Capítulo 22 - O Sumiço

— Bom dia, perdedoras — Barbara, que já estava de pé usando um roupão e com o rosto devidamente maquiado para a avaliação de dança, sorriu de forma exibida. Ela segurava o vestido que iria usar em uma das mãos e já agia como se tivesse ganhado o concurso.

— Você é tão convencida que chega a me dar ânsia de vômito — Clara respondeu, revirando os olhos. — Acordar já tendo que olhar para essa sua cara feia é um ultraje.

— Por que você está maquiada desse jeito? — cocei os olhos, sentindo-me confusa e sonolenta. — O monólogo não vai ser antes da apresentação de dança?

As avaliações iriam ser hoje e meu estômago já estava meio embrulhado pelo nervosismo. Minha cabeça doía um pouco devido ao cansaço do dia anterior, pois meu último dia de detenção acabou com chave de ouro. Arthur e eu ajudamos a enfeitar a escola e ainda pegamos um engarrafamento horrível para voltar para o CBA.

— Essa é a maquiagem que eu vou usar no meu monólogo, não que isso seja da sua conta. Ah, e para quem tem medo de câmeras, sugiro que desista logo, pois todas as avaliações tem sido gravadas e transmitidas mundialmente. Não todas, é claro. Só as melhores e as piores. — Barbara sorriu de forma confiante para nós, como se nos fizesse um favor em avisar aquilo.

— Vamos pegar nossos figurinos, Dianna. — Clara se levantou da cama fuzilando Barbara com os olhos. — A gente come alguma coisa na volta.

— Tudo bem, só preciso ir ao banheiro primeiro.

Assim que terminei de fazer as minhas necessidades, arrumei meu cabelo em um coque, troquei de roupa e acompanhei Clara até uma das salas de teatro, pois os professores iriam nos disponibilizar alguns figurinos da própria escola para usarmos na avaliação de dança.

No meu monólogo, eu usaria roupas normais, pois a personagem que vou interpretar não exigia uma caracterização muito elaborada, mas eu precisava de uma roupa extravagante para a avaliação de dança.

Ao chegarmos lá, percebemos que haviam muitos figurinos para escolher, mas a maioria dos alunos já estavam amontoados sob as araras das roupas e eu e Clara ficamos um pouco desapontadas.

Enquanto Clara e eu procurávamos uma roupa que fosse combinar, Diego e Marlon nos enviavam mensagens nos perguntando que roupa iríamos escolher, afinal, a roupa deles tinha que combinar com a nossa.

Clara me cutucou no braço e apontou com a cabeça para o lado oposto em que eu e ela estávamos. No momento em que olhei na direção em que ela apontava, meu coração pareceu que iria saltar pela boca, pois era Arthur que estava ali, trazendo mais alguns figurinos.

— Vem comigo. — Clara pediu, sorrindo maliciosamente e me puxando pelo braço até as duas araras que Arthur trazia. Tentei fincar meus pés no chão, mas Clara tinha mais força do que eu imaginava.

— Bom dia, professor. Esses figurinos estão disponíveis? — Ela exibia o seu famoso sorriso indolente.

Arthur organizou alguns cabides em uma das araras e se voltou para nós. Ele estava bem vestido e cheiroso como sempre. Provavelmente era a roupa que usaria para nos avaliar. Meu corpo tremeu só em lembrar disso.

— Bom dia, meninas. Sim, eles estão disponíveis. — Arthur olhou para mim e a minha garganta ficou seca. Era como se eu ainda me lembrasse do momento que passamos no galpão.

— Que ótimo, porque eu e a Dianna já estávamos aflitas aqui. — Clara gesticulou de forma exagerada e eu a encarei querendo dar risada.

— Peguem o que acharem necessário. Boa sorte para vocês. — Arthur deu um aceno de cabeça para nós e se retirou de forma apressada quando viu que algumas alunas queriam falar com ele. Acho que não queria socializar ou ter que responder perguntas em dia de avaliação.

— Obrigada! — exclamei antes que ele saísse da sala.

— Aquele fotógrafo e a entrevistadora tinham razão. — Clara começou a mexer nas roupas e eu fiz o mesmo que ela. Não queríamos que os outros viessem aqui antes que achássemos o figurino que iríamos usar.

— Sobre o que?

— Vocês dois tem uma puta química. — Soltei uma gargalhada nervosa e estridente que fez Clara me encarar como se eu tivesse um problema sério, e acho que ela não estava muito longe da verdade.

Eu realmente tinha um problema, e ele se chamava talvez-eu-tenha-uma-queda-pelo-meu-professor.

[...]

Depois de passar um bom tempo escolhendo um figurino, Arnaldo anunciou que o monólogo havia sido transferido para amanhã. A avaliação de dança, que era a mais difícil para mim, seria hoje e eu já estava devidamente arrumada. Alguns alunos estavam reclamando sobre a desorganização da escola em agendar e transferir o dia das avaliações, mas eu me sentia aliviada em poder me concentrar em uma coisa de cada vez.

O figurino que eu havia escolhido era um vestido justo lilás, que chegava a metade das coxas e era brilhoso de um jeito singelo e glamouroso. Ele tinha uma armação na saia que o deixava bem rodado e dava um acabamento muito bonito.

Nos pés, eu usava as minhas sapatilhas da sorte. Meu cabelo estava metade preso e metade solto, e Diego usava uma roupa branca com detalhes em lilás para combinar com a minha.

Clara usava um conjunto de saia e top vermelho e branco. O cabelo estava preso em um rabo de cavalo alto. Marlon usava roupas das mesmas cores que as dela, só que eram mais brilhosas e chamativas.

