Capítulo 24 - Olhar de psicopata (PARTE 2)
Com a eliminação de vários candidatos, a peça de teatro teve que passar por algumas alterações.
Clara estava empolgada com a peça de teatro e com a escola no geral, pois ela iria ser uma das próximas entrevistadas junto com mais dois candidatos que nós não conhecíamos.
Marlon estava morrendo de inveja dela. Já Diego, nem parecia ligar.
Depois do ensaio, eu e meus amigos nos sentamos no campus do CBA para conversar. Nesse final de semana o diretor nos liberou para fazermos uma visita aos nossos parentes, devido ao feriado de Páscoa, e nós conversávamos de maneira empolgada sobre o que faríamos nessa data.
— Eu sempre reclamei dos meus pais serem chatos, mas agora sinto tanta falta deles que eu não vejo a hora de vê-los de novo — Clara suspirou, após ter tirado uma de suas inúmeras selfies. Ela estava tão empolgada com o fato de seus seguidores no Instagram terem aumentado e também com a entrevista que ela daria um dia antes de irmos visitar nossas famílias que não havia parado de tirar fotos.
— Mas é sempre assim. Nós reclamamos o tempo todo, mas quando ficamos longe, sentimos falta de tudo, inclusive das ordens que eles dão — concordou Diego, fazendo com que nós gargalhássemos.
— A minha mãe era assim também. — recordei-me, com um sorriso brotando no rosto. — Sinto falta de quando ela me mandava lavar a louça e ligava o rádio. Ela começava a improvisar uns passos de dança e sempre acabava me juntando a ela.
— Parece divertido. — Marlon sorriu de forma amável para mim, enquanto Clara segurava a minha mão. — Sua mãe devia ser uma pessoa muito bacana.
— Ela era mesmo.
Enquanto imagens de minha mãe preenchiam a minha mente, percebi que Barbara estava sentada sozinha. Ela parecia meio chateada, pois suas amigas, que estavam sentadas perto dali, pareciam ignorá-la com afinco.
Tirei o celular do bolso e me voltei para o artigo de como superar o crush irresistível que eu ainda não havia acabado de ler, frustrada por não ter uma fórmula mágica que fizesse sentimentos desaparecer. Clara espichou o olho para a tela do meu telefone, curiosa. Ela fez que ia dizer algo, mas Marlon acabou lhe interrompendo.
Guardei o celular no bolso.
— Eu não sei se quero ir para casa nesse fim de semana. — Marlon estava com um semblante pesaroso. — O clima ficou meio pesado desde que eu assumi que sou gay. Eu me visto de forma afeminada para irritá-los, e parece que acabei me acostumando em agir assim.
— Você se assumiu há quanto tempo? — Diego perguntou, curvando-se para a frente.
— Me assumi três dias antes de entrar no CBA.
— Nossa... — Clara balbuciou, e eu sabia que ela estava tentando encontrar as palavras certas para dizer para Marlon.
— O problema, é que tem uma garota na minha turma que tem me deixado confuso. — Marlon franziu a testa, meio atormentado.
— Uma... Garota? — Diego levantou uma das sobrancelhas, tentando descobrir se tinha entendido certo.
— Sim. O nome dela é Gabriela.
— Aquela loirinha bonitinha?
Clara e Marlon eram da mesma turma, portanto, ela era a única que conhecia a tal da Gabriela.
— Isso. Sempre que eu a vejo eu me sinto esquisito, o que é totalmente estranho, já que eu sou... bom, gay.
— Mas isso é normal, Marlon. Talvez você seja bi, já pensou nisso? — Ele fez que não com a cabeça, pensativo.
Enquanto Clara falava, senti o celular vibrar no bolso da calça. Desbloqueei a tela e vi que era o alarme que eu havia programado. Eu tinha reservado um dos estúdios de dança para treinar durante a semana toda. O canto eu não precisava treinar tanto e nem a atuação, já que era a minha dança que estava desfalcando meu desempenho geral.
— Pessoal, eu preciso ir. Reservei um estúdio e vou treinar um pouco. — informei, já me levantando.
— Tudo bem, até amanhã. — Marlon respondeu, enquanto Diego acenava para mim.
Os corredores da escola estavam abarrotados de gente, mas notei que a escola já estava bem mais vazia depois das eliminações. Era meio triste pensar que muitos não iriam conseguir chegar até a final, e só de pensar que eu poderia estar nesse meio me aterrorizava.
Pensar em Arthur, perseguições e outras coisas não deveriam ocupar tanto a minha mente. Eu precisava concentrar toda a minha energia no concurso. Pensar em rapazes — principalmente em um que era totalmente proibido para mim — era irrelevante no momento.
