Capítulo 41 - O Beijo de despedida do meu melhor amigo (PARTE 2)
— Parem de me amolar, eu vou ficar bem! — ralhou papai, deitado na cama do hospital enquanto era preparado para a cirurgia do transplante de coração.
Eu, Cassandra, minha tia, Lucy e vovó estávamos lhe rodeando como se fôssemos urubus em busca de carniça.
— Ninguém está te amolando, só estamos apreensivas. — Minha tia rebateu, sentida pela ignorância de papai.
— Parece até que eu estou caminhando para a morte, parem com isso! Vamos manter o pensamento positivo.
— Você só está falando isso porque está mais nervoso do que a gente! — disparou minha tia, em tom de completa indignação.
— Você me conhece tão bem, querida irmã. — debochou ele, abrindo um sorriso sapeca. Me debrucei sobre a maca de meu pai e o abracei fortemente, torcendo para que a cirurgia fosse um sucesso e que tudo corresse bem. Ele me abraçou de volta, e eu senti o curativo que fizeram se mover.
Voltar ao CBA depois do que tinha acontecido foi mais fácil do que eu pensava. Os alunos sabiam que eu tinha sido a aluna atacada, já que eu era uma das únicas que não estava no colégio quando aconteceu o ataque. Foi até fácil demais para eles adivinharem que tinha sido eu, visto que nem Clara e nem Diego tinham curativo em suas barrigas. A mídia descobriu também, o que aumentou a minha popularidade nas redes sociais, dando um trabalho danado para minha tia manter meu pai longe dos tabloides e noticiários.
Quase tão difícil do que isso foi encarar quase uma hora de sermão do diretor Arnaldo, que descobriu que eu e meus amigos tínhamos saído do CBA à noite. Nós tínhamos permissão para sair, mas nós saímos em um horário que ficaria quase impossível de retornar antes do toque de recolher. Ele fez questão de frisar que tinha reforçado a vigilância não só para manter os alunos seguros, mas também para conter os arruaceiros como nós.
Só não levamos uma advertência porque ele disse que se sentiu culpado quando soube que a Deborah, uma funcionária do colégio, tinha me atacado, já que ela aparentemente tinha burlado todas as regras para trabalhar na escola e parecia ser uma pessoa equilibrada. Quero dizer, equilibrada na medida do possível. Ninguém nunca desconfiou que ela seria uma pessoa perigosa, só a achavam meio histérica e narcisista de um jeito que quase parecia inofensivo.
Quase.
Virei uma das notícias mais comentadas do corredor. Eu podia ver os alunos me observando e cochichando a todo o momento. Os boatos que circulavam pelos corredores eram uns mais absurdos do que os outros, mas eu não queria mais ligar para isso. Eu precisava me concentrar no meu pai.
Os médicos logo o levaram para a sala de cirurgia, deixando-me com o coração na mão. Minha tia e Cass me abraçaram e Lucy segurou uma de minhas mãos, ambas aflitas com toda aquela situação. O bom humor de meu pai havia amenizado um pouco o peso de como nos sentíamos, mas agora que ele se fora para a sala de cirurgia, a mesma atmosfera de tensão nos envolveu.
Depois de horas de cirurgia (a cirurgia começou as oito da manhã e só foi terminar as oito da noite, em cima da hora do toque de recolher do CBA), o cirurgião cardiotoráxico chefe veio em minha direção. Ele estava claramente abatido.
Quando o médico me informara que meu pai estava bem e que a cirurgia havia ocorrido sem muitas complicações, eu não ouvi mais nada. O alívio me preencheu. Eu sabia que ainda tinha uma recuperação longa pela frente, além da possibilidade de seu corpo rejeitar o transplante, mas de algum modo eu sentia que o pior já tinha passado.
Meu pai estava desacordado quando retornou da sala de cirurgia, e eu prometi que voltaria no dia seguinte para vê-lo, já que eu não poderia ficar ali por conta do CBA e porque o hospital só permitia um acompanhante por paciente.
Pedi para que a minha tia me mantivesse a par de tudo, pois eu me sentia mal de ter que deixa-lo ali, mesmo sabendo que papai estava sendo muito bem cuidado por sua irmã.
Desde o ataque, eu ficara com medo de andar na rua e dar de cara com a Deborah. Minha família também andava bem atordoada desde o que aconteceu, mas nem mesmo o medo que eu sentia iria me impedir de ver meu pai.
