Capítulo 21 - Galpão Estrelado
Era meu último dia no castigo com Arthur e o penúltimo dia antes da avaliação de dança, então eu estava uma pilha de nervos. Meu professor se encontrava mais absorto que o normal nas aulas de hoje, de modo que quase não conseguimos interagir, então eu meio que esperava que conseguíssemos fazer isso hoje durante a detenção, pois eu me acostumara a ter sua presença no meu dia a dia, mesmo quando trocávamos somente meia dúzia de palavras.
O encontrei parado no batente da porta com um saco preto aos seus pés.
— Hoje nosso castigo vai ser ao ar livre. Iremos entregar as sapatilhas que costuramos e ajudaremos uma escola de dança hoje. — Arthur pegou o saco preto e apontou para uma pequena caixa de papelão no canto que eu não tinha visto. Eu peguei a caixa, estava extremamente leve.
— Tudo bem.
Caminhamos em silêncio até seu carro, onde depositamos as coisas no bagageiro e entramos no veículo.
— A escola fica muito longe daqui?
— Se não pegarmos trânsito, chegaremos lá em quarenta minutos.
O trânsito estava cheio de veículos, mas o fluxo não era intenso como eu esperava. Arthur estava concentrado na estrada, e eu olhava as paisagens em minha janela.
O silêncio dentro do carro não era do tipo desconfortável ou tenso, mas eu sentia vontade de ouvir a voz de Arthur. Dava para ver que ele não queria conversar, então respeitei seu silêncio, me concentrando somente em encarar as ruas que surgiam em meu caminho conforme avançávamos na estrada.
Por sorte, o trânsito não nos impediu de chegarmos à escola com rapidez. Antes mesmo que Arthur parasse o carro, eu percebi que estávamos nos aproximando de nosso destino, pois as ruas que antes pareciam mais conservadas agora davam lugar a um ambiente quase cinzento e triste, com paredes pichadas com frases pesadas e autodepreciativas e pessoas que passavam feito zumbis pelas ruas. Ainda conseguia ver algumas pessoas sorrindo, mas a maioria delas eram crianças.
— A escola que vamos ajudar não tem recebido muitas doações. Eles vão fazer um trabalho em breve para ver se conseguem arrecadar dinheiro para manter o lugar e nós vamos ajuda-los no que precisarem hoje. — assenti com a cabeça conforme ouvia as instruções de Arthur. — Dianna, só não prometa às crianças nada do que não possa cumprir. Elas foram muito iludidas por pessoas de muitas palavras e poucas atitudes.
— Ok. — Foi a única coisa que consegui responder diante das palavras de Arthur. Nós saímos do carro e retiramos as coisas do bagageiro.
Nos aproximamos da escola de dança. O muro parecia não ver tinta há anos, pois além da tinta estar desgastada, o muro se encontrava completamente castigado pelo tempo. Haviam pichações em quase toda a sua extensão, e uma placa mal feita e rasgada, pendurada às pressas acima do muro trazia o nome da escola:
Escola de Dança Gente Feliz.
Mas não era isso que a fachada dizia.
O portão já estava aberto e rangeu alto quando Arthur o empurrou. Pude ver como ele estava enferrujado, com uma tinta verde musgo descascada que misturava com o ferro e com o laranja do ferrugem.
O espaço de entrada era meio apertado, e ficava quase em frente a varanda da casa onde ficava à escola. Pude ouvir o som de uma música famosa no Tik Tok tocando ao longe quando entramos na tal casa. Uma plaquinha na porta indicava que ali era a secretaria. Uma mulher rechonchuda e de óculos nos abordou com um sorriso alegre.
— Boa tarde! Estou tão feliz de vê-los aqui! Nossas crianças ficarão muito contentes também. — Ela era muito animada e demonstrava isso de forma muito natural.
