Capítulo 31 - Autodescoberta

O meu reflexo no espelho estava irreconhecível naquele instante, pois Barbara tinha feito um ótimo trabalho me maquiando e arrumando os meus cabelos. Eu usava um vestido decotado da cor rosa bebê que ia até a metade das minhas coxas. Ele era brilhoso e bonito, e combinava com a minha sapatilha de ponta.

O vestido de Clara era igual ao meu, exceto pela cor. O seu vestido era vermelho e o de Barbara, preto. O cabelo delas também estava modelado com babyliss.

Por incrível que pareça, eu me senti à vontade na presença de Barbara. Nós ainda sentíamos que ela poderia não ser confiável, mas ao mesmo tempo, parecia que algo havia mudado.

Nós fomos para o auditório quando a hora chegou. Nesse meio tempo, ficamos observando os outros concorrentes com figurinos extravagantes e acessórios ainda mais chamativos para podermos nos distrair do fato de que tivemos pouquíssimo tempo para ensaiar. Vimos bailarinas fantasiadas de palhaça e bailarinos de salto alto, enquanto plumas e lantejoulas voavam em nossa direção.

Barbara torceu o nariz para alguns figurinos que viu.

Nos acomodamos nas primeiras fileiras do auditório, fazendo comentários engraçados para espantar o nervosismo. Os professores ainda não haviam chegado. Pude perceber que na bancada deles havia microfones e plaquinhas indicando os lugares de cada um.

Será que eles iriam comentar todas as apresentações? Meu coração acelerou só de pensar na hipótese de ter Arthur comentando a nossa performance.

A sala se encheu rapidamente. Vi Rogerio entrar no auditório acompanhado dos integrantes do seu grupo nos encarando com deboche. O figurino deles estava ridículo, e Barbara deu uma risada espalhafatosa da cara dele.

— Que otário!

As "amigas" de Barbara também já estavam ali, dando risinhos nervosos entre si. Elas passaram reto pela gente, sem nem cumprimentar Barbara, que ficou com um semblante desanimado quando percebeu que seria ignorada. Marlon passou pela porta junto com seu grupo e Clara fez sinal para que ele se aproximasse.

O figurino deles era bonito e de um preto fosco. Marlon realmente queria conquistar aquela garota. Ele se sentou perto de mim e seus amigos sentaram ao seu lado.

— Vocês viram o Diego? — Eu perguntei, procurando-o pela multidão.

— Serve esse? — Ele surgiu em nossa frente como num passe de mágica. Seu figurino era de um azul marinho, e sua camiseta brilhava, deixando a mostra parte do seu torso torneado. Clara suspirou ao meu lado quando o viu.

— Os professores chegaram! — Marlon cantarolou, apontando para a porta.

O primeiro a entrar foi o Bruno, lindo e simpático como sempre. Logo em seguida veio Leandro, Tony, Arthur e o Dragão Deborah. Todos se dirigiram até seus respectivos lugares e o frio na barriga começou a me invadir.

Arnaldo subiu no palco com um microfone na mão.

— Boa noite a todos! Daremos início agora a mais uma avaliação. Lembrem-se que os professores estarão avaliando como vocês se portam no palco, se possuem energia e presença, além da afinação, desenvoltura e a coreografia que montaram. A avaliação dessa semana é única, mas a dificuldade é maior, então, deem tudo de si hoje!

A galera gritou, contagiada com a estranha animação de Arnaldo.

As câmeras localizadas em cada canto do palco e os cinegrafistas presentes me deixaram ainda mais nervosa, mas eu tentei me conter, afinal, eu não podia deixar isso me atrapalhar.

O primeiro trio foi chamado para se apresentar. Eles tiveram um problema com os adereços de seu figurino, e um dos bailarinos escorregou enquanto andava pelo palco. Marlon quase se engasgou de tanto rir.

Deborah e Tony comentaram a apresentação deles. Ela foi um tanto cruel, mas Tony a cortou antes que todos nós começássemos a vaia-la.

Quanto mais apresentações eu via, mais eu ficava nervosa com a possibilidade de que a Deborah fosse comentar a nossa apresentação de forma maldosa só para me humilhar. Os pensamentos que me atingiam eram tão fortes que eu nem percebi quando a minha vez finalmente foi anunciada.

— Acorda, Dianna! — Clara deu uma pequena sacudida em meu ombro, me fazendo despertar do meu transe. — Somos nós agora.

Eu, Barbara e Clara caminhamos até o palco. O silêncio que nos envolveu me fez ter medo do que aconteceria no momento em que começássemos a nos apresentar.

Lembrei do que Arthur me disse quando comecei a estudar no CBA a respeito da minha dança. Eu precisava ser uma versão mais decidida de mim mesma pelo menos naquele momento. A apresentação pedia isso. Eu pedia isso.

E é claro que eu iria acatar esse pedido.

Começamos a cantar a primeira estrofe da música de forma sincronizada. Eu estava no meio, Clara do meu lado esquerdo e Barbara do direito. Dei um gritinho igual ao que a Perrie dava na música e as meninas foram cada uma para um canto do palco com animação.

