06 - O Magistrado Reverso
Kinmyuu subiu os largos degraus de granito que levavam à entrada principal, com estátuas de um leão de cada lado, e adentrou no prédio assim que as portas automáticas se abriram. O ar climatizado deixava o ambiente um pouco mais frio no saguão, onde atrás de um balcão meia-lua a recepcionista recebeu o rei com um sorriso formal.
— Muito boa tarde, Rei Supremo. Prazer em tê-lo por aqui. Ela cumprimentou, conforme Kinmyuu se aproximava.
— Boa tarde, Mewlissa. Como vai? — o rei cumprimentou de volta, enquanto seguia para tomar o elevador à direita.
Apertou o botão e o mesmo não demorou muito para chegar. Kin entrou e desceu no quarto andar, seguindo pelo corredor largo e envidraçado que levava até um conjunto de seis salas grandes ao longo dele.
As salas pertenciam aos embaixadores. Nihsies tinha vários felins no cargo por ser a nação que mais tinha contatos frequentes com todos os outros reinos, e era preciso ter quem a representasse.
Kinmyuu parou em frente à segunda porta. Estava entreaberta e, na placa fixada nela, lia-se o nome Myuspencer Leighton. O rei deu três batidas de leve e a voz do próprio Myuspencer convidou quem batia a entrar.
— Em que posso aju… Oh! Majestade! — O felin se surpreendeu ao parar de mexer em certos documentos que organizava e erguer a cabeça, percebendo que era o próprio Rei Supremo em sua sala. — Saudações, meu Grande Rei. É muito bom ver o senhor por aqui!
Kinmyuu apertou a mão do embaixador com firmeza.
— Prazer vê-lo também, Myuspencer. Espero que você e sua família estejam bem.
— Estamos, sim, obrigado. Por favor, sente-se, milorde. Em que posso servi-lo hoje?
Dedicado e comprometido com seu trabalho, Myuspencer era um felin prestativo e simpático, aparentemente da mesma idade de Kin. Ele usava óculos de estilo moderno e um terno justo bem confeccionado, sob sua faixa de embaixador. A expressão em seu rosto era calma e refletia positividade.
Kinmyuu se ajeitou, puxando sua cadeira com seu poder psíquico, ao passo que Myuspencer se sentou em sua poltrona atrás da mesa que o separava do Rei Supremo. O embaixador olhava atentamente; o rei entrelaçou as mãos e as apoiou sobre as pernas cruzadas, encarando-o também, e se pôs a falar.
— Myuspenser, eu preciso te delegar uma tarefa muito importante. Você é nosso representante real com Homsafetown II e, se não me engano, reside lá com sua família há alguns anos, estou certo?
O embaixador assentiu.
— Isso mesmo, majestade. Me mudei pra lá quando me casei. Do que o senhor precisa? É só me dizer, que darei um jeito — ele disse, como sempre, determinado.
— É que talvez não seja tão simples. Eu preciso que você entregue pessoalmente uma mensagem minha para o Magistrado Mewhicann, mas sei que pode ser difícil contatá-lo…
Umas das regras de diplomacia entre reinos exigia que, quando um rei de outra nação fizesse uma convocação formal da presença de um governante de outro reino, esta deveria ser realizada através de uma mensagem específica gravada por tal rei ou rainha, e entregue pessoalmente por um de seus embaixadores ao governante a ser chamado.
O Grande Rei estava receoso, porém, para sua surpresa, o embaixador mostrou um sorriso no canto dos lábios e uma expressão bastante tranquila.
— Bem, realmente o Magistrado Mewhicann não é alguém fácil de se entrar em contato pessoalmente. Mas não se preocupe, majestade, felizmente sou um dos poucos que consegue.
— Você realmente nunca decepciona, Myuspencer — elogiou Kinmyuu, admirado.
— Imagine, milorde, esse é o meu trabalho. Pode ficar tranquilo que garanto entregar sua mensagem. Eu sei onde encontrar o magistrado.
