Capítulo 28 - Professora Diabólica

Deixar o meu pai em São Paulo aos cuidados da minha família foi muito mais difícil do que eu pensara. Eles praticamente tiveram que me empurrar para dentro do aeroporto, porque eu não queria embarcar sem pelo menos saber o que meu pai tinha.

Papai me garantiu que ficaria bem e que tudo daria certo, mas eu tinha medo e preocupação demais em minha cabeça por conta de seu estado de saúde. Queria fazer mais por ele, e longe de casa seria difícil, mas minha família me garantiu que eu ajudaria muito mais ao meu pai se não desistisse dos meus sonhos. Eles acabaram me convencendo, mais uma vez, a continuar no concurso.

Assim que passei pelos portões do CBA, Clara, Marlon e Diego vieram correndo me abraçar.

— Como está o seu pai? — Clara perguntou, olhando-me com preocupação.

— Ele está bem melhor, mas alguns dos exames que ele fez não acusaram nada. Vão ter que fazer mais uma bateria de exames para que consigam detectar o problema de saúde de papai.

Antes de ir embora, notei que meu pai parecia mais corado e ainda mais falante, o que definitivamente era um bom sinal. Cass, Lucy e minha tia me prometeram que iriam me manter informada, o que foi uma das condições que estipulei para embarcar no avião.

— Ele vai ficar bem, Di. — garantiu Diego, afagando o meu ombro com carinho ao ver meu semblante preocupado.

Eu dei um sorriso agradecido para meus amigos e juntos, caminhamos para dentro do prédio do CBA. Eu havia desembarcado no horário de almoço e descanso dos alunos, o que significava que eu ainda tinha uma aula pela frente e ensaio com Clara e Barbara.

— Você já almoçou? — Marlon perguntou, preocupado.

— Eu comi em casa. Estou meio sem fome.

— O Leandro está vindo para cá! — Clara praticamente gritou enquanto ajeitava suas roupas e cabelo. Ela olhava para Leandro de forma furtiva e sedutora.

— Clara, se controle! — ralhei, segurando o braço dela.

— Eu não consigo! — murmurou, praticamente despindo Leandro com os olhos enquanto ele passava. Acho que ele percebeu, mas não se sentiu envergonhado ou intimidado pelo flerte descarado de minha amiga. Ele só a olhou de um jeito meio vazio. Era como se Leandro estivesse se controlando para não demonstrar nada. — O Leandro é lindo demais e eu estou apaixonada por ele.

— Mas disso todo o mundo sabe, querida! — Marlon respondeu, fazendo com que eu soltasse uma gargalhada.

— Eu vou atrás dele! — Clara ignorou Marlon e se pôs a andar na direção de Leandro. Arregalei os olhos para sua ousadia.

— Clara, não faça isso! Clara! — Diego gritou, indo atrás dela no instante seguinte.

— DEIXA A MENINA SER FELIZ! — Marlon berrou, fazendo com que todos que passavam pelo corredor o fitassem de forma estranha. Ele apenas deu de ombros, sorrindo, mas ao ver que Gabriela, a menina que estava balançando seu coração o olhava de um jeito risonho, ele se encolheu.

— Por que você não fala com ela? — apontei com a cabeça para a menina, que agora mexia em seu celular.

— E o que eu vou dizer? Ela acha que eu sou gay! — exclamou, olhando para a menina com um certo tipo de nervosismo.

— Você quer conquista-la?

— Eu... Eu não sei! — estrilou, puxando os cabelos para cima e me olhando de um jeito espantado. — Isso me faz ser bi e eu estou confuso com toda essa situação.

— Do que você tem medo, Marlon? — Coloquei a minha mão em seu ombro e olhei dentro dos olhos dele. Meu amigo estava com medo, desesperado e confuso, e eu queria muito ajuda-lo. Eu tenho a plena consciência de que eu tenho uma mala para guardar e um collant para vestir, mas o meu melhor amigo precisava de mim.

Marlon abaixou a cabeça, e quando voltou a me olhar, ele disse:

— De nunca saber qual é a minha verdadeira essência.

— Você só vai saber se tentar. Se o seu coração quer a Gabriela, não custa nada arriscar, não é mesmo?

— Vou precisar de roupas novas para isso. — Ele disse, olhando para a sua blusa regata rosa que dizia: "Eu amo ursinhos carinhosos".

Nós dois demos uma risada espalhafatosa.

— Talvez nem seja necessário.

Meu amigo se afastou de mim, tomando coragem para puxar assunto com a tal Gabriela. Sorri, desejando que Marlon fosse feliz independente de com quem fosse.

