01 - O Suplício do Supremo
Era o ano 3022. No Mundo Puro, a terceira Era do Supremo tivera seu início há exatos trinta e sete anos, no nascimento do terceiro semideus arcanjo. Todos os reinos desfrutavam de incomensurável paz, prosperidade e segurança, graças ao governo do Rei Supremo atual - Kinmyuu Mewrichard M. Kesstal Nihsicat - nono na linhagem de sua família a governar.
Estava prestes a amanhecer mais um dia, com a noite a se despedir, enquanto os primeiros raios de sol se desdobravam atrás das montanhas, sob o céu lilás se pincelando em tons laranja.
Nada além do canto de alguns passarinhos despertando nas árvores dos jardins podia ser ouvido no majestoso palácio na Capital do grande reino. Nenhum funcionário da corte havia chegado e cada membro da família real repousava em seus aposentos. No entanto, num dos quartos do enorme castelo, a suave melodia matinal foi interrompida pelo toque incessante de uma ligação.
- Mhh... Zar... O que houve? - Atendeu um felin mais velho, de pelagem lilás com um cavanhaque bem feito e roxos cabelos bagunçados. Sua voz estava tão sonolenta quanto a expressão em seu rosto de olhos azuis semiabertos.
O outro felin a conversar com ele soava alarmado, sua voz tão trêmula de pânico que ele mal conseguia falar.
"Heimy... a... a sua visão... ela... aconteceu... E é... é muito pior... do que sequer imaginamos!"
Neste meio-tempo, na suíte real, ao final do corredor, Anmyuu Mewnabett - a Rainha Suprema - se levantou carregada pelo sono para ir ao banheiro. Ela possuía grande beleza, de pelagem rosa clara e singelos olhos azuis, com sedosos cabelos formando belos cachos repicados até a cintura, também da cor rosa, porém, de tom mais escuro.
Sua intenção era voltar o mais rápido possível para debaixo das cobertas no aconchego de sua grande cama macia. Entretanto, ao sair do toilette, percebeu que o lado de Kinmyuu na cama estava vazio.
- Kimy? - Anmyuu chamou, ao deslizar a ampla porta de vidro atrás das cortinas, que levava até o grande terraço do quarto.
Kinmyuu se virou. Ele estava numa bolha luminosa de energia psíquica flutuante criada por si mesmo, sentado de pernas cruzadas em meditação - um hábito muito natural para felins psíquicos.
O Grande Rei também detinha uma bela aparência; como esperado do arcanjo terrestre, sua pelagem era de um azul-celeste reluzente, e seus olhos penetrantes que refletiam a mais pura gentileza eram como duas pedras de safira. Tons de azul bem claro também refletiam em seus cabelos naturalmente platinados, que formavam um elegante topete, com alguns fios caindo charmosos sobre sua testa.
- Por que está de pé tão cedo, meu amor?
- É que precisei ir ao banheiro. Mas e quanto a você? Faz tempo que está aqui? - ela perguntou gentilmente, aproximando-se dele.
- Bem, creio que faz um tempinho, sim, o sol ainda nem tinha começado a aparecer. Eu acabei perdendo o sono, então vim para cá.
A rainha o abraçou por trás, contornando os braços em volta dos ombros de seu amado.
- Foi... o pesadelo de sempre?
Kinmyuu colocou uma das mãos sobre as dela, acariciando-a e suspirou levemente, demorando um pouco para responder.
- Sim, novamente com a voz que chama em meus sonhos. Estava escuro, nebuloso... A única coisa que eu via era aquela mão esticada em minha direção pedindo ajuda. Como sempre, quando tentei alcançá-la, meu pulso começou a sangrar, e então acordei. Mas dessa vez, aquele apelo desesperado de socorro gritando meu nome pareceu mais real do que nunca. Está cada vez mais forte, como se fosse mais do que só um sonho ruim, eu senti como se... já tivesse vivido aquilo. Acordei num susto e fiquei tão angustiado que não consegui mais dormir.
- Oh... Sinto muito, querido. Você devia ter me chamado, eu sei como fica sempre que tem essas visões...
Desde seus 16 anos, Kinmyuu sofria com um pesadelo recorrente onde ouvia uma voz pedir a ajuda dele desesperadamente. E toda vez que despertava desse sonho, ele sentia uma dor lancinante em seu pulso, e uma angústia incomparavelmente mais torturante em seu coração. Uma tristeza que ele não conseguia compreender lhe acometia, e embora não soubesse exatamente o quê, ele sentia como se faltasse uma parte de si, como se a mesma tivesse lhe sido arrancada.
- Tudo bem, não quis te acordar, mozão. Além do mais, eu já devia esperar algo do tipo. Há dois dias começou a semana dos portais, e esse sonho sempre se intensifica nesta época.
