Capítulo 1

- Até amanhã crianças! - Digo distribuindo alguns beijo nos meus pequenos.

- Tchau "profi" ! - Dou um abraço e afago seus cabelos como despedida.

De todos os alunos ela é a mais carinhosa, sempre traz desenhos e maçãs para mim. É isso mesmo, eu ganho maçãs quase todo santo dia. Acho isso uma graça e de quebra é super saudável. Gostaria que todos fossem assim, algo difícil de se acontecer, mas sonhar não custa nada.

Ajeito algumas cadeiras em baixo da mesa, dou uma olhada geral na sala para ver se não ficou algo no chão ou alguma coisa que meus pequenos tenham, por ventura, esquecido. Sala organizada, hora de ir embora.

Pego meu material junto com a minhas bolsas cheias de folhas e mais folhas, vida de professora não é fácil. Carrego isso pra cima e para baixo, se me dissessem que minha profissão incluía ter inúmeras bolsas de pano coloridas eu teria dado risada. Tudo isso compensa quando eu vejo os sorrisos e recebo abraços deles, essa rotina vale a pena.

Entro na sala dos professores para largar as bolsas no armário e pegar um cafezinho, ninguém em sã consciência conseguiria aguentar o pique de uma turma de A20 sem café. Dou graças a Deus que fiquei com os maiores, magina eu no jardim, nem quero imaginar como seria isso.

Pego minha mochila do armário com o copo de café em mãos, tomo tudo em um só gole; sinto ele descendo e queimando minha garganta. Se bem que está tão frio que me admiro que  consiga sentir algo além do frio de gelar a alma. Ultimamente as temperaturas tem caído muito aqui, nem mesmo ficar no sol adianta. Tudo isso por uma maldita massa de ar polar, mas o que isso tem haver comigo afinal? Nada.

Só consigo pensar na prova do concurso de hoje, preciso passar, necessito desse emprego; mesmo eu já tendo um na parte da manhã. Ainda sim é pouco o salário, sem contar que não é minha área de trabalho. Mas como que não é Laura? Resposta bem simples eu te dou: sou professora de geografia e até onde eu saiba a segunda série não tem essa matéria. Consegui o emprego pois tenho um curso de pedagogia que fiz integrado com o meu ensino médio. Fiquei um ano a mais na escola por isso, na época eu queria sim trabalhar com os pequenos; até chegar a hora do "vamos vê". Era de chorar quando se entrava na sala, crianças correndo e gritando o tempo todo, mas aguentei e concluí. Agradeço a Deus por não ter desistido. Se eu tivesse feito isso, talvez hoje eu não teria esse emprego e o meu bem mais precioso; meus alunos.

O trajeto da escola até a minha casa dura em média vinte minutos, isso quando o ônibus não atrasa, algo que acontece com frequência e geralmente vem lotado de estudantes.

Chego na parada e logo acontece um milagre; o 727 veio no horário e o melhor de tudo, vazio! Ao que tudo indica o dia vai ser bom, pegar um ônibus vazio em plena sexta-feira deixa qualquer pessoa feliz, isso significa que não vou cair ou empurrar as pessoas. Uma vez o ônibus freou, e a desastrada aqui tinha nos braços três livros, cai sentada no colo de um cara. Foi extremamente vergonhoso, perdi as contas de quantas desculpas falei.

- Chegou cedo hoje filha. - Entro em casa jogando a mochila no sofá.

- O 727 veio cedo e ainda por cima vazio, acredita nisso?!

- Hoje é o seu dia de sorte, fiz até lasanha pra você!

- Sério mesmo mãe? Realmente é o meu dia! - Eu amo lasanha, amo mais que tudo nesse mundo. Ainda mais se é a da minha mãe.

- Ela deve tá quase pronta, botei faz uns vinte minutos no forno.

- E deixa eu adivinhar; fez de carne certo? - Me sento na mesa com a mão apoiando o rosto.

- Dessa vez é frango. - Estou prestes a dizer o quão indignada estou, onde já se viu fazer de frango o meu prato favorito?! - Brincadeira filha. Não sou louca de fazer isso.

Rimos juntas. Minha mãe é tudo para mim, eu a amo mais que tudo nesse mundo; mais do que a lasanha que está no forno agora. Fui criada sem um pai ao lado, mal sei quem ele é. Nunca fez falta e não é agora que vai fazer. Quem me criou foi a mãe junto com a minha avó. As duas sim tiveram que se desdobrar para me criar, tudo o que sou devo a essas duas mulheres.

- Mãe, a vó tá aonde? - A indago. Não tinha percebido que ela não estava aqui na cozinha.

- A sua avó não se sentiu bem de manhã. - Preocupação dança em seus olhos. - Dei um remédio pra ela dormir.

- Preciso levar ela ao médico. - Murmuro.

A saúde dela vem piorando gradativamente, cada dia é uma queixa diferente. Tenho medo de que o quadro tenha evoluído, não quero a perder. Se eu pudesse pagava um médico particular, mas o meu salário mal cobre as despesas, quem dirá pagar um médico, contudo por ela eu faria isso.

Ficamos dando atenção a coisas tão fúteis, inúteis; é quando perdemos que damos falta. Valorizar os momentos em família, com as pessoas que amamos é o  importante.

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