Capítulo 41 - O Beijo de Despedida do meu melhor amigo (PARTE 1)
No ballet, existe aquela típica pressão de que temos que nos superar a cada dia, mesmo que a maioria das pessoas, inclusive seus colegas, esperem que você leve um tombo.
Nos bastidores, as sabotagens são inevitáveis, e se não tomarmos cuidado, alguém pode puxar o nosso tapete.
O mundo do ballet não é tão diferente da vida real.
Constantemente nos deparamos com pessoas que querem apenas o nosso mal, e apesar de ser algo totalmente normal errar um passo de dança ou levar um tombo, nós precisamos ser perfeitos, e um erro como esse pode arruinar toda a nossa carreira.
Quando estou dançando, uma parte de mim flutua pelo palco. A outra parte, se preocupa em não errar os passos e em não cair.
Eu já levei muitos tombos, e confesso que lutei muito para manter o controle do meu corpo, mas existem coisas que estão fora do nosso alcance. Um giro mal executado, um pé de apoio que não está firme ou até mesmo a falta de treino podem te prejudicar. Na vida real manter o controle pode ser ainda mais difícil, principalmente se você está rodeada de pessoas que querem te ver cair.
E eu caí.
Caí no momento em que a escuridão preencheu meus olhos e sucumbi. Eu senti o sangue escorrer e me afoguei nele. Eu conseguia sentir um toque quente em mim, só que era tão distante que eu não conseguia senti-lo com firmeza para poder ter forças.
O toque se tornou mais forte e urgente, e meu coração acelerou. Abri os olhos de uma vez só e os cerrei por conta da claridade. Um corpo se debruçou sobre mim e eu senti que era Arthur.
— Dianna, eu sinto muito... A polícia já está atrás da Deborah. Não vou deixar mais que ninguém te machuque.
Arthur segurava forte uma de minhas mãos. Franzi o cenho, me sentindo bastante desorientada. Um medo horrível começou a me dominar quando Arthur disse que estavam à procura da Deborah, porque isso queria dizer que ela estava foragida.
— Onde estou?
Tentei me levantar, mas Arthur me impediu segurando meu corpo com cuidado. Ele tinha a testa enrugada e me olhava com muita preocupação.
— Você está no hospital. — explicou ele, ainda me segurando — Não se mexa, fizeram um curativo na sua barriga.
— Onde está meu pai? E meus amigos?
— Clara e Diego estão esperando lá fora e seu pai está bem. A sua tia está lá com ele. Ela decidiu não contar para ele sobre o que aconteceu para não preocupa-lo.
— Obrigada. Papai não pode ter emoções fortes agora. — Arthur assentiu em concordância. Nós nos olhamos profundamente e eu engoli em seco, sentindo-me nervosa. Ele abriu a boca para falar alguma coisa, mas fomos brutalmente interrompidos por uma Clara desesperada e um Diego afobado.
— Graças a Deus você acordou! — exclamou Clara, me abraçando com cuidado enquanto algumas lágrimas dela caíam em meu ombro — A polícia vai pegar essa vadia, amiga, tenha certeza disso! E o diretor já aumentou a segurança da escola. Você estará protegida no CBA e seu pai também.
— Que bom que você está bem. — Diego segurou a minha outra mão.
Meus olhos se encheram de lágrimas quando fui me situando: A Deborah, não satisfeita em ter contribuído indiretamente (ou diretamente) no acidente que matou a minha mãe, tentou me matar. Ela estava tão (ou mais) desequilibrada do que na época de sua adolescência, onde dedicava os seus dias a odiar a minha mãe. Ela tinha empurrado uma professora da escada! Ela nutriu anos e anos de ódio pela minha mãe e por mim também.
Aquela mulher é louca!
— Eu estou com medo. — confessei, porque era isso o que eu sentia no momento. Eu temia que aquela mulher tentasse me ferir de novo, ou que chegasse até o meu pai ou ao resto da minha família. Arthur e os meus amigos se aproximaram mais de mim. Eles também pareciam preocupados com a situação.
Apesar de ela não ser dotada de super poderes, a sua motivação e ódio eram suficientes para levarem-na a cometer coisas ainda piores do que as que ela já tinha feito, e era por isso que eu tinha medo.
— A Deborah não pode ir muito longe. Já estão mostrando a foto dela no noticiário e oferecendo uma recompensa para que a peguem. A sua identidade não foi revelada, mas todo o mundo quer saber qual aluna do CBA que a Deborah feriu. A mídia está marcando em cima, então quando você voltar para a escola, precisaremos ser cuidadosos. A polícia vai conseguir encontra-la, Di. Fique tranquila. — Clara me tranquilizou, enxugando as lágrimas do meu rosto e apertando a minha mão.
