Explosão ღ Capítulo 8
Vicente gostava do silêncio, e prezava por ele, mas não naquele momento em que se encontrava. O garoto observava sua vida ser virada de cabeça para baixo em questão de horas, e não que tudo fosse perfeito antes, mas nunca havia acontecido algo do tipo.
Aguardando na sala os três garotos estavam calados e Marli deixava algumas lagrimas caírem a espera do marido, afinal de contas alguma hora ele iria voltar para casa. Joaquim foi acordado por Bruno, havia conseguido tirar algumas matérias do ar e estava tentando raciocinar sobre o acontecido. Bruno estava exalando raiva pelos poros, já Vicente não sabia o que aconteceria com sua família, preocupação o definia naquele momento.
Bruno pegou seu celular que vibrou com insistência e abriu a mensagem de Dani.
O Vicente já nos passou tudo, eu e painho estamos aqui em casa para darmos privacidade a vocês.
O mais novo sorriu ao encarrar um emoji de medo mandado por Dani e digitou rapidamente.
Tudo bem, e não se preocupem com nada hoje. A coisa por aqui tende a ficar feia, não sei o que fazer.
A mensagem foi enviada e logo chegou à resposta.
Fique calmo Bruno.
Bruno leu e guardou seu celular discretamente, sua mãe permanecia encarando um quadro, a mesma não havia falado nada desde que os meninos desceram e nem falou nada ao ser abraçada por Vicente, naquele momento o coração da Marli estava partido e envergonhado demais para falar qualquer coisa.
A família Dias era conhecida há muitos anos por elo fato serem nos melhores no ramo da advocacia, mais precisamente desde o avô do Miguel, Marli sabia que aquela história ainda iria dá o que falar.
Revolta, era tudo que aquela mulher sentia e coberta de razão, uma vontade absurda de chorar a consumia, mas não queria desabar na frente dos seus três meninos. Ela encarava a parede e nada via por estar perdida em pensamentos, procurava seus erros ou defeitos para merecer aquilo, se martirizava e sentia uma raiva nunca sentida antes. –O portão da garagem abriu e Marli permaneceu sentada.
— Subam agora, os três. — Ela falou seriamente. — Por gentileza.
Os meninos se levantaram em silêncio, e Bruno retornou inconformado.
— Mainha... — Bruno sussurrou e foi encarado.
— Bruno, suba com seus irmãos imediatamente. — Ela o encarou e ele consentiu, baixando a cabeça.
Vicente e Joaquim cochicharam para o mais novo, convencendo-o de que seria melhor deixá-los conversar, e assim subiram os três, mas claro que ficariam escondidos observando tudo.
— Vamos, irmão, fique de boa. — Joaquim tocou o ombro de Bruno e os amigos subiram.
Marli estava mantendo-se calma diante de tudo. Não olhou mais as fofocas e respirou fundo quando a fechadura eletrônica disparou, fazendo a enorme porta de madeira ser aberta. O advogado sabia do seu erro e do quanto havia prejudicado sua família; ele sabia que havia magoado a pessoa que mais o amava há cerca de vinte anos. Miguel entrou em casa devidamente engravatado, com sua pasta na mão e forçando um sorriso que não era seu.
— Querida, ontem terminei as coisas bem tarde. Cochilei no sofá, como semanas atrás, eu não aguento mais tantos casos de uma vez e o Geraldo joga para mim. — Sorridente, ele se aproximou da esposa que também sorriu em sua direção.
Marli estava arrumada como sempre, seus cabelos escuros estavam alinhados e com um salto baixinho ela levantou pisando forte, aquela mulher não sabia de onde estava tirando forças, mas estava. Do alto da escadaria, os três meninos viam tudo com os olhos esbugalhados, esperando o que viria a seguir.
— Imagino seu cansaço, querido. — Marli sorriu e se aproximou do marido, sem seguida esbofeteando sua face com toda a força que existia em seu punho. — Guarde esse sorriso sínico para quem acredite.
