Capítulo 29 - Aula Diabólica

A turma de Deborah e a de Arthur era as que tinham mais alunos, então a sala já estava bem cheia. Por sorte, o estúdio em que estávamos era bem espaçoso, de modo que todos nós coubemos sem que ficássemos muito grudados uns nos outros.

Ainda assim, eu praticamente grudei nas costas de Diego, que estava tão aflito quanto eu para a aula da Deborah. Ela tinha no rosto um olhar indolente e maldoso, enquanto esquadrinhava cada canto da sala com o olhar.

— Eu estava explicando aos meus alunos que decidi diversificar e fazer uma aula de canto e dança ao mesmo tempo. Já que vocês gostam muito de musicais, seria legal unir o útil ao agradável. O professor de vocês é um pouco mais ligado às regras, mas eu gosto de diversificar. — Ela abriu um sorriso lento para nós. — Espero que não se importem.

Ela ligou o rádio e um instrumental meio circense envolveu toda a sala. Ela nos instruiu que primeiro deveríamos aprender uma pequena sequência de passos e depois que deveríamos cantar os versos de uma letra simples, cada uma em sua região vocal, e assim fizemos.

Fomos misturados entre as turmas e divididos em vários pequenos grupos para que as coisas ficassem um pouco mais organizadas. Claro que a parte do canto não deu muito certo com todos os grupos, mas as coisas estavam fluindo sem maiores incidentes.

Quando chegou a vez do meu grupo se apresentar, Diego, que também fazia parte do meu grupo, começou solando a música e a coreografia que Deborah tinha nos ensinado.

Depois, eu e os outros começamos a fazer a nossa parte sob o olhar maquiavélico da professora, que encarava a todos nós com muita atenção. Aquilo deu um nó no meu estômago, mas eu tentei chegar ao final do exercício como se eu não sentisse medo do que aquela mulher poderia ser capaz de fazer.

Um alívio preencheu meu corpo quando terminamos o exercício sem que nenhuma humilhação da parte de Deborah fosse direcionada a mim, porém, quando vi que ela nos colocaria em outras sequências cansativas de dança, percebi que não poderia cantar vitória antes da hora.

A aula estava quase acabando, e o suor em meu collant já era perceptível há quilômetros de distância. Eu só queria que aquela aula acabasse logo, pois a energia da Deborah era tão pesada que eu já começava a me sentir esgotada física e mentalmente.

Eu só queria poder colocar meus pés para fora daquela sala, mas eu vi que isso não ia ser possível quando alguém esbarrou em mim ao fazer um giro e me fez cair no chão. Meu joelho foi o primeiro — e único — a sentir o impacto da queda, e Deborah parou a música para soltar uma gargalhada que arrepiou todos os ossos do meu corpo.

— Hoje você se superou, Dianna! Eu sempre soube que você era uma das piores alunas da sala do Arthur! — exclamou assim que parou de rir.

— Ei, não fala assim com ela! — bradou Diego, me ajudando a levantar. Meu joelho latejava, e não era preciso ser uma gênia para saber que ficaria bem roxo.

— Essa é a minha aula e eu falo do jeito que eu quiser! Vocês dois são uma piada, e a sua amiguinha aí é a pior. — Ela se virou para mim como se tivesse pena. — Dianna, sinto muito te dizer, mas você não tem talento nenhum para estar aqui.

As suas palavras me deixaram mais irritada do que ofendida. Ela não me criticava apontando meus erros ou o que eu podia melhorar, eram ataques que atravessavam a linha tênue do profissionalismo.

— E baseado em que você diz isso? Por que eu passei nas audições e nos inúmeros testes que vocês nos deram. Se eu não tivesse talento nenhum, eu teria sido eliminada na primeira semana. Eu posso até não chegar na final, mas isso não quer dizer que eu não mereça estar aqui.

Senti que Diego — e toda a turma — me olharam de modo estupefato. Acho que se minha alma saísse do meu corpo agora, ela também me encararia daquele jeito. Eu tinha sangue nos olhos e percebi que Deborah se surpreendeu com a minha reação, ficando ainda mais irritada do que já estava.

— Como ousa me responder dessa maneira? Você é uma garotinha arrogante que se acha muito especial!

— O que está acontecendo aqui? — Arthur entrou no estúdio de dança encarando a Deborah de um jeito enraivecido. — Quem te deu o direito de humilhar os alunos desse jeito, Deborah?

Ela arregalou os olhos e perdeu a pose na mesma hora.

— Eu não estou humilhando ninguém, eu estou ensinan...

— Ela estava humilhando sim! — interrompeu Diego. — Mas tudo bem, um processinho pode resolver esse problema. Testemunhas é o que não faltam aqui nessa sala.

— Pessoal, vocês estão liberados. — Arthur tinha raiva no olhar. — Vou conversar com a Deborah em particular.

Eu praticamente corri para fora do estúdio, mas senti o olhar de Arthur em minha nuca enquanto o fazia. Diego correu atrás de mim, com as nossas coisas nas mãos. Eu estava tão nervosa que havia me esquecido que tinha levado meus pertences para lá.