Um tempo depois, os médicos me explicaram que por sorte, a faca que a Deborah usou não tinha perfurado nenhum órgão vital. O único problema que encontraram quando eu cheguei foi a hemorragia, que eles conseguiram conter com muito custo, o que acabou explicando porque eu me sentia meio desorientada e fraca.
— Nós temos uma notícia muito boa para te dar. — disse Arthur, sorrindo para mim, como se estivesse desesperado para que me visse pelo menos um pouco mais feliz — Encontraram um doador compatível para o seu pai e amanhã mesmo vão prepara-lo para o transplante.
— Isso é sério? — indaguei, me sentindo aliviada e feliz por meu pai. — Eu quero estar com ele quando a cirurgia acabar. Quando vou poder sair daqui?
— Os médicos disseram que você não pode se esforçar muito, mas que se tudo estiver bem, amanhã mesmo você terá alta. Só terá que parar de dançar por alguns dias.
— Eu só quero estar com o meu pai. Não me importo em tirar folga das aulas. —respondi, me sentindo um pouco menos tensa com tudo o que estava acontecendo.
[...]
Meus amigos tiveram que voltar para o CBA e eu recebi uma visita da minha tia. Cass me ligou por vídeo chamada porque teve uma síncope ao saber que eu havia sofrido uma tentativa de homicídio e Arthur permaneceu no meu quarto quando todos foram embora. Pela regra do hospital, a partir do momento que acabasse o horário de visitas, Arthur teria que ir embora. Eu tinha direito a um acompanhante, mas minha tia já estava cuidando de meu pai e eu sabia que estava bem. Não precisava de nenhuma babá.
No entanto, a mais remota possibilidade de ter Arthur comigo pelo resto da noite fez minhas entranhas se revirarem de nervoso. Eu sabia que não tinha chance alguma disso acontecer, mas a parte sonhadora dentro de mim torcia para que ele ficasse.
— Como você sabia onde me encontrar? — Eu estava louca de curiosidade, afinal, eu não tinha avisado meu professor sobre o nosso plano maluco.
— A Clara me avisou o que vocês estavam tramando.
— Agora tudo faz sentido. — murmurei, encarando o teto branco do hospital.
— Como se sente?
— Estou me sentindo novinha em folha. — Dei uma risada para disfarçar o nervosismo, mas a situação toda me assustava muito. Ter alguém querendo te matar não era muito reconfortante. Arthur me lançou um olhar tão profundo que naquele momento eu senti que ele enxergava a minha alma.
— Não precisa fingir que está tudo bem. Sei que está com medo. Não imaginava que a Deborah pudesse chegar a esse nível de loucura.
— Pois é.
— Ela vai ser encontrada pela polícia e tudo isso vai acabar.
As suas palavras não trouxeram o conforto que eu esperava, mas o amei mais ainda por tentar me consolar.
— Mas e você? Te ouvi tocando com os outros professores outro dia.
— É, nós estamos ensaiando clandestinamente. Sinto muita falta de fazer música com eles. Quando eu era adolescente, nós tínhamos uma banda de garagem que estava começando a fazer sucesso pelo Rio de Janeiro, mas meu pai de um jeito de tirar isso de mim. Agora eu sinto que é hora de fazer o que realmente amo sem ligar para o que ele pensa a respeito.
— Eu te apoio nisso. Você está certo em seguir seus sonhos. Seu pai não deveria te privar das coisas que te fazem feliz.
Arthur abriu um sorriso para mim. A gente se entendia e se conectava de um jeito incrível. A nossa sintonia era tão boa que me dava paz. Uma parte de mim queria que tivéssemos nos conhecido em outro lugar, de outra forma, sem as proibições de nossa situação atual. No entanto, quando paro para pensar nisso, não consigo deixar de gostar da forma como nos conhecemos. Seus ensinamentos e o modo como os passou foi muito importante para o meu crescimento. Além do mais, a nossa amizade dentro do concurso me fez sentir mais forte e encorajada. Naquele momento eu me dei conta de que não existia forma mais perfeita de ter conhecido Arthur.
Ama-lo em segredo era uma tortura, mas eu não mudaria a forma que nos conhecemos por nada nesse mundo, se esta fosse mudar a nossa dinâmica.
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