Capítulo X

Começo a caminhar com a intenção de ir embora, mas paro assim que sinto uma mão em meu ombro.

Quando viro me deparo com Lara. Seus olhos estão indecifráveis como se estivesse ansiando por algo.

— Como você conhece a Eva?

Sou pego desprevenido.

Não esperava que a loira bonita soubesse algo sobre minha amiga fantasminha.

— Você conhece a Eva? — retruco.

— Primeiro me responda! — seu tom fica um tanto descontrolado.

Olho em volta e percebo as pessoas nos encarando.

— Acho melhor a gente sentar em algum lugar lá dentro para conversar.

Ela me encara por alguns segundos antes de começar a andar.

Assim que nos sentamos ela pergunta novamente.

— Desembucha. Por que você está procurando informações sobre a Eva?

Respiro fundo. Acho que vou contar uma meia verdade...

— Estou morando na casa que foi dela. Enquanto arrumava minhas coisas encontrei algo dela, então estava a procurando para poder entregar.

— Você está morando na casa dela? — o tom dela fica melancólico.

— Sim. — estreito os olhos tentando compreender a mudança repentina dela — Você a conhecia?

— Sim... — o som da voz dela é quase inaudível — Ela era minha melhor amiga.

Não acredito!

Agora faz todo sentido. É por isso que Eva ficou estranha quando a viu na academia. Como é que não associei uma coisa à outra?

— Eu sinto muito por sua perda.

— Você não imagina o quão difícil tem sido nesses três anos. — ela encolhe os ombros — Foi tudo muito inesperado. O pai dela nem fez o funeral. Eu nem sequer pude me despedir.

Eu a observo. Pelo visto ela amava muito a Eva.

Cogito a ideia de contar para ela...

Não. De jeito nenhum. Ela vai me chamar de louco e...

— Tem uma coisa me incomodando. — ela diz interrompendo meus devaneios — Na academia... Eu... Eu acho que vi a Eva. — ela diz baixinho, mas consigo ouvir.

Ela viu a Eva?

— Você a viu? — pergunto perplexo.

— Eu sei que parece loucura. Meu irmão até me deu um sermão. Mas tenho a impressão de que é a Eva.

— Você acredita nisso? — ela me olha interrogativa — Em fantasma, almas penas, almas que estão presas a terra por algum motivo...

— Sim.

Eu respiro fundo. Acho que vou estragar qualquer chance que eu poderia ter com ela agora...

— Eu consigo ver a Eva. — digo rápido.

— Como é? — Lara se endireita na cadeira e me encara.

— Eu sei que pareço um maluco, mas é verdade. — suspiro — Ela estava na casa. Eu não quis acreditar no começo. Só que ela me pediu ajuda. Ela não se lembra de nada, então acha que está presa a terra por algum motivo.

— Eu quero... Eu quero vê-la.

Arregalo os olhos.

Ela acreditou em mim.

— Será que eu posso vê-la de novo?

— Eu não sei. — relaxo me encostando a cadeira — Não sei como consigo vê-la. Mas podemos tentar. Vamos fazer assim, amanhã você vai a minha casa e vemos o que acontece. — ela me encara — Juro que não farei nada de mal a você!

Ela ri.

— Querido, sou faixa preta em Muay Thai.

— Ok. — rio sem jeito.

— Lara nosso lanche ficou pronto. — o cara da padaria fala assim que chega a nossa mesa.

— Bem, já vou indo então. Me aguarde amanhã. — Lara diz se levantando.

— Vou ficar no aguardo.

Ela começa a andar, mas para depois de dar três passos.

— Acho melhor você me passar seu número. — Ela pega o celular no bolso da calça jeans — Não quero te acordar.

Pego o celular assim que ela estica o braço me entregando e digito meu número.

— Como é mesmo o seu nome?

— Jonathan Fernandes.

Ela sorri e sai.

