Capítulo 23 - Sangrando
Quando Arthur entrou no palco e me pegou pela mão, eu senti como se cada movimento que estivéssemos prestes a fazer começavam a ficar em câmera lenta. Eu ainda não sabia como o Arthur poderia saber todos os passos da coreografia, mas algo dentro de mim me dizia que ele tinha plena consciência do que estava fazendo.
A música era rápida, e a coreografia que eu e Diego fizemos era arriscada do começo ao fim. Porém, o olhar de confiança que Arthur me transmitiu me deu coragem para começar a dançar.
Nós dançávamos em sincronia, nossos corpos se movendo junto com a batida da música. Ele me levantou no ar, e eu deslizei por seus braços, arrastando as minhas sapatilhas pelo palco e indo ao seu encontro logo em seguida. Seus braços, firmes e ágeis, rapidamente envolveram o meu corpo, conduzindo a minha coluna para trás e trazendo-me de volta quase no mesmo instante.
Ao redor, eu conseguia ouvir a galera toda gritando de forma extasiada, mas não demorou muito para que eu me desligasse do que acontecia a minha volta, pois dançar com o Arthur era como estar visitando um lugar muito bonito. Eu me sentia nas nuvens, parecia que eu havia ganhado as minhas próprias asas. Eu nunca me senti daquela forma antes.
Tão... Solta. Tão... Livre.
Arthur me virou de frente para a plateia e me pegou no colo, dando sustentação para que eu flexionasse uma perna de cada vez. Depois desse movimento, eu dei um giro e levantei uma das pernas na altura da cabeça, me virando de frente para Arthur e fazendo com que ele me girasse no ar.
Nossos olhares se cruzaram, e pude perceber que ele mantinha no rosto um semblante muito diferente. Ele parecia... Satisfeito e alegre. Foi nesse momento que eu percebi que ele se sentia da mesma forma que eu.
Meu coração estava acelerado, e eu tinha certeza de que havia suor em todas as partes do meu corpo, mas a única coisa que me importava naquele momento, era dançar.
Quando a música estava quase no fim, eu dei algumas piruetas enquanto Arthur fazia sua performance individual. Ele me pegou pelas mãos e me fez deslizar por baixo de suas pernas, fazendo-me parar do outro lado do palco. Me levantei, girando a cabeça e indo ao seu encontro mais uma vez. Ele me puxou e me levantou no ar novamente. Eu abri os braços e sorri, sentindo-me como um passarinho engaiolado ganhando finalmente a sua liberdade. A minha gaiola havia sido destruída, e eu não poderia estar mais feliz por isso.
Arthur me virou de frente para ele, colocando-me no chão. Fomos nos movimentando juntos pelo palco até que a última estrofe da música terminou, fazendo com que eu deslizasse pela lateral de seu corpo e terminasse a coreografia agarrada em uma de suas pernas, no chão, com Arthur olhando fixamente para mim de braços cruzados.
Quando as pessoas começaram a aplaudir, eu saí do transe em que eu me encontrava. Por um momento, a felicidade me invadiu e eu sorri. Tive vontade de abraçar Arthur, mas eu não podia.
No entanto, quando Arnaldo veio em nossa direção com uma expressão séria, eu percebi que estava ferrada.
Arnaldo indicou a coxia com a cabeça, e nós o seguimos até lá.
Ele olhou para Arthur como se fosse trucida-lo.
— Posso saber o que deu em você?
— Eu só estava ajudando a minha aluna. — Ele deu de ombros, colocando as mãos nos bolsos da calça.
Olhei para Arthur de forma temerosa. Era nítida a fúria que estampava o rosto de seu pai. Se eu tivesse um pai como o Arnaldo, com certeza não iria querer contraria-lo.
— Ajudando? — Arnaldo contorceu o rosto, olhando para ele com indignação. O diretor agia como se as ações de Arthur tivessem sido muito absurdas. Tudo bem, ele é meu professor e alunos não podem ter privilégios como esse. Eu até entendia o ponto de vista de Arnaldo.
O que eu não entendia mesmo era a calma que Arthur demonstrava perante o seu pai. Ele nem estava assustado com as caretas que ele fazia.
Decidi intervir antes que a coisa ficasse mais feia:
— O meu parceiro sumiu, e eu não sei onde ele pode estar.
— Isso ainda não justifica o que você fez. — Arnaldo continuou fixado em seu filho, ignorando-me completamente. — Você dançou com uma aluna! Para você esse ato pode ter sido inofensivo, mas o que será que os outros alunos e os telespectadores vão pensar? O CBA é uma instituição séria, que não dá privilégios a nenhum aluno. Espero que se porte como um professor de verdade de agora em diante.
Me senti mal quando ele se referiu a mim e ao Arthur como professor e aluna, porque acabei me lembrando de que eu tinha alguns sentimentos controversos dentro de mim a esse respeito. Dançar com Arthur só me fez confirmar a forma como me sentia.
