20: Fogo e terra

Theo olhou para o céu, concentrado. Susana apenas encarava o primo, com expressão séria. Anabel, por sua vez, se perguntava por que era sempre a última a saber das coisas, por que os outros nunca achavam que ela estava pronta para lidar com as coisas, quando, na verdade, ela era a pessoa que mais segurava a barra dentre todos eles.

Uma pequena nuvem se formou acima deles, cinza e pesada. Theo continuou olhando para cima, e duas pequenas veias roxas saltaram em sua testa. Um par de minutos depois, outra nuvem se juntou à primeira, e depois outra, e depois outra, até que, de repente, o céu estava todo tampado de nuvens cinzentas.

Um leve chuvisco começou a cair, desenhando pequenos círculos na terra. Os punhos de Theo foram involuntariamente se fechando, e ao mesmo tempo a chuva foi aumentando, até se transformar em uma tempestade.
Só que, embora as nuvens estivessem diretamente sobre a cabeça deles, não caiu uma gota sequer em nenhum dos três, como se houvesse um grande guarda-chuva invisível acima de suas cabeças.

A chuva caiu somente ao seu redor, e formou pequenas poças nos relevos no chão. Depois de alguns minutos de tempestade contínua, a postura de Theo foi relaxando, e a água foi parando de cair. As nuvens começaram a se dissipar, lentamente, e a chuva parou.

Depois dos cinco verem o Khalifawe, de ela e Renan terem ficado e de Lia ter se perdido no Bosque e acordado toda esfarrapada na casa de Marco, Anabel já não duvidava de mais nada. Agora sua mente estava aberta o suficiente para aceitar que coisas além da compreensão humana poderiam acontecer.

Contudo, Theo não se deu por satisfeito. Continuou concentrado, fazendo com que a água restante no chão subisse e planasse no ar na frente deles, na forma do Davi, de Michelangelo. Depois, mudou de forma para um coelhinho fofo e muito realista. Depois, dividiu-se em pequenos jatos que dançaram no ar, como na primeira demonstração, e terminou também da mesma maneira, com todo o volume de água se desmanchando em milhões de pequenas gotículas que voaram e desapareceram no ar.

Susana nunca deixava de ficar admirada. Anabel também se sentia assim, porém não se sentia sequer surpresa. A essa altura já estava acostumada com o fato de que sua vida era totalmente incomum.

Susana contou para os dois, sem maiores detalhes, sobre o símbolo do sonho, que desenhou no chão, o melhor que pode, com um graveto. Ela não sabia exatamente o que ele significava, mas sabia que estava relacionado à força e ao poder. Theo também reconheceu os quatro elementos, e ficou de pé sobre a fatia da água.

Por causa do sonho, Susana já sabia que seu elemento era o fogo, que era a parte em frente à de Theo, onde ela se postou. Anabel não sabia qual era o seu elemento, então, ficou de fora do círculo observando.

Theo tentou ensinar para elas o máximo que conseguiu sobre como canalizar seus sentimentos e combiná-los com a energia obtida da natureza. Susana já não se sentia mais como no sonho, mas tentou reviver ao máximo a sensação. No fim do dia, conseguia produzir pequenas faíscas.

Theo arrumou um montinho de gravetos secos, e ela foi capaz de acender uma modesta fogueira. Não era muito, mas já era alguma coisa. Enquanto os dois praticavam juntos, Bel sentou-se sobre um tronco caído, a alguns passos de distância, e deixou a mente vagar, enquanto observava as árvores ao seu redor.

Pensou em Renan, e reviveu em sua mente o encontro deles, especialmente a parte do beijo. O dia estava fresco e agradável, e ela sentia o aroma de lama e orvalho, e era reconfortante. Um fraco sol tinha saído outra vez, lançando raios pálidos em dourado por sobre a terra.

Bel sentia os grãozinhos na parte debaixo da coxa, onde sua perna encostava na madeira do tronco.
Enquanto pensava em todas as coisas boas que tinham acontecido pra ela na última semana, fitava distraidamente o desenho que Susana havia feito no chão, com o olhar perdido.

Ao lembrar do rosto de Renan, tão próximo do seu, o coração dela se encheu de amor e felicidade, de tal forma, que ela começou a sorrir, e um pequeno brotinho verde rasgou a terra a seus pés, subindo para a superfície.

Um minúsculo talo verde emergiu, como uma minhoquinha, e foi subindo, subindo, crescendo e ficando mais forte, até se transformar em um botão, que cresceu ainda mais, e se abriu, espreguiçando-se para saudar o sol.

Só quando a flor estava totalmente aberta, é que Anabel despertou de seus devaneios e percebeu a presença inesperada a seus pés. Por alguma razão, ela não ficou espantada. Algo dentro dela já esperava que algo assim fosse acontecer.

Bel colheu a flor, e colocou-a atrás da orelha. Agora sim poderia treinar suas habilidades junto aos outros. Só que, enquanto a motivação de Susana era a fúria, a sua era a paixão.


