Capítulo 16 - A Entrevista (PARTE 2)
— De novo! — Gritou Arthur para todos nós na sala. Nossos corpos já estavam suados e cansados, e eu só queria dormir e nunca mais acordar.
Eu não conseguia me concentrar na aula de dança, assim como não tinha conseguido prestar atenção na de teatro e na de canto.
Haviam divulgado a data que a entrevista iria ao ar e meu coração estava aterrorizado. Um dia quase inteiro tinha se passado desde o mico de ontem e nem as palavras encorajadoras de Clara e Diego fizeram com que eu me sentisse aliviada.
A entrevista iria ao ar hoje à tarde, e todos nós assistiríamos juntos no telão de uma das salas de vídeo do CBA antes do meu castigo com Arthur, o que vai ser muito propício caso ele queira me dar uma punição extra pelas coisas que eu disse.
Diego me conduziu pela pista de dança com leveza e graciosidade. Tentei acompanhar os seus passos, mas era meio difícil me concentrar no Foxtrot quando existiam muitas coisas em minha cabeça.
Arthur me lançou um olhar enviesado quando viu que eu não estava me concentrando. Olhei para Diego em pânico, tentando me lembrar das coisas engraçadas que Marlon me dissera hoje de manhã a respeito da entrevista. Ele e Clara estão quase morrendo de tanta curiosidade.
— O Foxtrot não se trata só de se mover pelo salão. Trata-se de fazer movimentos longos e contínuos pela pista de dança. Movam-se com elegância, e não como patos perdidos numa encruzilhada! — exclamou Arthur, observando todos os alunos até que seus olhos pararam em mim. Ele estava realmente irritado naquele dia, o que só atenuou o meu medo de que ele visse a entrevista. — Dianna, o que está havendo com você? Você nem está aqui nessa sala! Sua mente está devaneando pelo salão. Volte para a terra, por favor.
— Se acalme, Dianna — pediu Diego, tentando me passar algum tipo de segurança e conforto.
— Eu não consigo — murmurei, sentindo vontade de chorar.
Arthur desligou o rádio e murmurou de forma desgostosa que a aula havia acabado. Diego e eu tínhamos reservado esse mesmo estúdio para ensaiarmos a nossa coreografia do próximo teste. Não havíamos montado todos os passos, mas já tínhamos uma ideia do que iríamos fazer. Também já estávamos de acordo em relação à música.
— Quero que treinem não só a coreografia de vocês, mas também o Foxtrot. Se querem entrar para a Broadway, precisam saber dançar bem todos os ritmos que puderem aprender. Vocês estão péssimos! — Arthur disse, praticamente cuspindo as palavras em cima de nós. Ele lançou um olhar de puro descontentamento antes de sair, acompanhando o fluxo desajeitado e suado de alunos que ia em direção à porta.
Soltei o ar pesadamente quando ele se foi.
— Ele está atacado hoje. O que será que aconteceu? — Diego observava Arthur desaparecer irrompendo pela porta da sala.
— Não sei, mas ele tem razão. Somos péssimos no Foxtrot.
Aos risos, Diego ligou o rádio novamente, colocando uma faixa do Panic! At The Disco. Me posicionei no meio do estúdio, e me olhei no espelho. Eu precisava me concentrar, não podia prejudicar Diego por causa das minhas preocupações. Eu tinha que me esforçar.
Começamos a dançar, executando os passos que já tínhamos inventado e acertando algumas coisas referentes à introdução da música.
— Esse passo está estranho — observou Diego, me pondo no chão.
— Tem razão, acho que estou fora do tempo — respondi, me virando de frente para ele e pedindo para que me levantasse mais uma vez.
Girei no ar, virando-me de frente para o espelho bem rápido, fazendo a ponta nos pés. Diego me colocou no chão e esboçou um sorriso satisfeito.
— Bem melhor! Estamos progredindo.
