10: Outros tipos de coisas do coração
Já em seu quarto, Lia vestiu um par de shorts de moletom e meias. Na parte de cima, continuou com a camisa folgada de Marco. Abriu a porta e o convidou para dentro. Os dois não disseram nada mais.
Lia tinha a sensação de que não conseguia se sentir aquecida o suficiente, por isso, deitou-se na cama e puxou as cobertas até o queixo. Marco sentou-se na beirada da cama, ao seu lado.
— Não acredito que eu te acordei antes das sete num sábado — disse Lia, cujo rosto era um pontinho mergulhado num mar de tecidos.
— Poderia acontecer com qualquer um.
— Você pode deitar, se quiser — autorizou ela. — É o mínimo que eu poderia fazer, depois de tudo.
Marco tirou os sapatos cuidadosamente, se deitou de frente para ela, e os dois ficaram se olhando em silêncio.
— Você vai me contar o que aconteceu? — Ele perguntou, depois de um tempo.
— Não sei. Não quero realmente falar sobre isso, mas sinto que eu te devo uma explicação.
— Não, Lia, você não me deve nada. Eu só estou curioso. E preocupado, também.
— Pra te falar a verdade, nem eu sei o que aconteceu. Eu peguei no sono ontem pensando em como meu fim-de-semana de ociosidade seria incrível, e em todas as coisas que eu não faria, e, de repente, começa esse sonho, com lama, e sangue, e uma floresta... E... Tudo pareceu tão real... E a próxima coisa de que eu me lembro, sou eu na sua casa essa manhã.
— Ou seja, você é sonâmbula.
— Bem, eu não era, até ontem à noite.
— Bizarro.
— Nem me fale.
— Você disse que sua mãe viajou?
— Sim. Não sei se eu já mencionei, mas ela é costureira-barra-estilista, e foi pra um evento de moda na capital. Um simpósio, ou algo assim. Saiu ontem à tarde.
— E você vai passar o fim-de-semana inteiro sozinha?
— É, eu planejava chamar a Anabel pra vir pra cá qualquer hora.
— Bom, porque não é uma boa ideia você dormir sozinha hoje.
— Ha — riu ela. — Nesse assunto a Bel não vai ajudar em nada. Talvez até piore.
— Por quê?
— Marco... Você quer realmente se enfiar no meio disso?
— Lia... — Ele imitou o tom de voz dela. — Você não acha que é meio tarde pra essa pergunta?
Lia suspirou, chateada.
— Ok. Mas no futuro, quando você lembrar desse momento, tenha em mente que eu te dei uma última escolha. Bom... Lá vai: eu, a Anabel e a Susana estamos tendo o mesmo sonho. Começou com as meninas, na semana em que eu te conheci. E agora, eu também. No sonho existe essa criatura feita de galhos e puro mal, chamada Khalifawe. Só que durante o sonho a gente não tem a menor ideia de que é só um sonho, como na maioria dos sonhos comuns. Na hora, todos os seus sentidos acreditam na veracidade daquela situação.
Marco ficou em silêncio, sem saber como reagir.
— Então a Anabel tem os mesmos sonhos?
— É. E irmã dela, Susana, também.
— E vocês já falaram sobre isso?
— Já, mas só piorou tudo. Quanto mais a gente fala disso, pior fica. Na verdade, essa é uma daquelas situações “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. Quase que literalmente. Se a gente fala sobre isso, as coisas ficam ruins, se não falamos, ficam piores. Nenhuma de nós sabe bem como agir.
Marco bocejou. Seus olhos piscavam lentamente, quase se fechando de vez.
— Você pode dormir, se quiser.
— E você? Vai ficar aí me encarando?
— Não sei se eu quero voltar a dormir. Tudo pode começar de novo.
— Você vai ter que dormir em algum momento, Lia. Melhor que seja enquanto eu estou aqui — sem pensar muito, Marco puxou o corpo de Lia para perto de si, e aninhou a cabeça dela em seu ombro, acariciando de leve seus cabelos.
Lia nunca tinha estado tão próxima de um menino antes, e não pode impedir sua respiração de ficar ofegante, e nem seu coração de acelerar. Bom, pelo menos ela ainda tinha um.
O abraço de Marco era tão confortável, e era tão bom ter alguém ali, velando pelo seu sono, que depois de um tempo sua pulsação se normalizou, seus olhos pesaram, e ela acabou pegando no sono outra vez. Felizmente, dessa vez não sonhou nada.
Quando acordou, a luz do sol era filtrada por sua cortina, deixando o quarto o mais claro que ele ficava no dia. Então devia ser por volta do meio-dia. Continuava na mesma posição de quando pegou no sono, com a cabeça sobre o ombro de Marco, que ainda dormia, e um dos braços descansando sobre seu peito.
Ela permaneceu ali, sentindo seu fôlego entrando e saindo, por um bom tempo, até que ele se mexeu um pouco, e abriu os olhos.
— Sabia que você faria isso. Bizarro — murmurou ele.
Lia riu.
— Qual é. Faz cinco segundos que eu acordei — ela se defendeu, mas, na verdade, fazia um pouco mais.
— E aí? O que a gente faz agora? — Marco questionou.
— Continua assim?
Um sorriso se abriu no rosto dele.
— Você tem alguma coisa pra fazer hoje? — Quis saber Lia.
— Não, especificamente. Só as coisas da escola. E as coisas normais da vida.
— Eu tava pensando... Se você não tivesse nada pra fazer... Você podia passar o dia comigo — sugeriu ela, e seu coração recomeçou a bater descontrolado.