🌧️🌧️🌧️

L

ia chegou em casa ensopada. Não queria envolver a mãe nessa história, mas sabia que não tinha outro jeito. Foi até o quarto de Estela e disse que se o Marco procurasse por ela, era para dizer que ela estava dormindo, ou que tinha saído.

Explicou para a mãe que ela não precisava se preocupar, nada demais tinha acontecido, só coisa de adolescente. Estela concordou, e disse que estaria ali, se a filha precisasse conversar. Mas tudo o que Lia não precisava agora era falar sobre isso.

Se possível, ela não queria nem mesmo pensar sobre isso. Queria ocupar sua mente com outra coisa, como, por exemplo, cuidar do seu cabelo, afinal amanhã era dia de escola. Tomou banho e hidratou seus cabelos na maior paciência do mundo, tentando manter o foco apenas em modelar seus cachos.

Na segunda de manhã, não passou na casa de Marco, e não avisou também. A essa altura ele já deveria imaginar que isso aconteceria. Quando a aula acabou, Lia foi a primeira a sair, e andou o mais depressa que pode, praticamente correu até em casa.

A mesma rotina se repetiu todos os dias daquela semana. Marco tentou se aproximar dela algumas vezes, mas ela fugiu. Não conseguia lidar com isso agora, e talvez não conseguisse por um bom tempo.

Na segunda de manhã, Theo voltou para casa, deixando o livro da família, que agora eles tinham apelidado de Grimório, com as meninas. Ele já tinha domínio suficiente do seu elemento, e elas não. E, felizmente, nem sonhava com a existência de um monstro cruel a ser enfrentado.

Susana e Anabel voltaram no Bosque todos os dias, depois que o turno de Susan acabava, e todos os dias repetiam a mesma coisa. Desenhavam a flor com o círculo em volta no chão, e praticavam suas habilidades recém-descobertas.

As duas foram as únicas que se encontraram durante a semana, porque estavam trabalhando em um projeto juntas. Bel continuou trocando mensagens diárias com Renan, mas explicou que estava ajudando a irmã em algo importante, e que por isso estaria ocupada naquela semana, e não poderia se encontrar com ele pessoalmente por um tempo.

Lia sabia do que estava acontecendo entre elas, e às vezes caminhava até o Bosque para ajudá-las a treinar, incentivando-as e ajudando-as a guiar seus pensamentos, às vezes ficava em casa sozinha, remoendo seus sentimentos, ou lutando para ignorá-los.

Com tudo o que elas tinham que lidar, a semana passou voando, e logo já era sexta-feira. Lia tinha acabado de chegar da escola, quando uma mensagem de Susana chegou em seu celular:
Lia, achei uma coisa interessante no Grimório. Acho que você vai querer ver”.

Lia respondeu perguntando se elas poderiam se encontrar mais tarde, ou no dia seguinte. Susana contou que tinha dado “um dia de folga” para Anabel ir se encontrar com Renan, e que treinaria sozinha naquele dia, mas que as três poderiam se reunir no sábado à tarde para discutir esses assuntos, e, quem sabe, Lia poderia dormir na casa delas, pois já fazia uma eternidade que elas não faziam uma festa do pijama.

Lia achou engraçado, porque, na verdade, elas nunca tinham feito uma com a presença de Susana. Mas ficou feliz com o convite. Precisava mesmo de atividades divertidas que a distraíssem do enorme vazio que sentia sem a presença de Marco em sua vida. Tendo combinado tudo, Lia passou a tarde inteira maratonando uma série e comendo pão-de-queijo.

No sábado Lia acordou pensando em como estava com saudades de passar um dia com suas amigas, e logo em seguida se deu conta de que aquele foi o primeiro dia em que não acordou pensando em Marco.

Só que essa simples constatação a fez lembrar dele, e arruinou tudo outra vez. Mas tudo bem, hoje era um novo dia, e coisas boas iam acontecer. Ou, pelo menos, era no que ela queria acreditar.

🌄🌄🌄

S

usana e Lia estavam sentadas no chão do quarto de Bel, que estava deitada perto das duas, de barriga pra baixo, com a cabeça apoiada sobre uma almofada. O Grimório estava aberto no meio delas, e Susana passava as páginas procurando a parte que queria. Depois um leve farfalhar de papel indo de um lado pro outro, ela correu o dedo por uma das páginas, e virou o livro na direção de Lia.

— Olha aqui — apontou ela para um trecho específico.

O capítulo ao qual se referia contava a história de um bosque muito antigo, onde os ancestrais Saskawana realizaram suas primeiras experiências com os quatro elementos.

Devido ao fato de que muitas gerações haviam se reunido ali para criar e destruir, e a energia e poder de muitas pessoas diferentes, em vários níveis diferentes tinha passado por ali, aquele lugar se tornara um tipo de centro de poder místico, onde muita magia estava concentrada.

Em uma das páginas havia um mapa, com a localização desse bosque, e alguns marcos importantes dentro e fora dele, que elas não souberam interpretar com exatidão.

