Capítulo 15 - Dia Agradável
A vista do Pão de Açúcar era uma das mais bonitas que eu já havia visto em toda a minha vida. Eu até tentei registrar com a minha câmera, porém, a resolução dela não era suficiente para registrar tamanha beleza.
De onde eu estava, conseguia ver a Praia Vermelha e a de Copacabana, além do Arpoador. O contraste da água do mar com o sol do entardecer deixava tudo ainda mais bonito, como se ambos se completassem de uma forma mágica.
— Sabia que as pessoas se casam aqui? — indagou Clara, com um olhar sonhador. Ela encarava Leandro, que estava comendo em uma das lanchonetes com os outros professores.
— Você está levando esse lance de romance de professor muito a sério, Clarinha. — Diego bateu seu ombro de leve no da ruiva, que não se deixou abalar com seu comentário.
— Deixa a garota sonhar, Di! Até eu me casaria aqui se já não tivesse planos de casar nas Maldivas com o Leonardo DiCaprio. — Marlon apontou a câmera do celular para o rosto e fez biquinho para a foto.
— Acho que ele já está um pouco velho para você — comentei, sem querer admitir que o Leonardo já tinha sido meu crush na adolescência.
— Quanto mais velho, melhor. Eu quero mesmo um sugar daddy para bancar meus mimos. — Eu, Diego e Clara gargalhamos juntos. Marlon realmente parecia ter falado sério sobre o assunto, e isso era ainda mais engraçado.
Clara segurou meu antebraço e me puxou para um canto enquanto Diego e Marlon se perdiam em suas próprias conversas no Whatsapp.
— Tá rolando alguma coisa entre você e o Arthur?
O susto que eu levei com a sua pergunta foi tanto que o meu coração até acelerou de novo.
— Não, por quê?
— Vocês pareciam muito próximos no bondinho. Acho que a Deborah não reparou porque fiquei tentando tampar a vista dela com meu corpo e porque ela não desgrudava os olhos do telefone.
Se a Clara tinha notado algo diferente entre eu e Arthur, provavelmente a Deborah notara também. Apesar do que a Clara disse, já deu para perceber que Deborah é uma mulher ardilosa. Ela não se distrai facilmente, e esse era o meu medo. Isso não quer dizer que eu tenha feito algo errado, Arthur só foi legal comigo. Eu o admirava como artista, como professor e agora como pessoa, e só.
— Eu estava muito nervosa por conta do bondinho e ele me ajudou, foi só isso.
Clara buscou em meus olhos uma confirmação para ver se eu realmente falava a verdade. Seus olhos de felina eram profundos e marcantes, e por um momento, achei que Clara fosse me perfurar com a intensidade do seu olhar.
— Que pena, porque eu já estou criando uma fanfic na cabeça sobre vocês dois.
[...]
Na volta, dentro do teleférico, eu estava mais tranquila, ou pelo menos o suficiente para conseguir olhar para fora e ver a beleza noturna do Rio de Janeiro. Eu ainda não tinha tirado minhas mãos da barra de ferro, mas pelo menos conseguia olhar as coisas ao meu redor e aproveitar mais a paisagem.
Meus amigos decidiram pegar o último bondinho porque além de ser gratuito, era também uma forma de vermos o entardecer e anoitecer de onde estávamos.
Os nossos professores também haviam tido a mesma ideia que nós, e conversavam animadamente com meus amigos.
— Se sente melhor? — Arthur perguntou para mim. Ele estava ao meu lado e eu não tinha me dado conta disso pois estava hipnotizada com a beleza das luzes da cidade.
— Sim, agora eu consigo olhar para fora sem ter a sensação de que o mundo vai acabar.
Arthur deu uma risada que deixou seu rosto ainda mais iluminado e relaxado. Era meio difícil vê-lo descontraído daquele jeito, então aproveitei para reparar melhor no seu rosto. Descobri que ele tinha algumas pintas espalhadas pela face, e uma pequena e bem charmosa perto da boca. Sua barba por fazer lhe deixava com um ar maduro, que contrastava bastante com os cachos castanhos do seu cabelo. Os olhos tinham algumas olheiras e umas poucas marcas causadas pelo cansaço, mas ele ainda estava lindo.
— Já é um bom começo.
Soltei um suspiro enquanto voltava a encarar a vista em minha frente, sentindo-me culpada por reparar daquele jeito em meu professor. As luzes da cidade eram tão bonitas que me fizeram relaxar e perceber que eu não havia feito nada de errado.
A noite estava tão bonita que eu me senti inspirada, e eu logo me lembrei de que minha mãe costumava se inspirar em noites assim.
— Minha mãe teria amado visitar o Pão de Açúcar. — Só reparei que tinha pensado alto quando Arthur se virou em minha direção com curiosidade.
— Talvez um dia você possa trazê-la. Vocês moram em São Paulo, não é?
Me virei para ele com um olhar de tristeza no rosto.
— Isso não vai ser possível porque ela faleceu há alguns anos.
O bondinho finalmente chegou em seu destino, e eu pude ver a expressão divertida de Arthur despencar no momento em que falei sobre a minha mãe.
— Ah... Eu sinto muito.
— Tá tudo bem. Ela teria rido da minha cara por ter medo de altura, e seu jeito descontraído provavelmente me acalmaria. — Dei um meio sorriso.
— Ela parecia ser uma pessoa incrível.
— Sim, ela era. — Me virei para sair do teleférico, me sentindo colérica pela primeira vez desde que iniciamos o passeio.
A morte da minha mãe ainda me afetava muito. Embora ela já tenha morrido há alguns anos, as vezes parecia que ela tinha morrido ontem e alguns dias eram mais difíceis do que outros.