Dei um sorriso menos animado, mas que o satisfez ainda assim.
— A Deborah não vai te expulsar do concurso só porque você disse aquilo na entrevista, Dianna. E não tem como ela te infernizar mais do que já inferniza. — Diego pausou a música quando viu que eu ainda estava um pouco tensa.
A dança sempre me relaxava, mas naquele dia eu simplesmente não conseguia fazer minha cabeça se desligar das preocupações. De alguma forma, as imagens da pessoa que me perseguiu algumas noites atrás começaram a me atormentar, principalmente agora com essa entrevista que eu fiz. Não sei se era meu subconsciente ou se eu me afetara mais do que pensava que tinha me afetado com essa perseguição ou se era uma mistura dos dois fatores, só sei que eu me sentia ainda mais aterrorizada e nervosa desde que gravei essa entrevista idiota.
— Ela é sádica, tenho medo do que possa fazer. Não posso ficar levando mais advertências.
— Fique calma, Dianna. Eu tenho certeza de que tudo vai se resolver. Pode não ser na hora que você espera, mas vai acontecer.
Eu dei um sorriso agradecido para Diego, que ficou bem feliz por ter conseguido me encorajar um pouco mais. Ele me girou no ar e eu dei uma risada.
Ensaiamos até perdermos a noção do tempo.
[...]
Me olhei no espelho e respirei fundo, tentando reunir todas as forças do meu corpo para poder sair daquele quarto e ir para a sala de vídeo.
A expressão em meu rosto era de uma garota assustada e pavorosamente branca.
— Boa sorte com a entrevista, Pequena Rebelde — debochou Barbara, piscando de forma irônica para mim antes de bater com força a porta do quarto.
— Não ligue para ela, Di. — Clara me deu um abraço carinhoso e me puxou pela mão para que saíssemos do quarto.
Marlon e Diego estavam nos esperando nas escadas.
— A Lenda CBA ataca novamente! — Marlon esboçou um sorriso assim que me viu. Dei uma risada, mas meu humor ainda não era dos melhores.
— Vai dar tudo certo, já falamos isso. — Diego piscou para mim.
Assim que chegamos na sala de vídeo e nos sentamos, pude ver todos os professores sentados junto com o Arnaldo na primeira fileira. Deborah, que estava toda arrumada, olhou para trás assim que nos viu chegando. Um calafrio percorreu a minha espinha.
A sala estava lotada, e havia sido especialmente preparada para aquele tipo de ocasião, com um telão bem grande no centro da sala.
Cadeiras vermelhas e acolchoadas estavam dispostas por toda a sala como nos cinemas tradicionais, e uma pessoa passou servindo pacotes de pipoca e refrigerante para todo o mundo, o que fez os olhos de Diego brilharem. Ele amava pipoca.
Apagaram-se as luzes e a vinheta do concurso do CBA começou a tocar. Meu coração acelerou e minhas mãos começaram a suar. Droga, eu estava muito ferrada.
O programa começou com a entrevistadora Jane Rocha falando um pouco sobre o concurso e sobre a escola. Logo, uma breve apresentação dos concorrentes passou no telão, com imagens nossas nas aulas e avaliações.
A primeira entrevista individual a ser exibida foi a de Rogerio, que ficou se achando quando viu trechos seus dançando nas aulas.
— Bom, eu gosto de música e de dança desde que eu nasci. Está no meu sangue, e eu tenho certeza de que sou um dos candidatos com mais capacidade de chegar até a final e vencer. — Ele deu um sorriso presunçoso e convencido para a câmera. O vídeo corta o resto de sua resposta para uma outra parte da entrevista.
— Minha família era pobre antes de eu nascer. Só tínhamos um carrinho avaliado em quinhentos mil, mas somos muito humildes. Tenho muita compaixão dentro do meu coração e gosto de fazer caridade. — Rogerio deu um sorriso meio condescendente dessa vez, mas dava para ver que ele estava fingindo.
