Capítulo 44 - Fora de Controle

As vezes eu me sentia como um barco à deriva, sem rumo, navegando pelos mares conforme a correnteza me levava. Eu sabia onde eu queria chegar, mas não sabia bem como eu chegaria.

A sensação que eu tinha era de que o tempo passava mais depressa do que o normal e algumas coisas não se resolviam. Viver com medo era algo constante em minha vida, já que tinha uma louca foragida que queria vingança por algo que ninguém além de si mesma havia lhe causado.

Temia pela minha vida e pela vida do meu pai, e o pior era saber que eu não tinha o controle de absolutamente nada. Eu poderia ter dinheiro para contratar os melhores seguranças, e ainda assim algo ruim podia acontecer. Eu poderia me dedicar ao máximo ao concurso e mesmo assim perder para outro concorrente.

Os dias se passaram rapidamente. Eu e todos os outros sobreviventes do concurso corríamos contra o tempo para criar, ensaiar nossas apresentações e prestar atenção nas últimas aulas.

Apesar de me sentir mal toda a vez que eu olhava para Arthur, eu me forcei em extrair dele toda a sua sabedoria. Ele tinha uma experiência e um talento incríveis, e sempre fora um professor formidável. Pensar que em algumas semanas tudo isso acabaria fazia com que eu sentisse vontade de chorar.

Eu nunca mais o veria.

Nossa relação agora era a mais distante e profissional possível. Nós mal nos falávamos, e por mais que me doesse, eu sabia que era melhor assim. Eu não era correspondida e mesmo se fosse, nós nunca poderíamos ficar juntos.

Tentei afastar esses pensamentos tristes da cabeça quando saí da sua aula e decidi que iria correndo ensaiar a minha apresentação. Ela já estava quase pronta, mas eu tinha medo de que ela me prejudicasse demais. Era algo meio arriscado, e também diferente de tudo o que eu já tinha apresentado ali dentro.

Antes de entrar no estúdio, Carmen me chamou.

— Dianna, eu posso falar com você um instante? — Ela perguntou de modo delicado. Eu sorri para ela, mas tremia por dentro.

O que a professora nova queria comigo?

— Claro.

— Eu só queria dizer que antes de ser escolhida pelo Arnaldo como professora substituta, que eu já tinha visto algumas apresentações que você fez aqui no CBA. Eu te acho uma bailarina fantástica. Não só bailarina, mas uma artista completa. — confessou Carmen, sorrindo de um modo admirado — Você tem a voz perfeita, dança bem e atua de uma forma incrível. Pessoas como você são difíceis de aparecer. Eu mesma só encontrei poucas pelo caminho. Eu fico feliz que o Arthur também saiba do potencial que você tem. Ele tem uma aluna maravilhosa.

— Nossa... uau. Muito obrigada. Eu... Eu nem sei o que dizer! — exclamei, abrindo um sorriso. As palavras de Carmen me surpreenderam e aqueceram meu coração gelado e triste.

— Não precisa dizer nada. Sei que aqui vocês não estão muito acostumados a receber elogios, mas eu precisava te dizer isso. — Carmen colocou as mãos nos bolsos de sua calça social cor bege. Seu cabelo estava preso em um coque malfeito, e vários fios dourados escapavam do penteado.

— É muito importante ouvir isso, de verdade. — Eu puxei uma de suas mãos e a apertei de forma carinhosa.

Carmen me olhava de um jeito quase maternal, e aquilo me deixou um pouco emocionada naquele instante, pois acabei me lembrando de minha mãe.

— Vou deixar você ensaiar agora. — Ela apontou para a porta do estúdio — Boa sorte e bom ensaio.

— Obrigada, professora.

— Não tem de que.

Entrei na sala me sentindo um pouco mais alegre. A professora Carmen definitivamente não era como a Deborah, tampouco se igualava aos outros professores. Ela era muito mais doce e eu me senti mais tranquila por tê-la por perto. Arthur não poderia ter escolhido uma pessoa melhor para estar ao seu lado.

Fiz um simples alongamento para aquecer o corpo e esvaziei a minha mente. Eu não queria mais pensar em Arthur, nem em Deborah, que até hoje não tinha sido encontrada e em nada que pudesse tirar meu foco. Eu precisava me focar no que importava agora. Eu precisava me focar em ganhar o concurso.

