7: O sono pesado de Lia
Lia acordou naquela manhã de segunda-feira se sentindo como o usual: acabada. Sua mãe deu algumas batidas na porta e chamou seu nome, como sempre fazia em dias de escola.
— Acorda, filha — incentivou-a.
— Acordada — Lia resmungou de volta.
Ouviu os passos de Estela se afastando no corredor, de volta para o ateliê, um pequeno cômodo que ficava na parte trás da casa delas. Coçou os olhos e espreguiçou-se por vários minutos, esticando todas as partes do corpo. Olhou para o relógio. 6:20.
Se levantou desanimada, arrumou-se e saiu. Quando estava saindo pelo portão, consultou as horas outra vez, e, como sempre, eram 6:47.
Cerca de dois minutos depois, estava na porta da casa de Marco, que saiu pelo portão parecendo tão mal quanto ela. Seus olhos estavam inchados, e seu cabelo, apesar de continuar lindo, estava um pouco embaraçado.
— A gente não penteia cabelo cacheado seco, e eu é que não vou entrar no chuveiro às 6 da manhã — ele se justificou, quando notou Lia encarando seu cabelo. — Mas, claro, você sabe disso — completou, fazendo referência ao fato de que o cabelo de Lia também era cacheado, ainda mais que o seu.
Os cachos de Lia tinham a espessura de um dedo, e eram longos, num visual meio parecido com o da princesa Merida, só que ao invés de ruivos, seus fios eram marrom-acobreados, e, nesse momento estavam presos em um coque, porque ela também não tinha tido ânimo pra arrumar do jeito certo.
Nessa manhã Marco usava um moletom bem fofo, com capuz, e carregava a mochila por apenas uma das alças. Depois das explicações sobre cabelo, os dois seguiram caminhando em silêncio. Eles ainda estavam dormindo demais para engatar em uma conversa.
Na escola, cada um foi para sua sala, Lia ocupou seu lugar de costume, na frente de Anabel, e a primeira metade da manhã transcorreu da maneira comum. No intervalo, Bel sempre saía para o pátio e ficava conversando com suas outras amigas em uma grande roda, e Lia continuava na sala, adiantando seu dever de casa, escrevendo suas próprias coisas ou cochilando um pouco.
Nessa manhã, ela estava semidesperta, com a cabeça apoiada sobre o braço na carteira, quando de repente começou a se lembrar do relato do sonho de Susana.
Em sua mente sonolenta conseguia ver com clareza o monstro descrito por ela. Seus olhos refulgiam doentiamente, como os de um gato numa foto estourada.
Seu rosto era uma massa marrom distorcida, com pequenos veios formando padrões que lembravam a textura do tronco de uma árvore. Seu nariz era comprido e pontudo, como nas máscaras da peste negra.
Os contornos de seu corpo eram indistintos, mas a sensação geral era de que ele era um grande graveto ambulante, seco e retorcido. Quando ele se movia, rangidos estrangulados ecoavam, e um cheiro pútrido de folhas e lama preenchia o ar.
Lia o viu tão claramente, que sentia como se ele estivesse bem diante de si, se aproximando para enfiar suas garras pontudas direto em seu peito, arrancar seu coração, e deixar um buraco vazio e sangrento para trás.
Chegou a sentir a aspereza de seus dedos de madeira arranhando a pele de seu ombro, quando acordou num sobressalto.
A imagem do Khalifawe se misturou com a de Renan, que estava parado diante dela.
— Lia? Tá tudo bem?
Suas vistas estavam embaralhadas, e por isso Lia fechou os olhos e respirou fundo algumas vezes. Quando os abriu, a cena ao seu redor era completamente conhecida, o que foi um conforto.
— Ah, oi — disse ela, tentando se recompor. — Tudo bem, e aí?
— Eu andei pensando numas coisas pra história...
O coração de Lia batia tão forte e acelerado, que ela ouvia o sangue pulsando em seus ouvidos.
— Tá tudo bem mesmo? — Perguntou Renan outra vez, se ajoelhando no chão, à sua altura, e curvando-se para olhar para ela mais de perto.
— Eu... Só... Foi só um pesadelo — Lia sacudiu a cabeça para afastar a imagem do sonho, e uma lágrima fugitiva saltou de seu olho.
Renan começou a esticar o braço afim de limpá-la, mas se conteve no meio do gesto, com a mão congelada no ar. Os dois se encararam de uma maneira que nunca tinha acontecido antes, os olhos no mesmo nível, diretamente voltados uns para os outros, a menos de um palmo de distância.
O silêncio recaiu sobre eles como uma colcha calorosa, e só foi quebrado pelo som de Anabel e duas de suas amigas entrando na sala.