Assim que eu coloquei os pés no CBA, meus amigos estavam me esperando.
— O que você tem com o Arthur?
A pergunta me pegou desprevenida. Eles sabiam que meu pai estava fora de perigo, então era normal que quisessem saber de outra coisa. Clara era a única que tinha ciência do meu segredo. Barbara parecia que de alguma forma já sabia e meus dois amigos eram os únicos perdidos e confusos.
— Eles começaram a desconfiar pelo modo como o Arthur ficou quando te encontrou desmaiada. — A ruiva me explicou, olhando-me como se não soubesse como agir.
Eu poderia mentir, mas eu sabia que eu não podia mais esconder aquilo dos meus amigos. Então, os puxei para uma área afastada do campus e lhes contei tudo desde o começo.
Era hora de ser honesta com meus amigos.
— Eu não acredito que você deu uns pegas no Arthur. — Marlon estava chocado. — Quero dizer, sempre shippei vocês dois no off, principalmente depois que vocês ficaram presos naquele quarto de hotel, mas nunca pensei que o meu shipp era real.
— Eu nem sei o que dizer. — Diego parecia um pouco decepcionado.
— Eu já desconfiava que você gostava dele, mas não sabia que era recíproco. — Barbara deu de ombros.
Nem eu acreditava que Arthur também sentia algo por mim. Na minha lista de preocupações, pensar na minha situação amorosa era a última colocada.
Continuamos conversando pelo resto da tarde a respeito de tudo o que eles queriam saber. Apesar de me sentir desconfortável, me senti bem em dividir meus sentimentos com todos os meus amigos. Era bom não ter mais que esconder esse segredo deles, para variar.
[...]
— VÃO COLOCAR O RESULTADO DA ÚLTIMA AVALIAÇÃO NO MURAL AGORA! — gritou Lia, uma das alunas mais fofoqueiras do concurso na outra manhã. Ela sabia tanta coisa que todo o mundo se questionava como ela conseguia descobrir tantas informações antes de todo o mundo.
Marlon, Clara e Diego praticamente correram em direção ao mural junto com os outros alunos. O alvoroço era tão grande que eu tive vontade de rir. Parecia até que iam tirar o pai da forca de tanta afobação.
Barbara e eu nos entreolhamos e sorrimos. Nós nos sentíamos superiores por não estarmos afobadas com aquilo. Talvez fosse um alarme falso e Lia estivesse mentindo. De qualquer forma, nós nos levantamos calmamente, prontas para zoar o trio que saiu correndo de forma desesperada. No entanto, quando nos aproximamos do mural, percebi que meus amigos choravam.
— O que aconteceu? — indaguei, sentindo o nervosismo me atacar mais uma vez.
Clara me encarou com os olhos vermelhos enquanto Di e Marlon se abraçavam.
Ai não.
— O Diego foi eliminado do concurso. — disse ela, chorando. Eu ouvi o choro de outros alunos que encaravam seus resultados, mas eu só conseguia focar na eliminação de uma das primeiras pessoas que falou comigo ali dentro sem rir de mim ou me julgar. Meu coração se apertou e eu me joguei nos braços do meu amigo, sentindo que tinha perdido mais uma parte importante de mim.
— Não chore, Di. — Diego passou o polegar pela minha bochecha para retirar a lágrima que escorria — Nós não vamos deixar de ser amigos por causa disso. Eu devo ficar aqui até o fim do concurso, podemos nos ver sempre que quiser. — Diego abriu um sorriso, mas meus lábios tremiam de tristeza.
— Mas não vai ser mais a mesma coisa.
— Claro que vai. Eu amo você, acha mesmo que vou me esquecer disso só porque perdi esse concurso? — indagou, com os olhos marejados e um sorriso nos lábios — Eu não estou triste por ter sido eliminado, só estou triste por ter que deixar vocês.
Nós todos nos abraçamos outra vez. Diego estendeu a mão para Barbara e ela também se juntou a nós. A loira finalmente era parte de nós e do nosso grupo.
[...]
O clima instalado entre nós era o de tristeza. Diego iria embora do CBA amanhã junto com os outros alunos eliminados. Estávamos aproveitando a companhia um do outro, já que as aulas daquele dia já tinham acabado. Eu, Marlon, Barbara, Clara e Di permanecíamos deitados no campus do CBA. Ambos agasalhados, por conta do frio carioca repentino.
