Capítulo 39 - Não gosto de assistir o noticiário

— E então, Arthur? — perguntou Arnaldo mais uma vez ao ver que Arthur não tinha uma resposta na ponta da língua — O que essa garota tem de tão especial?

Eu não conseguia visualizar o rosto de Arthur de onde eu estava, mas conseguia sentir um pouco de seu receio. Acho que ele estava pensando bem em quais palavras usaria, para que seu pai não se voltasse contra ele. Arnaldo estava claramente desconfiado, e eu temi que a minha carreira terminasse antes mesmo de começar.

Por um momento, eu pensei que perder a minha carreira não iria ser tão ruim. Afinal, eu já tinha tantas preocupações na cabeça que ser desclassificada do CBA seria um dos meus menores problemas. Porém, a parte artística e sonhadora que existia dentro de mim tinha tanto pavor dessa possibilidade, que me tomou por completo. Eu não queria que Arnaldo descobrisse sobre o que havia acontecido entre nós.

Minha mente ainda processava a informação de que Arthur havia doado a quantia para meu pai poder se tratar. Eu me sentia emocionada, era um turbilhão de sentimentos que fluía dentro de mim. Eu só queria poder sair de debaixo da mesa para poder lhe agradecer e perguntar porque tinha feito aquilo.

— Eu tenho um carinho grande por ela, e acho que seu futuro vai ser muito promissor. Só quis ajuda-la a se concentrar melhor nas aulas trazendo seu pai para perto. — Arthur respondeu, sem titubear uma só vez. Meu coração acelerou sem que eu percebesse, e eu tive medo de que Arnaldo me visse ali embaixo da mesa.

— Nós já conversamos sobre a questão do apadrinhamento de bailarinos. Isso só vai ocorrer na última etapa do concurso. Você deve avaliar bastante os seus alunos antes de decidir quais serão os apadrinhados. — Arnaldo instruiu, daquele jeito seco e rígido característico dele. Eu me lembrava vagamente da questão do apadrinhamento de alunos mas não fazia a mínima ideia de como iria funcionar.

— E eu estou cansado de saber disso, Arnaldo.

Eu não podia ver o seu rosto, mas podia apostar que Arthur revirava os olhos naquele momento.

— Eu vou ficar de olho em vocês dois porque eu não admito, de forma alguma, relacionamentos entre alunos e professores dentro deste estabelecimento. — Arthur respondeu, sua voz ricocheteando como um trovão e me fazendo estremecer.

Apesar de saber que era expressamente proibido o envolvimento entre alunos e professores, algo dentro de mim meio que amortecia a culpa que me preenchia toda a vez que eu pensava no Arthur. No entanto, agora que eu ouvi em voz alta do dono e diretor do colégio que tudo estaria perdido caso ele descobrisse sobre nós, a ficha caiu.

Depois disso, os dois ainda conversaram sobre assuntos administrativos do CBA por um tempo, mas eu não prestei mais atenção. O meu cérebro se desligou totalmente de tudo o que acontecia ao meu redor. A única coisa em que eu pensava era em como eu poderia retribuir a tudo que Arthur já havia feito por mim.

Assim como uma tempestade passageira, o diretor se foi, me deixando em choque embaixo da mesa.

— Vai ficar aí embaixo até quando? — indagou Arthur, abaixando-se próximo a mim. Pisquei os olhos, voltando a mim e saindo de debaixo da mesa. Fiquei tão distraída com meus próprios devaneios que eu nem percebi que eu já poderia sair dali.

— Eu nem sei o que dizer. — Eu estava emocionada quando me levantei. Desacreditada que meu professor fizera aquilo por mim e nem se poderia aceitar. Arthur parecia um pouco constrangido. — Obrigada por ter feito isso pelo meu pai, eu nem sei como agradecer ou retribuir...

— Eu não fiz isso esperando ganhar algo em troca. Fiz porque me importo com você. — Vê-lo me olhar com ternura fez algo dentro de mim se aquecer de uma maneira arrebatadora.

— Mas não precisava ter feito isso. Não quero que se meta em encrenca por minha causa. E se você precisar desse dinheiro?

— Não vou precisar. Acredite, eu tenho bastante dinheiro, além de uma educação financeira impecável. — brincou, me dando um sorriso meio sem jeito. Suas bochechas estavam vermelhas e meus olhos, cheios de lágrimas.

Me aproximei mais de Arthur e envolvi meus braços em seu pescoço, dando-lhe um abraço apertado e repleto de gratidão.

— Obrigada por tudo. — sussurrei, enquanto os braços de Arthur envolviam a minha cintura.

Não sei bem por quanto tempo ficamos abraçados daquele jeito, só sei que me afastei o suficiente para ver seu rosto perto do meu. Naquele momento, eu tinha esquecido da ameaça de Arnaldo e de tudo o que estava em jogo se eu cruzasse aquela linha mais uma vez. Eu só não cruzei a linha como a mandei para o inferno quando encostei a minha boca na do meu professor.

Não foi um beijo simples como o da outra noite, mas foi tão intenso quanto. Arthur retribuiu o beijo prontamente, me segurando firme pela cintura e enfiando a língua dentro da minha boca. A urgência entre nós era tanta que parecia que tínhamos um tempo cronometrado para sair daquela sala, o que não deixava de ser uma mentira.

