Capítulo 47 - Escuridão (PARTE 2)

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— NO QUE VOCÊ ESTAVA PENSANDO? ME RESPONDE! — gritou Arnaldo, descontrolado. — A sua irresponsabilidade não tem limites!

— Eu a amo, pai. — Arthur entrelaçou seus dedos nos meus — Isso não tem nada a ver com o CBA. A Dianna chegou à final porque tem talento de sobra e você sabe disso.

A sensação da mão de Arthur grudada a minha não me ofereceu o conforto que eu esperava. Eu estava nervosa demais, e sabia que as coisas ainda iriam piorar para o meu lado.

— Isso causa uma má impressão ao concurso! Vamos perder toda a credibilidade! Ela foi sua aluna desde o início, você escolheu apadrinha-la! — Arnaldo bradou, cada vez mais furioso — O QUE ACHA QUE OS OUTROS VÃO PENSAR?

— PARA DE SE PREOCUPAR COM O QUE OS OUTROS ESTÃO PENSANDO! — Arthur gritou, igualmente furioso. Eu nunca tinha lhe visto daquele jeito. Os dois estavam vermelhos e se encaravam de forma assassina. Mesmo que a porta da diretoria estivesse fechada, eu tenho certeza de que as pessoas seriam capazes de ouvir essa discussão até mesmo em Marte.

— Você sempre vai ser esse filho irresponsável que só me dá desgosto!

Olhei para Arthur, e notei que seus lábios tremiam. Eu sabia que ele tinha se magoado com seu pai, mas a raiva estava se sobrepondo a tudo isso.

— Se eu só te dou desgosto, tudo bem, vamos facilitar as coisas. — Ele respirou fundo — EU ME DEMITO!

Arnaldo deu uma risada de escárnio, e eu fiquei cada vez mais nervosa. Eu estava no meio daquele fogo cruzado, só esperando a minha sentença, e a situação piorava ainda mais ao ver os dois discutindo, porque eu tinha medo do que essa briga com seu pai poderia causar a Arthur.

— Você não vai durar um dia sem mim, principalmente com essa bandinha imprestável. — desdenhou, encarando Arthur de forma fria.

— Você ainda vai engolir tudo o que está me dizendo! — Arthur exclamou, cada vez mais transtornado.

Arnaldo se virou para mim e eu aguardei que ele sentenciasse meu destino, mesmo sabendo o que ele diria.

— Dianna, eu sinto muito, mas você está desclassificada do concurso. Me desculpe pelo meu ataque de fúria, mas não posso permitir que você permaneça no CBA. — Eu senti que tinha levado um soco no estômago com aquela frase.

— Tudo bem, eu entendo. — Assenti minimamente com a cabeça e fiz menção de que iria sair, mas Arthur me segurou.

— Pai, isso é injusto! — ele exclamou, indignado — A Dianna não tem culpa de nada. Você sabe que ela é realmente talentosa.

— A minha decisão já está tomada. — Arnaldo respondeu, desdenhoso e decidido — Você não trabalha mais aqui. Arrume suas coisas e vá embora.

Soltei a mão de Arthur e corri de forma desenfreada pelos corredores vazios do CBA. No tumulto, todos haviam ficado na sala da avaliação, o que me deixou mais aliviada. Eu não queria falar com ninguém.

Algumas lágrimas rolaram pelo meu rosto, e eu me senti envergonhada. Meu pai e o resto da minha família tinham visto aquilo. O mundo todo deve ter visto aquelas fotos. Eu não sofri nenhuma lesão, mas a minha carreira realmente vai acabar somente por ter me apaixonado pelo meu professor.

Escorei meu ombro na parede e me permiti aproveitar o momento para sentir a ficha caindo. Por incrível que pareça, apesar de estar me sentindo miseravelmente triste, não consegui chorar do jeito que gostaria. Um vazio se instalou em meu peito, e eu queria colocar tudo o que sentia para fora, mas eu não consegui.

Fiquei daquele jeito por tanto tempo que não ouvi o momento em que passos se aproximaram de mim. Senti um toque gélido do lado esquerdo de minha testa e ao me mexer de forma assustada, um braço firme me apertou.

— Se você der mais um passo eu atiro na sua perninha de bailarina. — avisou Deborah, apertando o metal frio da arma contra a minha cabeça.

— Deborah, por favor... — Eu sussurrei, sentindo sua respiração gelar a minha espinha.

— CALE ESSA MALDITA BOCA E ENTRA NESSA SALA! — Ela gritou, apertando-me enquanto me conduzia a uma sala que tinha mais a frente. Ironicamente, era a sala que o Arthur costumava dar as aulas de canto para nós quando a turma ainda era grande.

