Capítulo 17 - Armário Assassino (PARTE 2)
— Não liga para esse ranking e essa peça idiota, Di — Marlon disse, afagando meu ombro com carinho. Eu estava deitada de barriga para cima no campus do CBA, a grama seca pinicando minha nuca e grudando nos fios do meu cabelo não eram suficientes para que eu me esquecesse da frustração que eu sentia.
— Não tem como não ligar. Tenho certeza de que se vocês tivessem ficado de fora da peça estariam do mesmo jeito que eu estou agora. — suspirei, encarando o céu azul claro e sem nuvens.
Todo o tempo livre que eu tinha — exceto o tempo em que estou ensaiando com Diego — tem sido dedicado para melhorar minha técnica na dança, que é onde eu mais tenho dificuldade. Meus dedos do pé tem sentido a minha dedicação e frustração, e eu já tinha várias bolhas e feridas incômodas espalhadas pelos pés. Eu tentava pensar nas coisas que Arthur me disse, mas a verdade era que aquele maldito ranking de desempenho ainda me incomodava.
— É, você tem razão. Mas se serve de consolo, a Ramona não merece ser a protagonista. — Diego deitou-se ao meu lado. — Se Arthur for esperto, vai fazer algo a respeito disso. Tenho certeza de que ele já percebeu que a peça não está caminhando do jeito que deveria.
— Você é talentosa, amiga. Não é um papel em uma peça ou uma colocação ruim em um ranking que vai definir o quão longe você deve ir. — A frase de Clara fez um lampejo de esperança brotar em meu coração, e nós sorrimos uma para a outra.
Clara se deitou do meu outro lado e Marlon se deitou ao lado dela. Minha amiga tocou a minha testa.
— Ainda não acredito que o Arthur fez um curativo na sua testa. Isso é super romântico. — Clara soltou um suspiro apaixonado.
— Não teve nada de romantismo nessa situação, acredite. Só teve sangue, o que por si só já acaba com qualquer fanfic que a Jane ou qualquer outra pessoa esteja pensando em criar.
Por reflexo, eu mesma toquei o machucado por cima do curativo. Claro que não era mais o mesmo que Arthur fizera, mas só de tocar ali eu já me lembrava do dia em que ficamos próximos. Foi confortável.
Desde aquele dia, os castigos não tem sido mais tão animados. Arthur e eu ainda conversamos durante o processo, mas senti um distanciamento quase involuntário de ambas as partes, e agora que faltavam só dois dias para o meu castigo acabar, uma tristeza no cantinho do meu coração surgiu, me causando um certo incômodo.
— Temos que ir para a aula de ballet. — Clara se sentou na grama e eu fechei os olhos, tentando a todo o custo esquecer aquela tristeza esquisita que eu sentia.
— Eu e Diego vamos passar na secretaria primeiro. Vão na frente. — Marlon se levantou, tirando a grama que grudou em sua bunda. Nos despedimos de nossos amigos e caminhamos juntas para dentro do prédio do CBA.
No caminho para a aula, vimos Barbara conversando com Deborah de forma suspeita. Elas pareciam bem esquisitas, e agiam como se tivessem algo a esconder.
Só conseguimos ouvir uma frase antes que Barbara nos percebesse ali.
"Eu te ajudo a acabar com ela."
Eu e Clara nos entreolhamos de modo desconfiado e Barbara virou para trás, nos pegando no flagra.
— Perderam alguma coisa aqui? — indagou ela, irritada.
— Não, imagina — respondeu Clara de forma irônica, olhando de forma indolente para a loira.
Puxei Clara pelo braço antes que as duas iniciassem uma guerra de troca de olhares.
Apertamos o botão para chamar o elevador (que já estava funcionando) e ficamos esperando. Quando olhei para trás, Barbara não estava mais lá.
— Tá, isso foi bem estranho. — Eu disse, já imaginando Barbara liderando uma gangue muito perigosa.
— Eu não gosto dessa garota. Ela me passa a impressão de que tem algo de muito errado acontecendo e eu não gosto dessa sensação.
— Não vai me dizer que você também acha que a Barbara faz parte de uma gangue?
— Não é isso. — Clara deu uma risada, e o elevador chegou logo em seguida. — Eu não sei explicar, só sei que ela me passa uma energia ruim.
Entramos no elevador e eu apertei o andar dos estúdios de dança.
— Tem certeza de que isso não é coisa da sua cabeça?
— Eu espero que seja, Dianna. Não costumo me enganar com as pessoas, mas a Barbara me confunde. Antes, eu a achava apenas uma garotinha esnobe e metida e agora, parece que ela é mais do que isso. Não gosto da energia dela.
Um arrepio involuntário passou pelo meu corpo quando Clara disse isso.
As portas do elevador se abriram e nós saímos de dentro dele em silêncio. Se a Clara era uma pessoa intuitiva, eu não saberia afirmar, mas a Cass sempre disse que se alguma pessoa te causa alguma sensação ruim ou calafrios, que é para sair de perto, porque é encrenca na certa.
Agora só me resta saber qual tipo de encrenca Barbara é.