Entretanto, Lia reconheceu precisamente o local onde ficava sua casa. Apesar de essa ser uma versão antiga do Bosque, e maior em extensão, com um contorno diferente, o lugar lhe era familiar. Susana havia pesquisado um mapa atual da cidade na internet, que imprimiu para elas compararem com o antigo.

A conclusão foi unânime entre as três: era o mesmo lugar. Então, aquele lugar não era apenas uma área de preservação ambiental, nem muito menos a toca do Khalifawe. Em outras palavras, elas não faziam ideia dos mistérios que aquelas terras escondiam.

Saber disso esclareceu muita coisa. Susana finalmente entendeu porque se sentia tão atraída para aquele lugar. Todos se sentiam, mas ela mais especificamente.

Lia ainda olhava para o local onde hoje em dia estava localizada sua casa, quando percebeu um pequeno símbolo desenhado no limite entre o Bosque e seu quintal.

— Viu? É a sua casa! — mostrou Susana — O Bosque onde tudo começou, onde a minha família há centenas de anos descobriu seu poder, e desenvolveu suas habilidades, era o mesmo em que a gente praticou a semana toda! — explicou em voz alta, para deixar claro que era isso que queria mostrar para Lia. Lia examinou o mapa cuidadosamente.

— Você está vendo isso aqui? — perguntou para Susana.

— Sim... O que é?

— Não sei. Um círculo cortado no meio?

— Parece um relógio de sol — opinou Anabel, olhando a página bem de perto. E ela estava certa, parecia mesmo um minúsculo relógio de sol.

— O que será que isso significa? — ponderou Lia.

— Bom, eu já fui na sua casa mil vezes, e com certeza não tem um relógio de sol no quintal. Deve ser alguma coisa antiga — Bel sugeriu.

Susana e Lia ficaram pensativas. Anabel provavelmente estava certa, mas as duas ainda continuavam intrigadas sobre o significado daquilo. Nas páginas seguintes ao capítulo do Bosque, havia um capítulo inteiro sobre o Tempo, com extensas explicações sobre presente, passado e futuro, cheias de termos técnicos que nenhuma das três entendeu direito, mas que sabiam estar de alguma forma relacionadas à gravura do relógio de sol. Afinal, os relógios marcavam o tempo. Certo?

Depois de passarem horas a fio estudando o Grimório, e de Susana fazer algumas demonstrações acendendo velas e criando pequenos vaga-lumes de fogo planando no ar, as três arrumaram três colchões no chão - o da cama da Bel, o de Susana que trouxeram do quarto dela, e o do quarto de visitas, e montaram uma enorme cama no chão, que coubesse as três.

Arrumaram as cobertas em cima de suas camas do modo mais aconchegante possível, e trouxeram para a cama o computador de Bel, onde assistiram clipes de música. Susana lhes apresentou bandas que ela amava, e as duas nunca tinham visto, e cantaram juntas suas músicas favoritas de infância. Até procuraram vídeos de karaokê e fizeram uma pequena competição entre elas, votando entre si em quem tinha performado melhor.

Quando ficaram cansadas, deitaram-se e colocaram um filme qualquer de romance. Anabel pegou no sono antes dos primeiros dez minutos. Susana chegou até a metade. Somente Lia assistiu até o fim. Desligou o computador, e deitou-se para dormir com as outras.

Ela nem sabia se já tinha pegado no sono, porque ainda conseguia ouvir seus próprios pensamentos correndo como uma cachoeira entre as pedras de sua mente, quando ouviu o rangido baixo da porta abrindo, e uma tênue luz azulada clareando o quarto.

As pálpebras dela estavam pesadas, e ela relutou em abrir os olhos. Mas uma parte de sua mente disse que precisava saber quem estava entrando. Ela entreabriu um dos olhos, e viu uma silhueta já conhecida, porém não menos apavorante do que nas vezes anteriores, se aproximar do colchão delas.

O Khalifawe ajoelhou-se ao lado de onde Bel estava, pegou a amiga dela nos braços e carregou-a para fora. O coração de Lia estava congelado de pavor. Ela queria se levantar, gritar, jogar alguma coisa nele.

Queria fazer qualquer coisa que o machucasse, ou pelo menos o impedisse. Mas não conseguia. Seu corpo não obedecia às ordens que seu cérebro dava. Ela observou, sem poder fazer nada, o monstro carregar o corpo desacordado de Anabel pela porta, que se fechou atrás dele com um baque.

Lia fez todo esforço que pode para despertar, para se mexer, para realizar qualquer ação. Ela tentou chamar por Susana, mas nada aconteceu. “Calma, Lia, calma. Vamos lá, você consegue”. Lentamente ela saiu do torpor que a prendia, e conseguiu levantar-se devagar e acordar Susana. De fato, Anabel não estava mais deitada no colchão ao lado.

Susana se sobressaltou ao mais suave toque da amiga. Antes que Lia dissesse uma palavra, ela se levantou num salto, e começou a se vestir. Sem que as duas trocassem uma palavra, ambas sabiam o que estava acontecendo. E sabiam para onde deveriam ir.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top