Capítulo 43 - O Início do Fim
Voltar a danceteria que eu e Arthur dançamos foi mais nostálgico do que eu gostaria de admitir. Marlon, que surpreendentemente beijava Gabriela em um canto, não parecia tão feliz quanto queria aparentar. Apesar de dizer que não estava abalado, tenho certeza de que sua eliminação do concurso havia mexido com ele. Afinal, todos nós estávamos ali buscando o mesmo objetivo, mesmo que não fôssemos competitivos uns com os outros.
Eu sabia que meus amigos nunca puxariam meu tapete ou me sabotariam (até mesmo Barbara havia ganho a minha confiança), mas a nossa busca pelo prêmio nunca foi maior que a nossa amizade, e isso era incrível.
Diego, que ainda estava na cidade, se juntou a nós na comemoração e ficou feliz ao ver que eu usava seu presente, um cordão com um pingente de borboleta. O clima entre nós era agradável e eu me senti aliviada por isso.
— Eu tive uma epifania! — berrou Marlon, sua voz se sobrepondo a música alta. Nós todos fizemos um círculo enquanto ele falava. — Gosto mais de homem do que de mulher.
— Você jura? — indagou Barbara de forma sarcástica, como se ela já tivesse percebido isso antes dele. Todos eles já estavam meio bêbados naquela altura do campeonato. Eu era a única que não bebia pois queria ser a voz da sobriedade no meio de todos os meus amigos.
E também porque não tinha gostado tanto assim de beber.
Cass, minha melhor amiga, também estava aqui. Ela conversava com um cara muito bonito que havia lhe abordado perto do bar. Ele parecia ser interessante e minha amiga parecia extremamente interessada nele.
Enquanto observava Cass, vi Arthur chegar à danceteria acompanhado dos outros professores (exceto Carmen, a professora nova).
Nossos olhares se cruzaram por uma fração de segundos, mas Arthur quebrou o contato visual tão rápido quanto eu. Meu coração acelerou, enquanto uma vontade de chorar me acometia. Não sei porque me sentia tão emotiva, mas acho que era porque eu sabia que não podíamos ficar juntos.
Nós nos cumprimentamos de longe com acenos de cabeça, como se realmente fôssemos os profissionais que tentávamos ser quando estávamos na presença um do outro.
Cass depositou algo gelado em minha mão.
— Toma, você está precisando. — Tinha uma substância azulada no copo que ela colocara em minha mão.
— O que é isso?
— É um sex on the beach. — Ela estava risonha e corada. — Você tá precisando, querida.
— Quero permanecer sóbria.
— Um drink não vai te fazer cair bêbada no chão. E eu vi a situação com o seu professor. Vai por mim, esse drink vai te fazer se sentir melhor. — Cass abriu um sorriso encorajador para mim e eu dei um gole no drink. Era realmente gostoso. Tão gostoso que acabei me rendendo e pedindo outro. E outro. E mais outro.
Quando dei por mim, eu já estava mais do que animada, tropeçando em minhas próprias pernas. Quase derrubei um cara tentando chegar ao banheiro e me surpreendi ao ver Clara e Diego se beijando no canto da boate. Minha visão estava um pouco embaçada, mas eu tinha certeza de que eram eles. Entrei correndo e cambaleando no banheiro para que eles não me vissem.
Não sei quanto tempo fiquei no banheiro, mas quando saí, Clara e Diego já não estavam mais onde eu os havia encontrado. Na verdade, eu não vi nenhum dos meus amigos perto de mim. Minha cabeça ficou zonza e eu tropecei em cima de um rapaz, que me olhou de um jeito estranho e desejoso.
— Uau, um anjo caiu direto pros meus braços. — Seu hálito de cerveja soprou em meu ouvido, fazendo com que eu me encolhesse. Tentei empurra-lo, mas a bebida me deixara fraca.
— Me solta, por favor.
— Ah, mas porque eu faria isso? A nossa diversão está apenas começando. — Ele me agarrou com força pelos braços e me jogou contra uma das paredes da boate, onde outros casais se beijavam. Eu tropecei nas minhas próprias pernas tentando me desvencilhar dele, mas eu me sentia completamente exaurida.
— LARGA ELA! — Subitamente, o cara já não estava mais me agarrando, pois Arthur o puxou bruscamente e o jogou no chão. O dono do estabelecimento e mais dois seguranças lhe acompanhavam, e o cara foi removido da boate na mesma hora. Quem estava por perto presenciou tudo, mas a confusão foi dissipada de forma tão eficiente que as pessoas logo voltaram a prestar atenção em outras coisas.