— Ele só não queria que a Dianna dançasse sozinha. — explicou Marlon, aparecendo ao meu lado acompanhado de Clara.
Arnaldo olhou para os dois como se fossem Et's.
— O que vocês estão fazendo aqui?
— Viemos apoiar a nossa amiga. — Clara informou, me dando um sorriso encorajador.
— Vejo que a senhorita Smith é muito querida, não é? Todos querem ajuda-la. — Arnaldo nos olhou de forma irônica, e eu me senti muito pequena naquele instante.
— Eu não queria causar problemas. — Me justifiquei, já sentindo um bolo enorme na garganta. Arthur, que estava praticamente com o braço colado no meu, roçou a ponta dos dedos na minha mão, o que me fez ficar levemente arrepiada. — Eu não sei o que aconteceu com o Diego, estou preocupada.
— DIANNA!
Diego entrou na coxia de forma afobada, fazendo-me sentir instantaneamente aliviada.
— O que aconteceu com você? — Clara estava com os olhos arregalados ao ver o estado do meu amigo, que estava suado e parecia assustado.
— Me trancaram dentro do vestiário masculino.
Eu, Clara, Marlon e Arthur nos entreolhamos. Nós só conhecíamos uma pessoa que tinha uma mania grotesca de trancar as pessoas em datas de avaliação: Deborah.
— E como você conseguiu sair, posso saber?
— Um segurança que passava pelo corredor ouviu meus gritos.
— É verdade, Sr. Arnaldo. — atestou o segurança grandalhão enquanto entrava na coxia. — Esse menino estava esmurrando a porta e ainda por cima destruíram a câmera que fica nesse corredor.
— Isso não é possível. — Arnaldo fechou as mãos em punho, sentindo-se ainda mais irritado do que antes, se é que isso é possível.
— Parece que tem alguém querendo sabotar vocês dois. — O segurança pontuou, alternando olhares entre Diego e eu.
— Mocinha, você e Diego estão em condições de dançar juntos? — Arnaldo olhou fixamente para mim. Tive medo de que ele descobrisse sobre os meus sentimentos pelo seu filho só me olhando.
— Sim.
— Parabéns, vocês não serão desclassificados.
[...]
Dançar com o Diego foi completamente diferente. Ele também tinha braços firmes, mas eu me senti de uma forma distinta ali no palco. Por sorte, tudo correu bem, afinal, Diego era um ótimo dançarino.
Clara e Marlon queriam denunciar a Deborah por ter trancado Diego no vestiário masculino. Porém, eu e ele concordávamos com o fato de que nós não temos prova nenhuma que a incrimine. Apesar de termos certeza de que aquilo era obra dela — o que já era assustador o suficiente — nós não podíamos fazer nada, e essa sensação era bem ruim.
Arnaldo fez um comunicado muito ameaçador antes que eu e Diego começássemos a nossa coreografia, dizendo que não aceitava sabotagens dentro do CBA, e muito menos vândalos, e que estava decepcionado por terem trancado um aluno no vestiário e também por terem destruído uma das câmeras de vigilância.
Já era noite, e eu estava deitada em minha cama, trocando mensagens no Whatsapp com o meu pai e Cassandra. O wifi da escola funcionava muito melhor agora, mas meus dados móveis ainda eram outra história.
Eu queria muito contar a Cass o que estava acontecendo comigo, mas eu tinha medo. Eu nem consegui falar aquilo em voz alta para Clara, e acho que não conseguiria me abrir sobre meus sentimentos tão cedo para ninguém. Eu mesma ainda não entendia direito o que eu começava a sentir, mas eu precisava dar um jeito de frear toda essa enxurrada de sentimentos dentro de mim.
O que Arthur fizera por mim hoje foi um dos gestos mais incríveis que alguém poderia fazer. Eu fiquei tão nervosa na hora que nem me ocorreu que eu deveria agradecê-lo.
Me sentei na cama em um rompante, olhando a hora no celular. Ainda faltava uma hora para o toque de recolher da escola. Dava tempo de checar se Arthur ainda se encontrava em sua sala. Ouvi dizer que de vez em quando ele ficava até tarde lá organizando algumas coisas.
Passei por Barbara e Clara que estavam entretidas em seus respectivos telefones e saí rumo ao andar de baixo. Um pouco de medo afligiu meu coração quando me lembrei de que me perseguiram à noite nos corredores, mas eu me acalmei quando vi que ainda haviam vários alunos transitando pelos corredores da escola.
Cheguei ao térreo e vi que a luz da sala de Arthur ainda estava acesa, o que era um indício de que ele ainda estava lá. A porta estava entreaberta, e eu dei algumas batidas nela.
— Pode entrar. — A voz de Arthur parecia cansada. Abri a porta e o encontrei sentado avaliando uma pilha de papéis. Ele levantou os olhos quando me viu e eu dei um sorriso tímido para ele.
— Desculpa te incomodar essa hora. — Entrei e fechei a porta atrás de mim. — Eu vim te agradecer por hoje. O que você fez foi... Incrível. Dançar hoje foi incrível.
