Capítulo 13 - O Castigo (Parte 1)

— O seu castigo vai ser todos os dias? — Diego perguntou para mim naquela manhã. Clara e Marlon também pareciam ter dúvidas sobre a minha detenção.

Depois que o zelador e eu nos trombamos, ele me deu um sermão sobre as regras da escola, anotou meu nome e disse que levaria o ocorrido para a secretaria quando amanhecesse, algo que cumpriu com bastante louvor. Aparentemente, Arthur irá supervisionar todas as tarefas que terei que realizar em meu castigo.

Decidi não contar a ninguém sobre eu ter sido perseguida. Eu sabia que precisava contar, mas tenho a impressão de que o zelador não teria acreditado em mim. Talvez meus amigos acreditassem, no entanto, alguma coisa que eu não sabia o que era me impedia de contar.

A silhueta do meu perseguidor era de uma pessoa alta e esguia. Corpo mediano. O capuz preto na cabeça, o moletom e a escuridão parcial eram o combo perfeito para o mistério que envolvia a sua identidade.

— Sim, por três semanas. — Dei um gole no meu suco de laranja e fiz uma careta, pois ele estava sem açúcar — Acho que o lance de eu ter ficado horas a mais no estúdio também acabou entrando no castigo.

Peguei um saquinho de açúcar da mesa e o abri, despejando o conteúdo no meu suco e misturando com o canudo logo em seguida.

— Que saco! — Marlon reclamou, abrindo um sorriso malicioso quase no mesmo instante. — Retiro o que disse. — Ele bateu na boca, fazendo alguns farelos de comida voarem pelo ar. — Você estará a sós com o professor mais gato daqui, então não vejo esse seu castigo como uma punição.

— Pior que você está certo. — Clara tinha no rosto um olhar sonhador. — Estou quase quebrando algumas regras do CBA só para passar um tempo extra perto do Leandro.

— Não tem nada de romântico em varrer a sala de dança sob a supervisão do Arthur — observei, pensando que seria meio constrangedor ficar perto dele fora do horário das aulas. Eu ainda pensava na música que ele estava compondo e na nossa conversa nas escadas e em como ele era ótimo e atencioso até quando queria implicar comigo.

Era estranho admirar tanto um professor.

— Isso é porque você não é nada romântica.

Nisso ela estava redondamente enganada. Eu sempre fui uma garota sonhadora e romântica, do tipo que suspirava alto enquanto pensava no meu príncipe encantado. O problema, era que eu vinha tentando bloquear meus pensamentos a respeito de rapazes desde que eu entrei no CBA. Eu precisava focar na minha carreira, em vencer o concurso, e romance era a última coisa que eu esperava encontrar aqui.

O início das aulas fez com que Clara não esperasse de mim uma resposta. Ela se levantou com a sua costumeira graciosidade de felina e eu e meus amigos fizemos o mesmo, muito menos graciosos do que ela.

Diego e eu nos despedimos de Clara e de Marlon e nos dirigimos até o estúdio de dança. Arthur já estava lá, como sempre, com a sua postura impecável e seu olhar que aquecia até a alma.

— Meninos, a aula hoje será um pouco diferente. Teremos um Workshop de Street Dance com o professor Jon Alves. — Diego me olhou como se estivesse super empolgado com aquela notícia. Dava para ver que ele gostava de Street Dance. — Enquanto ele não chega, quero deixar comunicado a vocês que essa semana mesmo falaremos quem serão os três primeiros alunos a serem entrevistados.

Os alunos dentro da sala começaram a cochichar entre si. A sala irradiava animação e ansiedade e eu sentia que a maioria da galera queria ser um dos escolhidos, inclusive Diego. Ele não parecia ligar muito para essas coisas, mas meu amigo comentou que seria bom para a sua carreira ter um pouco mais de visibilidade, caso não conseguisse vencer o concurso.

Jon, o professor, chegou logo em seguida. Ele era alto, negro e tinha um cabelo black power muito bonito e estiloso. Ouvi algumas meninas suspirarem quando ele se aproximou de Arthur e o cumprimentou. Os dois pareciam ser amigos.

Nos primeiros minutos de workshop, eu notei que não levava jeito para o Street dance. Jon era um ótimo professor, e apesar de eu ter feito algumas aulas dessa modalidade quando era mais nova, eu sempre fui meio desengonçada para o Street.

Diego se dava melhor do que eu, e ria de forma disfarçada da minha falta de jeito.

Eu não conseguia acompanhar a turma, que estava menor depois da eliminação, e executava os passos de forma atrasada. Arthur me observava com um sorriso bem pequeno no canto dos lábios, o que me desconcentrou mais do que deveria.

Olhei para o relógio enquanto dançava e percebi que faltava pouco para aquele Workshop terminar. Meu corpo estava todo suado, e meu cabelo havia se soltado do elástico e estava espalhado por todo o meu rosto.

A sequência que Jon nos ensinou estava quase chegando ao fim quando eu pisei no cadarço desamarrado do meu tênis. A primeira coisa que se chocou contra o chão foi o meu joelho. Aposto que iria ficar roxo mais tarde. Mas o meu rosto, esse eu tenho certeza de que já estava mais vermelho do que um pimentão.

Todos começaram a rir, menos Arthur, Diego e Jon, que me ajudou a levantar.

— Você está bem? — Jon perguntou, se aproximando. — Cadarços assassinos, os do seu tênis. — Ele apontou para o meu tênis e sorriu. Uma menina que estava atrás de mim suspirou tão alto que acho que até os alunos das outras salas tinham ouvido.

— É, acho que não os amarrei direito — falei, dando um sorriso tímido. Ele deu uma piscadela para mim, voltando-se ao restante da turma logo em seguida.

Depois disso, o workshop ocorreu sem maiores incidentes. Continuei mandando mal nos movimentos, Diego continuou arrasando e Arthur continuou observando a turma como se nos analisasse. Se isso for contar para o próximo ranking de desempenho, estou muito ferrada.

— Galera, o workshop acabou! A partir de hoje, estão liberados para sair da escola, mas lembrem-se de que precisam estar não CBA novamente às oito em ponto. — O anuncio de Arthur fez Diego e a maioria dos alunos começarem a comemorar ao mesmo tempo. Queria saber como eles tinham energia para comemorar depois daquele workshop insano. — Me encontrem na sala três para a nossa aula de canto de hoje.

— Nem acredito que finalmente vou poder dar um rolê! — Diego exclamou, animado. Eu até o acompanharia na animação se não estivesse de castigo.

Eu e Diego acompanhamos os outros alunos até a sala onde teríamos a aula de canto. Arthur logo chegou e já foi passando algumas coisas no quadro. Sua aula foi impecável como sempre.

— Turma, estão dispensados. — Me levantei junto com os outros. — Dianna, depois das cinco horas me encontre no estúdio sete para a detenção. — Fiz que sim com a cabeça e me dirigi até o refeitório.

Meu corpo todo estava fatigado do treino excessivo de ontem e do Street Dance hoje. Parecia que um caminhão havia passado por cima de mim. Minha cabeça também começara a doer, e eu passei a crer que aquela dor se devia ao fato de que eu estava preocupada com o que ocorreu nessa madrugada.

O que será que teria acontecido se aquela pessoa tivesse conseguido segurar meu braço? Me arrepiei só de pensar nessa possibilidade. Sacudi a cabeça para espantar os pensamentos que invadiam a minha mente e me concentrei em chegar viva até o refeitório.


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