Eu poderia não ter o controle do futuro, mas podia fazer o possível para que as coisas dessem certo na minha carreira, e era isso que eu faria.

A avaliação passou como um borrão. Eu poderia dizer que eu me lembrava perfeitamente de como eu tinha executado a minha performance, se eu tinha acertado aquele passo difícil, se a minha voz tinha acertado aquela nota complicada, e se meus pés tinham me obedecido, mas eu estava tão nervosa que eu acabei me desligando de tudo.

Eu não prestei atenção na apresentação de Clara e Barbara e não vi quando Arthur entrou no palco para anunciar quem estaria classificado para as semifinais. A minha cabeça só voltou ao normal quando descobri que Clara não tinha sido classificada.

— Dianna, você vai vencer. — anunciou Clara, me abraçando. Automaticamente eu comecei a chorar, e uma sensação de solidão me preencheu. Clara fora uma das primeiras pessoas que entraram na minha vida ali dentro, e eu já estava tão acostumada em estar em sua companhia que foi difícil processar o fato de que ela iria embora também.

— Eu não quero que você vá embora. Primeiro foi o Di, depois o Marlon e agora você... — choraminguei, abraçando Clara com força.

— Se eu saí foi porque chegou a minha hora. Estou triste porque eu queria chegar a final, mas se isso não vai acontecer, fico feliz que vocês duas estejam classificadas. — Clara disse, se separando de mim e olhando para Barbara, que também a abraçou.

— Semifinalistas, apresentem-se amanhã no estúdio 7 para que possamos realizar o apadrinhamento de alunos. — pediu Leandro, com um sorriso brincalhão nos lábios. — A hora de vocês mostrarem a que vieram ao mundo chegou! — Ele gritou, fazendo com que os outros semifinalistas gritassem de modo empolgado.

Os eliminados choravam, e Rogerio, o garoto com pinta de mimado que foi entrevistado comigo e Barbara socou a cadeira em que estava sentado e soltou um grito repleto de indignação. Todos nos assustamos com aquilo.

— ESTÃO OLHANDO O QUE? — esbravejou, com os olhos ardendo em fúria — VÃO TODOS SE FERRAR.

Ele se retirou de forma irritada da sala, e os que ainda estavam no recinto começaram a rir.

— Precisamos de uma noite de garotas. — disse Barbara, com um sorriso matreiro nos lábios — Vamos fazer uma festa do pijama no nosso quarto, com direito a muitas guloseimas e Netflix.

A loira nos puxou pela mão para fora da sala. Ela tinha nos olhos um brilho de divertimento.

Nós fomos ao mercado comprar biscoitos, chocolates e Bala Fini para a nossa festinha improvisada. Nós podíamos comer dentro dos nossos alojamentos, desde que limpássemos tudo caso sujássemos alguma coisa.

— Vou pedir para o Mcdonald's entregar um lanche para nós por minha conta! — Clara exclamou, já abrindo o aplicativo do Ifood no celular.

Já era quase noite quando terminamos de preparar tudo. Nosso lanche chegou e nós colocamos um filme para assistir.

— O que tá acontecendo entre você e o Diego? — Barbara perguntou subitamente para Clara. — Nós vimos vocês dois se agarrando na boate e depois disso nunca mais tocaram no assunto.

— Bom, eu não sei. — confessou, abaixando a cabeça. — Eu acho que estou gostando dele. Nós temos conversado bastante, mas nunca mais falamos sobre o beijo.

Clara sabia que eu e Diego havíamos nos beijado meses antes e não se sentia incomodada, uma vez que seus sentimentos por ele surgiram há pouco tempo. Ela praticamente não falava de Diego, mas eu e Barbara sabíamos que havia algo lhe incomodando.

— Acho que você devia conversar com ele sobre o assunto. — respondi, ao que minha amiga ficou pensativa.

— Eu não acredito que essa é oficialmente a minha última noite no CBA. — Clara suspirou, mudando de assunto. — Vai ser a última vez que vou dormir nesse quarto!

