Capítulo 30 - Eletricidade (PARTE 1)

Meus amigos e eu paramos na frente da FireStarter quase que ao mesmo tempo. Muitas pessoas entravam e saíam constantemente, e o barulho da música que tocava tremia o chão sob nossos pés.

Nós pagamos nossas entradas e adentramos o estabelecimento.

A danceteria não tinha mudado nada desde a última vez que estive ali. As luzes coloridas ainda dançavam ao redor dos casais que se acabavam na pista de dança, e os mesmos movimentos sensuais podiam ser vistos. Clara, Barbara e Marlon abriram um largo sorriso ao ver a forma como as pessoas se movimentavam.

Eles estranharam quando nos viram com a Barbara, mas logo se acostumaram a sua presença, já que a loira parecia mais simpática e agradável do que de costume.

Diego observava o estabelecimento atentamente e eu não sabia dizer se ele estava gostando do que via ou se achava tudo aquilo esquisito.

Apesar de estar de vestido, eu comecei a sentir calor ali dentro. Eram muitas pessoas juntas dentro de um lugar só, e apesar de ter ar condicionado, o mesmo não parecia estar funcionando muito bem.

Arregalei os olhos ao ver Arthur e os outros sentados em um enorme sofá vermelho. Os 4 tinham bebidas nas mãos, e pareciam rir de alguma piada que Bruno tinha dito. As mulheres estavam ali também, cada uma ao lado do seu par. Notei, com um intenso desconforto, que a mão da mulher com quem Arthur saíra estava pousada de forma casual em sua coxa.

Cutuquei Clara e apontei o local onde os caras estavam.

— Eles estão aqui mesmo! — Ela gritou, sorrindo de forma radiante, mas o sorriso morreu no momento em que Leandro se inclinou para beijar a mulher que ele havia trazido. Assim como a ficante ou sei lá o que de Arthur, a de Leandro também era muito bonita. Todas elas pareciam modelos.

O sorriso de Clara foi se desmanchando e seus olhos se encheram de lágrimas.

— Eu...— Tentou dizer, andando em direção à saída. Barbara segurou seu braço, impedindo-a de continuar. — Eu não vou aguentar ficar aqui!

— Mas é claro que vai! Nós não viemos aqui por causa dele. — Diego retrucou, segurando firme em seus ombros.

— Na verdade... — comecei a dizer, coçando a nuca.

— Você precisa de uma dose de coragem! — interrompeu Barbara, nos chamando com a mão. — Me acompanhem.

Nós a seguimos até o bar da danceteria que ficava longe de onde Arthur e os outros se encontravam.

— Cinco doses de tequila, por favor. — Barbara se debruçou no balcão e deu uma piscadela para o barman.

— O que você está fazendo? — perguntei, arregalando os olhos ao ver o barman depositar cinco copinhos da bebida no balcão.

— Dando coragem a nossa amiga aqui. Ela precisa se acabar na pista de dança e encontrar seu amor próprio sem ligar para o que o Leandro está fazendo ou que boca está beijando. — Clara a observou atentamente, os olhos marejados e brilhantes. Ela estava linda e bem arrumada, assim como todos nós e me deu muita tristeza vê-la naquele estado.

Marlon e Diego pegaram os copos sem hesitar, entornando a bebida garganta a dentro quase ao mesmo tempo.

Barbara pegou dois dos três copos que restaram, colocando um na minha frente e outro na frente de Clara, pegando o que sobrou para si.

— Tem certeza de que quer fazer isso? — perguntei a Clara assim que ela segurou o copo de tequila com uma das mãos.

— Essa não é a primeira vez que eu bebo. E se for para me dar coragem para ficar aqui, eu vou beber todos os shots de tequila que forem necessários.

Barbara virou o copo dela e Clara virou o seu. As duas fizeram careta para engolir o conteúdo, e eu fiquei olhando para o meu copo cheio repleta de dúvidas.

Cass estava certa quando disse que sou certinha. Claro que uma parte de mim desejava ser uma garota mais aventureira, que faz grandes loucuras, mas a outra parte que me dominava, a mais medrosa, me freava sempre que eu tinha esses tipos de pensamentos.

Talvez estivesse na hora de mudar isso.

Peguei o copo que estava no balcão sob os olhares atentos de Clara e Barbara, virando o líquido na minha boca de uma só vez e sentindo uma ardência horrível quando a tequila passou pela minha garganta.

As meninas riram e comemoraram quando eu bebi, e assim, Barbara acabou pedindo outras doses para nós.