Cantei a parte da Perrie e me movi pelo palco com precisão, segurança e (pasmem!) sensualidade.

Movi meu quadril de um lado para o outro e sorri o tempo todo.

Clara veio para o meio do palco cantar a sua parte da música. Ela já era sensual por natureza. Seus cabelos, seu jeito de andar e falar já diziam muito sobre ela, e claro que não foi difícil colocar isso em prática ali no palco.

Nos juntamos para cantar o refrão da música e dançar a coreografia que montamos. A plateia quase toda batia palmas na nossa apresentação, e eu me senti feliz ali no palco.

Por um momento, o rosto da minha mãe me veio à mente. Ela sorria para mim, e tirava uma mecha de cabelo do seu rosto. Eu sabia que naquele momento ela estava orgulhosa de me ver ali em cima, e aquilo me deu coragem para manter o ritmo da apresentação. A Barbara também cantou a sua parte de forma impecável, e nós três nos divertimos no palco.

Nós dançamos, cantamos e rimos juntas. Fizemos poses, caras e bocas em determinadas partes da música, e notei pela minha visão periférica que todos os professores pareciam se divertir com a nossa apresentação. Todos menos Deborah, é claro. Mas quem se importa com um Dragão quando se tem a maioria dos professores sorrindo para você? Isso mesmo, ninguém!

Quando estávamos prestes a terminar a apresentação, dei um giro mal executado e senti meu calcanhar protestar quando pisei no chão. Disfarcei o suficiente para que ninguém percebesse, mas meu calcanhar continuou latejando um pouco ao fim da apresentação. Toda a plateia se levantou para nos aplaudir e eu abri um sorriso, deixando de lado a dor que eu sentia, que não era tão forte naquele momento. O primeiro a comentar a nossa apresentação foi o Bruno:

— Eu acho que nunca vi vocês três se divertindo tanto quanto hoje aqui nesse palco. Foi uma das melhores apresentações de hoje, disso eu não tenho dúvidas. Vocês tem presença de palco, simpatia, atitude e são entrosadas. Parabéns, vocês fazem um bom time!

— Obrigada, Bruno. — disse Barbara timidamente enquanto toda a plateia vibrava.

— Clara, você evoluiu muito da primeira avaliação para essa. Eu estou impressionado com o seu progresso! Barbara, você tem uma voz limpa e um gingado tão incrível quanto o de Clara e Dianna, essa noite você conseguiu colocar em prática tudo o que temos te ensinado. Sua potência vocal é incrível e essa música só te favoreceu. Parabéns a todas! — exclamou Arthur, nos olhando com orgulho.

Nós saímos do palco com uma sensação de felicidade que era difícil de descrever em palavras. Clara nos puxou para um abraço apertado que rapidamente foi retribuído, e nós comemoramos com vontade. No fim das contas, descobrimos que realmente fazemos um bom time, e aquilo fez toda a diferença naquele momento.

[...]

Os resultados da avaliação ainda não haviam saído, então a tensão e o nervosismo era palpável pelos corredores do CBA. Agora que a avaliação tinha acabado, nós voltamos para o ritmo normal das aulas. O verão já se despedia de nós, mas o calor ainda estava presente no clima do Rio de Janeiro.

Tinha terminado de falar ao telefone com meu pai, que estava em casa de repouso e agora estava deitada na cama descansando o almoço e meu calcanhar, que tinha parado de doer, quando meu celular vibrou.

Arthur:

Oi, Dianna. Desculpe a demora para responder.

Eu basicamente disse que o colégio podia ser processado se ela não maneirasse na forma como trata os alunos. Que o que ela estava fazendo não era atitude de um professor de verdade, e que se ela não parasse, eu iria falar com o Arnaldo. Ela ainda tentou reverter a situação, mas eu me mantive firme.

Nesse dia eu fui resolver umas questões burocráticas para o meu pai, por isso não pude dar aula pra vocês...

Dianna:

Entendi.

Tá explicado porque ela não detonou a nossa apresentação hoje kkkk

Obrigada por me ajudar.

Enquanto eu aguardava esperançosa que Arthur continuasse conversando comigo, Marlon mandou uma mensagem no nosso grupo do Whatsapp.

Lendas do CBA:

Marlon:

Guys, preciso de roupas novasssss.

Vamos no shopping comigo?

Clara:

E se sair o resultado das avaliações?

Diego:

Eu estou meio enjoado, não vou poder ir com vocês.

Se o resultado sair enquanto vocês estiverem fora, eu aviso.

Marlon:

É por isso que eu te amo, Dieguito.

Encontro vocês lá embaixo dentro de 20 minutos.

Me sentei na cama quase que ao mesmo tempo que Clara, que retirava os fones do ouvido. Meu celular vibrou novamente.

Arthur:

Por nada. Nem precisa agradecer.

Dianna:

Existe alguma chance de você dizer o resultado da avaliação?

Arthur:

Aí é abusar demais kkkk

Dianna:

Bom, não custa nada tentar.

Guardei o telefone no bolso e fui me arrumar para o shopping junto com Clara, que notou que eu estava sorrindo feito uma boba. Por sorte, ela resolveu não me questionar.

