4: Bem Sally Skellington
- Susana! - Lia gritou.
Estava parada de frente ao portão de Anabel, que também era o portão de Susana, sua irmã mais velha.
As duas perderam seus pais para um acidente de carro, quando eram crianças, e, por isso, moravam com a avó, uma senhorinha simpática de cabelos brancos e rosto rechonchudo, que estava sempre engajada nos eventos da cidade, especialmente nos finais de semana.
- Oi, Lia - cumprimentou Susana abrindo o portão. - Estava ansiosa pra te ver hoje! O que tem aí pra mim?
Lia não respondeu, só sorriu vagamente e as duas entraram na casa. Lia conhecia aquela casa de olhos fechados, pois a frequentava desde que podia se lembrar.
Tudo ali lhe era familiar. Porém, era estranho ir para o quarto de Susana ao invés do de Anabel, que tinha ido com a avó visitar seus parentes em outra cidade naquele dia.
Nem Bel era tão próxima da irmã, quanto mais Lia. Susana era quatro anos mais velha que elas; em certas fases da vida essa pode não ser uma diferença tão grande, mas dos catorze para os dezoito, era como um mundo de distância.
Uma pessoa de dezoito anos dificilmente teria algo em comum com uma de catorze, a não ser pelo fato de as duas morarem na mesma casa.
Ao entrar no quarto, Lia colocou a mochila que trazia no chão, e abriu o zíper. De dentro tirou inúmeras peças de roupa, e as estendeu com cuidado na cama. O quarto de Susana era extremamente limpo e organizado.
Todas as almofadas coloridas da sua cama estavam perfeitamente afofadas, e tudo ficava em seu lugar designado. O quarto dela não tinha nenhum poster ou desenho na parede, nenhum papel espalhado, como no de Anabel, em que era difícil localizar a cama. A única coisa meio "fora de contexto", era um pássaro vermelho, cujos pedaços estavam grudados com super-cola, em cima de uma mesinha de canto.
Em termos de aparência, Susana era uma versão mais sofisticada de Anabel, mas de longe dava pra ver como eram parecidas. Bel tinha o rosto redondo, num lindo formato de coração, enquanto o de Susana era ovalado e com maçãs proeminentes. As sobrancelhas dela também eram mais delineadas e arqueadas que as de Bel.
Talvez porque Bel ainda tivesse traços de uma criança gorducha, e Susana já se parecesse mais com uma adulta. De toda forma, as duas tinham os mesmos olhos grandes e amendoados cor de jaboticaba, emoldurados por longos cílios que batiam cativantes como asas de borboleta, lábios carnudos, de um rosa profundo no centro, e escurecendo gradualmente até a extremidade, até se misturarem com a cor da pele, que era negra e reluzente.
Bel era alta, mais alta que Lia e a irmã, e tinha cabelo liso descendo até a cintura. Já Susana tinha cabelo crespo, que usava de diferentes formas. Às vezes com longas tranças coloridas, às vezes bem curtinho, e até raspado, com lenços e turbantes, ou então em estilo black power.
A verdade é que ela nunca permanecia a mesma por muito tempo. Susana gostava de mudar, e estava sempre experimentando coisas novas.
Susana era a irmã ousada e aventureira, que sempre topava tudo e sempre inventava as brincadeiras mais malucas quando elas eram crianças.
Em parte, ela simplesmente gostava de zombar das duas, e vê-las se esforçando pelas coisas e se dando mal no fim. Ela sabia coisas que as duas ainda não sabiam, e conseguia fazer coisas que as duas ainda não conheciam. Não importa o quanto Bel e Lia se esforçassem para alcançá-la, ela estava sempre um passo à frente.
Aos dezoito anos, Susan não era nem mais virgem, enquanto Lia e Anabel sequer tinham dado seu primeiro beijo! E esse ar superior dela, de quem já tinha visto e feito todas as coisas que elas nem ao menos podiam imaginar era muito irritante. De certa forma, era por isso é que Anabel não se dava bem com ela. As duas não tinham muito em comum, e a irmã reforçava esse fato o máximo possível.
A personalidade de Bel era meiga. Por mais que ela fosse mais destemida que Lia, falasse palavrões e não se importasse de cair do skate, por dentro ela era muito carinhosa e sensível. Quem sabe esse lado irreverente fosse uma tentativa de ser mais como a irmã, que mesmo não querendo admitir, no fundo ela admirava muito.
- Sua mãe se superou dessa vez! - Susana exclamou, erguendo as peças e ajustando-as contra o corpo.
A mãe de Lia era costureira. Na maior parte do tempo, fazia as roupas que os clientes pediam. Cópias de figurinos de novelas, revistas e roupas de famosos em geral. Alguns consertos. Roupas de festa... Mas quando tinha tempo, criava algumas peças de sua própria autoria.