Os limites dimensionais que interligam o Mundo Puro e o Mundo Reverso podiam ser cruzados através de portais, que se abriam em pontos aleatórios a cada lua nova. Dia e noite eram opostos em cada realidade, e quando o sol se punha e o céu do Mundo Puro era engolido por um breu quase sem estrelas, a travessia estava aberta até o sol nascer durante sete dias, até a lua mudar de fase.
- Está doendo muito? - a rainha perguntou, preocupada, ao reparar na tala do pulso direito do marido; resplandecendo um leve brilho esverdeado, devido a magia de cura que emanava da mesma.
- Estava doendo bastante quando acordei, mas agora melhorou. Não se preocupe, amor. - Kinmyuu forçou um pequeno sorriso, esperando diminuir a preocupação da esposa.
Como um semideus, Kinmyuu possuía fortes poderes regenerativos, mas nunca conseguiu se livrar da estranha dor no pulso direito. As talas mágicas apenas aliviavam a intensidade da dor para que não se tornasse insuportável.
Especialistas renomados que o Grande Rei procurou ao longo dos anos não foram capazes de tratar o problema, pois fisicamente, não havia nada de errado com o pulso de sua majestade. Alguns concluíram que era algo além de seu conhecimento, dado ao fato de que o Rei Supremo era um semideus. Já outros afirmaram ser uma dor psicológica, um mal muito comum em felins psíquicos passando por algum estresse ou tensão constante; e mesmo em seu mundo ideal, era de se esperar que alguém no cargo de governante supremo passasse por momentos estressantes.
No entanto, Kinmyuu não estava muito certo quanto a isso. Para ele havia algo a mais, algo tão oculto e misterioso quanto a voz que pedia socorro em seus sonhos.
- Mesmo assim, se continuar muito forte, me avise para darmos um jeito de, pelo menos, aliviar um pouco, está bem?
- Sim, senhora - ele respondeu, assentindo, enquanto percebia Anmyuu bocejar. - Parece que minha bela ainda está um pouco adormecida... - brincou - Por que não volta pra cama e dorme mais um pouco, amor? Se quiser, posso ir te fazer companhia.
- Quero, sim. Afinal, você é o meu travesseiro favorito - a rainha disse, beijando-o na bochecha e abraçando com força, enquanto ronronava.
O Rei Supremo riu.
- Eu digo o mesmo sobre você. Vou só pegar um copo de leite e já volto.
Ele se virou e depositou um suave beijo nos lábios dela, antes de sair rumo à cozinha do palácio.
Kinmyuu podia ter usado seu poder psíquico de teletransporte para ir até lá em questão de segundos, no entanto, achou que uma pequena caminhada faria bem para espairecer um pouco. Vestindo um robe azul por cima do pijama de cetim, caminhou pelo largo corredor do terceiro e último andar do palácio, onde ficavam os dormitórios da família real e convidados.
Ao passar por um dos quartos, sua atenção foi desviada pela porta roxa levemente entreaberta do mesmo, onde uma grande letra "A" estava entalhada em dourado com a imagem de uma coroa sobre a inicial. Cuidadosamente, Kin abriu um pouco mais a porta com seu poder psíquico para observar se estava tudo em ordem ali dentro.
O lugar lembrava mais uma loja de brinquedos; com videogames e revistas em quadrinhos de um lado, e do outro, diversos playsets montados abaixo de várias prateleiras expondo figuras de ação, robôs, e naves em miniatura nas paredes pintadas de azul e roxo. Decorando estas paredes havia pôsteres e quadros com imagens e emblemas de felins super-heróis.
- "Já chega, Imperador Mewdrautron! - A interpretação seguia na voz animada de um felin criança. - Nosso mundo está sob minha proteção e você não pode me derrotar! O meu reino não está indefeso, sua vitória não passa de um sonho, e essa guerra acaba hoje, seu reverso maligno imundo!"
- Espere um pouco, Ake, eu tenho certeza que não chamei o Rei Myurdred de "reverso maligno imundo" em nossa batalha final - disse uma segunda voz adulta, harmoniosa e calma, porém de timbre poderoso.
- Miahh, qual é vovô? Não pode cortar a vibe... Eu sei que você não disse exatamente isso, eu tô improvisando. Além do mais, aqui eu finjo ser você, que na verdade, é um rei super-herói enfrentando um imperador galáctico alienígena, que é meio reverso e meio robô, que no caso é o seu personagem, lembra? Não é bem a mesma batalha, pensa nisso como um spin-off, heh!
- Entendi. Bem, você quem manda! Vamos continuar, então.
- Beleza! - exclamou o felin criança, posicionando outra vez o boneco que tinha nas mãos e voltando a interpretar suas falas - "Essa é sua última chance, renda-se ou se prepare pra..." - Foi então que o menino que brincava empolgado parou e se virou, sentindo-se observado. - Uhh... papai?