— Eu fiz o que achei que deveria ter feito, você não precisa me agradecer. — Ele deu de ombros, organizando os papéis em cima da mesa distraidamente.
— Como você sabia os passos?
Arthur coçou a cabeça, largando os papéis de lado e ficando vermelho e meio nervoso de repente. Foi engraçado vê-lo daquele jeito.
— Ahn... É que... Bom, eu vi alguns vídeos dos ensaios de vocês, lembra? Nós somos orientados a fazer acompanhamento dos alunos nos ensaios das avaliações, só que de longe para que vocês não percebam. Nós não podemos interferir no processo criativo e no desenvolvimento de vocês. — Ele abaixou a cabeça novamente, voltando-se para os papéis. Eles estavam quase todos organizados em cima da mesa.
— E então... — Mordi o lábio, hesitante. — Você está muito encrencado com o seu pai? — Dei uma pequena risada. Ele tinha no rosto um olhar distante quando fiz a pergunta.
— Eu sempre estou encrencado com o meu pai. — Arthur deu uma leve risada para mim, e algo dentro de mim se acendeu. Droga.
A porta se abriu e uma mulher alta, bonita e perfumada colocou a cabeça para dentro da sala.
— Cansei de te esperar lá fora e vim para cá. — Ela sorriu, os lábios vermelhos de batom. — Você já está pronto, docinho?
Docinho?
— Sim, só estava organizando esses papéis. — Arthur se levantou, e percebi que ele estava bem mais arrumado do que o habitual. — Nos vemos amanhã, Dianna. Tenha uma boa noite.
— Boa noite, professor Arthur. — Me contorci de dor ao falar aquelas palavras, e notei um vinco na testa de meu professor quando terminei de proferir aquela frase. Me retirei da sala junto de Arthur e da mulher bonita, sentindo meu coração despedaçar no processo.
Acho que chamá-lo de professor tornava ainda mais real o que ele era para mim, e eu pensei que aquilo amenizaria o desconforto que eu sentia dentro do meu peito ao vê-lo sair de braços dados da escola com aquela mulher bonita, mas o desconforto só aumentou.
[...]
Eu havia acabado de fazer a segunda avaliação, e me sentia bastante confiante sobre o meu desempenho. Não tinha pregado os olhos à noite inteira, mas não me sentia tão indisposta quanto achei que me sentiria.
A única coisa que me preocupava no momento era a Deborah, que não parou de me olhar feio durante a minha apresentação e ainda tinha trancado o meu amigo dentro do vestiário masculino. Eu sabia que havia sido ela, e mesmo que talvez houvesse a chance de que ela não tivesse se dignado a fazer o trabalho sujo, só existia uma professora que me odiava aqui dentro e que tinha esse costume desagradável.
No entanto, a coisa mais estranha que tive de fazer hoje foi encarar o Arthur como meu professor e jurado, pois quando eu estava na sala de espera, eu o vi passando, e só esse pequeno ato fez meu coração acelerar. Meu rosto ficou corado, enquanto as cenas de ontem à noite preenchiam a minha mente. Pensar nele com aquela mulher bonita me fez sentir estranha e inadequada. Aqueles sentimentos não eram para mim.
Quando entrei na sala de avaliações, eu mal olhei para ele. Eu tinha certeza de que perderia o foco se eu o olhasse. Porém, quando terminei a apresentação, Arthur foi a primeira pessoa para quem eu olhei. Seu rosto estava tão bonito e sereno que eu quase desmontei.
Entrei no refeitório à procura dos meus amigos. Pensar em comida talvez me fizesse esquecer Arthur. Eu tinha sido a última a entrar para a avaliação e pela forma como meu estômago roncava, eu sabia que estava faminta. Peguei uma bandeja e coloquei quase tudo o que eu tinha direito no meu prato, indo na direção em que meus amigos se encontravam.
— Olha a puxa-saco do Arthur, meninas. — Barbara deu uma risada assim que passei perto da sua mesa.
— O que você teve que fazer para que o Arthur te ajudasse, hein? — perguntou Ella, uma de suas amigas.
— Nada, ele me ajudou porque quis.
— Diz logo, Dianna. Eu sei que você se faz de santinha, mas no fundo não passa de uma oferecida.
Ver Barbara e suas amigas me difamando daquela forma fez com que a raiva se apossasse totalmente do meu corpo. A minha visão escureceu, e minhas mãos tremeram como nunca antes em minha vida. Eu não queria revidar, não sou de responder afrontas com afrontas, mas se tem uma coisa que eu não suporto, é que falem mal da minha índole.
— Você vai chorar? — Barbara aproximou o rosto do meu, fingindo estar comovida.
Tentei respirar fundo e me conter, mas quando dei por mim, eu já tinha acertado um tapa bem forte no rosto dela.
Todos ao redor prenderam a respiração, e Barbara me encarou com uma expressão assustada.
Seu nariz estava sangrando.
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