Parte V
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A capa cobria o rosto da mulher que adentrava o castelo com a folha de recompensas em mãos, os guardas não ousaram interferir no seu caminho, pois ao vislumbrá-la o que viam era um homem poderoso adentrar ao salão real.
Parou no meio do piso recoberto de ouro que brilhava com tamanha intensidade, enquanto muitos morriam lentamente pela fome que alastrava-se diante dos muros do castelo. O soberano estava sentado em seu trono, desfrutando de toda sua riqueza e o olhar fixado na figura que mantinha-se diante dele.
— Onde está a bruxa? — questionou o imperador, o timbre grosseiro ressoou pelas paredes.
Com lentidão a garota retirou o capuz e o feitiço se dissipou diante de todos os presentes. Murmúrios ecoaram pelo imenso salão, sendo rompidos pelo erguer de mãos de Conrado que analisava com voracidade a jovem. Erasmo ficou ao lado do pai, admirado com a beleza da garota que trajava um longo vestido vinho que destacava suas silhuetas e curvas, os cabelos negros caiam por suas costas com as ondas que se formavam entre seus fios e em seu olhar ele podia notar a fúria que exalava de Aggie ao estar diante do imperador, porém o soberano não foi o único a receber a atenção dela quando o olhar voltou-se para o padre ao lado esquerdo do trono.
— A bruxa está aqui, bem diante do senhor, apresento-me para todos neste salão. Sou Aggie Carrier, a filha mais nova de Bridgit Carrier e neta de Angèle Carrier, a única sobrevivente entre todas as gerações. — Proferiu firme com o olhar compenetrado no padre Gregório que mantinha a fisionomia horrorizada.
— Isto é impossível, toda a família foi levada a julgamento! — Exclamou Gregório para o soberano que mantinha o olhar intrigado na garota.
— Não todos. — Ela afirmou.
— Onde está o caçador que te trouxe? — questionou o imperador buscando o felizardo que receberia sua recompensa.
— Estou aqui por livre espontânea vontade, atrás do pagamento e o desejo concebido. — A risada de Conrado repercutiu pelo amplo espaço.
— Você? E o que te faz pensar que realizarei o seu desejo, criatura ingênua?
— O acordo foi firmado e nele vossa majestade deixou bem claro que qualquer pessoa poderia trazer uma bruxa. — Erasmo elevou a voz recebendo a atenção do pai — não há limitações para que a própria bruxa venha até o senhor e seja negado a sua recompensa. — Conrado abriu os lábios prestes a rebater, contudo foi cortado pelo próprio herdeiro — caso recuse-se a aceitar ficará reconhecido como um imperador que não cumpre com suas próprias palavras, será mal visto diante de todos os reinos e seus soberanos. — Afirmou.
— Não o escute majestade, este tolo não sabe o que diz. — O padre falou, virando-se para a bruxa — ela não pode receber a recompensa.
— E por que não? — indagou o príncipe — afinal, ela está colocando a vida em risco em prol de ajudar seu soberano. — Conrado virou-se para a menina e a analisou minuciosamente.
— Preparem os aposentos para ela — ordenou para os criados — começaremos o tratamento pela manhã e se você, bruxa — falou com escárnio — não conseguir me curar, será levada à fogueira como todas as outras. Sobre seu desejo diga-me e o realizarei. Sou um homem de palavra.
— Desejo me casar. — Declarou. O imperador riu com a tolice dela após escutar o pedido.
— E quem será o infortunado escolhido? — perguntou, Aggie sorriu grandiosamente cruzando o olhar com Erasmo que a encarou desnorteado com o anúncio que se seguiu.
— Erasmo Magno, o futuro herdeiro de Osborne e o que rege as leis deste reino a predestinada para a união com o jovem príncipe não deve ser lesionada ou finada por qualquer indivíduo residente da realeza. — A fúria refletiu nos olhos do imperador que fechou as mãos impetuosamente.
— Como ousa tamanha afronta? — Erasmo intercalou o olhar do pai para a garota completamente aturdido.
Aggie ergueu o folheto em mãos e começou a ler em voz alta as informações descritas no papel.