Miguel arregalou os olhos, ela deixou uma lágrima cair e os meninos tamparam a boca em sincronia. Eles nunca haviam presenciado uma cena daquela em casa.
— Lilian, que tipo de violência foi essa? — Ele falou alto e ela sorriu.
Bruno levantou para correr até eles quando ouviu seu pai levantando a voz e foi segurado por Vicente.
— Você é a pessoa mais sacana, nojenta, desprezível... — Marli desabafou, e Miguel se tornou mudo. — Como você pode me esfaquear por trás dessa forma? Sou uma mulher honesta, fiel, uma boa mãe, educada, saudável, bem criada e que cuida de tudo há vinte anos.
Miguel se aproximou da esposa ao vê-la chorando, e ela o empurrou com força.
— Querida, do que está falando? — Ele gaguejou e jogou sua pasta no sofá. — Maria Lilian...
Miguel sabia o que havia acontecido, ele sabia o quão estava doendo nela e ainda assim era sínico o suficiente para fingir surpresa.
— Você me traiu publicamente sem um pingo de ressentimento. Você manchou o nome da nossa família me fazendo de idiota perante a cidade. Você magoou seus filhos e saiu em toda a internet brigando em um hotel de luxo. — Ela falava alto e gesticulava em sua direção. — Onde eu errei, Miguel? O que te faltou? Eu sempre fui a pessoa mais submissa do mundo por achar que assim faria nossa família feliz. Esse foi meu erro, não é? Meu erro foi ficar sempre aos seus pés esperando que você aprovasse ou elogiasse ao menos meu jantar. Eu só não me arrependo do passado por causa dos meus meninos... — Ela gritou, e ele se assustou.
Ao ouvi seu grito Miguel deixou uma lagrima cair e foi ali que percebeu que havia destruído sua família, percebeu tarde demais.
— Me perdoa, eu errei. Eu fui seduzido e roubado, a maldita pessoa levou tudo que sabia que estava em meu nome, Marli, mas meu dinheiro está na conta. De alguma forma, eu assinei papéis, eu estou acabado. — Marli arregalou os olhos e tampou a boca.
Os garotos, ouvindo tudo, arregalaram os olhos e foi então que Bruno não pôde ser segurado. Todos correram para a sala atrás do mais novo, que estava completamente fora de si.
— Você fez o quê, pai? Você deixou tirarem tudo da gente? Você tem merda na cabeça? — Bruno falou alto, fazendo o pai encará-lo. — Não faça de vítima agora, a vítima aqui não é você... — Vicente puxou o irmão, e Marli o segurou.
— Pai, você traiu mainha e foi roubado pela sua amante? — Vicente perguntou, sentindo suas mãos suarem de imediato. — Foi isso?
Vicente encarou o pai, que sentiu a decepção do seu filho mais velho. Miguel se jogou no sofá, colocando as mãos sob a cabeça, enquanto Marli ainda estava em pé, em choque. Ela não conseguia falar, chorar ou gritar.
— Eu errei, eu sou pecador. Meus filhos, Marli, me perdoem. — Ele levantou-se, se aproximou da esposa, e mais uma vez ela se afastou. — Eu irei recuperar tudo, mas não se preocupem, essa casa está em seu nome, lembra querida? Não iremos ficar sem um teto. Já acionei pessoas, e tudo irá ser recuperado o quanto antes.
Marli começou a rir, ela ria sem controle ao mesmo tempo em que chorava. Ela ria quando estava nervosa, e Vicente havia herdado isso dela.
— O karma foi instantâneo, é tão engraçado como a vida faz as coisas. — Ela sentou no sofá e cruzou as pernas. — Você traiu sua esposa e foi à falência, comprometendo o futuro dos seus filhos... Sabe, após casarmos, você sempre expressava opiniões machistas, como aquela de que era melhor tudo estar em seu nome, pois saberia administrar melhor as coisas, enquanto eu, sendo mulher, não.
