Capítulo 26 - 27 Chamadas Perdidas

Os dias se arrastaram de forma rápida e dolorosa, de modo que estabeleci uma rotina muito confortável e corrida de incessantes treinos puxados depois de cada aula e ensaio que eu tinha.

A peça de teatro que ensaiávamos seria apresentada nessa semana, e todos se encontravam eufóricos com a expectativa de se apresentar, inclusive eu, que acabara ficando com o papel de protagonista.

Nesse meio tempo, Arthur e eu não nos falamos muito fora dos ensaios e das salas de aula, e eu achava que era melhor assim. Ninguém além de Cassandra sabia dos meus sentimentos, o que era uma coisa boa. Eu precisava me livrar do que eu sentia antes que fosse consumida por isso.

Eu não tinha vindo para essa escola para me apaixonar, e sim para vencer um concurso.

Clara e Barbara estavam se entendendo um pouco melhor, e nos ensaios da próxima avaliação, éramos quase como se fôssemos amigas. Quase. Clara ainda não confiava inteiramente nela, principalmente depois de tê-la visto de cochicho com a Deborah. Até tentei pensar que aquilo tudo não passava de uma grande mania de perseguição, mas alguma coisa dentro de mim me alertava que havia algo errado nisso tudo.

— Essa garota está tramando alguma, eu sinto isso.

— Por que a Babara iria querer nos prejudicar sabendo que se ela fizer algo contra nós ela vai junto?

— Talvez ela não esteja tramando algo para essa avaliação... — ponderou Clara, colocando o dedo indicador nos lábios pintados de vermelho. — Eu sinto que as duas vão fazer alguma coisa. Não tem motivo para elas estarem de conversinha no corredor. Elas pareciam suspeitas demais.

— Suas tentativas de me deixar paranoica estão começando a fazer sucesso.

— Me desculpa, eu só estou preocupada.

— Você não precisa se desculpar, só acho que no momento temos coisas mais importantes para pensar.

— Tipo no Arthur?

— O QUE? — Arregalei os olhos e dei um guincho no meio do corredor que fez Clara me encarar com uma expressão de estranhamento.

— Parece que ele bebeu limão azedo com ovo cru. — Meu coração acelerou quando vi Arthur escorado em uma pilastra digitando furiosamente no telefone. Seus olhos estavam tão raivosos que por um momento achei que soltariam faíscas. — Por que você tá agitada desse jeito? — perguntou Clara, desconfiada.

— Nada, não. Eu tenho que ir, depois a gente se fala. — Apressei o passo, impedindo Clara de me responder ou até mesmo de me frear.

[...]

O dia da apresentação da peça teatral chegou junto com o meu nervosismo. Fiquei o dia inteiro inquieta, e percebi que Clara e Marlon estavam tão nervosos quanto eu, apesar dos seus esforços para disfarçar. O único tranquilo de nosso grupo era o Diego, mas a essa altura do campeonato eu já estava acostumada com sua tranquilidade.

Clara e Marlon estavam na mesma peça, assim como eu e Diego. A turma de Arthur seria a última a se apresentar e a de Leandro — que é a turma onde Clara e Marlon se encontravam — seria logo a primeira, o que os deixava ainda mais aflitos.

Eu e os meus amigos estávamos sentados num banco que tinha no campus do CBA, relaxando um pouco antes de irmos para os camarins nos arrumar. Clara ainda estava inconformada com o fato de que teria que passar mais tempo com Barbara, e sempre que tinha a oportunidade, falava sobre o assunto.

— Vai dar tudo certo, galera — encorajou Diego, observando a inquietação que tomava conta de nós. — Essa peça não é um teste e nem nada do tipo, relaxem!

— Até parece que eles não vão reparar nem um pouquinho no nosso desempenho. — Marlon murmurou, encarando a tal menina que ele estava afim.

— Concordo com o Marlon. — Clara resmungou, fuçando o Instagram secreto de Leandro. — Você é muito ingênuo se acredita nisso.

— Se eles vão avaliar ou não, não importa. — Diego deu de ombros, despreocupado.

— Eu tenho inveja de você. — confessei, fazendo com que ele desse uma risada. Diego passou um dos braços por cima do meus ombros, o que fez com que eu enrijecesse na mesma hora.

— Nós faremos um ótimo par na peça de hoje, não se preocupe.

Olhei para o rosto de Diego de um jeito envergonhado. Se Cass estivesse ali naquele instante, tenho certeza de que ela diria que ele estava me paquerando. Diego tinha as bochechas avermelhadas, mas o sorriso galanteador que ele me lançou logo fez o rubor de suas bochechas sumir.

Eu dei um sorriso sem graça para ele e quando olhei para a frente, vi que Arthur nos observava, inexpressivo. Leandro cochichava algo no ouvido dele enquanto eles caminhavam, e eu senti o olhar do meu professor perfurar a minha alma. Não soube dizer que tipo de olhar era aquele, a única coisa que eu sabia, é que aquele olhar tinha abalado as minhas estruturas muito mais do que qualquer peça que eu fosse fazer.

[...]

O reflexo do espelho em minha frente me dizia que eu era realmente bonita. A maquiagem que haviam feito em meus olhos me deixou com uma aura angelical que combinava com o papel que eu iria interpretar naquela noite.

O vestido longo e branco de seda se ajustava perfeitamente ao meu corpo, e meus olhos brilhavam. Meus cabelos longos estavam soltos e com cachos magníficos. Eu estava completamente admirada. E nervosa.

Como eu seria a última a me apresentar, me dirigi até o backstage, onde fiquei junto com os outros alunos esperando as cortinas se abrirem para a turma de Leandro. Clara faria o papel de uma vilã e Marlon era um dos amigos do protagonista. Segundo ele, seu papel era tão importante quanto o de Clara.