👻👻👻

— Você se encontrou com ela?

Eva me pergunta assim que entro me dando um baita susto.

— Custa me deixar acender a luz, primeiro?

— Desculpa.

— Tenho boas notícias de um cenário ruim.

— Conta tudo. — ela me olha com expectativa.

— Me deixa preparar algo para comer primeiro. Eu nem sequer consegui lanchar com tudo que aconteceu.

Ela balança a cabeça positivamente.

Preparo um sanduíche e um suco de laranja. Eva olha tudo atentamente, sem perder nenhum detalhe. Acho que quer garantir que estou me apressando para poder contar tudo para ela.

Vou para a sala e ligo a TV. Coloco no Comedy Central.

Eva não diz nada, mas cruzou os braços e apertou os olhos.

É engraçada a cara emburrada dela.

Não consigo compreender ao certo, mas após descobrir um pouco mais sobre ela eu sinto empatia. Pensando melhor, me parece que tenho a necessidade de protegê-la. Uma ligação forte. O que é estranho, pois eu não a conheci em vida.

— Eu descobri o seu nome. — Eva me olha com expectativas — Eva. Você se chama Eva.

— Eva. E-v-a. Então o meu nome é Eva. — Seu sorriso se alargar. Mas some em seguida, como se ela tivesse sentido muita dor na cabeça.

Ela leva as mãos à cabeça e começa a se agachar gritando.

— Eva! O que foi? — deixo meu lanche de lado e corro para perto dela — Eva! Responda.

Tento ajudá-la, mas novamente constato que não posso tocá-la.

Diferente da última vez, ela não desaparece. Apenas fica se contorcendo.

Meu coração acelera em desespero.

É uma sensação horrível ver alguém sofrendo e não poder fazer nada. Mesmo que esse alguém seja uma fantasma.

Aos poucos ela vai parando de gritar e se acalmando.

Se fosse uma humana eu poderia oferecer um copo de água com açúcar...

Ela inspira e se recompõe.

— Tá melhor? — pergunto por fim, percebendo que estou agachado próximo a ela.

Ela balança a cabeça positivamente.

— Pode me contar agora o que descobriu.

— Você vai ficar bem?

— Talvez isso seja o ritual de passagem. Talvez quando eu descobrir tudo possa me libertar.

— Se você prefere assim... — me levantando e volto para meu sofá, pegando meu lanche — A professora realmente te conhecia. E pelo visto gostava muito de você. Segundo ela você foi assassinada nessa casa. Seu pai nem sequer fez um funeral.

— Por quê?

— Isso eu não sei dizer, mas a Bruna disse que a desculpa foi que ele não queria pessoas chorando falsas lágrimas. — faço uma pausa para mastigar o sanduíche — O mais interessante aconteceu depois que a Bruna foi embora. — digo com a boca cheia e engulo em seguida — Quando eu estava vindo embora uma garota me parou e questionou por que estou te investigando. Ela disse que era sua melhor amiga.

— Sério? — os olhos dela brilharam — E como ela é?

— Ela vai vir aqui amanhã. — tomo um pouco de suco — Talvez você se lembre de algo quando a ver.

— Espero que sim. — ela diz por fim.

— Agora posso assistir TV?

— Claro...

Ela some.

— Uau, nem para me fazer companhia depois de ter passado o dia ajudando ela. — Tomo mais um pouco do suco — Ingrata.

— Eu posso ouvir isso! — ela diz aparecendo e me assustando, fazendo com que eu derrube meu suco todo.

— De novo Eva?!

Ela começa a rir.

— Você é muito bundão.

— É o que? — olho para ela estupefato.

— Já está convivendo comigo há um tempo, deveria já estar acostumado.

— Queria ver se fosse você!

— Que seja. — ela senta ao meu lado, no sofá — Fica quieto, quero assistir TV.

Meu queixo cai.

De onde saiu essa fantasma folgada?

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