— Separamos as melhores sapatilhas para vocês e trouxemos alguns figurinos de doação que talvez sirvam em algumas crianças. — informou Arthur, colocando o saco preto no chão. — Esta é Dianna, a aluna voluntária de quem lhe falei. Dianna, esta é Patrícia, a secretária e uma das donas do lugar.
Nós nos cumprimentamos e trocamos sorrisos no mesmo instante que ouvi as risadas de algumas crianças.
A secretaria era uma sala pequena e simples que continha uma mesa de ferro e uma cadeira de plástico. Havia uma entrada para ar condicionado em uma das extremidades da parede, mas o ar condicionado claramente não funcionava, pois estava quente mesmo com a porta e as janelas abertas.
Patrícia pegou as coisas que trouxemos e nos chamou para segui-la até os fundos do local.
As crianças ensaiavam em um espaço coberto, em uma sala mediana e que já quase não tinha espaço para caber tanta gente em um lugar só. O professor de dança ensinava algumas manobras de street dance.
— Eles estão animados com o evento beneficente. — Patrícia sorriu, observando as crianças de longe. — São crianças muito criativas e empenhadas. Querem ver a exposição que fizeram para o evento? — Fizemos que sim com a cabeça. Patrícia nos levou até os fundos da escola. Passamos por um terreno que não via uma capinação há algum tempo e paramos em frente a um mini galpão. Patrícia empurrou a porta e pediu para que entrássemos.
Meus olhos quase não acreditaram no que eu via em minha frente, pois quando eu e Arthur entramos naquele galpão, eu me senti no céu. Literalmente.
Poucos refletores posicionados de modo estratégico em pontos do galpão realizavam uma parte do trabalho, mas as pinturas do céu estrelado e do mar faziam um relevo e pareciam estar em movimento por todo o galpão.
— Nossa... — Arthur murmurou com fascínio.
— Conseguimos os refletores de doação e o resto as crianças fizeram com a ajuda dos professores e voluntários.
— Isso tá incrível... — Eu estava tão fascinada quanto Arthur.
— Podem ficar, aproveitem. Eu já venho falar para vocês no que irão nos ajudar. — Patrícia se retirou, deixando Arthur e eu a sós. Caminhamos para dentro do galpão e começamos a olhar para o teto estrelado. Era como se estivéssemos dentro do céu.
A mamãe teria adorado estar ali.
— Por que você está chorando? — Arthur apontou para meu rosto e eu levei um susto ao toca-lo e sentir uma lágrima ali. Enxuguei o local onde a lágrima escorrera e me deitei, sentindo as luzes e os desenhos em meu rosto.
Hesitante, Arthur se deitou ao meu lado.
— Não sei, eu só pensei na minha mãe. — Suspirei, encarando o teto estrelado.
— Você sente falta dela, não é? — Fiz que sim com a cabeça e virei o rosto para o lado para poder olhar para Arthur. — Sei como é.
Fiquei estudando o rosto de Arthur por algum tempo. Seu olhar era de compreensão, mas também havia algo mais. Um vinco no meio de sua testa e seu olhar agora meio triste e preocupado, me diziam que meu professor estava passando por algum problema.
— Você está bem? — Arthur me encarou de modo surpreso. Acho que fazia tempo que ninguém lhe perguntava isso.
— Pareço não estar bem?
— Me desculpe, mas parece que você foi traído e que desde então só dorme as três horas da madrugada ouvindo Marília Mendonça.
— Você é muito engraçadinha. — Ele deu uma risada e meu coração se encheu de alegria. Era raro ver Arthur rindo.
— Vamos lá, seja sincero. Te digo um segredo meu e você me fala porque tem andado feito um zumbi.
— E se eu não quiser?
— Bom, pelo menos eu tentei. — Fiz uma pausa para respirar fundo. — Quando eu tinha doze anos, eu tive anorexia. Eu já estou bem, fiz terapia e tudo mais, mas na época eu fiquei muito mal. Eu já cheguei a pesar 20 quilos a menos que o indicado para a minha faixa etária.