Quando cheguei ao estúdio de ballet e me despedi de Clara, Barbara já não estava mais em meus pensamentos. Na verdade, o incômodo que eu senti quando a vi falando ao telefone ainda estava presente, mas eu já tinha tantas coisas me incomodando que resolvi que a Barbara não seria uma dessas coisas.
Ainda não tinha ninguém no estúdio, nem mesmo Arthur tinha sido tão pontual quanto eu, então decidi que iria me aquecer enquanto o restante da turma não chegava.
Coloquei as minhas sapatilhas e senti a unha protestar, mas caminhei até a barra e comecei a me aquecer.
O estúdio de ballet era enorme, pois a turma ainda estava bem cheia. Eu ocupava uma das últimas barras porque Arthur tinha me colocado ali. Acho que tinha algo a ver com o meu desempenho.
— Se pensa que vou aumentar seus pontos ou te dar um papel na peça por sua pontualidade, está muito enganada. — A voz brincalhona de Arthur fez com que eu pulasse de susto. Estava tão distraída me aquecendo que nem o vi entrando.
— Eu confundi os horários. — Clara havia confundido, na verdade.
Arthur deu um sorriso que fez com que meu corpo inteiro se aquecesse. Eu não sabia direito o que estava acontecendo comigo, mas tive a ligeira impressão de que não era nada bom.
Lembro-me de uma vez que Cassandra e eu compramos uma daquelas revistas de garotas para ficar lendo na casa dela. Tinha uma matéria que falava sobre o poder que alguns garotos poderiam ter sobre você. Eu me lembro vagamente do que estava escrito porque Cass só sabia falar do Fernando, o garoto que ela estava paquerando. Mas, de algum modo, naquele momento, uma parte da matéria me veio à mente, e dizia que se o seu corpo esquenta quando um cara está perto de você, quer dizer que há uma chance muito grande de estar afim dele.
Na época, eu dei altas gargalhadas daquilo, e fiz Cassandra se irritar comigo por eu não estar levando a sério. Eu nunca gostei de ficar lendo essas revistas, e quando as lia, era só para passar o tempo debochando das coisas que eu achava engraçadas.
Acho que Cass estava certa quando dizia que eu era mais boba do que a revista.
— Seu quadril está torto e seu plié está saindo errado por conta disso. — observou Arthur, estudando meus movimentos com atenção.
Tentei me endireitar, mas as minhas mãos começaram a suar de forma desenfreada e eu acabei perdendo o foco.
— Posso? — Fiz que sim com a cabeça. Arthur veio até mim, posicionando-se atrás do meu corpo e colocando as suas mãos quentes sobre meus quadris.
Soltei uma lufada de ar quando senti o contato de suas mãos na minha pele e percebi que meu coração acelerou tanto que tive medo de que o Arthur pudesse ouvi-lo.
— Você está totalmente distraída. Se quiser vencer o concurso, precisa ter mais foco. — A voz de Arthur estava baixa e rouca. Sua respiração quente batia no meu pescoço nu, fazendo com que uma sensação estranha percorresse a minha espinha. O calor aumentou, e minhas pernas começaram a tremer um pouco.
Apesar de estarmos em uma distância segura um do outro, somente aquele simples toque já me fazia hiperventilar.
As mãos de Arthur estavam firmemente posicionadas, e me auxiliavam para que meu quadril não saísse do lugar na hora de fazer os pliés. Eu subia e descia, e com seu auxílio, consegui manter meu quadril alinhado da maneira correta.
Em nenhum momento suas mãos desceram mais do que o permitido, e ele se manteve respeitosamente na linha do quadril, para que pudesse me corrigir de forma apropriada. Porém, eu estremeci.
— Você está bem?
Arregalei os olhos com a pergunta e me virei bruscamente para a frente, fazendo com que eu e Arthur nos encarássemos de perto. Ele trazia no rosto um olhar que me deixou completamente hipnotizada. Ele parecia genuinamente preocupado.
— Você me deixa nervosa. — falei antes mesmo que eu percebesse a gravidade do que estava falando. — Quero dizer, estou um pouco nervosa com as próximas avaliações e com meu desempenho... Sei que tenho que melhorar mais...
A minha maior vontade naquele momento era a de sumir.
Arthur me encarou e eu senti que ele estava estudando meu rosto quente — e provavelmente vermelho. Ele abriu a boca para falar algo, mas alguns alunos irromperam dentro da sala, fazendo com que desistisse de falar o que quer que tinha em mente. Meu professor se afastou, saudando os alunos que haviam entrado. Senti que a minha respiração regularizou na mesma hora, e eu soltei o ar que eu nem percebi que tinha prendido.
Diego se aproximou de mim com um sorriso que diminuiu quando viu meu rosto.
— O que aconteceu? Você está bem?
— Eu estou bem sim, Di. — Esbocei um sorriso que certamente não chegou aos meus olhos. — Não se preocupe.
— Mas você está vermelha! O Arthur te fez alguma coisa? — Ele perguntou, segurando a barra com força e olhando para Arthur de forma ferina.
Soltei um suspiro e olhei para meu professor, que havia voltado a costumeira seriedade de sempre, balbuciando:
— Por incrível que pareça, ele não me fez nada.
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