Capítulo 42 - A Plenitude de Marlon

Arthur virou as costas para nós, e antes de se virar, eu tive a certeza de que de alguma forma, me ver com o Diego o machucou.

Meu coração se partiu por vê-lo daquele jeito, e apesar de o meu primeiro impulso ter sido o de ir correndo até ele, eu não consegui sair do lugar.

Nossos olhares se encontraram por uma fração de segundos, e foi como se o tempo tivesse congelado ao nosso redor. Eu me sentia tão impotente quanto ele. Eu tentava a todo o custo me convencer de que era melhor assim. Quando tudo isso acabar, independente do meu resultado no concurso, nós nos tornaremos estranhos um para o outro. Tudo o que vivemos estará sempre fresco em nossas memórias, como algo bonito que não teve nem começo e nem fim. Afinal, eu nem sabia se o que Arthur sentia por mim era na mesma intensidade que eu. O que eu sabia, é que nós nutríamos sentimentos um pelo outro que não poderíamos ter, e eu já havia me conformado com isso.

Me voltei para Diego, que me olhava com um sorriso triste nos lábios. Ele não tinha percebido o quanto ver Arthur ali me desestabilizara. Diego só tinha olhos para mim, e eu acabei me sentindo mais triste ainda por não poder retribuir. Eu tinha dois homens maravilhosos, mas um eu não poderia nunca amar da forma que eu gostaria, e o outro só estava no meu coração como nada mais do que um grande amigo. Quando foi que a minha vida amorosa se tornou tão complicada?

Diego afagou a minha bochecha com carinho e se afastou.

No dia seguinte, quando Diego teve que ir embora, eu e meus amigos não aguentamos e começamos a chorar ao mesmo tempo. Diego sempre demonstrou ser mais forte do que nós, mas até ele tinha os olhos marejados naquele momento.

— Vocês não precisam chorar. Eu estarei por perto até o final do concurso. Quero que cheguem a final para eu poder vir assistir vocês dando tudo de si.

— Mas não vai ser a mesma coisa. Temos que encarar o fato de que quando o concurso acabar, cada um vai voltar para a sua cidade de origem. Eu não entendo muito bem de geografia, mas tenho certeza de que o Piauí fica longe do fim de mundo de onde eu moro. — disse Marlon de forma dramática, referindo-se a cidade onde Diego mora. Marlon veio de Pernambuco. — Nós vamos acabar nos distanciando, e eu vou odiar quando isso acontecer.

— Eu não quero perder a nossa amizade. — reclamei, me sentindo abalada pelas palavras de Marlon. — Não quero perder vocês.

— Que papo fúnebre é esse? Ninguém vai perder ninguém, sacou? Estaremos unidos por toda a eternidade, e vocês terão que me aguentar. — Clara disse cheia de autoridade, arrancando risos tristes de todos nós. De repente, ela se virou para Barbara, que também tinha os olhos tristes — Até mesmo você, Barbara. Estamos ligadas. Todos nós estamos.

A loira abriu um sorriso cúmplice para Clara.

— Isso aí. Nós somos o único grupo de amigos nesse lugar que valoriza mais a amizade do que a competição. Não sei se isso nos faz muito superiores, ou muito burros, porque acho que a maioria da galera perde tempo sabotando uns aos outros. — comentou Diego, arrancando mais uma rodada de risadas de todos nós.

— Eu sei bem o que é ser sabotada... — murmurei, tentando fazer piada com as catástrofes da minha vida.

— Até eu te sabotei, e agora somos amigas! — exclamou Barbara, me fazendo gargalhar.

— Eu acredito fielmente na teoria de que somos superiores. — Clara abriu um sorriso e entrelaçou nossas mãos. Marlon deu a mão livre para a Clara e logo, todos nós estávamos em um círculo de mãos dadas. Lágrimas caíam dos meus olhos — Amizade, quando se é verdadeira, é para sempre. Não há distância capaz de separar a gente.

Nós ficamos ali por um tempo no nosso círculo de mãos dadas. As pessoas que passavam, tanto as que iam embora quanto as outras, nos olhavam estranho. Provavelmente pensavam que estávamos realizando algum tipo de bruxaria ou invocando alguma coisa.

Eu não me importei com aquilo, já estava acostumada a ser recebida dessa forma pelas outras pessoas, e não ia deixar um momento importante como aquele se estragar por conta de um bando de curiosos que não entendiam o valor de uma amizade verdadeira.