Ninguém dizia nada, nossos pensamentos estavam distantes demais para podermos nos concentrar em qualquer outra coisa.
— Que dia mais bosta. — Marlon foi o primeiro a reclamar. Ele estava triste por Di, e também porque Gabriela tinha dito a Marlon que só gostava dele como amigo. Aparentemente, ele tinha se declarado para ela há alguns dias, e não foi correspondido, o que só aumentava o mau humor do meu amigo.
— Nem me fale. — Clara concordou, suspirando.
— Dianna, posso falar com você um instante? — Diego virou-se para mim com o cotovelo dobrado no gramado e a cabeça apoiada na mão.
Abri um sorriso.
— Claro.
Nós nos levantamos e deixamos nossos amigos para trás. Eles estavam tão carrancudos que nem esboçaram nenhum tipo de reação quando nos levantamos.
Eu e Diego caminhamos até uma parte afastada do campus do CBA.
— Eu quero que você entregue isto para eles quando eu for. — Diego retirou de trás de uma pedra uma sacola. Eu franzi o cenho quando ele se voltou para mim com um sorriso maroto nos lábios.
— O que é isso? — apontei para a sacola sentindo a curiosidade aguçar.
— São lembrancinhas que eu comprei em nossa última saída. Fiquei de entregar tudo quando o concurso acabasse ou eu fosse eliminado. — explicou, dando de ombros, entregando para mim a sacola com os presentes.
— Tudo bem, eu entrego.
— E esse é seu. — Diego estendeu para mim uma caixinha que encarei com curiosidade — Nada de abrir antes da hora, hein...
Dei uma risada, porque era exatamente isso que eu estava pensando em fazer.
— Vou tentar controlar a minha voraz curiosidade até lá.
Diego e eu rimos por alguns instantes, e quando a nossa risada cessou, meu amigo me olhou com pesar.
— Vou sentir a sua falta, Di.
Meus olhos se encheram de água.
— Eu também sentirei a sua.
Nós dois nos abraçamos fortemente, e eu inspirei seu perfume. Fechei os olhos para aproveitar aquele momento, já que meu amigo iria embora amanhã. Lembrei-me de quando ele veio falar comigo na aula de Arthur. Naquela época, eu era só uma garotinha medrosa e assustada. Hoje, eu ainda temia muitas coisas, mas a diferença é que agora eu não deixava mais o medo me paralisar.
Nós nos afastamos o suficiente para nos olharmos nos olhos, e a minha barriga se revirou de nervoso. Diego mordeu o lábio inferior e me encarou de um jeito que eu nunca tinha visto antes.
— Posso te pedir um beijo de despedida? — Ele perguntou, em expectativa. Abri um sorriso tímido e fiz que sim a com a cabeça.
Diego e eu nos aproximamos lentamente, e a expectativa do que viria a seguir me deixou ainda mais nervosa. Nunca tinha visto meu amigo daquela maneira, apesar de acha-lo lindo.
Nossos lábios encostaram um no outro, nossos corpos se aproximaram mais e eu senti calor. A sua língua encostou na minha e nós engatamos em um beijo profundo. Meu coração não acelerou como quando eu beijava Arthur, mas beijar Diego não deixava de ser uma experiência maravilhosa por causa disso. Sua mão direita foi parar na minha nuca, e a outra segurava a minha cintura com firmeza. Nos beijamos por mais algum tempo, até sentir que já era hora de nos afastarmos.
Diego me olhou de um jeito triste.
— Eu sou apaixonado por você. Sempre fui. Mas eu sei que é dele que você gosta.
— Eu sinto muito, Diego.
Balancei a cabeça, sentindo-me triste por Di, por mim e pela minha situação amorosa com o Arthur. Seria muito mais simples se eu tivesse me apaixonado por Diego, um aluno como eu, e não pelo meu professor, filho do diretor mais rígido do Rio de Janeiro.
Porém, quando eu olhei para os alunos que passavam um pouco atrás de Diego, eu notei que Arthur nos observava. Seu olhar era frio, e ele parecia... Alguma coisa. Só não sabia o quê. Seus olhos eram como duas pedras de gelo, que me envolviam e me deixavam arrepiada. Tinha um incômodo no fundo deles, mas eu quase não conseguia identificar.
Naquele instante eu percebi que Arthur viu que eu beijara o meu melhor amigo.
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