Capítulo 40 - Sangrando no chão (PARTE 2)

Quando deu três horas em ponto, o auditório do teatro já estava lotado. Deborah e os outros professores já estavam ali, conversando entre si e anotando algumas coisas em papéis espalhados pela mesa.

O clima de tensão dentro do auditório era palpável, e nem as conversas paralelas que aconteciam ali dentro conseguiam esconder isso.

Clara mexia constantemente a perna esquerda, Barbara roía as unhas, minhas mãos estavam suando e Marlon disse que estava com dor de barriga. O único que sempre parecia tranquilo antes, durante e depois das avaliações era o Diego.

O diretor apareceu no centro do palco, e as câmeras começaram a filma-lo.

— Sejam bem-vindos a mais uma avaliação! Só quero desejar uma boa sorte a todos os meus alunos, e dizer que espero que vocês deem o seu melhor aqui em cima. — Apesar de estar sorrindo, os olhos de Arnaldo eram duros e sérios. Ele saiu do palco sob a salva de palmas de todos os alunos, e o primeiro concorrente foi chamado até o palco.

Pediram para que ele escolhesse alguém para dançar forró com ele. O menino, nervoso e acuado, escolheu uma amiga, que se encolheu na cadeira. Provavelmente porque não queria ser uma das primeiras. Ela se levantou e foi até o centro do palco, e eu descobri que ela não queria ter sido escolhida porque não sabia dançar forró direito.

— Se eu tiver que dançar forró, eu juro que me mato. — confessou Diego, me fazendo rir.

— Eu até gosto de dançar forró. — Fui sincera, lembrando-me de que meu pai era um ótimo dançarino de forró. Ele e mamãe ficavam dançando e me arrancavam gargalhadas e sorrisos quando o faziam.

Depois que a apresentação dos dois acabou, o rosto sério dos jurados mostrava que eles não tinham gostado nem um pouco do teste deles. Fiquei com medo do que me mandariam fazer, e quando percebi, meu dedo estava sangrando. O nervosismo que se apossou de mim foi tanto, que eu nem notei quando afundei a unha em minha carne.

Os próximos alunos foram chamados. Uns cantaram músicas escolhidas pelos próprios jurados, — músicas difíceis, mas que também podiam ser cantadas por quem estava no palco, afinal, eles precisavam ser justos — outros tiveram que improvisar cenas com palavras que os próprios professores davam — o que foi bem engraçado — e outros tiveram que dançar espontaneamente algum ritmo, sozinhos ou acompanhados.

Como sempre, meus amigos foram chamados primeiro do que eu.

Marlon teve uma apresentação impecável. Pediram para que ele fizesse um monólogo, e ele o fez muito bem. Diego teve que montar uma banda, e escolheu alguns amigos que dividiam o quarto com ele para se apresentarem juntos, e seu timbre fez muitas garotas suspirarem. Clara cantou e dançou, o que fez muitos caras assoviarem para ela.

Barbara foi a próxima, e sua avaliação foi um pouco mais complicada. Ela teve que cantar, dançar e atuar. Felizmente, a loira se saiu muito bem.

Quando foi a minha vez, meu coração acelerou. Tentei encarar a todos como se estivesse bem tranquila, mas as minhas mãos tremiam.

Quem falou o que eu teria que fazer foi a Deborah, deixando meu estômago ainda mais embrulhado.

— Escolha um grupo que ainda não tenha se apresentado e improvise uma dança sensual e divertida ao som de Hurricane, do Panic! At The Disco.

Por incrível que pareça, o dragão se dirigiu a mim com um tom de voz que quase poderia ser considerado agradável. Eu poderia ter captado algo mais em seu olhar ou em mim mesma, mas escolhi projetar a minha raiva e desconfiança para o fundo da minha mente para poder me concentrar em um dos testes mais difíceis da minha vida.

Escolhi algumas pessoas que me pediram para serem escolhidas. Como alguns outros testes feitos hoje, nesse, nós tivemos 15 minutos para ouvir a música e elaborar o que tínhamos que fazer. Por sorte, eu amava aquela música e a letra, então não foi tão difícil arquitetar uma apresentação de última hora.

Kelvin seria o meu par. Um negro de black power e sorriso bonito. Gabriela, a crush de Marlon, também estava no meu grupo. Providenciamos uns figurinos de última hora e nos preparamos para nos apresentar.