As meninas seguiram para suas carteiras com a maior naturalidade, mas Anabel ficou parada na porta, com uma das mãos apoiada no batente, olhando direto para os olhos de Lia, com os lábios retorcidos de fúria.
— Droga.
— Quê? — perguntou Renan, alheio à situação.
— Nada — Lia virou o rosto para a frente da sala e ficou encarando as frases de giz no quadro. — A gente pode conversar depois? Eu te mando mensagem mais tarde, ok?
O maior constrangimento de todos se formou entre eles, e Renan apenas se levantou do chão e foi em direção à sua sala, que ficava do outro lado do corredor, sem dizer palavra. Passou por Anabel na porta, e os ombros deles se tocaram de leve, mas nenhum dos dois reagiu ao toque.
Assim que ele sumiu, Anabel caminhou pisando alto até a carteira dela, atrás de Lia, mas não direcionou um olhar sequer para a amiga. Lia olhou para ela, para tentar explicar a situação, mas não recebeu a oportunidade.
Até que começou a se perguntar por que devia explicações a ela. Nada tinha acontecido. E ela não era dona de Renan, nem nada.
O clima entre as duas ficou pesado pelo resto da manhã. Até os professores notaram e comentaram sobre o silêncio entre elas. Quando a última aula estava na metade, Lia escreveu um bilhete dizendo “não vou poder caminhar com você na volta hoje. Tenho algo pra resolver. Desculpa. Te vejo amanhã às 6:47”.
Avisou ao professor que precisava ir ao banheiro, e saiu correndo, antes que ele pudesse negar o pedido, sob a justificativa de que ela poderia ir quando a aula acabasse.
Foi até a sala de Marco, cuja porta estava entreaberta, e pediu para a menina que sentava na primeira carteira ao lado da porta entregar o pedaço de papel dobrado para ele.
Voltou para sua própria turma, assistiu ao restante da aula, e quando o sinal tocou, juntou suas coisas o mais rápido possível e seguiu Anabel porta afora.
Bel praticamente correu para a rua, com Lia em seu encalço. Lia a alcançou, e quando estavam a uma distância razoável da escola, onde ninguém mais poderia ouvir, disse:
— Bel, desculpa.
— Desculpa por quê? — E Lia ouviu a mágoa estampada em sua voz.
— Por estar tão perto do Renan, eu acho.
— Haha — ela forçou uma risada de deboche. — Eu não sou dona dele. Eu não sou nada dele, na verdade.
— Nada está acontecendo entre a gente, eu juro.
— O que vocês estavam “conversando”? — Ela perguntou, com ênfase na palavra conversando de forma a ressaltar que conversar era exatamente o que eles não estavam fazendo.
— Ele vai me ajudar e escrever uma história, por isso foi falar comigo. Teve algumas ideias que queria me contar.
— Essa é a desculpa mais esfarrapada de todas. Primeiro que é você que ajuda as pessoas a escrever, e não o contrário. Segundo que, pelo que eu saiba, vocês dois não conversam sobre as coisas.
— Não conversamos mesmo. Bom, não conversávamos. Ontem ele foi lá em casa buscar o skate, viu um texto que eu escrevi, achou legal, e quer criar algumas coisas pra colocar na história.
— Ah. Engraçado. Achei que você nem mesmo gostasse dele.
— Bom, eu não gosto. Não como você. Mas nós sempre fomos amigos, e você sempre soube disso.
— A mim me parecia que vocês estavam prestes a se beijar.
Lia fez um som que ficou entre um ronco, um soluço, e uma cuspida.
— Anabel, de onde você tirou isso?
— Dos meus olhos. Vocês estavam a cinco centímetros de distância, encarando um ao outro apaixonadamente.
— Apaixonad... Pfffff! — Lia refletiu sobre contar a ela o motivo de estar com uma expressão tão atônita no rosto, e que aquilo nada tinha a ver com paixão, mas sim com pavor. Mas, para isso, talvez tivesse que falar sobre Susana, e isso ela não podia fazer. — É complicado. Eu cochilei no intervalo, tive um sonho ruim, o Renan chegou e me acordou, e por um momento eu achei que ele fosse a criatura do meu pesadelo... Por isso fiquei super assustada e ele tentou me acalmar. É isso. Você tem que parar com essa coisa de querer me juntar com uma pessoa diferente a cada dia!
— Quem dorme tão pesado na escola a ponto de sonhar?
— Pior, ter um pesadelo.
Bel olhou para a amiga com cara de descrença, mas dava pra ver que sua expressão tinha se suavizado.
O Khalifawe começou a mostrar as garrinhas...
Hm... A que ponto vocês acham que esses pesadelos vão chegar?
Obrigada por chegarem até aqui 💗
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