— Você vai desistir do seu sonho? — perguntei para a Clara a pergunta que eu me dei conta de que precisava fazer para mim mesma.

Se eu perder o concurso, eu devo desistir da minha carreira artística?

— Não, eu não vou desistir. — respondeu ela, e quando viu meu olhar pensativo, acrescentou: — E nem você deve, Dianna. Nem pense nisso! — A ruiva fez uma pausa no filme. — E eu meio que tive uma epifania essa semana.

— Qual?

— Estou sentindo uma afinidade muito grande para a atuação. Mais do que dançar ou cantar, eu sinto que eu devo focar na minha carreira como atriz, sabe?

— Então foque nisso com todas as suas forças de gata. — disse Barbara, dando um sorriso indolente muito parecido com os de Clara.

A ruiva abriu um sorriso estonteante e jogou biscoito no rosto de Barbara, que riu.

— Até que enfim você aprendeu!

[...]

Clara tinha ido embora do CBA, mas ficaria hospedada em um hotel com Diego e Marlon no Rio de Janeiro. Ela queria estar por perto, para comemorar quando o concurso acabasse.

Meu corpo estava agitado. Eu estava diante dos professores, e eles nos olhavam de modo sério. Tinha chegado a hora do apadrinhamento de alunos, e tinham nos pedido simplesmente para dançar de forma espontânea, sem nada coreografado.

Barbara estava quase finalizando a sua performance. Ela dançava de forma divina, e os professores pareciam encantados.

Depois dela, eu seria a próxima, e meu coração se contorcia no peito por conta da ansiedade. Eu só queria que aquilo acabasse logo.

As meninas disseram que provavelmente a Carmen escolheria me apadrinhar. Os professores precisavam escolher dois alunos para apadrinhar, ajudar e dar conselhos. Passaríamos uma parte do dia individualmente com nossos padrinhos, e eu estava ansiosa para captar o conhecimento de Carmen, caso ela realmente me escolhesse.

— Dianna, sua vez. — disse Carmen assim que a apresentação de minha amiga acabou. Barbara esboçou um sorriso de encorajamento para mim e eu me levantei, limpando disfarçadamente o suor de minhas mãos no meu collant.

Coloquei a música Word da Skylar Grey para tocar. Seria uma apresentação breve de 2 minutos que eu provavelmente nem sentiria passar, mas me concentrei em seguir a música e deixar meu corpo ditar meus movimentos.

Girei a cabeça lentamente e meu corpo me conduziu exatamente como eu previra. Meus movimentos eram lentos e precisos, mas conforme a música avançava e ficava mais forte, eu me conectei com a letra e joguei meu corpo em direção ao precipício que era meu interior. Era tão intenso tudo o que eu sentia, que o único pensamento em minha cabeça era que Arthur estava ali me assistindo. Tentei controlar as minhas emoções, mas a música era tão forte e meu corpo sentia tanta necessidade de implodir que eu deixei que tudo dentro de mim implodisse dançando. Eu flutuei, eu caí, eu me joguei, e quando finalmente finalizei a minha dança, todos estavam em silêncio.

Voltei a me sentar e o outro semifinalista se levantou para realizar a sua apresentação. Quando as apresentações terminaram, nós nos levantamos. O primeiro professor a falar foi o Tony.

— Eu escolho Anderson Camargo e Amelia Santos. — Os dois alunos escolhidos foram para a frente e abraçaram Tony.

Leandro foi o próximo.

— Karina Barros e Rômulo Silva, o melhor padrinho daqui é de vocês.

Nós soltamos uma risada, e Bruno deu um tapa na nuca de Leandro, que cambaleou para a frente, o que arrancou ainda mais risadas de todos nós.

— Eu quero comigo Barbara e Gabriel. — Barbara abriu um sorriso mínimo e cúmplice para Bruno e caminhou com Gabriel até seu padrinho.

Quando Arthur deu um passo a frente e eu vi que ele era o próximo, meu coração acelerou. Eu sabia que ele não me escolheria, mas a ansiedade que tomou conta de mim foi cruel. Abaixei a cabeça, nervosa.

— Eu quero Fernando Lima — ele fez uma pausa, o que me deixou ainda mais ansiosa. — e Dianna Smith.

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