18: Um livro muito antigo
Bel voltou pra casa quase à meia-noite. Apesar disso, as luzes do quarto de Susana ainda estavam ligadas. Ela entrou em casa, rindo de orelha a orelha, foi para seu quarto, onde jogou a mochila com os patins no chão, e tirou os tênis, atirando-os num canto, assim como o par de brincos de argola, que guardou numa caixinha enfeitada.
Calçou então seus chinelos, e foi para o quarto da irmã, pra ver se estava tudo bem e avisar que tinha chegado. Deu duas batidas na porta, que estava encostada. Susana a mandou entrar.
— Oi Bel, e aí? — disse ela ao ver a irmã mais nova.
— Tudo ok. E vocês? O que andaram aprontando na minha ausência?
Theo estava de pijama – bermuda xadrez de vermelho e uma camiseta cinza lisa – sentado no pé da cama, ao lado de Susana. Ele tinha as pernas cruzadas, de forma descontraída, e um livro aparentemente pesado repousava em seu colo. O livro tinha capa de couro com relevos, e lembrava um pouco uma bíblia com encadernação chique.
— Nada de interessante. — Respondeu Susana, tentando desviar a atenção dela do livro; ainda não estava pronta para incluir Anabel no assunto. — Theo e eu estávamos lendo umas coisas sobre a nossa família.
— Por interessante que isso pareça — ironizou Anabel — estou um pouco cansada. Acho que vou pra cama. Só vim avisar que já cheguei, e em segurança.
— Ok, te vejo amanhã — despediu-se Susana, mais que depressa.
Bel bocejou, confirmando o que tinha dito, acenou para a irmã e desejou boa noite para Theo. Então, foi para o seu quarto mandar uma mensagem para Lia contando as novidades. Não esperou a resposta dela; ao invés, pegou a toalha e foi tomar um banho rápido e vestir seu pijama.
Ao voltar, a luzinha de notificação piscava em seu celular. Era Lia, mandando mil emojis de palmas, aleluias, confetes e carinhas com estrelas no lugar dos olhos. Havia uma segunda mensagem, pedindo todos os detalhes. Bel respondeu prometendo que contaria tudo tim-tim por tim-tim no dia seguinte, e apagou logo em seguida.
📖📖📖
No quarto ao lado, Theo mostrava para Susana as ilustrações caprichosas feitas à mão, que exibiam árvores com aspecto de muito antigas, vidros de poções, flores e ervas de várias espécies, e representações dos quatro elementos, e de combinações que poderiam ser feitas entre eles para criar coisas inteiramente novas.
Susana não entendia a maioria daquelas coisas, e, para falar a verdade, nem Theo. Apesar de ele já ter quase cinco anos de prática no domínio da água, muitos dos relatos que o livro continha vinham de uma vida inteira de pesquisas e descobertas.
Mas o básico ele sabia. Que os seus ancestrais descendiam de um povo chamado Saskawana, que eram, antes de mais nada, curandeiros e praticantes de medicina fitoterápica. Susana não conhecia esse nome, mas já tinha ouvido as histórias, que seu tataravô vivera cento e vinte e seis anos, e só precisou visitar o hospital quando já passava dos cem.
Ela não acreditava realmente na veracidade dessa história, e sempre achou que ela era um pouco exagerada, mas, fosse como fosse, não era totalmente estranha à ideia de que seus antepassados praticavam a cura pela natureza. O que ela não sabia, é que centenas e centenas de anos, em várias gerações consecutivas, haviam sido dedicadas à procura desses conhecimentos.
O livro contava como, depois de muitos anos manipulando elementos naturais, alguns familiares começaram a perceber que conseguiam fazer coisas que ninguém mais conseguia. Como fazer uma horta crescer mais rápido que o normal, por exemplo, ou seus tomates serem maiores que os do vizinho.
E esse tipo de prática foi só aumentando na família, conforme era compartilhado entre os membros. Houve uma época, em que todos eram tão unidos, e tão próximos, que conseguiam criar coisas a partir do nada, somente usando as habilidades que tanto se esforçaram para conseguir. O livro contava sobre a criação de hortas, pomares e jardins inteiros.
No entanto, é certo acreditar que todo poder atrai corrupção, e, desse modo, o povo Saskawana se meteu em algumas confusões ao longo do tempo, pelo uso inadequado de seus poderes, por fazer inimizade com pessoas que queriam usar seu dom para fins subversivos, e pelo simples fato de que as pessoas são complicadas, e estão sempre procurando confusão.
Nesse sentido, haviam várias páginas dedicadas a criaturas que enfrentaram. Algumas que foram atraídas por seu poder, outras que foram criadas a partir dele, em experiências que deram errado, e outras que se opunham a suas crenças.