Ciente do comportamento excluso do magistrado, Kinmyuu se impressionou com o que Myuspencer disse, mas ao mesmo tempo, ouvir isso o deixou aliviado.
— Eu sabia que poderia contar com você. Vou gravar a mensagem.
Kin se levantou da cadeira, afastando-se um pouco, e tirou do bolso um disco tecnológico do tamanho de uma moeda grande; um holodisco. Ele o colocou na palma da mão e uma pequena luz LED verde no contorno do mesmo passou a piscar. Myuspencer permaneceu em silêncio para não atrapalhar a gravação da mensagem. O rei não demorou a fazê-la. Em poucas palavras, cordiais, porém precisas, ele terminou.
— Aqui está — disse, entregando o holodisco nas mãos do embaixador. — Peço que, por favor, a entregue o mais rápido possível. O magistrado e eu temos um assunto de suma importância a tratar.
— Precisamente, majestade. Sairei assim que o senhor partir e lhe aviso logo que entregar a mensagem — respondeu Myuspencer, guardando o holodisco no bolso interno do terno.
— Muito obrigado, Myuspencer. Nosso reino e eu te agradecemos.
O rei lhe deu um aperto de mão para se despedir e se dirigiu até a porta. Myuspencer o acompanhou e, pouco antes de ir, Kinmyuu se virou para ele.
— Caso fique muito em cima da hora, não se preocupe em voltar pra cá. Pode ir para casa, pedirei que abonem o resto do seu dia.
— O senhor tem certeza? Quero dizer, tem muito trabalho a ser feito na semana dos portais. Podem precisar da minha ajuda, milorde.
— De fato, tem. Mas sua segurança vem primeiro. Entre nossos embaixadores, você é o que reside mais longe. Não quero que se arrisque a chegar em Homsafetown depois do pôr do sol. Nessa hora temos de estar seguros com nossas famílias em casa, não concorda?
Na semana dos portais abertos, o pôr do sol era o toque de recolher dos puros, visto que assim que a noite caía, os portais se abriam e os reversos à espreita saíam prontos para atacar. Sendo assim, era recomendado ao povo que permanecesse protegido em suas casas, enquanto as guardas reais e civis patrulhavam as ruas, garantindo a segurança.
Myuspencer assentiu, acatando o alerta do Grande Rei.
— Sim, o senhor está certo, majestade. Agradeço por se preocupar.
O reino escondido de Homsafetown se encontrava praticamente do outro lado do continente onde ficava Nihsies. Uma viagem que, sem a alta tecnologia de teletransporte aprimorada com magia que a sociedade dos Puros desenvolveu nas últimas décadas, certamente seria impossível de ser realizada ida e volta todos os dias. Portanto, graças ao Ponto de Teleporte, algum tempo depois Myuspencer agora já se encontrava na autoestrada principal da cidade de Hinland, a capital localizada em Hinamaru - uma das ilhas que constituíam o arquipélago onde Homsafetown se localizava.
Contudo, mesmo já estando na cidade onde morava, Myuspencer ainda tinha uma boa distância a percorrer até de fato chegar em seu destino. A capital Hinland era a maior cidade do reino, se dividindo em dezesseis distritos diferentes. Além disso, cada cidade-ilha pertencente a Homsafetown contava apenas com um Ponto de Teleporte, pois se tratava de um reino escondido, e dessa maneira era mais fácil de supervisionar o fluxo de acesso vindo do continente. Sendo assim, seria aproximadamente mais uma hora de viagem até que o embaixador chegasse onde precisava para cumprir a missão de entregar a mensagem do Grande Rei ao Magistrado Mewhicann.
De sua janela, podia avistar o glorioso monte Magnui, cercado por cadeias de montanhas menores, porém quase tão milenares quanto ele, como o momento natural que era como uma marca própria do reino.
O céu do lado de fora se mostrava um azulado cinzento carregado de nuvens densas, indicando que uma chuva passageira estava por vir. Um evento quase diário muito comum de acontecer devido ao clima marítimo da ilha.