Meus olhos se encontraram com os de Arthur. Notei que ele me observava enquanto caminhava em minha direção. O nervosismo se apossou das minhas terminações nervosas quando notei que ele queria falar comigo.

Imagens da noite de ontem foram preenchidas pela minha cabeça e eu tive que me conter para reprimir um suspiro apaixonado. Aquela ligação parecia um sonho, mas fora real.

— Oi, Dianna. Como estão as coisas? — Arthur parecia ter tido uma noite revigorante. Não haviam olheiras em seus olhos, o que me fez crer que ele havia dormido muito bem.

— Está tudo melhor. Quero dizer, ainda não descobriram o que meu pai tem, os médicos vão ter que fazer mais uma bateria de exames para ver se conseguem detectar alguma coisa. A notícia boa é que ele parece ainda melhor do que ontem.

— Que ótimo, eu fico feliz. — Não consegui desviar meus olhos dos dele e um silêncio se instalou entre nós. Notei que Arthur também me encarava, e meu coração quase parou.

— Você dormiu bem? — indaguei, sentindo que as minhas bochechas começavam a corar.

— Sim, e você?

— Bem também. — Outro silêncio esquisito se instaurou entre nós, nossos olhos presos um no outro como dois imãs. Não consegui entender direito o que estava acontecendo, mas parecia que Arthur se sentia da mesma forma que eu.

— Arthur! — bradou Arnaldo, pisando firme em nossa direção. — Quero falar com você agora.

Arthur revirou os olhos e se virou para seu pai, que estava com um olhar ferino. Tive medo de que o motivo de sua revolta fosse eu, mas não fazia sentido. Eu e Arthur não fizemos nada demais.

— Depois nos falamos melhor. Te vejo na aula. — Ele se despediu de mim e caminhou na direção de Arnaldo, que saiu despejando um monte de reclamações em cima do meu professor antes mesmo que ele se aproximasse do pai. Os dois se afastaram e eu fiquei encarando Arthur até que ele sumisse do meu campo de visão.

[...]

— O que será que aconteceu? — Diego se aproximou de mim com o cenho franzido.

Nós estávamos numa das salas da aula de canto, aguardando Arthur chegar. Geralmente, ele nunca se atrasava, mas hoje ele se encontrava mais de 20 minutos atrasado. Isso me deixou um tanto preocupada.

— Boa pergunta. — murmurei, olhando para a porta, na esperança de que meu professor aparecesse. — Ele nunca se atrasa.

Ignorando todos os alertas, mandei uma mensagem para Arthur.

Dianna:

Está tudo bem com você?

Ele não estava online, então imaginei que não responderia tão cedo.

Diego concordou comigo.

— Sim, ele é a pessoa mais pontual da face da terra. Deve ter acontecido alguma coisa séria.

Arnaldo entrou na sala de aula no instante seguinte, e eu gelei de preocupação em minha cadeira. Naquela altura do campeonato, todos os tipos de cenários ruins se passavam pela minha cabeça.

— Alunos, Arthur foi resolver uns problemas fora da escola e a aula de vocês acontecerá no estúdio cinco. A Deborah irá ministrar a aula de vocês junto com a turma dela.

— Puta merda! — exclamou Diego. Fiquei pálida na hora. Os alunos começaram a se levantar e a se encaminhar para fora da sala, mas eu não conseguia nem raciocinar direito.

— Será que eu posso inventar um desmaio ou algo assim? — perguntei para Diego, me levantando em câmera lenta da cadeira.

— Vai dar tudo certo, ela não vai te fazer mal na sala de aula. Tem muitas testemunhas.

— Espero que você tenha razão.

— Não vou permitir que ela faça mal a você, Di.

— Obrigada, Di. — Eu ri, achando engraçado que as nossas iniciais fossem as mesmas. Ele me acompanhou na risada enquanto passava o braço pelos meus ombros.

Aquele gesto fez eu me sentir um pouco mais calma.

Entrei na sala perto de Diego enquanto tentava me camuflar nos outros alunos, mas eu sabia que não poderia me esconder para sempre. A aula que Deborah ministrava era de dança contemporânea e não de canto.

Ela parou a música na hora que nós entramos na sala e esquadrinhou cada canto como se procurasse alguém. Torci para que não fosse eu, mas eu sabia que isso seria pedir demais.

— Isso vai ser divertido. — Deborah abriu um sorriso diabólico assim que me avistou no fundo da sala. Tremi de medo.

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