12: Crise de choro na Lavandário
A confusão toda fez Susana voltar sua atenção para eles, e ela veio correndo para a mesa onde estavam, para checar se estava tudo bem.
— Bel, não precisa ficar assim, eu limpo — ofereceu docemente, indo até o balcão pegar um pano.
Anabel não conseguiu mais se conter, e as lágrimas escorreram pelo seu rosto. Foi um momento extremamente humilhante para ela, que odiava que qualquer pessoa a visse chorando.
Quantas vezes foi para casa com a garganta inchada de soluços reprimidos durante um dia inteiro, esperando para desabar quando estivesse protegida pela solidão das quatro paredes do seu quarto.
E agora a barreira se rompera ali, na frente de Susana. Na frente de Renan! Esse era um forte candidato a pior dia de sua vida.
Mas é que ela não aguentava mais. Tinha sido a primeira a ter pesadelos, e não contou para ninguém, aguentou firme, passou por tudo sozinha. Foram duas semanas de terror noturno incessante, calada.
Lia tinha procurado Marco quando isso aconteceu com ela. Até Susana tinha procurado Lia. Somente Anabel não compartilhou com ninguém o esgotamento que sentia. Entretanto, aquela tinha sido a gota d’água.
Não podia mais guardar o que estava sentindo consigo mesma, e, por esse motivo, desabou. Sentou-se novamente no banco, apoiou a cabeça nas mãos, e soluçou, humilhada.
— Não precisa ficar assim, Anabel, não foi nada — Renan tentou consolá-la. — Eu nem gostava tanto dessa calça — brincou.
Anabel ergueu o olhar para ele, suas bochechas molhadas brilhavam, e os olhos estavam marejados; ao vê-lo, e pensar que a situação mais terrível que jamais havia imaginado estava de fato acontecendo, recomeçou a soluçar.
Renan contornou a mesa para ir para perto dela, por isso, Lia levantou-se e abriu passagem para ele, que se sentou ao lado de Anabel, e passou um braço desajeitadamente por seus ombros.
Susana voltou com o pano e se pôs a limpar o sorvete derramado. Ao terminar, ela e Lia se distanciaram alguns passos, dando espaço para Bel pôr tudo pra fora.
Ela só se recompôs depois de uma boa meia hora, em que Renan permaneceu fielmente a seu lado, sussurrando “tá tudo bem” de tempos em tempos.
Enxugou as lágrimas do queixo e assoou o nariz num guardanapo. Lia e Susana se reaproximaram, e sentaram no banco de frente.
— Tem uma coisa que eu não te contei — disse Lia, se dirigindo a Renan. De início, ela não pretendia revelar o envolvimento de Anabel na história, mas, dadas as circunstâncias, se tornou inevitável.
Renan encarou-a, curioso e meio perdido na situação.
— Eu não sou a única pessoa tendo pesadelos. A Bel e a Susana também.
Ele não disse nada, apenas continuou parado, com uma das mãos nas costas de Anabel e a outra apoiada sobre a perna, e a expressão neutra.
— Se isso não foi o suficiente pra você, tem mais: a criatura que aparece nos nossos sonhos é a mesma que você descreveu. Corpo feito de galhos, cheiro de morte, inspira um profundo pavor e devora corações nas horas vagas.
Agora sua expressão estava aturdida. Ele abria a boca para falar alguma coisa, mas fechava de volta ao não saber quais palavras usar.
— É, eu sei. Todas nós tivemos a mesma reação ao saber que não éramos as únicas — continuou ela. — O nome dele é Khalifawe. É tudo o que sabemos.
— Há quanto tempo? — perguntou ele, por fim.
— Duas semanas para a Anabel e a Susana, uma para mim. Aquele dia que você me surpreendeu no intervalo foi a minha primeira vez. E desde então, foi só ladeira abaixo.
Lia contou toda a história para ele. Como Susana foi a primeira a mencionar o assunto, e como as três descobriram o segredo uma da outra. Contou sobre a história que Susana começou a escrever, e sobre o desenho de Anabel.
Contou até sobre aparecer inteira suja na porta de Marco na manhã do dia anterior. Só deixou de fora a parte em que os dois ficaram, que não tinha nenhuma relevância nos acontecimentos.
Quando terminou, Renan esfregava a cabeça sem parar.
— Acho que as coisas não foram tão ruins assim no meu caso — contou ele — nos meus sonhos eu não conseguia distinguir a forma da criatura nem nada, ela aparecia pra mim como uma espécie de vulto. Mas eu sentia. Eu sentia tão forte a presença dela, que dentro do meu coração eu sabia o que ele queria.
— Você tentou fazer o mesmo que eu — manifestou-se Susana. — Colocar seus sentimentos no papel, como forma de exteriorizá-los. Mas ainda não deu certo pra mim. Vocês podem me esperar um pouco?
Ela se levantou, foi até a garçonete que tinha atendido as meninas mais cedo e conversou algo com ela baixinho, gesticulando e apontando discretamente para Anabel. A outra assentiu, e Susana voltou, anunciando que seu expediente tinha acabado, e eles poderiam todos ir para casa.