Myuspencer aproveitou a parada obrigatória em um semáforo fechado para usar o telefone no painel de seu espeedar e ligar para casa. Logo, a voz infantil de um menino atendeu, se tratando de um de seus trigêmeos.
— Oi, Gabe, filhão. Tudo bem aí? — Ele aguardou a resposta do garoto. — Ah, que bom. Escuta, filho, sabe se por acaso seu avô está em casa a essa hora?
"Acho que hoje é dia do vovô almoçar com a esposa dele, pai. Ele já deve ter ido." — respondeu o menino.
Myuspencer agradeceu e disse que logo estaria em casa, porque chegaria mais cedo do trabalho. Após isso, desligou e seguiu conforme o sinal abria. Ele já sabia onde encontraria Mewhicann.
Neste meio tempo, num local pouco afastado do centro de Hinland, o magistrado estava exatamente onde o embaixador presumia. Ele era um felin de boa postura, pelos acinzentados e uma longa cauda com a ponta como um bidente. Usava constantemente um sobretudo preto que cobria dois terços de suas pernas e botas também negras. Com cabelos um tanto desgrenhados entre os chifres, também possuía um cavanhaque um tanto intimidador, porém que lhe proporcionava certo charme, embora ter charme ou não ter não lhe importasse; aliás, eram muito poucas as coisas que lhe importavam.
— … e só ontem foram apanhados outros reversos invasores. Tinha mais, mas esses outros conseguiram fugir e se esconder. A guarda está em busca, mas acho que vou patrulhar por conta própria pra pegar esses malditos. — O felin fez uma pausa e tomou um longo gole de whiskey direto da garrafa — Quero enxotá-los porque é minha responsabilidade também, e sei que é o que gostaria que eu fizesse. Não se preocupe, minha fada.
Quem falava era o próprio Mewhicann, o magistrado de Homsafetown. Não houve resposta para suas palavras, visto que aquela conversa não se tratava de um diálogo. Não havia outro felin para conversar. Diante dele estava apenas uma lápide em forma de um obelisco dourado, ornamentado com delicadas flores e ramos feitos de quartzo rosa, com um emplacamento em ouro, gravando o nome daquela a quem aquele túmulo memorial representava. A falecida rainha de Homsafetown e esposa de Mewhicann, dada como morta junto com o filhote recém-nascido deles há mais de trinta anos, durante uma brutal invasão reversa ao seu palácio, que acabou quase incendiado por completo.
Mewhicann jamais superou a perda devastadora de sua família, se culpando por não ter sido capaz de salvar a fêmea que amava e o filho mais que desejado que havia acabado de nascer. A cada dia de sua vida, ele desejava ter partido com eles. Seu sofrimento insuportável o levou a pedir a exoneração do trono de Homsafetown. Não era permitido que um rei fizesse isso, mas Mewhicann não se importava em ser preso; absolutamente mais nada lhe importava.
Contudo, compreendendo suas condições, Odimyuus, — que era o Grande Rei na época do acontecido — abriu uma exceção à regra e permitiu que Mewhicann apenas se afastasse de suas funções reais, para caso um dia ele quisesse ou precisasse retornar ao trono, pudesse assim fazê-lo.
Mewhicann nunca voltou a exercer suas plenas funções como rei, mas após vários anos em isolamento, ele enfim aceitou atuar como o magistrado de Homsafetown para cuidar do reino que sua falecida esposa herdara e tanto amava.
Seus olhos eram dourados, mas há muito tempo não havia brilho neles. Apenas um vazio pesaroso e sem vida, e com esse mesmo olhar ele encarava seu próprio reflexo turvo na placa dourada da lápide de sua esposa. Três vezes por semana, ele visitava o mausoléu de sua família, e ficava ali por horas. Certas vezes contava sobre seu dia e noutras não dizia nada, deixando apenas as lágrimas falarem por si.
E em todas as vezes, uma garrafa com alguma bebida alcoólica sempre o acompanhava; entrava com ele cheia e saía vazia. A única coisa que não se esvaziava era a angústia sem tamanho que preenchia seu coração — ou, pelo menos, o que restara dele.