Ela suspirou, enxugando uma lágrima cheia de angústia, e Miguel se sentia completamente perdido. Os meninos sentaram, e Joaquim estava completamente mudo, sem conseguir consolar seus amigos. Marli retirou sua aliança e seu anel de noivado, e seus filhos acompanharam com o olhar enquanto a mulher os colocava com delicadeza em cima da mesa de centro.
— Querida, não faça isso. — Miguel a encarou, e ela negou. — Eu irei recuperar todos os nossos bens.
— NÃO SE TRATA DE DINHEIRO, MIGUEL, NÃO SE TRATA DE BENS. — Ela gritou, fazendo todos se assustarem. — Será que o dinheiro sempre falará mais alto? Entenda que você me quebrou em milhões de pedaços, me fez sentir uma nada, e hoje pude ver que me deixou em segundo plano milhares de vezes. Hoje posso ver que sempre supriu tudo com dinheiro. Nunca apoiou meu sonho, mesmo eu sendo formada, mas olha essa mansão luxuosa? Nunca ficou feliz pelos sonhos dos seus filhos, mas como eles poderiam reclamar se nunca lhes faltou nada, certo? Acabou, Miguel, nosso casamento acabou, e essa casa não é minha, é dos seus filhos. Retire-se.
Miguel abriu a boca para falar e não falou, seus filhos estavam tristes demais para falar quaisquer coisas. Marli colocou parte do que estava preso em sua garganta para fora, levantou-se do sofá e seu marido segurou sua mão com força para impedi-la de ir embora.
— Não me deixe, eu te amo. Você sabe que sempre te amei, Maria Lilian. Vocês são tudo que eu tenho na vida. — Ele sussurrou, e ela negou.
— Você não me ama. Hoje pude enxergar que ama ser amado e cuidado. Se me amasse, não teria me traído; eu seria suficiente. Se me amasse de verdade, temeria me perder. — Ela tentou se soltar e não conseguiu.
Vicente estava pasmo e triste ao ver a mãe naquela situação, mas tomou uma atitude. Ele deu um passo à frente e caminhou até sua mãe, puxando a mão do pai, que se soltou contra a vontade.
— Vicente, não se intrometa, isso não é um assunto seu. — Miguel falou cerrando os dentes.
O jovem loiro negou, debatendo contra seu pai.
— É a minha família, então é assunto meu também. Sou o mais velho, que segundo você não tem voz firme, mas acho melhor mudar sua visão. Estou te respeitando, falando calmamente e pedindo para deixá-la em paz. Já fez o suficiente e, se a decisão da nossa mãe é essa, é apenas isso. — Vicente segurou a mão de Marli com força.
Talvez ali tenha sido o estralo para Miguel perceber que seu pequeno filho havia crescido.
— Sem brigas, iremos superar isso, juntos. — Ele falou alto quando viu a esposa se distanciar junto a Vicente.
Marli pausou os passos e encarou Miguel.
— Claro que iremos superar, a vida nos ensina muita coisa, principalmente com a dor. Eu irei superar porque tenho muitas pessoas que dependem de mim, e você, sendo o melhor advogado de Fortaleza, irá recuperar os bens que perdeu e viver feliz com eles. Pois eu não faço questão de mais nada que venha de você. — Ela suspirou. — Vamos facilitar as coisas, Miguel. Já estou machucada o suficiente, nossos filhos não merecem isso e já tem muita gente sabendo de algo que se resume apenas a nós. E não espere que eu surte e quebre as coisas das quais tenho apreço. Apenas saia da minha frente e já basta... — Ela falou com calma, e Miguel coçou a cabeça, inconformado.
O silêncio pairou por alguns segundos. Bruno encarava os pais de longe, e Joaquim se aproximou de Marli sem saber o que dizer.
