11: Mais uma vítima
Anabel chegou na casa de Lia, com sua mochila nas costas, quase ao anoitecer, e cruzou com Marco no portão. Ele a cumprimentou alegremente, e seguiu para sua casa. Bel fixou o olhar em sua melhor amiga, exigindo explicações, e Lia fez sinal para que ela entrasse.
- Então não tem nada entre vocês, hein?
- Bel, se eu te contar, você não vai acreditar.
- Ele tava de pijama! Pijama!
E assim Lia contou tudo para ela, desde o sonho, até os trilhões de beijos.
- Sua desgraçada sortuda - constatou Anabel ao fim do relato.
- Você ouviu a parte sobre ter meu coração arrancado e comido?
- Ah, qual é. Valeu a pena.
- Bel, sua louca!
- Seu coração passa bem, obrigado. Melhor até do que antes. Antes isso tivesse acontecido comigo e com o Renan.
Realmente era uma novidade que algo tivesse acontecido primeiro com Lia. Se há alguns dias alguém lhe contasse que ela passaria por essa experiência primeiro, e com Marco, ela nunca acreditaria.
Mas era impressionante como a vida podia mudar de uma hora para a outra, e como algumas situações nos faziam crescer tanto, em tão pouco tempo.
- Você nunca vai desencanar disso, vai? - questionou Lia.
- Olha, eu bem que tento. Mas a gente não decide essas coisas, né. Fazer o quê. Mas então... Ele beija bem?
- Eu sei lá! Eu não tenho nada pra comparar. Mas eu me senti bem, muito, muito bem. Na verdade, eu nem me lembro da última vez em que eu consegui simplesmente viver um dia, sem pensar em mais nada. Sem problemas para refletir a respeito... Foi um dia perfeito.
Anabel abraçou sua amiga, feliz que as coisas estavam indo bem para pelo menos uma delas, suas bochechas ficando esmagadas uma contra a outra.
As duas continuaram fofocando até de madrugada, sobre a escola e a vida dos outros amigos de Anabel, até que ela não aguentou mais, e acabou dormindo.
Lia, então, pegou seu diário para relatar os eventos importantes do dia, mas pegou no sono, com a caneta entre os dedos, e mão sobre a página incompleta.
🧁🧁🧁
Os fins-de-semana em uma cidade de interior são sempre parados. As ruas ficam desertas, e todos os carros repousam em suas garagens. O silêncio predomina, especialmente no domingo, que é o dia oficial de descansar antes do início de uma nova semana repleta de afazeres.
Lia e Anabel não tinham nada específico planejado para aquele dia, mas já que tinham passado o dia anterior sem fazer nada, decidiram ir até a lanchonete onde Susana trabalhava para comer alguma coisa e andar à toa. A "Lavandário", como se chamava, não era o lugar mais animado ou mais requisitado da cidade.
A maioria dos outros adolescentes preferia frequentar lugares mais ao centro da cidade, onde os carros passavam com mais frequência, e havia "mais agito".
Mas, além da irmã de Bel sempre dar coisas de graça para elas, e descontos especiais, as duas gostavam do jeitinho fofo do lugar, das plantinhas sintéticas em vasos ornamentados, do amarelo alegre e caloroso contrastando com o lilás suave e tranquilo, das mesas com bancos inteiros, como dois sofás um de frente pro outro, e das comidas caseiras, sempre com sabor de comida de verdade, e não apenas de industrializado.
Os melhores pães de queijo eram servidos lá, e, inclusive, eles tinham uma versão recheada, que era parecida com uma mini pizza, mas no lugar da massa comum, vinha um pão de queijo achatado com presunto, queijo, tomate, e orégano por cima.
Além disso, eles eram a única lanchonete da cidade a servir milk-shake em taças de vidro altas com chantilly e uma cereja no topo, ao invés dos típicos copos de plástico com tampa, canudo, e a logomarca da empresa estampada.
O milk-shake deles até era feito com sorvete de verdade, e não apenas um pozinho diluído no leite.
Lia e Anabel frequentavam aquele lugar muito antes de Susana ter idade suficiente para trabalhar, quando a mãe delas era viva, e junto com Estela levavam as filhas para tomar sorvete e comer queijo quente e pipoca cor-de-rosa.
Anabel ainda tinha guardadas algumas fotos das duas, de saia de pregas e botas, fazendo uma pose com a mão na cintura na porta da lanchonete, os rostos iluminados pelo letreiro roxo em neon.
As duas tinham acabado de atravessar a porta quando o celular de Lia apitou.
Era uma mensagem de Renan, perguntando se ela estava bem. Antes que ela pudesse responder, uma segunda mensagem chegou, perguntando se ela estava fazendo alguma coisa, e se era ok ele passar na casa dela para conversarem sobre a história em que iam trabalhar juntos.
Lia respondeu que ela e Anabel estavam na Lavandário, e que ele poderia se encontrar com elas, se quisesse. Susana estava no caixa naquele dia, e as cumprimentou com um aceno.