Meu corpo inteiro tremia, e eu estava gelada. O cano da arma contra a minha cabeça só me fazia ter imagens assustadoras da minha cabeça sendo estourada em milhares de pedacinhos.

— Senta aí. — Deborah apontou para a cadeira à minha frente. Demorei alguns segundos para obedecer, o que fez com que ela batesse com o cano da arma na minha nuca. Eu me desequilibrei e caí em cima da cadeira. Deborah levantou a cadeira e depois a mim — que estava desorientada por conta da coronhada — e me colocou sentada em cima da cadeira. Coloquei a mão na nuca e senti que eu sangrava. Minha visão estava um pouco turva.

— Por que você me odeia tanto? — perguntei, tentando ganhar tempo para sair daquela enrascada, antes que fosse o meu fim.

Deborah estava parada em minha frente, com a arma apontada para mim. A vida como fugitiva não tinha afetado a sua beleza, mas com certeza a sua saúde mental pedia por socorro. Mesmo com algumas olheiras, seu rosto ainda era o de uma mulher bonita.

— Acha mesmo que eu planejei tudo isso? Quero dizer, quando eu te vi aqui no CBA pela primeira vez, eu fiquei perplexa. Pois é, eu achei que tinha superado a sua mãe. Depois que ela foi eliminada, eu pensei que tinha encontrado a paz. Mas aí eu te encontrei, e percebi que a sua mãe merecia uma morte muito pior do que a que ela teve. — Deborah abriu um sorriso doentio para mim, e eu tentei não me afetar com a forma como ela falava da minha mãe.

— Isso ainda não justifica nada do que você tenha feito!

— Você é igualzinha a sua mãe. — Ela se aproximou um pouco mais de mim e percebi que me observava — É gentil, bondosa, talentosa e inocente. Caiu nas garras do pateta do Arthur, e até mesmo a Barbara, que era a minha aliada, você conseguiu conquistar. Achei que destruir a sua reputação iria me satisfazer, mas eu percebi que a única coisa que vai me fazer ter paz é ver você morrer.

Engoli em seco, sentindo a minha visão embaçar novamente. Pressionei os olhos com força e os abri, tentando ajustar a minha visão.

— Como entrou aqui?

— Com dinheiro se compra tudo, queridinha. Aposto que você pensou que eu tinha desistido de infernizar a sua vida.

— Você é louca! — exclamei, sentindo-me extremamente cansada de tudo aquilo.

— Eu não comecei a te infernizar por conta da mancha de café na minha blusa, se é isso que você pensa. E também não foi por causa do Arthur. A Barbara no começo se mostrou empolgada em te destruir, mas no dia em que ela embebedou você e sua amiguinha de propósito, ela deu para trás e não quis dar continuidade ao plano. — Deborah dobrou o braço que segurava a arma, observando o cano dela com um sorriso medonho. — O médico Saraiva era um medroso. O subornei para que prejudicasse seu tornozelo, mas não deu certo e eu tive que sumir com ele. Em outras palavras, eu o matei. — Ela revirou os olhos e me encarou de novo. Seus olhos frívolos mais uma vez gelaram a minha espinha. — Foi eu que te persegui naquele dia de madrugada, lembra? Uma pena o zelador ter trombado com você, pois eu quase te matei naquela noite.

Lembrei-me das páginas sofridas e desequilibradas em seu diário, e de como ela teve uma infância sofrida com uma mãe extremamente neurótica e controladora. Eu sabia que grande parte dos problemas de Deborah eram por culpa de uma mãe exigente e rígida, que não lhe dava carinho.

— Você ainda pode desistir disso, Deborah. Sinto muito por você ter tido uma infância difícil, por ter uma mãe controladora... — eu disse, sentindo empatia pela situação dela. Porém, percebi que esse assunto era proibido no momento em que ela soltou um ganido de raiva.

— Isso não é da sua conta, sua maldita! — Deborah exclamou, acertando outra coronhada em minha cabeça. Meu rosto tombou para a frente e eu fiquei ainda mais desorientada. — Quais são as suas últimas palavras?

Deborah se abaixou para ficar da mesma altura que eu. Ela apontava a arma para a minha testa e encará-la de perto foi uma das coisas mais assustadoras que eu já fiz. Seu olhar doentio brilhava em minha direção, e uma ideia que poderia apressar o meu fim se formou na minha mente.