— Madrinha, eu irei preparar um chá. — Joaquim sussurrou, fazendo-a consentir. Ele a observou subir as escadas antes de sair às pressas em busca de algo que ajudasse a senhora nervosa.
Miguel e Bruno ficaram na sala sozinhos. Eles não se davam muito bem por terem gênios parecidos e opiniões diferentes. Miguel amava os filhos, mesmo sendo um pai muito rígido; em sua cabeça, sempre buscou formas de expressar seus sentimentos e sabia que demoraria a ser perdoado, se fosse possível.
— Por que fez isso? Se você queria outra pessoa, por que não se separou? — Bruno falou baixo, com lágrimas nos olhos. — Se não conseguiria ser fiel, por que casou?
Miguel encheu os olhos de lágrimas e baixou a cabeça, sentando no sofá.
— Foi um acidente, eu não queria, e depois foi como se eu não conseguisse sair. — Miguel falou, e Bruno sorriu.
— Não conhece a frase clichê que diz que acidente é derrubar algo no chão e traição é falta de caráter? Sabe, quando saíamos juntos em família, em nossos aniversários, quando viajávamos para a fazenda, quando brigava comigo por eu chegar tarde, e até em dias de jogo quando torcíamos juntos pelo mesmo time, eu sentia seu amor por nós, mesmo que não soubesse expressar. E no fim, nada disso tinha a ver com sua conta bancária... Às vezes eu até gostava quando você gritava dizendo que se acontecesse algo comigo, seria o mesmo que matar você. Era uma forma estranha de sentir o amor de um pai! — O menino sorriu.
Bruno não estava gritando ou surtando o que deixava Miguel ainda mais baqueado, o garoto estava desabafando e deixando o pai ouvir coisas que nunca tinha ouvido. Do alto da escada Marli ouvia tudo com Vicente e da cozinha Joaquim deixou uma lagrima cair ao ouvir aquele desabafo.
— Óbvio que eu amo você, isso é óbvio, Bruno... — Miguel falou. — Minhas falhas como ser humano não anulam meu amor por vocês.
Bruno negou com a cabeça, coçando-a com impaciência.
— E por que estragou tudo? — Bruno gesticulou em direção ao pai e não obteve resposta.
O coração do garoto estava acelerado por um misto de sentimentos. Ele tinha dezesseis anos e, às vezes, não sabia bem como expressar seus pensamentos, apesar de ser muito inteligente. Naquele momento, ele desabafou e deixou clara sua tristeza com palavras duras. Bruno saiu da sala em passos lentos e subiu as escadas.
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Naquele dia nada aconteceu como de costume, tudo parecia que havia parado no tempo e o silencio permaneceu. O advogado continuou na sala o dia inteiro, o arrependimento tomava conta do seu coração e o mesmo se via em uma rua sem saída quando pensava em como recuperar seus bens. Ele conheceu Sandra em seu escritório quando a mesma foi contratada como assistente, e sabia que não podia apenas culpa-la quando ele quis e cedeu aos seus encantos como um garoto apaixonado, traindo quem mais o amava.
Na madrugada anterior Miguel e Sandra se encontraram no local de costume, o advogado sabia que havia levado um golpe muito bem arquitetado e a culpa também era apenas sua, ele não sabia como tinha acontecido, mas de fato sua assinatura estava presente em papeis que passava seus bens para Sandra, a mesma deixou copias de seu lado ao sair pela manhã e desapareceu.
O céu escureceu, Marli permaneceu deitada com as cortinas fechadas e apesar de não dormir, recusou companhia. A mente de Vicente ainda estava girando, afinal o que aconteceria com sua família agora? Joaquim não tinha certeza se poderia continuar morando na casa dos Dias e Bruno encarava piscina após ser confortado por Dani e seu pai.