— Acho que sou a melhor escolha para a Broadway. — Rogerio olhava para a câmera com prepotência e convicção.
O programa voltou para a Jane, que fez a breve apresentação de Barbara para logo em seguida mostrar a parte dela da entrevista individual.
— Eu tenho orgulho de onde eu vim e de quem eu sou... — Os olhos de Barbara desfocaram e ela olhou para o chão. — Quero dizer, eu cheguei até aqui, o que mostra que tenho um grande potencial. — Os olhos de Barbara ficaram desfocados de novo, e ela balançou a cabeça como se estivesse confusa. — Eu mereço ganhar porque eu... Eu... Porque eu sou linda e meu timbre é inconfundível.
Os alunos começaram a gargalhar, e os professores tiveram que pedir silêncio. Barbara deslizou o corpo pela cadeira para que não a vissem, mas as zoações continuaram.
Novamente, o vídeo cortou o restante de sua fala, indo direto para outra de suas respostas:
— Eu não sei se o mico leão dourado já entrou em extinção e... bom, eu gosto sim de animais! Só não preciso saber tudo sobre eles, não é?
Barbara trazia no rosto um semblante confuso e constrangido.
Ouviu-se a voz de alguém no fundo na entrevista:
— Mas você não disse que trabalhou na defesa ambiental?
— Sim, mas isso não vem ao caso. — Ela rebateu, revirando os olhos.
As risadinhas invadiram a sala de vídeo.
Por fim, ela finalizou sua parte da entrevista dizendo:
— Salve os animais! Salve o CBA! Eu vou vencer esse programa!
A risada foi coletiva quando a parte individual de Barbara acabou. Ela ficou mandando as pessoas calarem a boca, mas ninguém lhe deu ouvidos.
Fiquei mais trêmula do que eu já estava quando chegou a minha vez:
— O CBA significa muito para mim. Desde pequena, eu sempre sonhei em estudar aqui, pois de alguma forma, eu sentia que era aqui que meus sonhos estavam escondidos. A dança está por toda a parte de mim. É ela quem define quem eu sou.
Eles cortaram novamente para a outra resposta:
— A minha mãe morreu num acidente. Eu sinto muito a falta dela, pois era ela a pessoa que mais me dava forças e não me deixava desistir dos meus sonhos. Ela dizia para eu abrir as minhas asas de pequena borboleta e alçar voo em direção a tudo aquilo que acredito. — A câmera se aproximou mais do meu rosto naquela hora, focando em meus olhos vermelhos e marejados. — Não é só por mim e por meu pai que estou aqui. É por ela também. Eu prometi que iria me dedicar a esse concurso para vencer, e se acharem que eu mereço, eu vou conseguir.
Clara segurou a minha mão e sorriu, enxugando uma lágrima que eu nem percebi que tinha derramado.
Algumas pessoas aplaudiram o meu discurso, o que me fez morrer de vergonha.
Quando voltei meus olhos para a tela, a entrevista em trio já tinha começado, e Jane batia um papo descontraído conosco.
Eu queria morrer.
— Os professores de vocês são bastante dedicados, não é? — perguntou Jane, sorridente.
— O Bruno é o melhor professor que eu já tive. — Barbara respondeu em um tom completamente bajulador.
— O Arthur é um ótimo professor. — Me vi dizendo na tela. Os olhos de Jane brilharam em minha direção.
— Você é a menina que saiu em uma foto com o Arthur na primeira festa do CBA, não é? — Jane apontou para o meu rosto como se tivesse descoberto uma mina de ouro. Fiz que sim com a cabeça, confusa. — Sabia que as pessoas na internet estão shippando vocês dois?
— Não eu não sabia... — Eu até sabia, mas achei que aquilo tinha cessado depois do pequeno esclarecimento que Arthur e eu gravamos.