— Eu não fazia ideia... — Arthur ficou em silêncio por alguns instantes e eu dei um sorriso, indicando que eu realmente estava bem. Relembrar essa fase da minha vida não era algo que eu fazia com frequência, e apesar de não ser uma experiência agradável, fiquei aliviada em saber que pensar nisso não mexia mais comigo.
— Acho que é a minha vez. — Arthur respirou fundo. — Eu não me dou bem com o meu pai. Confirmei recentemente que minha mãe me abandonou aos seis anos de idade por causa dele, que sempre foi tóxico e extremamente abusivo. Arnaldo sempre exigiu mais do que a perfeição de mim e isso incluía tirar do caminho tudo o que fosse considerado uma distração por ele. Só trabalho na escola porque eu realmente gosto, mas eu odeio o meu pai.
— Deve ser realmente horrível viver como se você fosse um fantoche sem suas próprias vontades e sonhos...
— É exatamente assim que me sinto, como um fantoche. — Ele olhou para mim como se estivesse impressionado por eu entendê-lo. — E saber que a minha mãe foi embora e não me levou com ela tem me incomodado mais do que eu gostaria. Eu gosto do que eu faço. Se tem uma coisa que meu pai fez certo foi me colocar no ramo da arte, mas eu trocaria absolutamente tudo isso para ir embora com a minha mãe se eu tivesse essa oportunidade.
— Deve ser difícil para você. — observei, tentando procurar mais coisas para dizer.
— Eu mal me lembro dela... — Arthur murmurou, fixando seus olhos no teto estrelado. — Só me lembro que a minha mãe tinha os cabelos castanhos e que eu gostava muito de mexer neles. Lembro também que ela gostava de cantarolar, mas por mais que eu me esforce, não consigo me lembrar qual música ela cantava. Você tem medo de esquecer da voz da sua mãe? — Arthur continuou com os olhos presos no teto. O contraste dos olhos dele com as pinturas na sala deixavam a cor deles ainda mais claros e bonitos, como uma piscina melancólica que reluzia.
— Todos os dias. Quando minha mãe se foi, eu tinha tanto pavor disso que comecei a escrever em um caderno todas as coisas que ela gostava e situações que tínhamos vivido juntas. Mas daí eu percebi que alguns detalhes podem ser perdidos com o tempo, mas a essência da minha mãe sempre vai estar viva dentro de mim. É a mesma coisa com você. Talvez não se lembre de todos os detalhes, da música que ela cantarolava, mas você ainda lembra que ela gosta de música. Os detalhes se foram, mas as características marcantes ainda estão dentro de você.
Arthur abriu um mínimo sorriso e me encarou. O contato visual foi cortado rapidamente, e seu rosto se voltou novamente para o teto. Fiz o mesmo que ele no momento em que senti a proximidade de nossas mãos. Inconscientemente, nossos dedos estavam se aproximando uns dos outros, fazendo uma corrente elétrica gostosa causada pelo leve toque passear pelos meus dedos.
Prendi a respiração, tentando controlar meus batimentos cardíacos quando a ponta de nossos dedos indicadores se tocaram. Era um toque gostoso, quente e acolhedor, que transmitia toda a força que um precisava do outro. Meu peito se encheu de conforto e paz, e acho que Arthur se sentia da mesma forma, pois quando Patrícia adentrou o galpão, nós nos sentamos assustados quase que ao mesmo tempo.
— Vejo que gostaram bastante do galpão. — comentou Patrícia, parecendo alheia ao momento que Arthur e eu tivemos. — Vamos, os professores já me passaram uma lista de tarefas que vocês podem fazer para nos ajudar.
Nós nos levantamos em sincronia e seguimos Patrícia para fora do galpão.
Eu ainda conseguia sentir o toque de Arthur em minha pele.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top