Kinmyuu sorriu e se aproximou, desviando com cuidado para não pisar no trilho do trem de brinquedo que passava pelo chão do quarto, nem na pista elétrica de corrida que estava montada.
- Bom dia, meu filhote. Como você está?
O jovem príncipe herdeiro do trono supremo, Akenmyuu Mewlippe, era o filho mais velho de Kinmyuu e sua rainha, e o orgulho de seus pais e de seu reino. Um garotinho com pouco mais que 1,40 metros de altura e pelagem lilás, de grandes e curiosos olhos de íris púrpura chamativas e cabelos naturalmente platinados, tais como os do pai.
Muito amado - e mimado - por sua família e súditos, o menino fazia jus ao que se esperava do filho de um semideus: ele era leal, inteligente e destemido, com um espírito aventureiro e um nobre coração heroico; idolatrado por seus jovens fãs e o sonho de toda princesinha de sua idade.
Akenmyuu havia acabado de fazer dez anos. E visto que felins viviam por cerca de cem anos sem jamais envelhecer ou perder seu vigor, seu amadurecimento era relativamente lento. Sendo assim, a infantilidade do príncipe e sua imaginação hiperativa eram de se esperar.
- Ehehe... eu tô bem. Por que você já tá acordado, pai? - O menino esfregava a nuca e sorria exageradamente para o pai, tentando esconder o nervosismo de saber que ainda deveria estar dormindo àquela hora.
- Eu ia te fazer a mesma pergunta - respondeu o rei, curvando-se para dar um beijo rápido na cabeça do filho.
- Bom... é que eu perdi o sono no meio da noite, depois que levantei pra fazer xixi. Daí chamei o vovô pra ficar comigo e a gente começou a brincar.
- Entendi. Pelo visto, estavam se divertindo, uh? - Kin olhava para o cenário da brincadeira espalhado ao redor do príncipe e para o anjo de seu próprio falecido pai, que estava em meio a tudo isso, brincando com o neto.
Há quase duas décadas, Odimyuus Mewlippe - o anterior Rei Supremo e pai de Kinmyuu - transcendeu aproximadamente um ano após a coroação do filho.
Antes de Ghaceus criar os anjos, Ghanog criou seus demônios, transformando as almas dos primeiros reversos criados por ele nestes seres bestiais e vis. O temível Deus da Escuridão já arquitetava a formação de um incontável exército de demônios incansáveis, prontos para obedecerem cegamente ao seu comando.
Ghaceus se sujeitava a se equiparar a seu irmão desleal para manter o equilíbrio do universo e consequentemente sua criação protegida. Sendo assim, ele incumbiu seus descendentes com o legado de uma importante missão sagrada: serem os consagrados guerreiros de seu exército celeste, opondo-se perante as forças perversas que Ghanog enviaria ao plano espiritual.
Todos aqueles com a luz divina em seu sangue ascenderiam para anjos imortais após o fim de sua vida terrestre - se assim aceitassem, pois esse não era um destino obrigatório - tal como o primogênito mortal de Ghaceus - Kinmyuu I, chamado pelo nome divino de Kamyel, que se tornou o Rei Arcanjo.
Mesmo com o aguardado renascimento celestial, a morte prematura do oitavo Rei Supremo Odimyuus foi muito sentida por sua família e súditos, pois sempre foi um rei muito querido.
Era uma cena curiosa presenciar um anjo de classe alfa, com suas grandes asas majestosas simplesmente sentado num carpete, rodeado de brinquedos e com um boneco de ação em suas mãos. Sempre trajados totalmente de branco, anjos não mudavam muito de sua aparência como anteriores mortais. Apenas os globos oculares se tornavam azulados e sua pelagem se esbranquecia, ganhando um brilho resplandecente constante.
- Bom dia, filhão. Como você está? - cumprimentou o felin anjo com um sorriso simpático e sereno.
- Olá, papai. Estou bem, e sinto ter atrapalhado a brincadeira de vocês. Parece que estavam numa parte boa, hah!
- Não se preocupe com isso, podemos continuar depois. Pode até se juntar a nós, se quiser - brincou o pai do rei.
- Agradeço o convite, mas quem sabe mais tarde? Escuta, pai, não querendo me intrometer nem nada, mas... Como anjo da guarda, não era suposto você fazer o Aken dormir em vez de passar a madrugada brincando com ele?
- Sim, era, e eu tentei. Aken me pediu para contar uma estória e depois, outra. Quando cheguei na terceira, percebi que ele não dormiria, então resolvi atender o pedido dele para brincar. Você sabe que nunca fui muito bom em dizer "não". - Odimyel tinha um sorriso maroto.
