15: Minhocário

O resto da semana decorreu com normalidade. Dentro do possível. Lia continuou passando na casa de Marco todos dias antes da escola, e os dois continuaram conversando sobre trivialidades, se divertindo e rindo muito, apreciando a companhia um do outro.

Contudo, os dois não se viram mais depois da escola, e, portanto, não voltaram a ficar, e Marco continuou indo embora com Nicolas todos os dias. Talvez fosse melhor assim. Talvez eles devessem mesmo ser só colegas de escola e vizinhos.

Lia mandou algumas mensagens para Susana ao longo da semana, pra saber se estava tudo bem com ela, e aparentemente sua vida também seguia normal, trabalhando e saindo com seus outros amigos.

Viu Anabel na escola, e ela lhe contou que estava conversando com Renan com uma certa frequência, e que as coisas entre eles estavam engatando. Devagar, mas caminhando, pelo menos. E foi basicamente isso.

Todos os dias foram quase iguais: ir pra escola, fazer o dever de casa, ajudar a mãe do ateliê, dormir, escutar música, ler, trocar mensagens com seus amigos. Parece que finalmente a vida tinha voltado aos eixos.

Na sexta-feira Lia convidou Anabel para dormir na casa dela, como era o costume delas em praticamente todo fim-de-semana, mas Bel tinha uma festa de aniversário para ir, de uma menina do primeiro ano.

Então, Lia perguntou se as duas poderiam lanchar na Lavandário na tarde de sábado, para compensar. Bel concordou. E esse foi o ponto alto da semana.

Lia já estava na cama, na sexta à noite, pronta pra dormir, quando uma mensagem chegou em seu celular.

Acordada?” perguntava Marco.

Não muito. Por quê?

Nada. Só queria conversar

O Nicolas está ocupado?” ela começou a apagar essa mensagem, mas não se conteve, e apertou enviar.

Achei que a gente tinha resolvido isso

Resolvemos. Só fiquei pensando

Não sei o que ele está fazendo” respondeu Marco, e uma segunda mensagem dele chegou depois de alguns minutos: “Ele não é minha primeira opção, e você não é a segunda. Não existe um pódio. Só existe eu passando tempo alternado com as pessoas que eu gosto

Tá bom, deixa pra lá” enviou Lia.

Tô com saudade

Marco, a gente se viu hoje cedo!

Eu sei, mas minha saudade não passou. Será que a gente podia passar um tempo juntos amanhã?

Não dá, vou sair com a Anabel

Domingo?

Tá bom. O que você tem em mente?

Surpresa”, respondeu ele.

Lá vem

Haha. Te vejo domingo. Boa noite, dorme bem

Valeu. Vc também”.

Lia não sabia se realmente queria passar tempo com Marco ou não. Uma parte dela nunca se cansava da companhia dele, e o queria por perto o tempo todo. A outra parte sentia ciúmes, e achava que se não podia tê-lo por inteiro, era melhor nem ter.

Lia não queria se sentir assim, ela realmente gostava muito de Marco, e queria que seus sentimentos em relação e ele fossem somente bons, mas não conseguia calar aquela pequena vozinha interior que dizia que ela estava fazendo papel de trouxa, e que deveria seguir o conselho que sempre dera para Anabel, e esquecer de vez esse menino.

Lia ponderou essas coisas até pegar no sono, e, claramente, sonhou com ele. No sonho Marco estava lindo, como sempre, e vestia branco. O sol iluminava o rosto dele de um jeito celestial, e seu rosto parecia mais maduro, porque eles agora tinham dezenove anos, estavam de mudança para a capital e iam morar juntos.

Precisamente, o sonho acontecia quando o carro deles chegava na porta de sua casa nova, e eles começavam a tirar seus pertences do porta-malas.


🥪🥪🥪


Lia se sentia um tanto quanto miserável no sábado. Desse modo, se arrumou da melhor maneira possível, para ver se sentir-se linda melhoraria seu humor. Ela lavou os cabelos, hidratou-os rapidamente e modelou os cachos com esmero.

Fez uma maquiagem, daquele tipo que apesar de ter vinte camadas, tem o intuito de parecer que você já acordou assim, e vestiu sua roupa favorita: um vestido de saia rodada cor-de-rosa, com estampa de flores também cor-de-rosas, só que de um tom mais claro, e suas botas marrons de cadarço.

Andou confiante até a lanchonete, convencendo-se de que nada estragaria seu dia.

— Vai pra onde, querida? — Anabel gritou, quando a viu cruzar a porta, da última mesa, a que elas sempre ocupavam.

Bel usava uma camiseta branca cortada na altura da cintura, com a barra enrolando pra fora, pela falta de uma costura de acabamento, e as mangas grandes demais dobradas algumas vezes, um short jeans de cós alto, e tênis brancos.

Seu cabelo estava torcido e preso em um nó, e duas argolas prateadas pendiam de suas orelhas. Estava sem maquiagem, somente com um resto de rímel da noite anterior, e haviam bolsas sob seus olhos, como se não tivesse dormido muito. Ela parecia meio acabada, mas ainda assim estava linda de morrer.

No chão, a seus pés, repousava uma mochila de couro preta, que provavelmente também compunha o visual.

— Hoje é um dia ruim, Bel. Por isso a super produção — explicou Lia, sentando-se de frente para a amiga.

— Marco, Marco, Marco — cantarolou ela, acusadora.

— Quem é Marco? — Perguntou um cara, que surgiu, tipo, do nada com um copo grande de suco de laranja, da máquina automática, no qual cubos de gelo e um canudo flutuavam em cima.