— Rápido, Arthur! — gritei, enquanto olhava para um ponto atrás de Deborah. Ela virou para trás e foi o momento que eu esperava. Golpeei com toda a força que eu tinha a sua mão, e Deborah largou a arma, que deslizou para longe. Aproveitei os poucos segundos que ainda tinha de vantagem para golpear seu rosto. Eu nunca fiz aulas de defesa pessoal, mas assisti a muitos filmes de ação, e eu entendia a importância do elemento surpresa. Também sabia que estava sendo imprudente, mas eu não ia morrer assim tão fácil.

A pancada não surtiu o efeito que eu queria porque eu estava desorientada e zonza, mas fiz o meu melhor quando chutei o estômago de Deborah e ela caiu no chão, sem ar. Me joguei em direção a porta a passos trôpegos por conta das pancadas que sofri e corri de forma mais lenta que o normal, gritando por socorro.

Tropecei em minhas próprias pernas e me apoiei nas laterais das paredes enquanto corria com toda a pouca força que ainda restava no meu corpo.

Deborah gritou, e eu ouvi o barulho dos tiros que passavam perigosamente perto do meu corpo. Coloquei as mãos na cabeça e continuei correndo, sentindo que meu fim estava próximo.

— DIANNA! — Arthur gritou, e eu olhei para trás no momento em que ele se jogou em cima da Deborah. Os dois lutaram pela posse da arma, e Diego apareceu para me amparar. Di me abraçou enquanto eu ia deslizando em seus braços. Fiquei assistindo os dois lutarem enquanto a minha visão turvava cada vez mais. Eu queria ajudar Arthur, mas eu não conseguia mais me manter de pé.

Antes da escuridão me abraçar, eu ainda escutei um último tiro.

[...]

Quando acordei, me deparei com alguns paramédicos ao meu lado. Me levantei da maca e percebi que eu estava do lado de fora do CBA, dentro de uma ambulância.

— Onde está o Arthur?

— Siga a direção do meu dedo. — disse a paramédica, apontando uma lanterninha para meus olhos. Ela fez os procedimentos padrões, e enquanto isso tudo acontecia, ouvi uma voz me chamar.

— Dianna! — Clara e o restante dos meus amigos vieram correndo me abraçar. Senti minha nuca e minha cabeça cobertas por um curativo, e percebi que ambas as partes latejavam.

— O que aconteceu? Onde está o Arthur? E a Deborah?

Meus amigos se entreolharam e eu fiquei aflita com a possibilidade de que algo grave tivesse acontecido. Percebi que a polícia também estava ali.

— A Deborah morreu. O Arthur e ela disputaram a posse da arma, que acabou disparando. O tiro acertou o abdômen dela. — Marlon informou, afagando a minha mão com carinho com uma sombra de tristeza em seu olhar.

Arthur apareceu envolto de um cobertor cinza. Eu me levantei da maca e o abracei.

— Acabou, Dianna. — Ele beijou minha cabeça, e eu chorei de alívio e tristeza ao mesmo tempo. Eu me sentia quebrada em todos os sentidos, mas ao ver que finalmente a Deborah não iria mais me assombrar, eu me permiti chorar tudo o que eu ainda não tinha chorado.

— Acabou. — Sussurrei contra o seu rosto.

Ficamos daquele jeito por algum tempo antes que eu dissesse ao Arthur algo que eu havia decidido. No fim das contas, aquela parte incômoda e pequena dentro de mim não era tão pequena assim.

— Sei que esse não é o melhor momento, mas eu acho melhor seguirmos nossas vidas separados por um tempo, até a poeira baixar. — Eu disse, sentindo que aquilo era o certo a se fazer, por mais que doesse admitir.

Arthur me encarou com tristeza.

— Tem certeza disso?

— Sim. Eu estou confusa, e tudo o que aconteceu hoje só me deixou ainda mais traumatizada. Eu preciso voltar para São Paulo para conversar com meu pai e esfriar a cabeça. Não consigo pensar em ter um relacionamento agora, eu estou uma bagunça... — Arthur assentiu, com os olhos marejados.

— Eu... eu entendo perfeitamente.

Meu peito estava apertado naquele momento, mas agora eu entendia que precisava de espaço. Eu amava o Arthur com todas as minhas forças, mas isso não quer dizer que esse é o momento propício para ficarmos juntos. Sei que era algo que eu havia sonhado por muito tempo, mas eu não me sentia inteira de novo. A expulsão do concurso mexeu muito comigo, e assumir um relacionamento agora não faria muito bem para a minha saúde mental, pois não queria encorajar ainda mais os hates que eu tinha certeza de que iria sofrer. Estava doendo muito aquela decisão, mas eu simplesmente não tinha forças para nada.

— Me perdoe... — Depositei um beijo em seu rosto e virei as costas para o homem que eu amava.