Atrás daquela porta os limites deveriam ser estabelecidos novamente, mas nem eu e nem ele queríamos pensar nisso agora.

Uma de minhas mãos foi para os cachos dos seus cabelos, para sentir a maciez que meus dedos sempre ansiaram. Já as mãos dele passeavam pela minha coluna, deixando um rastro de calor e eletricidade que me perseguiam de uma forma quase magnética.

O telefone da sala de Arthur começou a tocar, quebrando o momento. Nós nos separamos assustados e ofegantes. Sem dizer uma palavra, me joguei para fora da sala de Arthur, sentindo todas as minhas terminações nervosas tremerem com aquele beijo.

O tio de Barbara era um ótimo médico. A fisioterapia e todo o tratamento começaram a surtir efeito, e meu tornozelo se encontrava quase 100% recuperado. Eu torcia para que eu conseguisse estar bem para poder realizar a avaliação surpresa.

Meu pai chegaria amanhã no Rio de Janeiro, e eu estava animada e ansiosa para vê-lo.

Como meu tornozelo ainda se encontrava um pouco comprometido, eu não fazia todas as aulas de dança e de teatro, somente as que não fossem exigir tanto de mim. Já nas de canto eu podia sentar, então eu não precisava ficar só assistindo, o que para mim era ótimo, já que eu não aguentava mais ficar só olhando.

Eu estava caminhando pelos corredores do CBA quando me deparei com Arthur. Ele conversava com os outros professores e eu me escondi feito uma boba atrás de uma pilastra. Nós não havíamos tocado no assunto do beijo e encará-lo durante as aulas era mais constrangedor do que tudo. Não estava preparada para outro encontro embaraçoso, mas eu sabia que não podia ficar escondida ali para sempre.

— LENDA CBA! — Marlon me gritou, chamando a atenção de Arthur e dos outros professores para mim. Me encolhi e saí de trás da pilastra, ignorando a atenção recebida e me focando em meu amigo escandaloso. — Estou sabendo que o doutor Saraiva fugiu.

— Como assim fugiu?

— Ele sumiu feito mágica depois que Arthur falou com Arnaldo sobre o parecer do seu tornozelo. Acho que a Deborah matou ele e sumiu com o corpo.

— Você quer me deixar apavorada? — Arregalei os olhos e meu amigo coçou a nuca, constrangido.

— Ou ela pode ter pago pelo silêncio dele e ajudado na fuga. — Ele encolheu os ombros, tentando amenizar o meu pânico.

— De qualquer forma, seu sumiço confirma a sua culpa, mas não incrimina a Deborah. — constatei, desanimada.

— É, ela vai continuar lecionando enquanto não conseguirmos provar que ela é uma bruxa.

— Que ótimo.

Deborah não estava conversando com os outros professores e eu sabia que aquilo não era incomum. Não era segredo para ninguém que a professora não costumava ser sociável e querida pela maioria das pessoas do CBA. Eu ainda achava estranho Deborah ter um feed no Instagram repleto de fotos com amigos.

De qualquer forma, me sentia aliviada de não ter esbarrado com ela ainda. Minhas emoções se encontravam a flor da pele toda a vez que eu pensava nela e se eu a visse, eu tinha certeza de que as coisas se intensificariam, e eu não sabia até quando poderia controlar a forma como eu me sentia a respeito disso sem querer voar em seu pescoço.

Quando passei junto com Marlon pelos professores, senti o olhar de Arthur em cima de mim. Meu celular vibrou com uma mensagem dele:

Arthur:

O doutor Saraiva sumiu.

Arnaldo está tentando localizá-lo, mas se alguém sabe do seu paradeiro, estão fingindo não saber.

Acho que ele vai até a polícia e talvez colham seu depoimento a respeito da negligência médica.

Dianna:

Isso vai ser mesmo necessário?

Arthur:

Sim. O Saraiva cometeu um crime ao não tratar devidamente seu tornozelo.

Isso precisa ser investigado corretamente.

Ótimo, tudo que eu queria agora era prestar depoimento à polícia. Eu sabia que era necessário, mas falar com os policiais me deixava meio apreensiva.

E se o Saraiva estivesse por aí querendo se vingar de mim? Afinal, eu arruinei a carreira dele. Claro que não fui eu que pedi para que negligenciasse meu tornozelo, mas eu acabei lhe colocando em maus lençóis ao comentar com Arthur sobre isso tudo.

Talvez eu esteja agindo de forma paranoica a respeito dessa situação, mas depois que eu li o diário de Deborah a minha ficha caiu. Nunca fui de ler jornal ou assistir ao noticiário porque as notícias de tragédia mexiam um pouco comigo. Porém, eu sabia que existiam muitas pessoas malucas por aí, capazes de qualquer coisa para prejudicar a vida de alguém. Era essa a minha paranoia. Eu tinha certeza de que estava lidando com pessoas perigosas.

— DIANNA! — Clara chegou ao nosso encontro com Diego em seu encalço. Os dois estavam suados e descabelados.

— O que aconteceu com vocês dois? — Marlon olhou para eles de cima a baixo. A situação dos dois era deplorável.

— Acho que encontramos a página rasgada do diário da Deborah.

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