— "Aquele que trouxer uma bruxa capacitada terá seu desejo concebido, independente de sua escolha o imperador não irá contestar o pedido realizado e atenderá sem questionar." — Ela voltou-se para o soberano que ardia em descontentamento, controlando-se perante os presentes em seu salão.
— E quando pretende realizar tal desejo? — questionou Conrado.
— No próximo aniversário do príncipe. — Afirmou Aggie que se impediu de sorrir por saber que faltavam apenas alguns dias para que o rapaz completasse os seus vinte e dois anos.
O soberano limitou-se a proferir algo erguendo a mão e chamando suas criadas.
— Levem-na para os aposentos que serão destinados exclusivamente para ela, resolveremos os preparativos a respeito da união em outro momento. — Aggie permitiu-se acompanhar as mulheres, sua cabeça mantinha-se erguida e não ousava baixá-la. — Mas fique sabendo bruxa que se você não me curar antes do casamento a fogueira ainda lhe espera. — Declarou o imperador que somente recebeu um concordar da garota que seguiu pelos amplos corredores do castelo.
Tinha sido corajosa em seu pedido, contudo era a única possibilidade de conseguir sair viva estando nas redondezas do castelo e no fundo uma de suas maiores preocupações seria a reação de Erasmo após descobrir que ela o usou para continuar respirando e não ser levada para a morte. Teria que esperar até que pudesse conversar a sós com o príncipe e seu coração tornava-se impaciente com o aguardo.
A garota andava de um lado para o outro dentro do recinto, suas mãos tremiam e sentia-se zonza pelo nervosismo que crescia em seu peito. Olhava para a porta a cada minuto esperando as batidas, ou o momento que Erasmo adentrava e por um breve segundo sentiu saudade de poder encontrá-lo sem preocupações no celeiro escondido.
No castelo precisavam ser o mais discretos possíveis para que ninguém desconfiasse que eles se conheciam.
Duas batidas foram escutadas e o abrir da porta revelou parte do rosto do rapaz que a encarava como se pedisse permissão para adentrar. Aggie acenou com a cabeça, enquanto ele fechava a porta atrás de si e caminhava até onde ela estava. O silêncio se firmou entre os dois e aquela sensação incomodou a jovem, principalmente ao ver ele se sentar na poltrona, afastado dela.
— Você está chateado? — perguntou receosa. Erasmo mantinha o olhar nas mãos, não focando nela.
— Chateado... — Repetiu baixo — acredito que surpreso e confuso definiria melhor como estou nesse momento. — Aggie caminhou até ele e agachou-se na frente do rapaz, seus dedos tocaram o rosto do príncipe e com o polegar sua mão contornou a bochecha de Erasmo, descendo para o queixo e erguendo-o para que ele a olhasse. Havia algo de diferente em suas íris castanhas.
— Eu deveria ter conversado com você sobre isso, peço perdão se o magoei com minhas ações. — As mãos do jovem seguraram as dela e seus dedos entrelaçaram-se. Erasmo depositou um beijo carinhoso nos dedos de Aggie em compreensão.
— Eu entendo sua escolha, mas não seria justo você ter que escolher algo assim. — Confidenciou, desviando o olhar dos dela.
— O que quer dizer com isso Erasmo? — ele sorriu ao ouvi-la chamá-lo por seu nome e não por formalidades e seu coração se preencheu com o pequeno ato.
— Você não deveria ter que se casar comigo para continuar viva, senhorita Carrier, você merece ter alguém que ame ao seu lado, que esteja em seu coração e queira passar o restante de seus dias ao lado dele e esta pessoa não sou eu. — Afirmou fixando o olhar aos dela. — Eu não quero que você se case comigo por sentir que é a sua única opção.
As palavras do príncipe deixaram-na sem resposta, sua fisionomia tornou-se surpresa com tal revelação e um sorriso tomou seus lábios, com lentidão ela aproximou o rosto ao dele que piscou pelo gesto inesperado e sem pressa Aggie uniu seus lábios aos do príncipe, o selinho casto apenas desfrutando da sensação deleitante que contornou seu coração com o toque. Ela afastou-se e encontrou o olhar dele firme nela.
— Não afirme suposições, alteza, não sem antes saber sobre meus sentimentos para com o senhor. — Erasmo mordeu o lábio e uma risada fraca saiu por sua boca.