- É, eu sei muito bem... - o rei respondeu, colocando a mão sobre a testa e balançando a cabeça, porém rindo. Seu pai sempre foi muito brincalhão e um tanto condescendente em vida e não perderia essa marcante característica por se transformar num anjo.
- Hey, papai, seu pulso tava te machucando de novo? - perguntou o príncipe, ao reparar na tala de cura.
- Ah não, filho. Só estava doendo um pouco, mas já vai passar, não se preocupe.
Sem que nenhum dos dois notassem, o felin anjo olhou para o pulso atado do filho, fixando seu olhar ali por uns instantes, e pareceu um tanto consternado.
Kinmyuu estava olhando para Aken, portanto, nem percebeu o olhar brevemente abatido do pai.
- Então, Ake, eu estava indo tomar um copo de leite. Me acompanha, filhote? - perguntou carinhosamente, contornando um braço nos ombros do menino.
A ideia de um delicioso copo bem cheio de leite morno agradou ao príncipe, já fazendo-o ficar com água na boca.
- Claro! Demorou, papai!
Pai e filho saíram do quarto e seguiram juntos pelo corredor, mas mal deram alguns passos quando ouviram alguém chamar atrás dele.
- Kinmy! Graças a Ghaceus você já está acordado! Eu estava indo chamá-lo agora mesmo.
O rei se virou e se deparou com seu tio Heimewdall caminhando apressado em sua direção. O felin mais velho tinha uma boa postura, quase da mesma altura de Kinmyuu. Era cedo, mas ele já estava vestido a rigor, com sua coroa, capa e botas, e parecia muito alarmado.
- O que houve, tio? Está tudo bem com você? - perguntou Kin, preocupado.
- Comigo, sim. Mas estamos com problemas gravíssimos! - Heimewdall estava tão agitado, que só então reparou no sobrinho-neto ali. - Oh... bom dia, Akenmyuu.
- Bom dia, tivô - respondeu o filhote, observando os dois adultos com seus curiosos olhos púrpura, louco para saber o que estaria acontecendo.
- A que problemas se refere? O que aconteceu?! - perguntou o Grande Rei, também ficando aflito.
- Venha comigo e contarei tudo, sobrinho.
Kin entendeu que provavelmente o assunto não era apropriado para ser discutido na frente de Akenmyuu, então virou-se para o príncipe.
- Filhote, vamos ter que deixar nosso copo de leite pra mais tarde, tá bem? Fica com o vovô mais um pouco, que o pai já volta. - Ele afagou os cabelos levemente bagunçados do filho que caíam numa franja, e depois seguiu atrás do tio.
Aken observou um tanto desapontado ambos caminharem na direção dos aposentos do tio-avô. Heimewdall era irmão mais novo do pai de Kinmyuu, o filho do meio da família, pois tinham também uma irmã caçula. Como Kin não designou um sucessor para o cargo de vice-rei, seu tio continuou na posição que ocupava desde o reinado do falecido irmão mais velho.
Heimewdall era um felin bastante reservado, para não dizer, constantemente mau humorado. Embora jamais tenha tratado seus sobrinhos-netos com frieza ou indiferença, Akenmyuu e ele não tinham um relacionamento muito próximo. O príncipe achava o tio-avô misterioso até demais, e imaginava que ele devia esconder algum segredo importante ou algo do gênero.
- Ahh... Eu queria saber o que tá rolando. O que você acha, vô? - Aken olhou para os lados - Vô? Cadê você?
O avô anjo da guarda estava logo atrás do filho e do neto quando saíram do quarto, mas quando o irmão mais novo apareceu, ele ocultou sua presença.
- Estou aqui, Ake - disse, reaparecendo - Desculpe sumir de repente.
- De boa, vovô. É que às vezes eu esqueço que você some quando o tivô Heimy aparece...
Num passado de memórias atrás, Odimyuus e Heimewdall eram muito unidos como irmãos. Entretanto, com o passar dos anos, as coisas já não eram as mesmas entre eles, levando a uma briga séria e um desentendimento permanente. Mesmo depois da prematura morte do mais velho e seu renascimento como anjo, a mesma animosidade restava por parte de Heimewdall com o irmão, e ele dizia que preferia que Odimyuus, - agora chamado pelo nome angélico Odimyel - não se manifestasse diante dele. Como anjo, era dever de Odimyel respeitar o desejo de seu irmão mortal, mesmo que no fundo isso o magoasse.
- Você sabe que seu tio-avô prefere assim. Mas não vamos ligar pra ele. Quanto ao que está havendo, eu ainda não sei do que se trata, mas se for algo realmente grave, logo o vô ficará sabendo.. Agora, que tal irmos até a cozinha para você tomar aquele copo de leite?
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top