Sentado sobre o túmulo frio de mármore perolado, Mewhicann se forçou a engolir o resto do sanduíche de pastrami com purê de kabóbra e salada de folhas de trevo que trouxera. Este era seu almoço, pois em seus dias de visita, costumava comer ali mesmo. Mewhicann não era um felin que ligava para ter uma dieta saudável e tampouco se importava com o fato de comer num cemitério.
Ele estava prestes a apanhar a garrafa novamente, quando ouviu passos se aproximando.
— Eu já volto — disse para a lápide da esposa, levantando-se e dirigindo-se até a entrada do mausoléu. Entrada essa ornamentada na forma de um gazebo, cujo cada centímetro era preenchido por ramos de rosas azuis selvagens, as favoritas da falecida rainha.
Reconheceu o felin que se aproximava subindo a escadaria de granito que levava até ali. Mewhicann o encarou por uns instantes sem mostrar reação alguma e voltou para dentro, dando-lhe as costas. O felin o seguiu.
— O que quer, Myuspencer? Sabe que não gosto de ser perturbado quando estou com a minha família.
Mewhicann disse num tom gélido, que para Myuspencer, soou no mínimo ameaçador.
O embaixador pediu licença para entrar e, com cuidado, prosseguiu mais alguns passos, parando a certa distância do magistrado, que voltara a se sentar sobre o túmulo de sua rainha, de costas para ele.
— Eu sei e sinto muito mesmo. Eu não queria te incomodar, mas não sabia que horas você sairia daqui, e tenho uma mensagem muito importante que preciso te entregar.
— Deixasse um recado… — respondeu o magistrado, após tomar mais um gole de bebida. Ele ainda parecia bastante descontente com a aparente intromissão de Myuspencer.
— Bom, juro que deixaria se eu pudesse, mas dessa vez não dava, sogro… — Myuspencer ajeitava os óculos meio sem jeito enquanto falava. Sim, ele era genro de Mewhicann.
— Estou aqui a trabalho, trago uma mensagem formal urgente do Rei Supremo pra você. Está aqui nesse holodisco.
Mewhicann por fim se virou, observando o holodisco nas mãos de Myuspencer. Ele sabia o que aquilo significava. Ficou ligeiramente intrigado. Nos doze anos desde o início de seu reinado, Kinmyuu nunca tinha convocado sua presença. Ambos sequer se conheciam pessoalmente. Ele se perguntava o que o Grande Rei quereria com ele tão urgentemente.
— Me dê um minuto — disse Mewhicann, soando seco e direto, voltando a lhe dar as costas.
O embaixador entendeu que ele queria se despedir e respeitosamente se retirou em silêncio para esperar o sogro do lado de fora. Mewhicann tinha uma sobrinha, filha de seu meio irmão mais novo. A menina ficou órfã ainda recém-nascida e, como seu único familiar, ele a adotou legalmente e a criou como sua própria filha. E por sua parte, a felin também o enxergava como pai, mesmo sabendo que na realidade se tratava de seu tio. Ela e Myuspencer eram um caso raríssimo de casamento entre as raças, visto que era uma reversa, enquanto ele era um puro.
— Ao que parece, o filho do lorde Odimyuus está querendo me ver. Acho que enfim vou conhecê-lo. Ele é um ótimo rei e com certeza deve ser uma boa pessoa, mas me pergunto o que ele quer comigo. — O magistrado se levantou enquanto falava — Bem, se eu não voltar, é porque aquele tio imundo dele enfim conseguiu inventar um motivo para me prender. Caso contrário, estarei aqui depois de amanhã. Até breve, minha fada… Eu amo você.
Rumo à saída, Mewhicann passou pelo túmulo de seu pequeno príncipe e o olhou rapidamente com o canto dos olhos. Deste não se despediu, pois não conseguiu encontrar palavras para fazê-lo. Mesmo após trinta e cinco anos, ele nunca conseguia.
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