Ele ergueu-se e ajudou Aggie a se levantar ficando a frente dela, sua mão segurou as da garota que sentia seu coração bombear fortemente dentro do peito.
— Faremos isso da maneira correta e não como uma ordem real. — Ele declarou, seus dedos acariciavam o dorso da mão dela — quero que saiba a respeito dos meus sentimentos por você, senhorita Carrier e o quão verdadeiros eles são para que não haja dúvidas sobre o meu carinho e a admiração que nutro pela sua pessoa. — O olhar de Erasmo brilhava ao dizer sua declaração — podemos não nos conhecermos há anos, mas estar ao seu lado me fez sentir o quão belo e raro é querer continuar existindo, Aggie Carrier eu daria qualquer coisa para poder te ver conquistar esse universo infinito de estrelas para que então elas iluminem cada um dos seus dias e você encontre a sua felicidade. Será uma honra poder ter uma mulher extraordinária como você ao meu lado, como minha esposa e futura imperatriz de toda Osborne. — Ela o fitou encantada, as lágrimas formaram-se nos cantos dos olhos da jovem escorrendo por suas bochechas, sorriu docemente para ele sentindo a mão de Erasmo ir de encontro a sua pele, secando-a com o polegar. — Você aceitaria se casar comigo senhorita Carrier?
— Sim, Vossa Alteza, eu aceito. — Afirmou envolvendo os braços em torno do pescoço de Erasmo e beijando-o intensamente. Naquele instante o vazio que abrigava ambos foi tomado por um novo sentimento que alastrava-se por todo o âmago dos dois e explodiram em harmonia por seus corações dissipando a tristeza que carregaram sozinhos por um longo período, mas agora teriam um ao outro para enfrentarem aquela jornada sangrenta e conquistarem os seus direitos.
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Os dias passavam com celeridade, os cuidados de Aggie redobraram para que pudesse cumprir com o seu acordo perante o imperador. As ervas e plantas foram colhidas e entregues para a jovem que preparava diversas poções e aprimorava seus feitiços para complementar na cura do soberano.
Não seria uma tarefa fácil, porém não considerava impossível.
A determinação da garota ficou evidente para todos os que residiam no castelo, sempre encontrando-a na imensa biblioteca lendo e relendo diversos livros de cura, além de conversar com todos os médicos que atenderam o imperador de maneira que nada passasse despercebido por ela.
Com o início do tratamento não tardou para que as melhorias no estado de saúde do soberano fossem evidentes, as tosses diminuíram e o sangue já não contornava mais seus lábios e por mais que Aggie sentisse a raiva tomá-la por ter que estar cuidando de alguém que havia machucado milhares de pessoas sabia que demoraria para que Erasmo tomasse o seu trono por direito.
Depois do tempo estimado para a cura de sua majestade, a grande maioria esperava pelo fracasso da jovem que mantinha-se inabalável diante de comentários desrespeitosos sobre sua pessoa, contudo mesmo que a máscara de sua força permanecesse diante de todos em seu quarto ela chorava silenciosamente nos primeiros dias, porém o príncipe estava disposto a ajudá-la e enfrentarem juntos a situação que a garota vinha convivendo.
Erasmo não se importava em demonstrar o amor que nutria por Aggie e que crescia a cada dia e com isso arrancava grandiosos sorrisos dela em busca de amenizar o sentimento que acumulava-se no interior da jovem. Durante as madrugadas ele fugia de seus aposentos e a levava para o jardim onde deitavam-se sobre a grama e ficavam observando o céu coberto de estrelas. Os passeios tornaram-se cotidianos na vida do casal, quando ninguém os observava o príncipe planejava diversos encontros de maneira que pudesse amenizar os pensamentos de Aggie e mantê-la feliz.
O resultado sobre a saúde do imperador veio dias depois, Conrado havia sido curado de sua enfermidade e a surpresa estampou o rosto de todos aqueles que ousaram desacreditar da menina que mantinha um sorriso satisfeito em seus lábios e como cumprimento de seu acordo o soberano começou a planejar o casamento de seu herdeiro com a denominada bruxa.
Sorrateiramente a rebelião iniciava-se enquanto o imperador mantinha-se ocupado com o preparamento da cerimônia conforme o plano de Aggie e o príncipe. Erasmo reuniu o máximo de homens e ao lado de Sir Augustus, seu cavaleiro real, a revolução iniciava-se.
