Fase 7: Fantasia
Aviso: Esse conto contém gatilhos como luto, mortes, suicídio e automutilação.
Após esse aviso, caso prossiga, não irei me responsabilizar se passar mal.
Não tenho a intenção de desrespeitar religião e/ou crença de ninguém, esse conto é fantasia.
Dedicatória: A você que mesmo tendo perdido essa luta contra a depressão e o câncer, me impediu de desistir e hoje sigo cumprindo a promessa que te fiz: Viver.
Culpada ou inocente?
— Por que você nunca fala nada quando pergunto sobre sua vida? — o silêncio pode até irrita-lo, mas prefiro isso a falsa reciprocidade. — Responde Arabella!!!
Fiz errado em ajudar tantas vezes?
Em protegê-lo do bullying e piadas maldosas?
Salvando ele da recuperação?
Questiono dia e noite se realmente mereço esse cargo que a mim confiaram...
Após o encerramento da cerimônia de posse dos cargos celestiais, Marcelo olha para mim que do de ombros.
Será que somos inúteis para qualquer cargo?
Estudei tanto para ser guerreira e infelizmente, todas as vagas foram preenchidas. Iria treinar até o dia do juízo final, onde iríamos descer a Terra.
Marcelo veio da Rússia, morreu por afogamento, não tiraram ele da água a tempo, quando encosta sua mão grande em meu ombro, abro um sorriso falso e em seus olhos castanhos brilha a determinação.
— Ele tem planos maiores para a gente. — passa seu braço ao redor dos meus ombros, sua pele bronzeada deveria dar um contraste bonito junto com a neve. — Confia em mim.
— Meninos, sigam-me para a coordenação. — Elias, um dos responsáveis pelos formandos aproxima-se sem fazer barulho.
— Vem. — começa a andar e por ainda estar com o braço enroscado no meu pescoço, sou obrigada a andar.
Enquanto isso observo seus longos cabelos platinados balançando com a leve brisa presente. Diferente dele que é bem alto, sou baixa, contava que enquanto vivo, sonhava em ser boxeador profissional e eu uma atiradora de elite, antes do ocorrido, já sabia o nome de armas, calibres e como limpa-las. Magra, comia muito e atualmente não temos essa necessidade.
Melhor os humanos nunca ficarem sabendo que a chuva nada mais é que a água do banho dos anjos, afinal eles tem necessidade desse líquido.
Abre a porta nós dando passagem, entramos e ele puxa a cadeira para mim, sorrio verdadeiramente, meu irmão mais velho sempre me tratou assim e mandava que não aceitasse menos que isso, já que cuidava de mim como princesa.
— Como sabem, são os únicos que não foram nomeados. — está sentado e atrás de nós, Felipe e Salatiel, anjos guardiões.
Prefiro apenas aguardar seu prosseguimento, aprendi aqui que a paciência é uma dádiva enorme.
— Não reprovamos nos exames, então, por quê? — como sempre impaciente, coloco a mão a frente da boca impedindo que um sorriso escape.
— Paciência jovem. — pulo de susto, a voz do Salatiel compara-se a um trovão.
— Seguindo, vocês mostraram um grau avançado de empatia com o próximo, dispostos a ajudar em qualquer situação. — abre uma pasta que nem notei já estar na mesa e empurra para a gente. — Desde ajudar bebês que chegaram por aborto espontâneo, crianças vítimas de tráfico humano e maus tratos, até idosos, isso fez nossos superiores escolherem os dois para uma função, que necessita ser preenchida com urgência.
— Qual? — deixo a curiosidade transparecer.
— Anjos da guarda. — quando essas palavras saem de sua boca, nos olhamos e sei o que significa.
Deixar o céu e retornar ao mundo terreno.
Quase nada foi explicado porque era emergência, casos depressivos e tendências suicidas, tentei explicar por mil vezes que nunca tinha tido contato com pessoas que tivessem esses transtornos, Marcelo também e não deram atenção.
— Está me ouvindo? Apareça!! — anda até uma gaveta e já prevejo o que vai acontecer.
As várias regras que passaram rapidamente era não ter contato nenhum com os humanos e evitando ao máximo interferir no livre arbítrio, evitar ser contaminado pelos humanos e assim livrar-se da condenação máxima.
Não pude evitar interferir quando vi Matias sofrendo bullying, tendo crises de ansiedade e meio que ele me chama de anjo, apareço somente nas horas de necessidade e de certa forma, está correto.
— Pare!! — apareço segurando o colar que recebi ainda na coordenação, avanço com cuidado, tirando a gilete da sua mão, enrolando em uma toalha com cautela, deixando no canto.
— Ótimo! Agora quem é você? De onde veio? — parou, parecendo formular mais questões, então aproveito os poucos segundos de paz pra sentar-me em sua cama. —
Por que me ajuda? Meus pais contrataram você pra ser minha babá? — puxa a cadeira para ficar de frente para mim.
— São muitas questões, bem antes não teria autorização para responder nenhuma delas, mas já quebrei muitas regras, uma a mais ou a menos, não deve fazer tanta diferença. — deito usando seu travesseiro como apoio.
— Ei, sua folgada, responda! — puxa meu pé, arrastando-me até nossos olhos estarem na mesma altura.
— Grosseiro, mal educado, impaciente, mais algum defeito que deveria saber? — tento desviar o interrogatório com ironia.
— Vou chamar a polícia! — levanta rapidamente pegando o celular.
— Arabella Gonçalvez Martins, jogue no site de pesquisas. — volto para a posição anterior.