Quando a música começou a tocar, me posicionei como se procurasse um celular, pois a música começava como se um celular estivesse tocando. Peguei um aparelho improvisado no chão e o joguei para o lado quando as batidas da música ficam mais fortes, e quando a primeira estrofe da música foi cantada, andei pelo palco com sensualidade, flertando com Kelvin, que me encarava de cima a baixo e gritava "Hey stranger" como Brendon, o cantor de Hurricane, faz na música.

Nós dois nos viramos e ao mesmo tempo e começamos a dançar juntos. Ele jogou minha coluna para baixo e eu me ergui rapidamente, passando as mãos pelo seu corpo ao mesmo tempo em que jogamos nosso tronco de um lado para o outro de forma lenta e sensual.

Nós dois nos abraçamos, eu joguei meu corpo contra o dele enquanto ele simulava como se tirasse minhas roupas. Levantei uma perna e dei um salto. Kelvin me segurou pela cintura, me jogou para baixo e fez como que ia me beijar.

No refrão, o grupo todo entrou dançando junto conosco. Eu e Kelvin, no centro, dançávamos de forma sincronizada com os outros os passos que tínhamos inventado de última hora. Demos pulos para trás, esticando uma perna de cada vez e fazendo a ponta com nossas sapatilhas. Eu e Kelvin dançamos juntos mais uma vez, enquanto o grupo todo dançava ao nosso redor.

Lembrei-me das aulas de sensualidade que o Arthur me proporcionou me levando aquela danceteria. Se não fosse por ele, provavelmente não conseguiria dançar daquele jeito.

Continuamos dançando a música, improvisando passos, fazendo solos e nos divertindo muito. Quando a música finalmente acabou, estávamos esgotados. A galera toda aplaudiu, e eu me senti eletrizada por toda a apresentação que fizemos.

Nós nos abraçamos e agradecemos antes de nos retirarmos do palco.

Quando as avaliações acabaram, os professores anunciaram que os resultados sairiam no dia seguinte, o que deixou todo o mundo ainda mais ansioso.

Eu e meus amigos nos parabenizamos por nossas apresentações, pois nós realmente tínhamos nos superado. Eu me sentia orgulhosa de mim e do meu tornozelo, que se recuperava bem.

Porém, a animação não durou muito, pois logo me lembrei que daqui há algumas horas eu estaria a caminho de um encontro que poderia fazer a verdade aparecer e se libertar, ou me deixar com ainda mais dúvidas.

[...]

O casaco que Barbara me emprestou era muito parecido com o que a Alison usava em Pretty Little Liars, e em minha cabeça eu tentava a todo o custo não pensar no que eu estava prestes a fazer. Meu pai havia chegado ao hospital, e eu tinha ido visita-lo um pouco antes de vir. Ele percebeu que havia algo errado comigo, e eu tentei a todo o custo despistar o fato de que eu realmente estava prestes a fazer uma merda colossal.

Clara e Diego, de cada lado do meu dentro do metrô, também se encontravam absortos em seus próprios pensamentos. Olhei pela janela a mudança de clima quando começamos a nos aproximar de nosso destino, o que deixou a minha ansiedade em estado de alerta.

Meus amigos se levantaram e eu os segui até a porta quando o metrô parou. Nós andamos pela plataforma e eu senti o ar meio árido atingir o meu rosto. O fluxo de pessoas naquela hora não era tão intenso, e quando nos deparamos com o bairro que iríamos nos encontrar com o tal do Ed, eu senti vontade de desistir.

— Ali está! — disse Clara, apontando com o dedo para o Café Dorset, do outro lado da rua.

A placa da cafeteria me dava a impressão de que ninguém fazia uma manutenção há muito tempo, pois havia uma letra faltando em Dorset. As janelas também eram um pouco empoeiradas, e eu prometi a mim mesma que não tomaria nada daquele lugar.

— Você entra sozinha e se algo der errado, nós vamos intervir. — instruiu Diego, apertando os meus ombros com carinho — Vai dar tudo certo, Di. Estamos com você.

Clara respondia as mensagens de Marlon e Barbara no nosso grupo. Havíamos concordado que eles ficariam no CBA para nos acobertar ou até mesmo nos ajudar caso algo desse errado e fôssemos sequestrados. Torcia para que as coisas dessem certo, mas eu não era tão otimista quanto tentava transparecer. Eu estava tão nervosa que tinha me esquecido de tomar o remédio do tornozelo, o que fiz na mesma hora, engolindo-o sem água nem nada.