— Você não comeu nada hoje. — Dani sussurrou para Bruno, que permaneceu estático. — O jantar está pronto, mas ainda não está na mesa. Vai esfriar se ninguém for lá.
Dani e seu pai ouviram toda a briga e não se aproximaram, estavam aflitos com a possibilidade de uma demissão, mas mantinham pensamentos positivos.
— Não estou com fome... — Bruno falou, e Dani o encarou.
Ela bufou e abriu a mão, mostrando um pão de mel que ambos adoravam desde sempre.
— Tandan, olha o que tenho. — Dani sorriu com simpatia, tentando alegrá-lo. — Saco vazio não para em pé, precisa estar bem para ajudar sua mãe. Lembra daquela antiga propaganda do pão de mel que dizia que era errado recusá-lo? — A moça falou, gesticulando o pacotinho em sua direção.
— Sim, eu lembro, era uma propaganda esquisita. — Bruno falou, por um momento esquecendo-se dos problemas. — Obrigado.
Ele sorriu sem graça, sentindo-se confortado com a presença dela ao seu lado. Pegou o pão de mel e Dani mostrou outro que estava escondido para ela. Ambos sorriram e abriram os pacotinhos como se fosse uma competição; ela ganhou.
— Tudo vai ficar bem, ou pelo menos vai se acalmar. — Dani encostou seu braço no dele e deitou a cabeça em seu ombro.
Ele sorriu com aquela atitude sem que ela percebesse. Os dois observavam a piscina iluminada enquanto comiam seus pães de mel. Da pequena janela atrás dos garotos, Micael observava a cena, esboçando um sorriso fraco. O pai de Dani foi a primeira pessoa a perceber o sentimento entre eles, apesar da pouca idade, e não conseguia ficar bravo como um pai ciumento. Micael, assim como todos, não sabia o que o futuro reservava, afinal, ele trabalhava ali há muitos anos...
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Comendo um pão encostado na pia da cozinha, Vicente esperava o prato da sua mãe esquentar. Sendo o mais velho, precisava cuidar da mãe mesmo que ela recusasse ajuda, então após ela negar descer para jantar o mesmo resolveu levar a comida.
— Irmão, fora o chá mais cedo, eu fiz suco de abacaxi com hortelã. Ela diz que o meu fica bom. — Joaquim mostrou o copo ao amigo, mas foi ignorado. — Vicente...
Vicente estava distraído, seu amigo se aproximou e tocou seu ombro.
— Ah, oi. — Vicente encarou o copo e sorriu. — Ela vai gostar, obrigado.
Vicente esquentou dois pratos, deixando Joaquim curioso, e pediu dois copos de suco ao amigo, que logo colocou. Os meninos seguiram rumo à sala, e Vicente se aproximou do pai, que estava deitado no sofá.
— Pai, seu jantar. — Vicente apoiou o prato e o copo na mesa de centro e, sem esperar resposta, subiu com Joaquim.
Os meninos subiram em silêncio, bateram na porta do quarto e, mesmo sem resposta, entraram.
Marli estava em pé, retirando tudo do closet do advogado. Ela estava chorando sem receio de ser vista, e muitas malas estavam em cima da cama. Vicente e Joaquim se entreolharam e suspiraram.
— Mãe, sua janta. — Vicente falou, e Marli consentiu ao encará-lo. — Coma, por favor, a noite chegou.
Ela pausou sua arrumação quando viu seu filho colocar seu jantar com cuidado na mesa de cabeceira.
— Irei comer, enquanto isso chame seu irmão e venham os três para cá. — Ela falou, e os meninos consentiram.
Eles saíram, e Marli respirou fundo ao fechar mais uma mala. Maria Lilian ainda estava tomada por interrogações, medo e tristeza. Estava em pedaços, ainda era tudo recente e a dor era tanta que mal podia suportar, mas sabia que suportaria.
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Todos precisando de muita força essas horas não é mesmo?
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