Eu olhei para Clara, que ria de forma espalhafatosa do barman que nos servia. Era nítido que nós estávamos perto de perder o pouco juízo que nos restava, mas eu não me importava. Minha cabeça começou a girar, e eu tive que colocar as duas mãos em cima do balcão do bar para poder recuperar o equilíbrio.

Por um momento, eu fiquei lúcida de novo. Pude ver a minha mãe me olhando de forma desaprovadora na minha mente, e a culpa começou a fazer um buraco no meu peito. Eu precisava pegar leve, amanhã teria um dia longo pela frente e eu não queria estar de ressaca. Porém, a preocupação não invadiu a minha mente como deveria, de modo que eu apenas esbocei um sorriso animado.

Afastei a imagem da minha mãe da cabeça e peguei o copo da mão de Barbara, que sorriu de uma forma vitoriosa. Eu virei o shot de uma só vez, sentindo a minha garganta queimar e minha cabeça girar de novo. Sacudi a cabeça e levantei os braços para o ar, gritando um sonoro "Uhul", e Clara e Barbara se apoiaram em mim, rindo e gritando junto comigo, tão desajeitadas quanto eu.

Marlon começou a dançar com um cara bonito na pista de dança e até Diego havia arrumado uma companhia. Ele conversava com uma garota negra muito bonita no canto do bar.

Esbocei um sorriso para o barman e pedi mais um shot de tequila.

A diversão estava prestes a começar.

Depois de várias doses de tequila, Clara se sentiu encorajada o suficiente para ir falar com o Leandro, que finalmente estava sozinho em um canto da danceteria. Ficamos esperando que ela voltasse perto do balcão, e apesar de estar vendo tudo dobrado devido às várias doses que eu tinha bebido, ainda pude perceber que Barbara parecia mais sóbria do que eu e Clara, mesmo tendo bebido a mesma quantidade que a gente.

Porém, antes que eu pudesse pensar mais nesse fato, avistei Clara caminhando de forma desajeitada em nossa direção. Mas ela não estava sozinha. Ela trazia os professores junto consigo, inclusive Arthur, que me olhava de um jeito que eu não pude descrever. Apesar de toda a tontura, notei que era um olhar sombrio o que ele carregava no rosto.

Os 4 pararam em nossa frente, e Clara cambaleou para o lado, rindo como uma hiena.

— Está quase na hora do toque de recolher e é meio da semana! O que estão fazendo aqui? Perderam o juízo? — Arthur direcionou a pergunta a todas nós, mas olhava diretamente para mim. Eles não tinham visto Marlon e Diego ainda, para a sorte dos dois.

— Pergunte para a Clara. — respondi, gargalhando logo em seguida. O olhar ferino de Arthur me fez cobrir a boca com as mãos, mas eu não conseguia controlar o acesso de riso que me acometeu.

— Vocês vão acordar com uma ressaca terrível amanhã. — observou Tony, com um olhar risonho.

— Olha, os integrantes que faltavam também vieram. — Leandro comentou de forma debochada assim que viram Marlon e Diego se aproximando de nós.

— Vocês estão sóbrios o suficiente para levarem as meninas de volta para o colégio? — Bruno perguntou, olhando para nossos amigos de forma séria. Os dois pareciam abobalhados, meio assustados por terem levado bronca dos professores.

Marlon e Diego fizeram que sim com a cabeça. Eles realmente haviam bebido bem menos do que a gente.

— Quero que entendam que vocês não devem se privar de momentos de lazer, mas precisam compreender que artistas curtem com moderação. Vocês possuem um toque de recolher que está prestes a terminar e, se não chegarem ao colégio a tempo, podem até ser expulsos do CBA e eu sei que não é isso o que vocês querem. — Arthur disse, olhando para meus amigos e pousando os olhos em mim por último.

Um nó repleto de arrependimento se formou em minha garganta. Não era assim que eu queria que Arthur me visse. Era quase como se eu fosse uma garotinha inconsequente, a Pequena Rebelde, a aluna que eu sempre seria aos seus olhos.

— Agora vão, vocês tem menos de vinte e cinco minutos para chegar ao colégio. — Leandro avisou, checando a hora em seu celular.

Nós nos apressamos em direção a saída, e eu tive que enlaçar meu braço ao de Diego para não perder o equilíbrio. Eu ainda via tudo dobrado, mas arrisquei olhar para trás bem a tempo de ver Arthur se aproximar da sua ficante e depositar um beijo ardente em sua boca.

Meu coração se despedaçou em milhões de pedacinhos e eu senti meu estômago afundar. Um incômodo surgiu em minha garganta e eu tive que me concentrar na tarefa de caminhar até a saída sem me embolar nas próprias pernas e controlar as lágrimas que queriam escorrer pelo meu rosto.


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