— Obrigada!

Clara me abraçou antes que eu atravessasse a rua e entrasse na cafeteria. Meu coração já estava disparado dentro do peito aquela altura do campeonato, e eu me peguei pensando em que perguntas eu faria quando encontrasse aquele homem.

Me sentei em uma mesa perto da janela, no canto, pois mesmo com a visão um pouco turva por conta da poeira, meus amigos poderiam me ver ali. Por um momento, tive medo, principalmente porque não os enxerguei através do vidro.

— Procurando alguém? — Dei um pulo assustado quando uma voz masculina e familiar surgiu e um homem desengonçado e quase que completamente calvo apareceu. Ele trajava um terno marrom cafona, e seu óculos de grau não lhe fazia parecer uma pessoa perigosa.

— Você é o Ed? — perguntei, ainda estranhando o sujeito em minha frente.

— Eu devia ter ligado os pontos! — Ele arregalou os olhos como se tivesse me reconhecido e começou a andar para a saída do Café. — Você é muito jovem para ser secretaria da Deborah. Foi um erro eu ter vindo aqui.

— Espera aí, o que quer dizer com isso? — Segurei em seu ombro, tentando a todo o custo fazê-lo ficar.

Ele apontou para o meu rosto com um olhar lunático.

— Eu te conheço, você é filha da Sra. Smith.

— Conhece a minha mãe? — perguntei, tentando entender como um cara como ele poderia conhecer a minha mãe. Ele ficou parado em minha frente, me encarando assustado.

— Eu vou indo. — O homem se virou novamente para a saída, mas meus amigos apareceram.

— Não, você não vai não. — Diego apareceu ao lado de Clara, bloqueando a saída. — Pode sentando aí.

Ed ficou encolhido no canto, sem saber o que fazer. Ele parecia que iria chorar a qualquer momento, e alguns poucos frequentadores do estabelecimento começavam a nos encarar de maneira estranha.

— Por favor, eu preciso saber o que aconteceu com a minha mãe. Se você tiver qualquer tipo de pista, contato, ou qualquer outra coisa, me conte, por favor. — pedi, segurando em seu braço com um olhar de súplica.

Acho que o meu olhar de desespero foi o incentivo que ele precisava, pois Ed se sentou sob os olhares atentos dos meus amigos antes de ajustar o óculos no rosto e me encarar.

— Tudo bem. O que você quer saber?

— Qual a sua relação com a Deborah e com a minha mãe? Sabe o que aconteceu no dia em que a minha mãe morreu?

Ele respirou fundo, se sentindo pouco à vontade para continuar.

— Há alguns anos, a Deborah me contratou para seguir a sua mãe. Ela estava procurando por Rose por muito tempo porque queria se vingar. Para isso, Deborah precisava saber todos os passos de sua mãe, para que ela contratasse alguém para matá-la. — revelou, olhando para Clara e Diego atrás de si, meio atrapalhado — Não eu, é claro, sou só um detetive.

— Dá para notar. — debochou Clara, dando um risinho.

— Um dia, Deborah pediu para vir junto comigo seguir a sua mãe. Ela tinha acabado de sair do trabalho, e chovia muito. Sua mãe notou que era seguida e acelerou o carro. Deborah surtou e começou a me mandar acelerar também, só que eu disse que não faria isso, porque comprometia o meu trabalho. Até que a Deborah começou a surtar e simplesmente perdeu o controle de si mesma. Ela pisou com tudo no meu pé no acelerador e eu perdi por um momento o controle do carro. Nós ultrapassamos a sua mãe e fechamos seu carro. No desespero, ela tentou ultrapassar e um caminhão que vinha do lado contrário colidiu com o carro dela.

Fiquei por um bom tempo tentando imaginar toda a cena na minha cabeça.

Que a Deborah era uma pessoa completamente descontrolada, isso nós já sabíamos. Entretanto, agora eu sabia que ela havia mesmo tentado matar a minha mãe, e por mais que não tenha feito isso com as próprias mãos, ela atingiu o seu objetivo. Meus olhos se encheram de lágrimas ao imaginar a minha mãe, desesperada dentro do carro enquanto tentava fugir.

— Então ela realmente teve a vingança que queria...

