmente aceitou a imposição de que era o único que poderia realizá-lo. Seu plano era meticuloso e sem espaço para falhas. E agora quando enfim se encontravam num momento tão crucial para a concretização do mesmo, cada etapa deveria ser revisada em seus mínimos detalhes.

- E quanto a réplica? Sabe que precisa ser uma duplicata perfeita. Se a magia dele falhou nem que seja numa mínima fagulha, o feitiço não será o mesmo. E eu não falharei com Ghanog por causa de você, do seu fantoche, ou de ninguém!

- Não se aflija, meu soberano. A magia dele tem sido a minha há décadas, e eu não cometo erros. A réplica não só saiu impecável como já se encontra segura comigo. Por isso, mencionei de realizarmos a entrega.

- Mantenha-a escondida num lugar seguro. Direi o que fazer quando for a hora.

A figura misteriosa no espelho fez uma breve reverência ao rei.
- Como quiser, majestade.

A comunicação entre os bruxos foi encerrada, e o Sombríage voltou ao estado normal, desativando-se.

- Encha meu cálice, Mewosek - Devimyuu ordenou, tomando o vinho que restava e entregando o cálice ao seu ministro. Ele esfregava o rosto com as mãos, chegando num ponto onde já não podia mais esconder o seu cansaço. Não tinha dormido nada naquela madrugada, como na noite anterior, e na outra antes dessa.

Mewosek apanhou a garrafa de vinho mágico envelhecido que estava sobre uma das prateleiras e encheu o copo de sua majestade. Enquanto o fazia, reparou que Devimyuu olhava pensativo para uma mesa de pedra que havia noutra parte da sala. O Lorde das Trevas a encarava com aquele mesmo lampejo de culpa que demonstrou antes, quando falava com DarMage. Como alguém que o conhecia muito bem e possivelmente seu único amigo, Mewosek resolveu arriscar um palpite.

- Imagino o que está pensando, milorde. Confesso que mesmo não entendendo muito as razões, acho isso admirável. Como sempre te achei muito mais nobre do que os outros Lordes das Trevas ou do que qualquer outro reverso, no geral - ele disse, enquanto servia.

- Além de puxar o meu saco, não sei aonde quer chegar com isso - respondeu Devimyuu, pegando o cálice e desconversando.

- Acho que sei o que está te incomodando. Não devia se sentir assim. A intoxicomonia o mataria de qualquer jeito, você na verdade o poupou de uma repulsiva morte lenta e dolorosa e ainda deixou que tivesse uma última refeição digna de um príncipe. Tenho certeza que nos oito anos da vida miserável que o garoto viveu, ele nunca foi tão bem tratado quanto nas horas em que esteve aqui. O senhor foi muito justo, mais do que deveria ser, como de fato sempre é, majestade.

Devimyuu olhou novamente para a longa plataforma retangular de obsidiana, mais ao longe à esquerda da sala e sob uma das altas janelas de acabamento gótico da torre. Manteve seu olhar fixo ali. Em sua superfície, ainda haviam resquícios de sangue, resultantes do ato realizado há duas noites e do qual ainda se culpava.

- Não foi a doença que o matou, mas a lâmina da minha lança Killsceptor perfurando o coração dele.

- Mas, majes... - Mewosek ia tentar argumentar, quando Devimyuu o interrompeu, virando-se e olhando para ele.

- Sabe por que recebeu o nome de âmbar-coração, Mewosek?

O chanceler negou com a cabeça.

- Porque em combates do passado, quando os puros descobriram que os primeiros bruxos reversos conjuravam esse feitiço negro de ocultação criando um âmbar feito com o sangue de uma vítima inocente sacrificada, eles disseram que só seres vis sem coração seriam capazes de cometer um ato desses. Os feiticeiros antigos aderiram ao nome, porque deixava os puros horrorizados.

Devimyuu terminou a explicação, tomando mais um gole do cálice, com inexpressão em seu rosto.
Mewosek mostrou um semblante sério e olhou nos olhos do rei.

- Pode até ser, mas isso não se aplica a você. Se fosse outro bruxo, se fosse qualquer outro rei, teria mandado raptar uma criança pobre aleatória que estivesse de bobeira num vilarejo qualquer. Mas o senhor mandou procurar especificamente um filhote de rua, órfão, doente e abandonado à própria sorte. Fez um favor àquele moleque, milorde. Foi ato de misericórdia matá-lo antes que a intoxicomonia o fizesse começar a vomitar os próprios órgãos. Sei que é estranho dizer isso, mas você tem mais coração do que qualquer outro reverso que existe em nosso mundo, milorde.

Devimyuu o encarava igualmente, mas de súbito desviou o olhar ao ouvir as palavras de Mewosek.
- Não, eu não tenho - respondeu seca e rispidamente.

- Perdão, mas vou ter que discordar. Nós sabemos que não teria o sacrificado se tivesse outra escolha, mas não teve. Todas as decisões que tem tomado nos últimos três anos não foram escolha sua. Lembre-se disso, majestade.

Insistiu Mewosek.

- Basta desse assunto, não quero mais falar sobre isso! Volte para a sala do trono e me deixe sozinho. Tenho que revisar os passos da próxima etapa do plano e você deve cuidar do palácio. Portanto, suma daqui! - exclamou o Rei das Trevas, enxotando seu chanceler.

Mewosek jamais ousaria desobedecer a vontade de seu lorde. No entanto, ele se sentia dividido quando essas vontades apresentavam algum risco ao bem-estar de Devimyuu. E ele não tinha medo de deixar isso bem claro.

- Majestade, eu entendo melhor do que ninguém sua ânsia em continuar, principalmente agora que estamos um passo mais perto. Mas, para que seu plano continue se saindo perfeito, você também precisa estar com suas condições físicas plenas. Por isso eu insisto que descanse pelo menos um pouco. Afinal, já fazem três noites que o senhor está em claro...

Devimyuu se levantou bruscamente do trono, bufando e com uma expressão descontente.
- Eu não tenho tempo a perder com descanso, Mewosek! Acha que os puros vão descansar agora que já sabem que o Grimório de Mizantri desapareceu?! Eu estou muito perto de chegar no momento mais difícil que colocará em jogo tudo o que eu fiz, e tudo que eu sacrifiquei até agora! Você sabe o que eu vou perder se eu falhar!

Alterado, o rei Arquemônio agora encarava Mewosek face a face nesse momento; seus olhos refletindo que estava a pouco de perder o controle. Porém, o chanceler sabia que não se tratava de fúria. Era o apego desesperado de seu lorde a uma última esperança.

Mewosek suspirou, e abaixou a cabeça numa leve reverência.
- Sim, o senhor tem razão. Temos que nos focar no mais importante agora. Vou me retirar e cuidar de meus deveres. Se precisar de mim não hesite em me chamar. Com sua licença, milorde.

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