Numa dessas páginas, havia uma figura esboçada em rabiscos, com olhos vazios e galhos retorcidos se projetando de sua cabeça. Parecia um bocado com o desenho de Anabel, que Susana tinha guardado cuidadosamente no fundo de sua gaveta, como se dessa forma pudesse simplesmente esquecê-lo, e fingir que nada daquilo jamais havia acontecido.
Susana estremeceu ao ver a figura, que não era muito precisa, mas ainda assim provocava nela um sentimento de profundo pavor. No topo da página, escrito em letras de forma caprichadas, estava escrito “Khalifawe”. Seus olhos percorreram a página rapidamente, temerosos de que a mais simples menção ao nome dele, ainda que em pensamento, fosse imediatamente materializá-lo ali, no meio de seu quarto.
A história contava, de forma relativamente breve, sobre como um dos mestres da terra do povo Saskawana havia se desvirtuado, e, graças a ele, um ritual performado por outros mestres deu errado, dando surgimento a um monstro horrível, que era a própria materialização do lado obscuro de seus poderes.
Um ser que se alimentava do que qualquer pessoa tinha de mais importante: sua energia vital, sua força de viver. O monstro agia no subconsciente, que era o lugar onde, segundo acreditava o povo Saskawana, morava a essência do ser humano, por meio de sonhos. E se espalhava como um vírus, quando seu nome era mencionado, ele se plantava no subconsciente da pessoa como uma erva daninha, enraizando-se cada vez mais fundo.
Todos os mestres mais importantes da época, que o livro não relatava qual era, se reuniram para trancá-lo para sempre sob o lugar mais profundo da terra, para que jamais andasse entre os homens outra vez.
Susana estava familiarizada com todos esses conceitos, porque o Khalifawe revelara tudo em sonhos para eles. Exceto seu surgimento, o envolvimento de sua família nessa história, e o fim que tinha levado da primeira vez. Diferente de Theo, Susana jamais tinha tido contato com qualquer coisa sobrenatural até um mês atrás.
Ela não fazia a menor ideia de como se encaixava nisso tudo. Ficou encarando a página por tanto tempo, que Theo perguntou se ela já tinha visto aquela figura em algum lugar antes.
Ela negou, e passou a página de imediato, pois sabia tão bem quanto qualquer um de seus outros amigos que contar tudo para Theo o arrastaria para o meio daquela confusão, e aquilo era tudo de que ela não precisava. Se é que já não era tarde demais.
Mas, pensando que Theo ia ficar curioso quanto àquilo mais tarde, e poderia mexer com o que não devia, acabou acrescentando:
— Theo, eu preciso que você me prometa uma coisa, e é muito importante.
— O quê? — Quis saber ele, intrigado pela expressão séria no rosto da prima.
— Que você não vai procurar essa página depois. Eu não posso te explicar com detalhes, nem agora, e talvez nem nunca. Mas preciso que você confie em mim nessa. Você não pode, sob hipótese alguma, procurar a página que eu estava lendo.
— Tá bom, se é tão importante pra você...
— É mais do que importante. É caso de vida ou morte. — Ela assegurou, sem piscar. Fechou o livro solenemente, e o entregou a ele. — Minha conta de conhecimento ancestral já foi cumprida por hoje.
Theo entendeu a mensagem, e assentiu com a cabeça em resposta. Segurou o livro na dobra do cotovelo, como as pessoas carregam suas bíblias a caminho do culto, e foi para o quarto de visitas, onde dormiria naquela noite.
A noite tinha acabado tão estranha quanto começara, e o clima entre ele e Susana pesou tanto, e tão de repente, que ele nem mesmo desejou que a prima tivesse uma boa noite. Simplesmente se retirou.
Assim que Theo saiu, Susana se levantou e pôs-se a caminhar de um lado para o outro pelo quarto. Se da primeira vez foi necessário um monte de mestres treinados para trancar o Khalifawe, estava claro para ela que não seria um simples ritual, feito por um monte de adolescentes sem a menor noção do que estava realmente acontecendo, com uma pilha de galhos secos, que iria impedi-lo de voltar.
Agora ela podia ver claramente. Estava tão cega pela vontade de se sentir bem outra vez, que não tinha enxergado que aquele não tinha sido o fim definitivo, mas sim uma pequena trégua, onde os cinco tiveram a oportunidade de descansar, e se acalmar, para que quando o Khalifawe voltasse, tivesse um verdadeiro banquete ao seu dispor.
E ele voltaria. Disso, Susana não tinha a menor dúvida.
E aí, preparados pro retorno do nosso monstrão? Hahahaha
Ah, vamos lá, vcs já estavam esperando por isso em algum momento, não é possível!
Como vcs reagiram à notícia da família da Susana e da Bel ter habilidades especiais?
Atenta!
Obrigada por chegarem até aqui 💗
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