E foi ali naquele momento que eu soube que a nossa amizade era para sempre. Eu realmente percebi que estávamos mesmo ligados pelo resto da vida. Seria difícil manter contato, mas nós faríamos aquilo dar certo. De alguma forma, pensar assim me encheu de coragem para enfrentar tudo o que estava por vir.

Diego foi embora, o que não foi nada fácil. Nós sempre fomos um quarteto — quinteto agora, com a Barbara — e seria difícil para nós nos acostumarmos com a ausência do Diego pelo resto das semanas.

Nós os observamos dar as costas para nós, enquanto um mundo de possibilidades se abria em seu caminho. Eu tinha certeza de que ainda veria Diego conquistando tudo aquilo que sonhou, esse concurso não iria detê-lo. Abri um sorriso e meus amigos me acompanharam, talvez partilhando do mesmo pensamento que eu. Diego não tinha nascido para ser um perdedor.

Eu estava numa aula mista de canto, dança e teatro, tentando controlar as emoções que tomavam conta de todo o meu corpo naquele momento. Meu tornozelo já havia melhorado em 80%, e meu médico tinha autorizado que eu voltasse a dar tudo de mim nas aulas, o que fiquei feliz em obedecer. Meu pai também estava reagindo bem ao transplante, mas ainda não havia tido alta do hospital.

Arthur nos passava todo o seu conhecimento de uma forma altiva que me fazia ama-lo ainda mais. Sua aula naquele dia estava ainda melhor do que as anteriores, e ao julgar pelos rostos dos meus colegas, que não desgrudavam o olhar dele, tenho certeza de que eles pensavam o mesmo que eu.

Arthur era simplesmente fascinante em tudo o que fazia, e ele parecia dar tudo de si ali em cima enquanto nos explicava tudo o que tínhamos que saber. Seus olhos não se voltaram para mim em nenhum momento, e apesar de sentir meu coração se apertar com aquilo, não conseguia deixar de olhar para seu rosto.

Enquanto o assistia, não pude deixar de notar a ausência de Diego. Ele era meu único amigo naquela classe, e eu me senti um pouco patética por estar sozinha ali.

No meio da aula, Arthur recebeu uma ligação que fez todo o seu semblante mudar. Fiquei nervosa com a sua reação, porque a Deborah ainda estava foragida.

Quando a aula acabou, e os alunos foram se encaminhando para a saída, Arthur olhou para mim e me chamou. Meu coração ficou acelerado, e eu percebi que enquanto caminhava em sua direção, que as minhas pernas tremiam.

— Dianna, tenho uma notícia para te dar. — Não tive forças de dizer nada, só o encorajei a continuar. — Acharam o corpo do doutor Saraiva. Estão suspeitando que a Deborah o matou.

— Mas a polícia não tem ideia do seu paradeiro? — indaguei, tentando controlar meu nervosismo.

— Algumas testemunhas disseram que viram uma mulher com as mesmas características da Deborah próximo à estação de metrô. É só questão de tempo até que a polícia a encontre.

— O tempo está passando e até agora nada.

— Sei que está aflita com a situação, eu também estou, mas infelizmente a única coisa que podemos fazer é torcer para que a polícia a encontre logo. Ou que um raio caia na cabeça dela, o que vier primeiro. — Dei uma risada de sua piadinha boba e ele me acompanhou no riso. — Vai dar tudo certo. — Arthur afagou meu ombro com carinho, mas logo recolheu a mão, assumindo uma postura mais profissional e distante do que eu gostaria.

[...]

Eu estava em inércia. Tudo se passava por mim em câmera lenta. Eu me concentrava nos passos, na música, e em todo o resto, mas era como se a minha alma flutuasse para longe dali enquanto eu tentava a todo o custo alcança-la. Por mais que esse seja o intuito da minha coreografia, não pude deixar de notar que combinava como eu me sentia ultimamente.

Se passaram dois meses desde que eu levei a facada, e era como se a Deborah tivesse sumido do mundo sem deixar rastros. O concurso se encaminhava para os últimos meses, e as coisas dificultavam cada dia mais. Eu estava em uma avaliação de dança, e até agora a minha coreografia estava de acordo com o que eu tinha ensaiado. O meu tornozelo estava mais forte, mas meu coração enfraquecia cada dia mais.