Foi esse pensamento que me deu forças para ficar o resto da tarde ensaiando. Agora que eu não precisava mais cumprir detenção, eu tinha mais tempo livre para treinar a minha dança.
Apesar do que Arthur havia dito sobre o ranking de desempenho, aquele 1% de progresso incomodava a minha mente muito mais do que eu gostaria. Eu precisava me sobressair dentre os candidatos, do contrário, eu seria a próxima a voltar para casa.
O prêmio em dinheiro era uma das coisas que eu mais almejava. As situações em São Paulo não estavam muito favoráveis desde antes de eu vir para o concurso. Desde a morte de minha mãe, meu pai tem se desdobrado em quatro para trabalhar. Meu salário como professora no estúdio de dança ajudava nas despesas, mas papai não me deixava ajudar em todas as despesas da casa pois queria que eu guardasse parte do meu dinheiro na poupança, o que coincidentemente me ajudou a vir para o CBA.
Pensar nele e em seu esforço fez meu coração se apertar de saudades, mas eu precisava me focar no meu treino. Afinal, faltava pouco para o fim de semana chegar, e isso iria atenuar um pouco a saudade que eu sentia do meu velho, pois eu iria passar a páscoa junto com ele.
Depois de horas e horas de esforço físico, eu me encontrava totalmente suada e descabelada no chão do estúdio de dança. Eu olhava para o teto, tentando criar coragem para levantar. Faltava pouco para o jantar, e eu ainda precisava tomar um banho antes de encontrar meus amigos no refeitório.
Eu me preparava para sair do estúdio quando vi Deborah escorada na parede do lado de fora. Ela usava uma blusa azul royal que valorizava seus olhos azuis afiados como aves de rapina, e abriu um sorriso indolente quando me viu sair do estúdio.
— Acho tão legal quando os alunos realmente valorizam a estrutura do nosso colégio usando os estúdios para treinar depois das aulas... — Deborah desencostou-se da parede, e usava um tom de voz falsamente simpático. — Isso é por causa do ranking de desempenho? Pois se for, tenho que te deixar avisada que a turma do Arthur tem muita gente mais talentosa do que você. Talvez seja melhor se contentar com esse 1 por cento de progresso.
A mulher estava mesmo me vigiando? Sei que os professores ficam sabendo do nosso desempenho, mas eram muitos alunos para gravar a porcentagem do desempenho de todos eles. Mesmo com as eliminações em massa, ainda havia muita gente dentro do concurso. Eu sabia que aquilo era pessoal, só não sabia o porquê.
— O que você quer?
— Nada, não. — Ela encarou suas unhas com um tom de voz despretensioso. Eu sabia que Deborah não havia parado ali aleatoriamente. Sua visita tinha um propósito. — Só estava aqui pensando em uma das saídas do Arthur. Saíram umas fotos dele com uma garota misteriosa de vestido laranja, e me ocorreu que poderia ser você. Eu te vi saindo com um vestido parecido com o que a garota da foto usava.
Deborah era o tipo de mulher que não enrolava tanto para dizer onde queria chegar. Ela queria me intimidar com aquele tom de voz falso de líder de torcida estadunidense enjoada, com um toque de falsa simpatia e uma nota de ameaça, mas eu não ia permitir que me desestabilizasse daquela forma.
— O que eu faço depois das aulas só diz respeito a mim e a mais ninguém. Desde que eu não infrinja nenhuma das regras do colégio, eu não tenho que dar satisfações do que eu faço fora daqui. — O rosto de Deborah ficou sombrio quando viu que não me abalei com sua insinuação.
— Sair com professores é infringir uma das regras da escola, bobinha.
— Mas eu não saí com professor nenhum. Eu fui sozinha. — Dei um passo a frente, disposta a encerrar a conversa de uma vez. — E eu estou precisando muito tomar um banho, então se me der licença...
— Pense no que eu te disse, florzinha. Arthur não vai te favorecer dentro do concurso, ele não se envolve com alunas, e não se envolveria contigo nem se você não fosse sua aluna.
— Por que você está me dizendo tudo isso? — perguntei, farta de tentar entender porque aquela mulher gostava tanto de me infernizar.
— É só um conselho de amiga.
Só se for amiga da onça.
— Agradeço o conselho, mas eu sei me virar sozinha. Passar bem, Deborah.
Deixei a mulher plantada no corredor e obriguei as minhas pernas cansadas a saírem dali o mais rápido possível. Deborah parecia mais perturbada do que o normal, e apesar de dizer que não ia deixar que ela me desestabilizasse, confesso que seus olhos de psicopata me davam um pouco de medo.
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