Quem sempre vestia os protótipos era Lia, somente de tempos em tempos ela trazia uma leva de peças para Susana experimentar (a única outra pessoa na cidade com estilo e coragem suficientes).
- Essa saia aqui me lembra muito você - arriscou Lia, estendendo para a outra uma saia jeans de comprimento midi, feita de uma combinação de vários jeans de lavagens e texturas diferentes.
- Muito linda mesmo! Bem Sally Skelington.
- Quem? - Questionou Lia.
- Sally... "O estranho mundo de Jack"?
- Não conheço.
- Você nunca viu "O estranho mundo de Jack"? O que vocês crianças andam fazendo nos tempos de hoje?
Era estranho ser chamada de "criança" por uma pessoa apenas quatro anos mais velha, mas, a essa altura, depois de uma vida inteira tolerando Susana, ela já estava acostumada.
E por isso não disse nada, apenas deixou a pergunta no ar, e observou Susana vestir a saia por cima de seu short de malha, e fazer um pequeno nó na ponta de sua camiseta preta, com estampa do logotipo de alguma banda também desconhecida por Lia, criando uma espécie de top cropped. Ela, então, deu algumas voltas diante de espelho.
- O caimento ficou lindo - elogiou Lia.
- Realmente. Olha só o ajuste na minha bunda!
Lia riu por causa do uso repentino da palavra "bunda", enquanto ela mesma escolheu um elogio tão sério. Mas reconheceu que ela não estava errada. De fato, sua bunda tinha ficado espetacular.
Durante quase uma hora Susana experimentou todas as roupas, e Lia ficou sentada no pé da cama dela, quieta, observando. Ela se sentia bastante intimidada pela presença da outra, como se fosse ser repreendida por qualquer coisa que fizesse, e como se a qualquer momento fosse dizer a coisa errada.
Susana separou as peças que queria, e enquanto Lia colocava as demais de volta na mochila, dobrou-as em quadrados perfeitos e guardou em uma gaveta; depois, alisou a parte da colcha onde Lia estava sentada. Lia, por sua vez, colocou a mochila nas costas e as duas caminharam até o portão.
Susana o abriu, tirou do bojo do sutiã algumas cédulas dobradas e entregou para Lia, que rapidamente as guardou no bolso da mochila e caminhou para fora.
Quando já estava quase na esquina, ouviu Susana chamando seu nome. Virou o rosto pra trás, em direção dela.
- Você escreve, certo? - A pergunta ressoou pela rua.
- Sim.
- Eu estava pensando... Será que você podia me ajudar a escrever uma história?
"Ah não, que ideia terrível", Lia pensou. Será que Susana a via como uma espécie de nerd a quem poderia intimidar pra fazer seus trabalhos escolares? Porque ela não estava disposta a servir de burro de carga pra ninguém, e ela sabia bem como essa história de "ajuda" acabava: com ela fazendo todo o trabalho sozinha. Contudo, pensando melhor, Susana não ia mais pra escola, ela já tinha terminado no ano passado.
- Que tipo de história? - Quis saber, curiosa.
- Você pode passar aqui amanhã?
O dia seguinte era domingo, e Lia não estava nem um pouco a fim de andar até lá outra vez e passar outro dos seus dias de folga na companhia dela. Se Bel ao menos estivesse lá... Mas ela só voltaria à noite.
- Eu faço cookies! - Propôs ela, vendo a hesitação de Lia, que não conseguiu se conter, e respondeu:
- Eu não tenho mais oito anos na vida real, só na sua cabeça!
Susana riu alto.
- Qual é. Não precisa ser criança pra gostar de cookie. Oferece pra mim, pra você ver se eu não vou!
- Susana, honestamente, você vai me colocar em alguma cilada?
- É claro - debochou ela com um grande sorriso reluzente. - É pra isso que as irmãs mais velhas das melhores amigas servem.
Lia continuou parada no meio da rua, que, como o usual para um sábado, estava deserta, e encarou ao longe o rosto de Susana, sem saber muito o que fazer. Passar mais tempo com ela era a última coisa que ela queria, mas também não queria ser rude. Talvez fosse algo importante.
- Tá bom - concordou, afinal. - Mas eu vou cobrar aqueles cookies. E é bom que tenha sorvete pra acompanhar.
Susana jogou levemente o cotovelo pra trás, com a mão fechada, num pequeno gesto de vitória.
- Não vou te decepcionar! - Prometeu ela.
Lia se arrependeu no mesmo instante. Outro dia perdido com Susana, se sentindo inadequada. Só podia ser uma espécie de recorde. E o que Anabel pensaria disso?
Nada de bom, provavelmente.
Tô curiosa pra saber o que vocês acharam da irmã da Bel!
Ah, e mais uma coisa, me contem:
Vocês preferem qual frequência de postagem? Quinzenal? Uma vez na semana? Duas?
A opinião de vocês é muito importante!
Obrigada por chegarem até aqui 💗
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