— Obrigada...
— Você está bem? Ele te machucou? — Arthur me olhava com preocupação.
— Não, eu estou bem... Arthur, me desculpe... — solucei, tentando a todo o custo frear as palavras que queriam sair da minha boca. — Eu e Diego não temos nada.
— Você não me deve satisfações de nada. E aliás, todo o mundo viu a Clara com ele.
— Mas é que...
— Quero que você se cuide e fique bem. Sei que está no caminho certo. Sua avaliação foi uma das melhores. A professora Carmen ficou impressionada e não para de falar de você. — As suas palavras me pareciam uma despedida, e eu me incomodei com aquilo.
— Ela não parece ser uma tirana como a Deborah. — comentei, sentindo calafrios ao pronunciar o nome do dragão.
— Eu tenho que ir, vou me encontrar com a Carmen agora.
— Vocês vão trabalhar? — Não acredito que fui ingênua ao ponto de fazer uma pergunta daquelas. Arthur coçou a cabeça, como se estivesse envergonhado.
— Na verdade, eu tenho um encontro com ela.
Ah, claro. Eu sou uma tapada mesmo.
Foi como se eu tivesse levado um soco no estômago. Meu olho se encheu de lágrimas e não pude fazer nada para impedir.
A nova professora era linda. Tinha cabelo loiro escuro ondulado, olhos azuis cinzentos e lábios carnudos e um corpo lindo. Claro que Arthur se interessaria por ela.
— Dianna, quero que siga a sua vida. Lute pela sua carreira, estude, corra atrás dos seus sonhos e se cuide. Você vai encontrar alguém que vai te amar de verdade, mas esse alguém não sou eu. Eu sou seu professor e você é a minha aluna. Não devemos ter nenhum outro envolvimento além do profissional. O que tivemos não foi nada... Eu sinto muito.
Não foi nada. Não foi nada. Não foi nada.
O que tivemos não foi nada.
Nada.
Arthur se afastou de mim no mesmo momento em que as minhas lágrimas começaram a cair. Tudo o que tínhamos vivido não significou nada para ele, e aquilo dilacerou meu coração porque eu o amava. Arthur tinha terminado algo que nem havia começado. Eu sabia que ele estava certo, mas o fato de eu não ser correspondida doía mais do que eu conseguia imaginar.
Nada. Nada. Nada.
Lembrei-me dos nossos momentos juntos, dos poucos beijos que trocamos, das confidências compartilhadas.
Tudo era nada.
[...]
Muita coisa aconteceu depois da festa de despedida do Marlon, e eu poderia dizer, com toda a certeza do mundo, de que a única coisa que parecia ir bem na minha vida era o meu desempenho no concurso dentro e fora do CBA.
Os hates que eu recebia nas redes sociais diminuíram, de modo que me importar com aquilo tendo outras mil preocupações na cabeça não me parecia muito relevante aquela altura.
Se passaram dois meses desde que Marlon saiu da escola, e muita coisa mudou. Acredito que a única coisa que não tenha mudado foi a nossa amizade, já que temos um grupo no Whatsapp que permanece movimentado pelos posts engraçados e irônicos de Marlon, e pelas conversas acaloradas com Diego. A única infiltrada do grupo era a Cass. Deborah desaparecera da face da terra, e eu ainda vivia com o medo constante de que ela fosse aparecer a qualquer momento, o que não era uma situação muito agradável.
A apreensão ao meu redor era tão palpável que eu conseguia sentir. Sobraram só 20 de nós, e Arnaldo fazia um de seus longos discursos no salão de teatro. Meu coração estava acelerado pelo medo. Eu sabia que aquele era um dos divisores de água daquele concurso.
Clara estremeceu ao meu lado.
— A avaliação que precede as semifinais irá acontecer no próximo final de semana. Vocês terão cinco dias para ensaiar, contando a partir de hoje. As aulas acontecerão pela parte da manhã e as tardes estarão livres para que pensem em suas apresentações. Dez de vocês irão para casa e dez ficarão. Cada professor irá lançar um desafio para vocês, e depois de seus respectivos desempenhos, escolherão dois alunos cada um para apadrinharem. Em outras palavras, eles serão seus parceiros, e vocês passarão muito tempo com seus professores padrinhos até que as semifinais comecem. A professora Carmen irá explicar como vai acontecer essa avaliação. — explicou Arnaldo, sucinto.