— Ah, ninguém. Um menino da escola — respondeu Bel, e Lia olhou confusa de um para o outro. O cara sentou-se ao lado de Anabel, na maior naturalidade.

— Não sei se você lembra do meu primo, Theo — esclareceu Bel, vendo a expressão da amiga.

— Theo, aquele que era magrelo, baixinho e insuportável?

— Ei! — interrompeu o dito cara. — Delicada como sempre, hein Lia.

Bom, ele ainda era meio baixinho e magrelo, só que agora não tinha mais aquela aparência de “minhoca desnutrida”, como elas costumavam implicar com ele na infância. Agora ele era até bonitinho, pra falar a verdade. Parecia uma versão adolescente e melhorada do Bruno Mars.

Theo também morava em Campestre quando era mais novo, e os três estudavam na mesma escola, mas já fazia uns bons anos que ele havia se mudado, e eles todos meio que perderam o contato.

— Sabe como é, velhos hábitos nunca mudam — ela respondeu, divertida. — Uau, há quanto tempo você não vinha visitar suas primas? Nem te reconheci.

— Uns sete anos, talvez? — ele arriscou. — Você também está bem diferente do que eu lembrava. Na minha cabeça seus dentes eram iguais aos da Mônica e você era branca como uma lagartixa de parede — disse ele, rindo.

— Que fofo. Você é mesmo um deleite — replicou Lia.

— Bom ver que vocês dois ainda se amam — Anabel entrou na conversa. Logo em seguida Susana chegou com os pedidos deles.

— Lia, a Anabel pediu pra você — contou ela, e colocou na mesa um prato com um queijo quente e um corpo de suco de abacaxi com hortelã. Bel tinha pedido uma salada de macarrão, e Theo pediu uma porção de fritas, que veio em um cone de papel colorido.

Susana sinalizou para uma das outras garçonetes que faria uma pausa, e sentou-se ao lado de Lia.

— Theo, você chegou! — cumprimentou o primo, animada. — E aí, o que anda rolando?

— Ah, sabe como é. Nada demais. Na verdade, Susan, eu queria conversar com você depois, se possível. Coisas de família.

— Uhhh “coisas de família” — imitou Anabel, como se ainda tivesse nove anos. Theo riu.

— Não é grande coisa, Bel, só assunto para os mais velhos.

— Você só tem dezesseis anos, Theo! Larga de ser ridículo — ralhou Bel, e ele riu.

— Você vai ficar até que dia? — Perguntou Susana. 

— Segunda ou terça, provavelmente.

— Você vai matar aula? — Quis saber Anabel.

— Talvez.

— Que péssimo exemplo para os mais novos — brincou ela.

Os quatro lancharam e conversaram sobre a vida de Theo, como era a escola dele, e o que seus pais andavam fazendo, e esse tipo de coisa. Quando acabaram de comer, Susana pediu para Anabel ajudá-la a tirar a mesa, e as duas saíram com as bandejas. Theo contornou a mesa, e sentou-se ao lado de Lia.

— Lia, me conte mais sobre você... Ainda gosta de minhocas? — Perguntou ele, revivendo uma antiga zoação sobre o fato de uma vez, na quarta série, ela ter cultivado um minhocário para um projeto de ciências. Só que depois que o projeto acabou, ela continuou cuidando delas, porque criou um certo tipo de afeição por elas, como se fossem bichinhos de estimação.

Lia olhou para ele com ódio fingido no olhar, mas acabou rindo.

— Bem que você queria, Minhoca Desnutrida!

Theo espichou língua pra ela, exatamente como fazia quando criança.

— Falando sério agora — continuou ele. — Você tá muito bonita.

— Pra uma menina que era “assombrosa” eu não estou nada mal, né?

Theo gargalhou.

— Você sabe que eu só te chamava assim pra implicar.

— Bom, parabéns. Você cumpriu o objetivo de me deixar insegura com a minha aparência por muitos e muitos anos. Espero que esteja satisfeito.

A troca de implicâncias entre os dois começou a se parecer bastante com um flerte, especialmente por causa da expressão corporal de Theo, que tinha um dos braços apoiado no banco, quase em torno de Lia, e as pernas abertas de forma despojada.

Lia, sem perceber, dava pequenos tapinhas no braço dele enquanto conversavam. Ela estava se divertindo com essa troca de farpas, e sabia disso. Os dois estavam rindo, e seus rostos estavam bastante próximos e corados quando o sininho da porta tiritou. Por instinto, ambos olharam, e um Marco distraído passou pela porta, e congelou o olhar neles.

— Oi — cumprimentou ele, sem jeito.

— Marco! — exclamou Lia.

— Ah, então esse é aquele tal Marco? — Theo concluiu.

— Tal? Vocês estavam falando de mim?

— Anabel pode ou não ter mencionado seu nome mais cedo — explicou Lia, constrangida. — Quer sentar com a gente?

— Tá bom.

Nesse momento, Susana e Anabel voltaram da cozinha.

— Marco, você por aqui! — Disse Anabel, olhando divertida de Lia para Theo, que continuava com o braço em torno dela. — Isso vai ser interessante — concluiu.

Ah, o que seria de uma boa história sem um quadrângulo amoroso hahaha

Pra quem não lembra do Theo, lá vai a imagem dele:

Fofinho, né?

Vcs acham que esse shipp vai rolar?

Vcs são team #Larco ou team #Thia?
😂😂😂

Nos vemos na semana que vem ❤️

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