Diego havia saído para ir ao banheiro há alguns minutos, e eu tive medo de que chamassem os nossos nomes e ele não estivesse aqui.

Barbara também haviam sumido, e tinha Deborah, que me olhava de um modo assassino vez ou outra. Eu já estava começando a ter calafrios na espinha.

O primeiro casal que estava se apresentando era da turma do Leandro. Os professores olhavam com atenção a apresentação dos dois, que começara razoavelmente bem, apesar do tombo que a garota levou quando foi realizar um passo sozinha.

Clara estava tão nervosa quanto eu, e quanto mais o tempo passava e mais nomes eram chamados, a apreensão que conseguíamos sentir nos deixava cada vez piores.

— Será que o Diego está bem? Ele ainda não voltou do banheiro. — Olhei para trás na esperança de encontrar meu amigo e me senti estranhamente preocupada quando vi a Barbara aparecer com um sorriso muito confiante em seu rosto.

— Ele pode estar passando mal. — Clara parecia tão preocupada quanto eu. — Acho que estão todos aqui, então a demora não deve ser por causa da fila dos banheiros.

— Eu vou atrás dele.

Me levantei e fui em direção a porta de saída, mas os dois seguranças que estavam na porta me barraram.

— Você deve ficar aqui dentro até o final das avaliações.

— Mas o meu amigo foi ao banheiro e até agora não voltou. Eu estou preocupada com ele. — Eu me encontrava cada vez mais nervosa. Os dois seguranças eram como dois armários e não pareciam dispostos a me deixar passar.

— Desculpe, mas você deve esperar que ele retorne.

— Como ele conseguiu sair se não podemos deixar a sala de avaliações? — indaguei, me sentindo ligeiramente desconfiada.

— Ele deve ter saído antes das avaliações começarem. A partir do momento que as avaliações começam, temos ordens restritas de não deixar ninguém sair.

— Entendi. Obrigada.

Voltei até o meu lugar ao lado de Clara, frustrada.

— O que aconteceu? Eles não te deixaram sair? — Marlon olhou para mim.

— Não. Eu não posso sair enquanto as avaliações não terminarem.

Marlon arregalou os olhos, espantado.

— E se me der uma caganeira?

— Você terá que cagar nas calças — Clara abriu um sorriso nervoso, tentando amenizar o clima.

Depois de um tempo, enquanto as avaliações aconteciam, meu coração retumbava no peito. Eu sabia que tinha alguma coisa errada no sumiço de Diego, só não sabia dizer o que era.

O último casal a dançar fora Barbara e seu parceiro, um tal de Jon Souza. Ele se achava assim como ela, e assim que terminaram a apresentação, Barbara me lançou uma piscadela provocativa que me irritou um bocado.

A apresentação dela tinha sido incrível, mas seu ego inflado fazia com que o brilho se perdesse completamente.

Arnaldo anunciou a próxima dupla e eu quase morri do coração.

— Dianna Smith e Diego Yoshida podem vir para o palco.

Arregalei os olhos, gelando na cadeira em que eu estava sentada.

— E agora, o que eu faço? — perguntei entredentes, pois eu senti o olhar de todo o mundo em cima de mim.

— Apenas dance — instruiu Marlon, colocando a mão sobre a minha.

— Como eu vou dançar sem dupla? — indaguei, sentindo o desespero me dominar.

— Nós vamos dar um jeito — Clara respondeu, me encorajando.

Eu me levantei sob os olhares de todas as pessoas que estavam presentes. A expressão em meu rosto devia estar em pânico, assim como o meu ser estava. Eu não sabia o que a Clara e Marlon iriam fazer, mas assim que me dirigi até o palco e vi que os dois se levantavam, percebi que não era boa coisa.

Notei as câmeras e Jane, a repórter invasiva que achava que eu e o Arthur éramos um casal shippável e comecei a tremer. Busquei Diego na plateia, mas as luzes dos refletores me cegaram e eu não consegui enxergar nada.

Um nó se formou em minha garganta e eu senti como se fosse vomitar a qualquer momento. Me posicionei no meio do palco, olhando para os professores e para Arnaldo como se eu fosse desmaiar.

As câmeras começaram a me focalizar. Deborah tinha no rosto uma expressão vitoriosa, assim como Barbara. Meu estômago embrulhou quando eu vi o olhar que as duas me lançavam. Apesar de estarem em lugares diferentes e distantes, parecia que as duas sabiam bem porque eu estava em pânico.

Ouvi os cochichos das pessoas na plateia e tive vontade de sair correndo dali, mas alguma coisa me disse para permanecer onde eu estava.

A cadeira de Arthur estava vazia, e de alguma forma aquilo me desanimou. Se ele estivesse ali, talvez eu me sentisse um pouco mais encorajada. Olhei para o lado, e encontrei Clara, Marlon e Arthur parados nos bastidores, o que me deixou um pouco menos nervosa.

A introdução da música começou a tocar, e era uma mulher falando algumas palavras antes da música realmente começar. Meu coração retumbou de medo dentro do peito, enquanto Clara me encorajava a dançar com gestos nada sutis. Eu ainda não sabia o que Arthur estava fazendo ali, mas agradeci internamente por estar preocupado comigo.

Comecei a fazer a introdução da música sozinha, me jogando no chão e esticando uma das pernas. Minha cabeça girou para o lado esquerdo e eu me senti leve quando a adrenalina que a dança me proporcionava começou a agir em minhas veias.

Dei uma cambalhota para trás e me levantei um pouco antes do instrumental da música começar. E, quando começou, me surpreendi ao ver o Arthur adentrar o palco, pronto para dançar a música que eu havia ensaiado com Diego. 

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top