Carmen, que era totalmente diferente da Deborah, deu um passo a frente. Ela deu um sorriso tímido e colocou uma mecha de seu cabelo atrás da orelha.
Por mais que eu tentasse, eu não conseguia sentir raiva. Carmen não tinha culpa de nada, e Arthur merecia ser feliz. Os dois combinavam, e podiam ser vistos juntos e isso mudava tudo. Meu coração ainda doía, mas eu estava começando a me acostumar com a situação. Uma hora ia parar de doer.
— A avaliação de vocês será mostrar as suas habilidades no palco. Vocês estão livres para nos mostrar o que quiserem. Pode ser dança, canto ou até mesmo alguma cena. Nessa avaliação vocês podem fazer qualquer coisa artística que esteja dentro dessas três modalidades que eu citei. — Ela deu um sorriso de encorajamento, passando os olhos por todos nós antes de continuar — Sei que estamos muito perto do fim, e que todos estão nervosos, mas peço que foquem no que importa agora. A pressão é muito grande, mas se dediquem e o esforço valerá a pena. Essa sala está cheia de pessoas que exalam talento, e eu sei que vocês ainda serão muito bem sucedidos, independente do que acontecer daqui pra frente.
Carmen acenou com a cabeça para nós e me lançou uma piscadela de cumplicidade. Ela gostava de mim e eu nem sabia o porquê.
Nós nos retiramos logo em seguida, e eu tenho certeza de que todos pensavam no que a Carmen havia dito para nós. Ela era tão diferente da Deborah que chegava a ser assustador. Até mesmo os outros professores não costumavam nos dirigir palavras de encorajamento, principalmente na frente do Arnaldo, e isso era legal e ao mesmo tempo estranho, já que não estávamos muito acostumados com aquilo.
— Eu não acredito que esse fim de semana pode ser o fim para nós. — confessou Barbara, encarando fixamente seus pés. Clara soltou um suspiro repleto de pesar.
— Nem eu. — murmurei com desânimo.
O celular de Barbara apitou e ela encarou o visor do telefone com um sorriso maravilhado.
— Quem é o boy que tá te fazendo sorrir que nem doida? — Clara provocou, claramente se referindo a um cara muito bonito da turma de Barbara que vinha tentando se aproximar da loira.
— Estou focada no concurso agora, mas confesso que esse menino tá me fazendo suspirar. — Barbara respondeu ao mesmo tempo em que digitava uma mensagem para seu crush. Os seus olhos brilhavam.
Minhas amigas se despediram de mim e foram cada uma para um lado enquanto eu andava pelos corredores vazios do CBA com um sentimento estranho dentro do peito.
Quando eu entrei ali, tinha tanta gente pelos corredores que eu tive um pouco de dificuldade para caminhar. Passei por humilhações, por perseguições, fiz amizades para a vida toda e ainda conheci o amor verdadeiro.
Se eu dissesse que não sinto falta de quando tudo começou, eu estaria mentindo. O começo da minha trajetória no CBA foi difícil, mas eu me sinto mais forte olhando para trás e lembrando de tudo o que eu passei para chegar aqui.
Olhei para a frente e encontrei Carmen escorada no mural de avisos. Arthur estava em sua frente, e eles dois riam. Ele afagava a sua mão com carinho, e eu não pude deixar de me sentir mal com aquilo. Desviei o olhar daquela cena e senti que Arthur tinha percebido a minha presença, pois consegui sentir seu olhar em cima de mim antes que eu me virasse.
Caminhei tão rápido para sair do campo de visão deles que eu poderia até participar de uma maratona.
Só percebi que estava prendendo a respiração quando parei na porta do meu alojamento. Meus olhos estavam marejados, e a agonia que se apossou do meu peito foi tão forte que quase me derrubou. Ver Arthur seguindo em frente deveria fazer meu coração se encher de alegria, mas eu não me sentia alegre naquele momento. Os sentimentos dentro de mim não eram nada bonitos, e eu me peguei tendo inveja da Carmen. Era sombrio e idiota me sentir desse jeito, mas eu não podia evitar.
Achei que essa dor e todo esse incômodo fossem passar rápido, afinal, eu nem cheguei a namorar Arthur. Sei que nunca me envolvi emocionalmente com ninguém, mas será mesmo que era normal não superar um cara inadequado que nunca iria me corresponder?
Acho que sim.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top