Eu não sabia sobre o que a peça deles falava, mas estava prestes a descobrir.

Procurei por Arthur e o encontrei do outro lado do backstage, junto com Leandro, Bruno e Tony. Ele não me viu, estava ocupado organizando os últimos detalhes do evento.

— Nossa, tem muita gente! — exclamou uma menina, olhando para a plateia. Arregalei os olhos ao notar que o teatro estava lotado de gente. A imprensa também estava presente, e eu senti vontade de vomitar ao ver a quantidade de pessoas que estava lá fora.

— Preparada? — Diego perguntou, aparecendo ao meu lado.

— Já viu a quantidade de pessoas que está lá fora? — Eu estava abismada e trêmula.

— Sim. Confesso que eu estou com um frio na barriga.

Nós dois rimos. O instrumental de uma música começou a tocar e Leandro foi para outra parte do backstage para olhar melhor a peça que havia ensaiado.

Observei meus amigos atuarem com perfeição, e meu coração acelerou ao pensar que daqui há alguns instantes seria eu ali no palco.

[...]

— Nervosa? — Arthur se aproximou de mim tão rápido que eu achei que o som de sua voz fosse uma doce miragem. Fazia um bom tempo que não ficávamos a sós, e eu sentia muita falta das nossas conversas. Nós nos entendíamos como ninguém e a nossa conexão era incrível. Era difícil admitir que eu quase burlei uma regra do colégio só para ficar de castigo novamente e ter a chance de poder conversar com ele.

— Não, só sinto como se fosse ter uma síncope a qualquer momento. — brinquei, sem saber o quanto da minha agitação era causada pela presença do Arthur.

— Você vai ficar bem, Dianna. Pode não se sentir assim, mas nós sabemos que você nasceu para isso.

— Sabemos? — Franzi o cenho, olhando de forma confusa para ele. Arthur olhou para o meu rosto na mesma hora, e o contraste das luzes do palco que refletiam suavemente na coxia fizeram os olhos do meu professor brilharem.

— Você duvida de si mesma?

— O tempo todo.

— Pois não deveria. Você tem um grande talento, não deixe as suas inseguranças tomarem conta de você. Quando eu comecei a carreira, eu deixei essas inseguranças me dominarem também. Infelizmente, tive que quebrar muito a cara até aprender a reconhecer o meu valor no palco. Você vai conseguir também, Dianna. Tenho certeza disso. — A sua convicção era tão grande que eu quase acreditei.

— E se eu não conseguir?

— Aí eu vou ter que te dar uma surra. — Ele riu. — Brincadeira. Eu sei que você vai conseguir. Aquele ranking de desempenho não define talento. Você é melhor do que isso. Só falta você acreditar nisso também.

— Arthur, está na hora. — Uma das ajudantes apareceu esbaforida com uma prancheta na mão.

— Se posicione, a peça está prestes a começar. — Meu professor colocou uma das mãos em minhas costas para me conduzir, e eu me senti confortada por aquele mínimo e dolorosamente rápido contato de sua mão em minha pele.

Comecei a entrar no personagem antes mesmo que as cortinas se abrissem.

A peça falava sobre um anjo da canção que havia perdido a sua melodia enquanto observava um humano e cobiçava o mundo dele. Eu era o tal anjo, e Diego o humano. Enquanto a minha personagem começa a sua busca pela melodia, ela encontra o humano no qual se apaixonara.

As cortinas se abriram e essa foi a minha deixa para entrar em cena. E, quando entrei no palco, tudo foi tão mágico que eu acabei me esquecendo de todos os meus problemas. Eu cantei, dancei e atuei como nunca antes. Eu senti que a minha mãe estava comigo ali no palco e aquilo me deixou ainda mais segura.

Meus movimentos fluíam de forma natural, e meus pés não me traíram um momento sequer. Os outros alunos também atuavam bem, e me passaram tanta segurança quanto Diego costuma me passar. As luzes em cima de nós não nos intimidaram em nenhum instante, e se a plateia ou as câmeras queriam nos intimidar, elas não haviam conseguido.

E, quando a peça acabou, todos se levantaram para nos aplaudir. O sorriso que se formou em meu rosto era totalmente real, e meu coração ficou feliz ao perceber isso.

Depois de agradecermos, voltamos felizes para a coxia. Eu, Diego, Clara e Marlon nos abraçamos, ambos parabenizando uns aos outros pelos nossos desempenhos.

Arthur também veio nos parabenizar pelos nossos desempenhos e eu me senti ainda mais satisfeita ao encontrar o olhar de aprovação do meu professor.

— Nós precisamos comemorar isso! Vamos para a pizzaria, gente! — Marlon gritou e grande parte dos alunos lhe apoiou na ideia. Ainda era cedo, dava tempo de ir e voltar antes do toque de recolher.

Animada, corri até meu camarim para trocar de roupa para poder sair com a galera. Peguei meu celular para contar tudo para meu pai e Cass, com a adrenalina ainda correndo pelas minhas veias, adrenalina essa que se intensificou quando vi 27 chamadas perdidas de Cassandra.

Achei estranho e decidi retornar quando vi que ali tinha sinal. Ela atendeu depois de 4 toques.

— Até que enfim você me atendeu! — disse ela esbaforida do outro lado da linha.

— Me desculpe, amiga! Acabei de me apresentar e...

— Nós precisamos conversar. — Cass me cortou, tropeçando nas palavras de um jeito que fez com que eu engolisse em seco. A euforia sumiu das minhas veias no momento em que notei que algo estava errado no tom de voz de minha amiga.

— O que aconteceu?

— É o seu pai, Dianna. Ele está internado no hospital. O estado dele é grave.

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