— A cobra vai fumar! — Diego deu uma gargalhada. — Queria muito saber o que eles vão "conversar".

— Com certeza vai ter briga! — Uma garota da turma da Deborah disse, extasiada.

— Eu não acredito que você enfrentou a Deborah. — Marine, que era da nossa turma, me olhava como se eu fosse uma divindade.

Ninguém enfrenta a Deborah. — completou a menina da turma da Deborah.

Que ótimo. Mais um feito para a Lenda.

— Vocês foram incríveis. — Yan, um menino da nossa turma nos parou no corredor. — Eu não teria coragem.

— Aquela bruxa mereceu. — Diego deu de ombros como se aquilo não fosse nada demais. Eles continuaram falando várias coisas sobre a Deborah, mas eu ainda estava em choque com toda a situação. Arthur havia presenciado tudo, e eu pensava no que ele iria fazer para resolver aquilo. Se é que havia algo que pudesse ser feito, afinal, Deborah não parecia ser o tipo de mulher que se deixava levar por qualquer coisa.

Como se não bastasse, eu ainda precisava me preparar psicologicamente para o ensaio com Barbara e Clara. Eu queria me sentir preocupada com essa avaliação, já que nós três juntas ainda não tínhamos conseguido entrar em um consenso na hora da divisão das vozes e da coreografia, mas eu ainda tinha papai na cabeça, e não parava de pensar no preço que iria pagar por ter enfrentado a Deborah na aula de hoje.

Quando entrei no estúdio, Clara e Barbara já discutiam. Juro que por um momento eu senti vontade de dar meia volta e ir para meu dormitório. Meus últimos dias haviam sido cheios demais, e eu ainda não tinha conseguido descansar o suficiente. Era muita pressão na minha cabeça, e eu precisava de um pouco de paz, mesmo sabendo que paz é a última coisa que eu terei aqui no CBA.

Coloquei minha bolsa no canto do estúdio e me aproximei das duas, que vociferavam xingamentos uma para a outra.

— Eu já disse que faremos do meu jeito! — esbravejou a loira, com o rosto vermelho de raiva. — É a única forma de ganhar!

— Nós temos que fazer do NOSSO jeito, Barbara. Do NOSSO! Aprenda a trabalhar em equipe pelo menos uma vez na sua vida! Eu sei que a água oxigenada do seu cabelo matou quase todos os seus neurônios, mas pelo menos TENTE! — Clara respondeu, a ira transbordando de seus olhos cristalinos.

Barbara levantou a mão para acertar um tapa no rosto de minha amiga, mas eu segurei sua mão a tempo.

— PAREM COM ISSO! — gritei. No instante seguinte, Barbara avançou em minha direção. Ela me jogou no chão e começou a me estapear.

— Sai de cima de mim! — vociferei, tentando segurar suas mãos. — Sai de cima de mim, sua louca!

— Você acha mesmo que eu me esqueci do tapa que você me deu? Acha? — Ela estava transtornada. Agarrei seus cabelos e puxei sua cabeça para baixo, o que fez com que a loira gritasse descontroladamente. Barbara começou a puxar os meus cabelos também, o que me fez soltar um grito de dor.

— Larga a minha amiga, sua idiota! — Clara empurrou Barbara para o lado e começou a estapear seu rosto.

— PAREM!

As duas se soltaram, assustadas com o meu grito. Ficamos em silêncio por um tempo que me pareceu mais longo do que o normal, até que Clara olhou para seu reflexo no espelho e começou a rir.

Então, eu e Barbara também nos olhamos no espelho e começamos a rir de nossas aparências destruídas. Nós três estávamos com o rosto vermelho e suado, e nossos cabelos pareciam ninhos de passarinhos de tão desgrenhados que eles estavam. Eu nunca me senti tão descabelada na vida.

Quando o acesso de riso passou, nós nos entreolhamos, ainda meio risonhas pelas cenas estranhas que tínhamos acabado de participar.

— Meninas, nós temos que começar a nos entender. Sei que todas nós temos ideias legais, e eu acho que se juntarmos tudo dá para fazer algo bacana. — falei, olhando para as duas de forma séria. Elas pareceram concordar.

— Clara... Você pode ficar com a parte da Jade, se quiser. — Barbara disse, fazendo com que eu e Clara ficássemos surpresas.

— Obrigada.

Me levantei do chão, me sentindo animada de repente.

— E então... Vamos começar?

[...]

Por incrível que pareça, o ensaio hoje tinha sido bastante produtivo. Eu e as meninas concordamos com a maioria das ideias umas das outras, e conseguimos montar uma parte do nosso número e ensaiar a divisão das vozes.

Eu iria cantar as partes da Perrie, e Barbara decidiu cantar as partes da Leigh-Anne. Iríamos nos revezar para cantar as partes da Jesy.

Estávamos arrumando as nossas coisas quando Arthur, Leandro, Tony e Bruno entraram no estúdio. Eles sorriram ao ver que estávamos nos dando bem e Clara ficou mais agitada ainda ao ver que Leandro estava ali.