Não estava tudo bem, e talvez nunca fosse ficar, mas eu começara a entender que eu precisava seguir em frente mesmo que houvesse um rasgo enorme dentro do meu peito.
[...]
Quando chegamos ao alojamento e tomamos os nossos respectivos banhos, eu já me sentia completamente exausta. Deitei em minha cama e estava pronta para dormir pelo resto da vida se fosse preciso, portanto, fiquei completamente irritada quando Clara me disse que o diretor queria falar com todos os alunos em uma das salas de teatro.
— O que será que esse velho quer em pleno sábado? — Clara bufou, se levantando da cama. Era visível o quanto o passeio havia lhe cansado — É muita falta do que fazer!
Barbara, que estranhamente parecia ter ficado no alojamento o dia inteiro, revirou os olhos e saiu do quarto. Eu e Clara fomos atrás dela.
O salão já estava lotado quando chegamos, e o diretor estava acompanhado de Arthur e dos outros professores. Tive aquela sensação de déjà vu de quando iniciei os estudos aqui e só de pensar no que eles falariam eu já tive vontade de ir ao banheiro. Eu odiava sofrer por antecipação.
— Boa noite, alunos. — O diretor Arnaldo usava um terno de linho que parecia bem quente para a época. Ainda bem que a escola tinha ar condicionado. — Decidimos fazer alguns avisos de última hora. O primeiro é que as próximas avaliações serão de teatro e de dança. A avaliação de teatro consiste em um pequeno monólogo que vocês terão que apresentar para os professores. O tema é livre, e vocês poderão procurar monólogos de filmes, séries, novelas e etc. Já a de dança, será em dupla, e vocês terão que fazer a coreografia de uma música de sua preferência para dançar em casal. Inicialmente, vocês poderão escolher a dupla, mas se houver alguma confusão, os professores terão todo o direito de interferir nessa última regra. — Ele deu uma pausa para respirar e retomar o fôlego. — Na próxima semana, cada turma irá começar a ensaiar uma peça de teatro escrita e dirigida pelos professores. Eles ficarão responsáveis por escolher o elenco, então fiquem espertos.
As pessoas ao meu redor começaram a cochichar após aquelas informações. Me senti mais nervosa ainda, mas pelo menos eu já tinha em mente que monólogo eu apresentaria.
— Decidimos contar logo para vocês quem serão os três primeiros participantes que estarão na entrevista coletiva. — Meu estômago começou a revirar quando Arthur assumiu a palavra, não só por ele estar ali falando, mas também porque agora era a hora de saber quem seriam os três primeiros entrevistados.
Diego e Marlon vieram para o nosso lado e eu dei um sorriso amarelo para os dois.
— Vamos dançar juntos. — Diego me abraçou de lado, referindo-se a avaliação de dança. Eu sorri, me sentindo mais segura em saber que teria um parceiro de dança como ele.
— O método que decidimos utilizar para escolha foi um sorteio. Não fiquem decepcionados se eu não disser o nome de vocês, pois todos os participantes serão entrevistados. Claro que para isso acontecer vocês terão que passar nos testes. —Deborah deu uma risada sarcástica. — E o primeiro nome a ser sorteado foi... Barbara Costa, da turma do Bruno! — Algumas pessoas a aplaudiram, e ela sorriu, totalmente convencida. Clara e Marlon bufaram ao meu lado. — A segunda pessoa a ser sorteada foi... Rogerio Lima, da turma do Tony! — Uma salva de palmas maior que a primeira saudou o tal do Rogerio, que comemorou levantando os braços para cima e gritando feito doido. Eu o conhecia de vista, e o achava um dos caras mais convencidos que estudavam aqui no CBA. — E, a última pessoa sorteada foi...
Eu torcia para não ter sido eu. Até fechei os olhos e cruzei os dedos, pedindo mentalmente para que aquilo não acontecesse.
— Dianna Smith, a famosa pequena rebelde.
Algumas pessoas comemoraram isso, principalmente meus amigos, mas eu só conseguia pensar no quanto não queria que aquilo estivesse acontecendo. O dia inteiro havia sido surpreendentemente agradável, era claro que alguma coisa iria estragar isso.
Sei que para alguns a chance de gravar uma entrevista coletiva dentro do concurso é ótima, e tenho certeza de que a maioria dos participantes ainda terão essa oportunidade no decorrer do concurso. Porém, eu não me sentia preparada para isso agora, e acho que a Deborah sabia disso somente pela forma que me olhava.
Depois que os avisos acabaram, voltamos para os nossos alojamentos. Eu ainda não sabia quando que essa tal entrevista seria gravada, o que só aumentava ainda mais o meu medo.
Acho que eu não gosto muito de câmeras, o que é totalmente irônico levando em consideração que o meu sonho é estar entre elas. Embora eu até goste de estar sob os holofotes, ficar em frente às câmeras torna tudo muito assustador e até mesmo invasivo de certa forma.
Minha mãe era perita em me acalmar em situações como essa.
"A câmera não vai te morder, Dianna. Agora sorria."
Eu quase consigo vê-la agora na minha frente com um sorriso doce no rosto e um livro na mão. Ela amava ler e me acalmava como ninguém.
Ao sairmos da sala, meus amigos expressaram o quanto se sentiam empolgados por mim em relação à entrevista. Fingi que meu entusiasmo forçado era genuíno e acho que eles não perceberam que eu não fui sincera.
Continuei correspondendo à ansiedade e animação dos meus amigos de forma robótica, e quando cheguei ao meu alojamento, a primeira coisa que eu fiz foi me deitar. Com a minha mãe dentro da cabeça, tentei repetir as palavras que ela usava quando queria me acalmar e acabei pegando no sono com seu rosto em meus pensamentos.
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