Quando chegamos no térreo do CBA, Marlon já estava lá nos esperando.

— Marlon, você tem certeza de que quer fazer isso? — Eu ainda tinha dúvida se isso era uma boa ideia. Ele suspirou.

— Amiga, desde que eu me assumi para os meus pais, eu inventei um personagem só para provoca-los. Eu preciso descobrir a minha verdadeira identidade. E se eu for bi? Eu sei que as nossas roupas não definem sexualidade, mas eu preciso me sentir eu, entende? Talvez uma repaginada no meu guarda roupa me ajude. Não estou fazendo isso por uma garota, mas sim por mim mesmo.

— Bom, então eu vou ficar feliz em te ajudar nessa jornada. — Segurei sua mão com carinho e meu amigo abriu um sorriso.

— Só me prometa que não vai usar Kener, por favor. — Clara pediu, me fazendo gargalhar com vontade.

Marlon torceu o nariz.

— Isso nunca!

O shopping ficava há mais ou menos 40 minutos de distância do CBA. Pegamos um Uber, pois Marlon não queria pegar ônibus e seguimos para a jornada de autodescoberta de um grande amigo.

Ao entrarmos no shopping, fiquei impressionada com a quantidade de pessoas que circulavam por ali num dia de semana comum em um horário em que não é comum ver muito movimento. Meu calcanhar voltou a protestar, mas eu continuei andando como se não houvesse nada de errado comigo.

— Adorei essa blusa de oncinha! — exclamou Marlon, apontando para uma blusa feminina do manequim de uma loja. Nós olhamos feio para ele. — É brincadeira, meninas!

Já tínhamos rodado quase todas as lojas do 1° piso sem Marlon se decidir quando ele avistou uma loja masculina que fez os seus olhos brilharem.

— Essa loja tem o que eu quero, eu sinto isso! — Ele exclamou, entrando na loja quase que saltitando.

Eu e Clara começamos a dar uma olhada em algumas peças de roupa, mas Marlon já tinha escolhido tudo o que iria experimentar.

— Experimenta essa aqui, Marlon. — sugeri, jogando em sua direção uma camiseta de manga curta azul marinho com uma prancha de surf na frente. Ele pegou a blusa da minha mão, e levou junto com as outras peças de roupa que ele tinha separado.

Marlon abriu a cortina do provador e mostrou o look que havia montado. Ele colocou as mãos na cintura de um jeito engraçado e sorriu, fingindo uma sensualidade que não existia.

Ele usava um jeans rasgado nos joelhos propositalmente, uma blusa preta e uma jaqueta jeans estilosa. Nos pés, ele usava um All Star vermelho.

— Você está parecendo o Diego! — Clara bateu palmas e assobiou, chamando a atenção de alguns clientes que estavam dentro da loja. — Tá lindo.

— Obrigado.

— Eu adorei esse look. Combina muito com você! — Eu disse com sinceridade. Marlon deu um sorriso singelo e agradecido para mim antes de entrar novamente no provador.

[...]

Nós chegamos no CBA felizes e contentes. Marlon estava cheio de sacolas que definiam quem ele queria ser de agora em diante. Já Clara, estava um pouco mais animada, mas eu sabia que ela ainda se sentia triste por gostar tanto do Leandro. E eu, estava com o coração apaixonado, mas com a mente repleta de preocupações, pois meu calcanhar ainda latejava um pouco. Decidi que tomaria um comprimido para aliviar o desconforto assim que eu chegasse no quarto.

Nós nos despedimos de um Marlon sorridente e esperançoso e fomos as duas juntas para o nosso alojamento. Porém, Barbara estava na porta da sala de informática acenando para nós. Ela parecia ter visto um fantasma, e eu fiquei assustada ao vê-la daquele jeito.

— Você não checa seu telefone não? — Barbara perguntou para mim. Eu franzi o cenho para a urgência que havia em seu olhar.

— Ele fica direto no silencioso.

— Vocês precisam ver isso. — disse ela, parando em frente a um dos computadores do CBA. Eu me sentei em frente à tela, e empalideci.

O navegador estava aberto na página do CBA e no Youtube, onde um vídeo meu dançando com Arthur no dia da avaliação em dupla era reproduzido. O Diego era o meu par nessa apresentação, mas ele tinha sido trancado no banheiro masculino e não pôde se apresentar. O Arthur me salvou de ser desclassificada, e depois o Diego apareceu e o Arnaldo nos deixou repetir a coreografia.

O choque tomou o meu rosto quando eu vi que o vídeo estava circulando livremente pela internet, e que tinha mais de 400 mil acessos. O título do vídeo no Youtube era: "Vaza vídeo de Arthur protegendo aluna em concurso do CBA".

O pior nem era o título do vídeo, e sim os comentários. A metade dos internautas dizia estar shippando a gente, e a outra metade destilava ódio e comentários ofensivos, que em sua grande maioria, eram destinados a mim. Eram comentários machistas, odiosos e que me deixaram com uma grande dor de cabeça.

Meus olhos se encheram de lágrimas enquanto eu lia tudo o que estava escrito. 

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