— Você tem um crush nele? — Jane esticou o pescoço em minha direção, como se aquilo fosse um simples bate papo entre amigas.
— O que?
— Você tem uma paixonite? É super comum a gente se apaixonar pelo nosso professor, principalmente quando ele é um gato. E aí, você gosta dele?
— Defina gostar.
— Amor, romance... — O tom sugestivo da repórter me deixou nauseada.
— Ah, bom, eu gosto muito dele sim, mas... — A Dianna na tela se remexia de forma desconfortável no sofá.
— Então você admite que tem um crush no Arthur!
— NÃO! — gritei em desespero, a câmera dando um super zoom no meu rosto — Eu quis dizer que eu gosto dele como professor, eu o admiro muito.
— Não me enrola, Dianna. Você gosta dele sim!
— Não, eu não gosto dele desse jeito! — O constrangimento que me atingiu era o mesmo que tingia as minhas bochechas de vermelho assistindo o fiasco da entrevista. Vários rostos me encaravam, e de onde eu estava, não conseguia ver como Arthur reagia a entrevista.
— Olha como ela ficou vermelha! — A câmera focou meu rosto vermelho e constrangido mais uma vez e aquilo me irritou. — Você tem um crush sim!
— Se eu disser que tenho você para de me encher o saco?
— Minha fanfic se concretizou! — Jane começou a rir, claramente achando que a minha grosseria era pura brincadeira. — Eu soube que houve um duelo de dança em que Barbara e Dianna foram rivais. Isso é verdade, meninas?
Me vi aliviada na tela quando a entrevistadora mudou o rumo da entrevista.
— É verdade, sim. E o grupo da Dianna ganhou porque o meu estava em completa desvantagem — disse Barbara, desconcertada. Ela nunca admitiria que perdeu porque fomos melhores.
— Seu grupo não estava despreparado, Barbara. Eu vi tudo! — Rogerio se meteu, alfinetando a loira. — Claro que se eu estivesse lá dançando o grupo da mosca morta não teria saído vitorioso.
— Mosca morta é esse seu topete ridículo! — Ataquei, me arrependendo no mesmo instante. Rogerio me olhou de modo incrédulo, e Jane riu, achando que estávamos implicando de brincadeira um com o outro.
— Você se acha a última bolacha do pacote, Rogerio! — Barbara o olhou de forma ameaçadora e o impediu sem querer de responder a mim.
— Olha só quem está falando! — debochou Rogerio, com as mãos em punho. — A loira oxigenada que só sabe falar de si mesma.
— Pois é, você não pode falar nada, Barbara! — Me vi dizendo em voz alta, com o rosto vermelho de raiva. — É um perfeito protótipo de Barbie burra e narcisista! Você e a Deborah podem dar as mãos e sair andando porque ninguém suporta nenhuma das duas!
As pessoas ao redor riam muito da entrevista enquanto eu só queria cavar um buraco bem fundo onde eu pudesse enfiar a minha cabeça, principalmente depois que eu dissera aquelas coisas sobre Deborah.
Depois daquilo, não demorou muito para que a entrevista acabasse. Quando Jane se despediu, já estava vermelha de tanto rir. Não sei como ela pôde acreditar mesmo que estávamos brincando um com o outro.
Meus amigos se acabavam de rir como todos os outros. Lágrimas grossas saíam de seus olhos e eles se contorciam em seus respectivos assentos.
Fiquei encarando as minhas mãos suadas no colo por bastante tempo antes de criar coragem para levantar a cabeça. Várias pessoas me encaravam, e eu me senti exposta. Podia jurar que meu rosto estava corando.
Entretanto, foi o olhar de Deborah que me deu medo. Ela estava virada para trás em seu assento e me olhava de modo assassino. Engoli em seco e sustentei o olhar de modo acuado.
Deborah passou o dedo rente ao pescoço, e eu entendi tudo.
Ela iria acabar comigo.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top