— Será que vocês poderiam ir comigo? — Pediu Lia, e em seguida explicou toda a história da viagem de sua mãe e de como não queria ficar só num momento como aquele. Todos concordaram, até Renan, que também não tinha a menor vontade de ficar sozinho. Quando estavam saindo da loja, Lia sussurrou no ouvido de Anabel:
— Cuidado com o que você deseja — e as duas riram uma para a outra.
Os quatro caminharam silenciosamente, e ao chegarem na porta da casa de Lia, se depararam com Marco, sentado no meio-fio.
Uma sombra arroxeada muito leve começava a aparecer sob seus olhos. Ele levantou a cabeça, quando ouviu o barulho dos passos deles se aproximando.
— Eu também vi — confessou ele para Lia.
😈😈😈
O sonho de Marco foi exatamente como o de todos eles. Ele se via num lugar escuro e selvagem, e uma forma indistinta se aproximava dele cada vez mais.
A única diferença entre os sonhos deles, é que Susana via um desenho sendo formado com as gotas de seu sangue, Lia via seu coração sendo arrancado, e Renan não via nada, mas ouvia sussurros incessantes contando coisas horríveis sobre o Khalifawe, e o que ele era capaz de fazer.
Já Marco, sonhava com seu corpo sendo queimado, e Anabel ouvia gritos e lamúrios humanos de dor e tristeza.
Os cinco não queriam realmente compartilhar essa experiência, mas de certa forma sentiam que não tinham escolha.
Como Lia disse para Marco no outro dia, de todo jeito era ruim. Não importa o que eles fizessem, só conseguiam se sentir cada vez pior. A vontade de cada um deles era de simplesmente procurar conforto, qualquer que fosse, e diante disso, todos estavam meio abraçados, meio aconchegados uns nos outros, tentando desesperadamente se sentir melhor.
Exceto por cada um compartilhar o que tinha experienciado no sonho, nenhum deles falou muito. Eles simplesmente ficaram ali, juntos, cada um tentando pensar em alguma coisa mais alegre, porém sem sucesso. Até que, de repente, Susana quebrou o silêncio:
— E se a gente seguisse o primeiro plano? — Todos olharam para ela sem saber ao certo sobre o que estava falando. — Bem, tudo isso começou quando eu pedi ajuda pra Lia pra escrever um texto que criasse em mim a motivação pra vencer esse bicho. Eu não consegui, realmente, mas talvez a gente pudesse fazer algo do tipo juntos. Talvez a gente pudesse meio que criar uma versão destrutível dele...
Nenhum deles estava muito certo quanto ao sucesso dessa ideia. Mas, na falta de algo melhor, decidiram dar uma chance.
— A gente vai escrever uma história? — questionou Lia.
— Eu tô pensando em algo mais interessante — respondeu Anabel. — E se a gente fosse um pouco mais literal?
— Tipo o quê? — quis saber Renan.
— E se a gente fosse pro Bosque, construísse uma espécie de boneco representando o Khalifawe, e depois destruísse ele?
Todos pensaram a respeito.
— É, não parece uma ideia tão ruim — apoiou Marco. — As coisas não podem ficar piores, podem?
— Claro que podem! — Interveio Susana. — As coisas sempre podem piorar.
— Eu acho que vale a tentativa — opinou Lia — melhor do que ficar sentados aqui sem fazer nada, esperando a noite chegar, e com ela o Khalifawe.
Lia tinha razão. Fazer qualquer coisa era melhor do que não fazer nada, portanto, os cinco foram até o quintal de Lia, pularam a cerca de arame, e entraram no Bosque.
Eles andaram por um tempo, mas, diferente do Bosque do sonho, aquele era familiar. Lia e Bel andavam por lá de vez em quando, e tudo parecia calmo e tranquilo, como em qualquer outro pedaço de mato.
Havia terra, havia verde, haviam galhos, insetos, e tudo o mais que a natureza pode oferecer. Eles não sabiam muito bem onde fazer o pequeno ritual que planejavam, por esse motivo, continuaram simplesmente andando, sem saber muito como proceder.
Eles andaram por bastante tempo, até se depararem com um buraco grande no chão, grande e fundo o suficiente para se enterrar uma pessoa. A única diferença para as covas de cemitério, é que elas eram cavadas especialmente para isso, e, portanto, tinham as bordas simétricas e bem definidas, enquanto que esse era um buraco irregular, como se uma grande árvore tivesse sido arrancada, e suas raízes tivessem sido puxadas das profundezas da terra para fora, deixando um imenso espaço oco para trás.
Os cinco pararam na borda e olharam para o fundo, onde não havia nada além de terra e algumas folhas secas. A expressão do rosto de Anabel se transformou em reflexiva, e ela começou a olhar em volta, como que reconhecendo o lugar.
— Lia, a gente já veio aqui antes? — Perguntou para a amiga.
— Tenho quase certeza de que foi nesse buraco que você tropeçou no outro dia — lembrou-se Lia, sem entender nada.
Vocês, como a Bel, também odeiam chorar em público? Eu sim 😩
Ps: esse espaço é reservado para teorias da conspiração, jogue a sua aqui!
Obrigada por acompanhar minha história, sua presença aqui é importante pra mim ❤️
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