— E fazer todas as coisas empolgantes que você planejou pra hoje? — ironizou ele, rindo. Lia riu de volta e afastou um cacho de cabelo que caiu sobre a testa dele.
Os dois se olharam demoradamente. Ela podia sentir, sob seu braço, que o coração dele batia tão forte quanto o seu.
Pensando racionalmente, toda aquela situação era bastante estranha, considerando que os dois só se conheciam há duas semanas. Mas é que... Era tão fácil conversar com Marco!
Ela nunca se sentia inadequada, e os dois sempre riam muito. O fato dela ir parar na casa dele essa manhã, por si só, significava algo. Antes de tudo isso, já existia um tipo de confiança especial entre eles, mas agora que dividiu com ele seu maior segredo, e que ele participou de uma situação tão constrangedora para ela, era como se um véu tivesse caído entre eles, e eles estivessem agora mais próximos emocionalmente do que nunca.
Mais próximos do que ela jamais estivera com qualquer pessoa, à exceção de Anabel. E, por estranho que fosse, a vida às vezes tinha situações inexplicáveis assim, fazer o quê.
Seu rosto se aproximou calmamente do dele, e seus lábios roçaram os dele com suavidade. Ela não tinha ideia do que estava fazendo, não havia planejado uma coisa daquelas nem em seus sonhos mais malucos. Era só uma onda de sentimento avassalador que a fez agir impulsivamente, capturada pela força do momento.
Marco quis perguntar se ela tinha certeza do que estava fazendo, mas não disse nada, com medo de quebrar o momento, e ele se perder para sempre. Ao invés disso, apenas se aproximou ainda mais dela e pressionou seus lábios com mais força nos dela.
Lia nunca tinha beijado ninguém antes, e, portanto, não sabia exatamente o que fazer. Mas, ao que tudo indicava, seu próprio corpo sabia, pois seus lábios se abriram devagar para receber os de Marco, e os dois pares de lábios se acariciaram por um tempo, até que o beijo se abriu um pouco mais, e mais, até que suas línguas estivessem entrelaçadas.
Lia levou a mão até a parte de trás da cabeça dele, e afundou os dedos em seus cabelos, puxando-os com delicadeza. Ele, por sua vez, segurava o rosto de Lia entre as mãos; depois, desceu-as até a cintura dela, e apertou com firmeza, porém, gentilmente. Os dois se beijaram por muito tempo, até que os músculos em volta de suas bocas ficassem doloridos.
— Agora sim o dia vai ficar interessante — disse ele, recuperando o fôlego.
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Depois de uma segunda sessão de beijos, Lia decidiu ir tomar um banho, e Marco foi pra sala e ligou a TV. Ela queria, se possível, ensaboar, esfregar e enxaguar a própria alma.
Se sentia renovada pelos sentimentos bons das últimas horas, mas as pequenas manchas de terra aqui e ali em seu corpo a lembravam do terrível sonho – se é que tinha sido um.
— Marco, quer fazer hidratação no cabelo comigo? — Ela perguntou, do banheiro. Alguns segundos depois, já vestida, foi até a sala, com os cabelos pingando no chão atrás de si, e disse: — Eu planejava fazer isso com a Anabel... Mas você serve.
— Bom saber que eu sou tão bom substituto para a Anabel.
— Deixa de ser bobo. Pelo menos seu cabelo também é cacheado. A Bel nunca vai entender nossa dor.
— E como seria isso, exatamente?
— Bom, primeiro você molha a cabeça. Depois eu passo meu creme, misturado com algumas coisas, no seu cabelo. Você coloca a touca, e esperamos por uma hora. Aí você enxagua.
— Uma hora? Meu Deus.
— Não é tanto tempo assim, a gente vê um filme, enquanto isso.
Marco fechou um dos olhos e franziu o rosto, numa careta de incerteza, mas acabou concordando. Molhou seus cabelos na pia do banheiro e todo o procedimento foi realizado.
Lia fez com Marco o que tinha planejado fazer sozinha. Eles hidrataram o cabelo, ficaram o dia todo de pijama, pois Marco não tinha trocado de roupa ao sair de casa, comeram nada mais do que pipoca e cereal, assistiram filmes e dormiram. A única coisa que ela não tinha planejado, mas fez aos montes, era beijar.
Eu amo esse capítulo, e vou defendê-lo!!!
Quero que vocês me contem algumas coisas!
Quem o casal mais fofo do mundo, e pq é Marco e Lia? 😂😂
Segundo: vocês acham que essa aproximação deles foi muito repentina?
Um amigo meu leu a história, e achou meio "do nada" que no capítulo 6 o Renan chega e entra no quarto da Lia de boa, e fica esperando ela lá, sendo que eles nem eram tão íntimos...
Daí nesse capítulo a Lia sugere pro Marco deitar junto com ela na maior naturalidade...
Mas, eu juro, todas essas situações são baseadas em coisas que eu vivi de verdade.
Eu cresci numa cidade de interior, como os personagens do livro, e era a coisa mais comum eu acordar com meus amigos dentro do meu quarto mexendo no meu computador!
Ou então, minha mãe entrar com algum amigo no meu quarto falando "Ester, acorda que o fulano tá aqui".
Na verdade, quando eu era mais nova, meu quarto era quase de domínio público kkkk nós fomos uma das primeiras famílias a ter computador (que ficava no meu quarto) e internet na cidade, por isso minha casa quase que virou uma lan house!
A arte imita a vida 💕
Nos vemos domingo que vem!
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