As reuniões às escondidas eram realizadas na casa de Michy, uma renomada bruxa que prontificou-se em reunir o máximo de feiticeiros para unirem-se em prol da mudança. A invasão ocorreria durante a noite antes do casamento, o castelo seria tomado pelos rebeldes e com a morte de Conrado o herdeiro tomaria o trono.
O dia esperado chegou e com isso as tropas apresentaram-se, a madrugada mais fria de Osborne seria lembrada pelo início de um novo Estado e uma nova ordem. Sangue foi derramado ao chão, cobrindo suas armaduras e vestimentas, gritos de sofrimento ecoaram pelos recintos reais, porém nada os impedia de avançar.
Erasmo subiu as escadas em direção ao aposento de seu pai e com lentidão abriu a porta, encontrando-o dormindo. Aproximou-se com a espada em mãos, porém parou ao vislumbrar o livro que estava sobre as cobertas e recordar-se do conteúdo proibido.
Um livro de bruxaria.
Afastou-se surpreso, contudo o barulho de passos atrás de si o fez virar rapidamente e encontrar o imperador com a espada em mãos prestes a atacar o próprio filho pelas costas, tentando entender a agilidade do homem em realizar o movimento tão rápido. O som metálico repercutiu pelo cômodo, as lâminas atracaram-se e faíscas saíram por suas espadas.
— Pensei que fosse um imprestável, mas vejo que me enganei já que estava prestes a atacar o seu soberano. — Conrado gargalhou em fúria avançando em Erasmo que desviou do golpe que atingiria seu braço.
— Você mentiu para mim, durante todo esse tempo! — o rapaz acusou, movimentando o punhal para acertar o homem. — Aquele livro nunca foi de minha mãe e sim seu! — afirmou colérico recebendo um sorriso de Conrado.
— Antes a insignificante monarca do que o imperador. — Rebateu indiferente.
— Você é um bruxo! — gritou o príncipe furioso e avançando para cima do pai com veracidade. — E ainda mandou caçar todas aquelas pessoas, o seu povo! Você matou e aniquilou famílias, a troco de que? — vociferou.
— Não seja tolo, Erasmo, ou esqueceu que o meu sangue corre em suas veias? — sorriu com desprezo na direção do jovem. — Você é igual a mim, por mais que tente negar suas raízes.
— Nunca! — bradou, lançando a espada com agilidade na direção do homem que não conseguiu desviar acertando o seu braço. O som do metal retumbou ao atingir o chão, deixando o imperador vulnerável. — Eu nunca serei como você! — Sentenciou, erguendo a ponta afiada no peito de Conrado que o olhou temeroso.
— Não deixe que aquela bruxa corrompa suas crenças, Erasmo — gracejou — você tem um grande poder em suas mãos, assim como eu, somos únicos e por isso, não podemos deixar que pessoas com esses dons coexistam conosco. Merecemos ser donos de todos esses territórios, eles nos pertencem. —Afirmou, a náusea atingiu o príncipe ao constatar que tudo girava em torno do poder. O domínio por mais terras, aumentando o enriquecimento hierárquico.
— Você está enganado, Vossa Majestade, pois não há ninguém mudando minha fé. — A espada aproximou-se mais rente ao coração do soberano que grunhia em sofrimento — agora que sei minhas origens e o seu segredo profano, faço questão de vingar a morte da única pessoa que manteve-se sincera até o último suspiro de vida. Farei isso pela minha mãe. — O grito de dor saiu pelos lábios do imperador ao sentir a perfuração em seu peito, afundando cada vez mais — os dias de sua perseguição sangrenta contra aqueles que nada fizeram acabaram. O seu reinado e legado chegaram ao fim, meu pai. — Completou ao ver o corpo cair diante de suas pernas, perdendo a vida de modo lento conforme os olhos de Conrado fechavam-se vagarosamente e o sangue propagava por todo o piso chegando aos seus pés.
O Reino de Osborne havia libertado-se de seu tormento e um novo dia iniciava com a promessa de um novo Império.
Oie bruxinhas(os), deixa um comentário do que achou desse quinto capítulo que me ajuda a melhorar a história! Vou amar saber a sua opinião.
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