[...]

Antes de embarcar no avião, eu ainda ouvi sermões por telefone do meu pai, que quase teve um treco ao saber do atentado que eu sofri. Ele não entendeu nada quando aquelas fotos minhas com Arthur apareceram no telão, e eu fiquei de lhe contar tudo desde o começo. Chega de omitir as coisas da minha família.

O aeroporto estava cheio, e eu não conseguia nem mensurar o número de mensagens das pessoas que acompanham o concurso do CBA no meu Twitter e Instagram. Eram os haters dando as caras de novo, e uma galera me defendendo e shippando a mim e ao Arthur.

Meu ex professor inclusive, escreveu um texto lindo nas redes sociais e tratou de se justificar sobre ter ou não me dado preferência no concurso. Ele disse que tinha se apaixonado por mim, mas que eu tinha chegado à semifinal por mérito, e não porque nos relacionávamos escondido.

Meus amigos vieram se despedir de mim. Todos eles ainda ficariam no Rio de Janeiro até o fim do concurso, afinal, a Barbara era uma das finalistas e eles precisavam torcer por ela. Quanto a mim, eu só queria saber de voltar para a vida pacata que eu levava.

— Vou sentir saudades, Di. — Clara disse, me esmagando em um abraço apertado.

— Isso não é um adeus, é um até logo. — Eu respondi, com a voz embargada.

— Acho que você concluiu com sucesso a saga da Lenda CBA. — Marlon foi o próximo a me abraçar. Eu dei uma risada fraca.

— Acho que eles já podem fazer a minha estatua de gelo. — brinquei, fazendo com que meus amigos rissem.

Diego enxugou uma lágrima que caiu e me abraçou com carinho.

— A sua história ainda não acabou. — Ele sussurrou, afagando minha cabeça — Tenho certeza de que ainda vou te ver na Broadway.

— Obrigada por tudo.

Caminhei em direção ao portão de embarque com um sentimento estranho. Uma parte minha estava aliviada por poder voltar para casa, enquanto a outra estava tão confusa que não sabia mais que rumo dar para a minha vida.

[...]

Cass me abraçou assim que pus os meus pés em São Paulo. Chorei como uma garotinha em seu ombro, e ela me aninhou contra seu corpo como se fosse minha própria mãe.

— Vai ficar tudo bem, Di... — Ela sussurrou enquanto afagava meu cabelo com carinho.

Quando cheguei em casa, eu me joguei nos braços de papai. Ele me abraçou apertado, e estava feliz em me ver bem. Ninguém da minha família se encontrava ali, e eu fiquei me sentindo melhor ao ver que seríamos só eu e ele.

Contei toda a minha história desde o início de quando pisei não CBA e manchei a blusa de café da Deborah, da hostilidade dos outros participantes, de como eu admirava Arthur e da implicância descabida da Deborah. Contei como Arthur e eu nos apaixonamos sem omitir nada, e quando terminei, relatando desde a facada que levei até a parte em que quase levei um tiro e terminei com Arthur, eu já estava aos prantos novamente.

Papai me puxou para um abraço apertado.

— Eu sei, querida... Eu sei... — Ele disse, afagando meus cabelos com ternura. Eu tinha sentido muito a falta de papai.

— Me desculpe por não ter contado nada, eu só não queria preocupar você. — Me afastei de papai para olhar para seu rosto — Está com raiva de mim?

— E por qual razão eu teria raiva de você, querida? Agora vai ficar tudo bem, você está segura. Eu não vou te julgar e vou me certificar de que os outros façam o mesmo. — Papai disse de forma feroz, claramente se referindo aos comentários maldosos que encontrou na internet.

— Pai, acha que eu fui uma tola por ter me apaixonado? — perguntei, deitando a cabeça em seu ombro.

— Mas é claro que não. Nós não escolhemos quem iremos amar, você não é tola por isso. Tolos são os que não amam ninguém. Como essa Deborah, que a essa altura já deve estar ardendo no fogo do inferno.

Meu pai deu uma risada maligna, e mesmo contra a minha vontade, eu gargalhei.

— PAI! — Levantei a cabeça e o olhei de forma estupefata.

— Calma, foi só para descontrair. Agora deite no meu colo que eu senti muita falta da minha bebezinha.

Não contestei quando papai me chamou de bebê, apenas fiz o que ele pediu, deitando em seu colo. Papai me ninou com uma cantiga que mamãe costumava cantar para mim quando eu estava com medo do escuro. O cansaço foi me dominando, e quando eu menos percebi, eu já tinha pego no sono.

Foi a primeira vez que me senti realmente em paz.

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