— Depois disso, a Deborah ainda me obrigou a trabalhar para ela por um tempo. Se sentia bem por ter conseguido acabar com a vida da sua mãe, mas queria que eu te seguisse também, porque não estava satisfeita somente em ter tirado a vida de Rose, ela também queria acabar com a sua. Então eu simplesmente surtei e pedi que ela não me procurasse mais. Deborah acabou com a minha carreira como detetive, como vocês podem ver. Ela é uma psicopata, narcisista e louca, capaz de tudo para ver as outras pessoas infelizes. Tome cuidado, Dianna. Ela não vai descansar enquanto não acabar com você também. — aconselhou, nervoso e inquieto. Eu quase podia sentir o seu desespero.

— Meu Deus... Meu pai... Você acha que ela pode querer matar meu pai? Ele está aqui e... — balbuciei, incapaz de conseguir terminar a frase.

— A Deborah é capaz de tudo, senhorita.

— Como podemos saber que você não está mentindo? — Diego indagou, olhando para o ex detetive de forma dura.

— Eu não teria motivos para mentir sobre nada disso. — Ed respondeu, dirigindo-se a mim logo em seguida — Até hoje me culpo pela morte da sua mãe, e em ter aceitado trabalhar para a Deborah. Quando te vi, fiquei assustado. Eu não pude denunciá-la porque ela tinha coisas contra mim. Aquela mulher consegue ser perigosa quando quer.

— Obrigada por ter me contado tudo isso. Fique com o meu número de telefone, se souber de mais alguma coisa, por favor, me avise. — pedi, estendendo um papel com meu número de telefone a ele. Ed hesitou por uns instantes, mas guardou o papel no seu bolso.

— Tome cuidado, senhorita Smith. — alertou, antes de deixar um envelope com documentos de investigação em relação a Deborah em cima da mesa, se levantar e sair do café.

Agarrei o envelope e fiquei encarando o nada por um tempo até sentir os dedos de Clara em minha bochecha.

— Não chore, por favor. — Clara me abraçou. Eu não percebi que as lágrimas já desciam pelo meu rosto. Só de imaginar a minha mãe encurralada na rodovia por um carro desgovernado que a seguia, eu já sentia o desespero dominar o meu peito.

— Vamos sair daqui. — Diego me ajudou a levantar.

— Esse Ed é um sujeito estranho. — constatou Clara, enquanto caminhávamos de volta para o metrô. Algumas pessoas esquisitas passaram nos encarando, e nós apertamos o passo.

A estação de metrô não ficava tão longe do café, mas nós não queríamos mais ficar ali. Eu, porque queria chegar no alojamento do CBA antes do toque de recolher, e também porque eu queria pensar em tudo o que o Ed me disse hoje. O toque de recolher estava prestes a acabar, mas eu ainda tinha esperanças de conseguir chegar antes que o mesmo ocorresse.

Porém, eu não consegui fazer nada disso.

Uma mulher de cabeça baixa se aproximou de nós. Como eu estava no meio e tão distraída e nervosa quanto os meus amigos, eu não vi quando ela encostou na minha barriga. Eu só tive noção da gravidade do que estava acontecendo quando eu vi o sangue escorrer.

— Junte-se a sua mãe no inferno, sua vadia! — disse Deborah, antes de correr com a faca que tinha usado para me esfaquear na mão.

Diego correu atrás dela e eu ouvi um barulho de pneu se arrastando no asfalto, mas perdi o equilíbrio e caí no chão, com Clara me amparando.

— Dianna, fique comigo, por favor, fique comigo. — ela pediu, chorando, enquanto com uma das mãos digitava um número no celular.

Com a pouca força que eu tinha, coloquei a mão em minha barriga e senti o sangue jorrar. Olhei para o céu e vi o rosto de Diego e o de Clara me chamarem, mas suas vozes ficavam cada vez mais distantes.

Um terceiro rosto se juntou ao deles. Tão lindo que parecia um anjo. Era Arthur. Como ele poderia estar aqui, se ele nem sabia o que estávamos tramando? Ele tocou meu rosto, beijou a minha testa, e continuou gritando por mim, mas como as outras vozes, a sua também começou a se distanciar.

Logo, todos os rostos sumiram, e o de minha mãe tomou forma em minha frente. Fechei os olhos e dei as mãos para a minha mãe, voando para um mundo desconhecido e cheio de estrelas.

Depois, tudo desapareceu.

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