Instantaneamente uma outra moça anotou seus pedidos: um sundae de pistache, chocolate e maracujá para Anabel, que gostava de fazer as combinações mais estranhas possíveis, e um queijo quente com suco de abacaxi com hortelã para Lia, que quase sempre pedia a mesma coisa.
Só depois que a garçonete saiu com seu bloquinho na mão, é que a resposta de Renan chegou, e era um simples "ok". Não havia mais nenhum cliente ali; devido a isso, a comida delas só levou o tempo de preparação, que foi de poucos minutos, para chegar.
O pão de Lia já estava pela metade, e Anabel já tinha tomado a primeira bola de sorvete, quando os sininhos da porta ressoaram, as duas olharam na direção da porta, e viram Renan entrar.
Ele não levava o skate naquele dia, e usava uma camisa xadrez de verde, com botões, de mangas curtas, que parecia meio larga nele. Provavelmente era esse o estilo da indumentária. Sob o reflexo da luz do sol, seu cabelo parecia louro.
Ele deu uma olhada rápida pelo lugar, e logo localizou as meninas sentadas numa mesa mais ao fundo. Caminhou até elas, e sentou-se no banco vazio em frente às duas, que estavam sentadas lado-a-lado no outro.
- E aí? - Perguntou Lia, casualmente.
Anabel encarava seu sorvete, no terrível dilema entre olhar para ele e parecer que o estava encarando, e não olhar, e parecer que evitava observá-lo de propósito.
- Você sumiu - acusou Renan. Se Anabel, que já tinha se apresentado diante de milhares de pessoas, estava envergonhada e sem reação, quanto mais Renan, que já era assim na vida cotidiana.
- Eu sei, desculpa. Eu não ando me sentindo muito bem recentemente.
- Tem algo errado?
Os olhares das duas amigas se cruzaram, trocando o pensamento de que tudo estava errado, e não havia nem por onde começar nessa história bizarra. Renan percebeu que coisas não ditas estavam sendo trocadas pelas duas, e apressou-se em dizer:
- Tudo bem se você não quiser contar. Eu só fiquei preocupado. Da última vez que nos falamos, você não parecia nada bem, e depois não te vi mais.
- É que... Não sei. Acho que depois daquela cena na escola eu fiquei meio constrangida de te mandar mensagem. Não era pra você ter visto nada daquilo. Mas em geral, tá tudo bem. Não é nada com você, ou coisa assim.
- A Lia tá um pouco estressada - interveio Anabel.
Renan olhou para ela e não conseguiu disfarçar o rubor que chegava até suas orelhas. Anabel esboçou um projeto de sorriso meigo em resposta.
- É - prosseguiu Lia. - Se eu te contar um segredo, você promete não contar pra mais ninguém? - Ao ouvir essa frase, os olhos de Bel se arregalaram um pouco, como se dissesse para a amiga que ela não podia contar a verdade para ele.
- Eu continuo tendo pesadelos - confessou ela, deixando de fora a parte sobre Anabel e Susana - que nem naquele dia na escola. O mesmo sonho se repete, noite após noite, cada vez mais vívido.
O olhar de Renan era sério e penetrante.
- Seria bizarro se eu dissesse que eu também tenho tido uns pesadelos? - contou ele.
Os olhos de Bel se arregalaram ainda mais, e ela olhou de Lia para Susana, que estava entretida anotando alguma coisa, e de volta para Lia, entrando levemente em pânico.
- Sério? - Perguntou Lia, tentando disfarçar. - O que acontece?
- Então, lembra que eu tinha sugerido da gente colocar alguns personagens na sua história, e tal? - Lia assentiu em resposta. - Eu criei um vilão, baseado na criatura dos meus sonhos. Mas não precisamos incluir ele, se você não quiser.
Do lado de cá da mesa, as meninas estavam paralisadas, como que prevendo o que viria a seguir. Ao notar o silêncio de Lia, Renan continuou:
- Esse personagem seria um monstro, tipo, mitológico, que se alimenta da vontade de viver das pessoas, transformando-as em zumbis. Figurativamente. Bom, como a ideia surgiu pra mim num sonho, pensei que ele poderia agir no inconsciente das pessoas, aparecendo em sonhos, e fazendo com que as pessoas não conseguissem descansar, e a energia delas fosse se esgotando, até que elas morressem.
A essa altura, Anabel estava catatônica. Levantou-se do banco de uma vez, esbarrou no tampo da mesa, e sua taça de vidro virou, entornando o que restava do sorvete, que se espalhou em uma grande poça melada, escorreu na direção de Renan, e pingou fartamente em seu colo.
Ele também se levantou, pegou um guardanapo e tentou conter o estrago, mas já era tarde demais, e vários círculos marrons respingados mancharam sua calça jeans de lavagem clara.
- De-desculpa - gaguejou Anabel, à beira das lágrimas.
A semana passou voando pra mim, e pra vocês?
Já postei nosso capítulo logo cedo, pra começarmos bem o dia!
Espero que vocês tenham um domingo incrível e uma semana feliz ❤️
Menção honrosa
Gostaria de agradecer à
por estarem acompanhando essa história! A presença de vocês aqui é muito especial pra mim 💕
Contem comigo pra tudo!!!
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