— Fico feliz de ver que estão se entendendo. — Arthur sabia que nós três não nos dávamos bem. Aparentemente, as fofocas dos alunos não ficavam somente entre os alunos.

Eu me sentia curiosa em saber o que foi dito entre Arthur e Deborah, mas ainda não havia tido tempo de perguntar. Eu nem sabia se deveria me meter nisso, mesmo sabendo que eu estava diretamente envolvida na confusão. Ele não havia respondido as minhas mensagens no Whatsapp, e fiquei com medo de ter cruzado um limite que eu nem sabia ainda se existia, afinal, nós tínhamos conversado por chamada de vídeo e trocamos mensagens. Eu não sabia se era algo que nunca mais iria acontecer, ou se Arthur simplesmente não havia tido tempo para responder às minhas mensagens.

De algum modo, eu sabia que algo havia mudado entre eu e Arthur. Nós tínhamos uma ligação, mesmo que fosse só de amizade. Eu sentia que podia perguntar a ele, e era isso que eu continuaria fazendo assim que eu tivesse um tempo.

Clara não sabia que eu gostava de Arthur, tampouco de que eu tinha seu número de telefone. Com certeza ela surtaria se soubesse, mas eu ainda não tinha coragem de contar. Já foi difícil o suficiente conversar sobre isso com Cassandra, porque admitir que eu tinha sentimentos por um professor em voz alta ainda não era algo que eu estava acostumada.

— Vocês são espertas, meninas. — Leandro estava olhando fixamente para Clara. A minha amiga permaneceu imóvel em seu lugar. — Se metade das garotas fossem como vocês, o mundo seria menos turbulento.

Bruno e Tony deram altas risadas, empurrando Leandro para a frente.

— Agora, se nos derem licença, precisamos ir. — informou Bruno, sorrindo. Ouvi Barbara suspirar ao meu lado.

— Eu acho que eles vão sair! — Clara estrilou, encarando a porta por onde os professores haviam saído como se eles tivessem desaparecido subitamente.

— Com certeza. — Barbara se meteu na conversa, também encarando a porta. — Ouvi dizer que vão para uma boate.

— Deve ser aquela que eu fui, a tal danceteria.

Só de lembrar, um calor já subia pelas minhas entranhas. Foi ali que dancei com Arthur pela primeira vez.

— O Leandro com certeza vai pegar alguém. — constatou Clara, correndo para uma das janelas do estúdio. Corremos atrás dela e paramos bem a tempo de avistar nossos professores caminhando rumo ao estacionamento. Dali dava para ver parte dos carros e da colina que se erguia na lateral do campus do colégio.

— Não acredito! — Barbara estava embasbacada. Segui a direção de seu olhar na mesma hora em que Clara soltou um gemido de tristeza. Quatro mulheres que pareciam bonitas vistas daquela distância os aguardavam no estacionamento. Pude reconhecer a mesma mulher alta que chamou Arthur de docinho quando fui falar com ele em sua sala.

— É um encontro de casais! — chiou a ruiva, quase se jogando de forma dramática pela janela.

— Nós precisamos ir a essa boate!

— Não mesmo! — discordei, tentando retirar de dentro das minhas entranhas o desconforto que se abateu sobre mim. — Precisamos desocupar o estúdio, tomar banho, comer e descansar. Precisamos estar cem por cento bem para as aulas e o ensaio de amanhã.

— Bem que eu queria dar uma saída para espairecer... — Barbara murmurou, reflexiva. — Podemos chamar seus amiguinhos cafonas para ir com a gente. — Ela se dirigiu a Clara, me ignorando solenemente.

— Me tirem dessa! — Dei alguns passos para trás e levantei as mãos. Eu não estava nem um pouco disposta a sair do colégio para ver Arthur trocar saliva com outra mulher.

— Por favor, amiga! — Clara uniu as duas mãos, implorando. — Eu preciso ir até lá.

— Você é masoquista? Por que você quer ver o Leandro com outra garota?

— Eu quero que ele me veja bem linda lá. Talvez fora das dependências da escola, ele me enxergue como mais do que uma aluna.

— Você é cega? Ele saiu com outra mulher! Se ele estiver apaixonado por ela, provavelmente nem vai notar a sua existência.

— Eu preciso arriscar. — Ela tirou o celular do bolso e começou a digitar, ignorando a minha grosseria. — Estou convocando Diego e Marlon para ir com a gente.

— Eu posso ir também? — Barbara estava sem jeito. Clara a estudou com os olhos por um instante.

— Pode, mas prometa que você não vai aprontar.

— Eu prometo. — Barbara se virou para mim com um olhar carregado de sarcasmo. — Vai com a gente também ou diversão no meio da semana é demais para a Lenda do CBA?

Eu tinha duas opções diante de mim: Ficar no conforto da escola, longe de confusões e ter uma boa noite de sono ou ir com elas e sofrer a distância vendo Arthur beijar outra mulher.

— Tá, eu vou. — As duas deram pulinhos empolgados. — Mas voltamos antes do toque de recolher! — avisei. Elas concordaram com a cabeça.

Enquanto saíamos do estúdio para nos arrumar, cheguei a conclusão de que eu também era masoquista.

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