— Pra que? — permaneço quieta e ele voa em direção ao notebook e seus dedos deslizam ao digitar o nome que acabei de passar.
Jovem de 12 anos morre após salvar advogado surdo
A menina identificada como Arabella Gonçalvez Martins, de apenas doze anos, estava indo para a escola quando viu um ônibus indo em direção de um senhor, os gritos dos pedestres não causaram efeito e possivelmente isso fez a criança cogitar que era surdo, largou a mochila, correu e empurrou o homem que se assustou, foi atingida com tudo, seu pequeno corpo voou, sua cabeça bateu com muita força no concreto, causando morte por traumatismo craniano e hemorragia.
O homem ao volante tentou fugir do local, pessoas cercaram seu carro e quando a polícia chegou, negou-se a fazer o teste do bafômetro, porém estava claramente bêbado e a prisão foi efetuada. SAMU¹ chegou, dando o que todos já sabiam, o fato dela não ter ressistido.
Todos que presenciaram o sacrifício da pequena heroína — como todos passaram a chama-la — compareceram ao velório, em respeito a família, mantemos distância.
Justiça pela Arabella, é o que passa na mente daqueles que souberam do caso.
SAMU¹ — Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, no Brasil.
— Você é a menina da foto! — se vira quase derrubando o eletrônico. — Mas você tá morta, o que faz aqui? Veio me assombrar? Passar mensagem para sua familia? — solta um grito de frustração.
— Senta. — aguardo obedecer, o que faz com muito receio. — Sim, eu morri. — ia abrir a boca, não quero novas perguntas, faço sinal de silêncio. — Se perguntar mais alguma coisa, sumo sem explicar nada, estamos entendidos? — concorda. — Ótimo. Seguindo, em resumo sou seu anjo da guarda. Não percebeu que nesses meses você saiu mais? Fez novos amigos? Entrou para o time da escola? Passou em matemática sem reprovar? — a cada pergunta retórica seus olhos esbugalham mais.
— E agora que contou tudo? O que acontece? — sem chance de responder, uma luz muito forte, capaz de cegar até anjos, toma conta do quarto e assim que vejo Salatiel e Rafael já sei o que vem.
Serei condenada ao inferno por ajudar meu protegido.
— Arabella, você está presa por revelar sua presença a um humano, deixou-se contaminar pela maldade, usou o pingente sem necessidade, violando assim as três das cinco leis celestiais destinadas aos anjos da guarda. — ouvir essas palavras me fez querer chorar, mas abro um imenso sorriso.
— Matias, você foi meu primeiro protegido, cada segundo ao seu lado foi valioso, nunca se culpe. Ora por mim? — chorando corre para me abraçar e rapidamente Rafael empurra ele.
Um colar verde aparece em meu pescoço, uma prisioneira de primeiro grau.
— Adeus Mat. — fecho os olhos ao ver ele cair e Salatiel apagar suas memórias.
Dois dias depois
No céu
Estou em frente aos juízes, os mais próximos do criador, só falam de Deus como se fosse puro amor, porém esquecem que Ele também é justiça.
Todos com quem já vivenciei estão aqui, apenas uma burocracia, sabemos meu destino.
— Anjo da guarda, Arabella, algo a dizer em sua defesa? — um deles questiona.
— Sim senhor. — o silêncio deve indicar para prosseguir. — Morri criança, nunca tive contato com pessoas depressivas e/ou com tendências suicidas, logo, não estava apta ao cargo e sem ao menos me perguntar nada, mandaram-me para a Terra sem nenhum treinamento, fora instruções rápidas. — Marcelo estava um pouco atrás de mim, tentando demonstrando apoio.
Ficaram olhando-se entre si, pesando minhas palavras, pediram para que recuasse e começaram a conversar entre si.
— Se te mandarem para o inferno, vou junto — abraço ele o mais forte possível, com medo de sermos separados, a morte nos juntou, será que uma rebelião vai nos separar?
— Não! Você é inocente, eles também tem culpa. — afasto-me, porém beijo sua bochecha antes.
— Algo a declarar antes de ouvir sua sentença? — todos retornam às posições originais.
— Se for condenada ao inferno, tornando-se assim um anjo caído, servindo a Lúcifer, bom, só tenho a declarar que não me arrependo de transgredir as leis, porque impedi um suicídio e hoje Matias é feliz, então se isso for condenável de perder as asas, perderei. — não gaguejo, preciso ser firme em meus ideias, foi isso que meu irmão ensinou.
— Leis divinas existem para evitar que anjos sejam capturados. Impedir escravidão. — alguém ao fundo fala.
— Então porque protegemos eles? Eles têm livre arbítrio. — Marcelo se põe ao meu lado e infelizmente sei onde isso pode parar.
Levanto e olhando para eles, dou as costas e vou até os guardiões.
— Vão me condenar ao submundo, qual o caminho?
— Não vai acontecer. Confia em mim. — A voz vem das minhas costas, viro-me e lá está Miguel, um dos anjos mais poderosos vindo no julgamento de um pequeno anjo.
— Arabella, sua sentença é de quinhentos anos sem exercer profissões de alto nível, reconhecemos nosso erro e sendo juízes escolhidos por Deus, seríamos injustos se condenarmos você ao inferno, não se revelou contra o céu.
— Então vai cuidar dos bebês que chegam e acompanhá-los até os cinco anos. Depois de cumprida a sentença, terá um novo julgamento.
— Consideramos você culpada, até daqui a meio século.
Baixo a cabeça e sinto uma dor aguda insuportável, ao ver minhas asas sendo arrancadas.
Às vezes pergunto se aqui é realmente o lugar que os humanos chamam de paraíso.
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