Meu pai voltou para São Paulo e como tinha se recuperado, agora voltara a administrar meu fã clube junto com Lucy e Cass. Essa última ficara aqui no Rio de Janeiro para fazer uma prova para um concurso e só voltaria para São Paulo no fim de semana.

Consequentemente, papai descobriu sobre a facada e quase surtou. Tive que passar horas e horas no telefone com ele para convencê-lo de que eu estava segura. Não consegui deixa-lo calmo o suficiente, o que me preocupou bastante.

Eu sentia as luzes dos refletores em cima de mim, e os olhares rígidos da professora substituta da Deborah também, mas fingi que nada daquilo existia. Eu me concentrava somente na dança que me envolvia, que envolvia meu corpo, meus braços, e todo o meu ser. Eu me agarrei tanto a dança e ela se agarrou tanto a mim que naquele momento eu senti que éramos uma coisa só.

Eu mal percebi quando tudo acabou, e o som dos aplausos e as câmeras que se focavam em mim fizeram com que eu percebesse que a minha apresentação chegara ao final.

— Cara, você arrasou! — Marlon me abraçou. Clara e Barbara também me elogiaram. Elas pareciam impressionadas com a minha coreografia.

— Foi muito intenso. — explicou Barbara, me dando um sorriso.

Naquele dia, os resultados da avaliação seriam revelados no mesmo dia, e como fui a última, os jurados já podiam se retirar para se reunir e decidir nossos destinos. A espera foi uma agonia, e meus amigos tentavam a todo o custo fazer piadinhas para diminuir a tensão.

— Se eu sair hoje, vou sair feliz. Tenho alguns projetos e se eu não vencer esse concurso, considerarei um sinal de que preciso leva-los a sério. — Marlon informou, misterioso e determinado.

— E que projetos são esses? — perguntei, curiosa.

Marlon se virou para mim e deu uma piscadela.

— Um artista não revela a sua obra antes de ela ficar pronta.

— Então você vai deixar a gente na curiosidade? — indagou Clara, tão indignada quanto eu e Barbara.

— Sim. — respondeu, todo pomposo — Na hora certa, todos saberão.

Bem nessa hora os jurados voltaram, e eu encarei os professores com o coração retumbando de medo dentro do peito. A professora nova, a Carmen Gonçalves, era mais simpática e mais competente que a Deborah, apesar de ter os olhos rígidos durante as avaliações. Será que ela me eliminaria? Teria odiado a minha apresentação?

Arnaldo se posicionou na frente do palco, e depois de discursar longamente, passou a palavra para Tony. Ele deu um sorriso simpático para nós, e foi dizendo os nomes dos que tinham sido reprovados.

Quando o nome de Marlon foi pronunciado, eu, Clara e Barbara ficamos chocadas.

Marlon deu de ombros e olhou para o teto.

Esse é o sinal divino que eu estava esperando. — falou, genuinamente feliz, abaixando a cabeça para nos encarar — Não fiquem tristes, vocês não se livrarão de mim tão fácil.

— O que você está tramando? — Barbara perguntou, temendo o que sairia da boca dele.

— Eu tramei isso depois que o Di saiu. Quero sair com estilo e vocês vão me ajudar. — Marlon tinha no olhar um brilho sinistro e diabólico.

— Como? — Clara não se aguentava de curiosidade.

— Vou dar uma festa naquela danceteria que você dançou com o Arthur. E a Cass já está convidada. Se quiser convidar seu professor...

— As coisas estão estranhas desde que ele me viu beijando o Diego. Melhor não. — E mesmo se as coisas não estivessem estranhas, ainda assim eu não o convidaria. Era muito ousado e arriscado.

— Bom, você que sabe.

— Eu nem sei se devo ir... Com a Deborah a solta, acho muito arriscado.

— Nem comece com esse papo, Di. — Marlon me repreendeu. — Não deixe que essa louca te tire a vontade de viver. Nós não sairemos do seu lado, tudo vai acabar bem. — Ele afagou meu ombro com carinho. — Eu vou providenciar tudo para que a minha festa de despedida seja memorável. Encontro vocês mais tarde. — Marlon saiu andando enquanto digitava freneticamente no celular. Ao contrário da maioria das pessoas que havia sido eliminada, Marlon não estava nem um pouquinho abalado.

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