1: Anabel cai duas vezes
Lia estava de pé, parada distraidamente no meio da rua, com o som das rodinhas do skate de Renan deslizando pelo asfalto como trilha sonora de fundo, quando ouviu o barulho do shape batendo contra o meio-fio, e do corpo de Anabel desabando no chão com um baque surdo. Imediatamente olhou na direção do som.
- Bel? - gritou, preocupada, para a amiga.
Anabel com dificuldade balançou uma das mãos no ar.
- Viva. Mas nem tanto - disse, tentando sorrir, mas o meio sorriso se transformou em uma careta de dor.
Lia correu rua abaixo, em direção à melhor amiga, e ajudou-a a se levantar. Uma linha de sangue escorria a partir de seu novo ralado no joelho.
- Ai, caralho! Isso vai doer muito quando eu for tomar banho mais tarde - disse Anabel, porque ela era o tipo de garota de catorze anos que falava "caralho".
Lia jamais falava palavrões, nem quando caía e ralava o joelho. Pra ela, eram palavras que simplesmente não deslizavam pela língua. Palavras-espinho que não conseguiam sair garganta afora.
- Achei que já estivesse doendo agora! - Replicou.
- Tá mesmo. Mas mais tarde, quando estiver começando a cicatrizar e eu jogar água em cima, e reabrir a ferida, é que vai doer de verdade!
- Vamos dar o dia por encerrado, então? - questionou Lia.
Bel assentiu com a cabeça e, com muita naturalidade, passou um dos braços em volta do pescoço de Lia, o outro braço segurando o skate, e assim as duas seguiram para casa, meio mancando, se apoiando uma na outra. Elas gostavam de praticar na parte mais afastada da cidade, atrás de uma vasta área de preservação ambiental.
Há muitos anos, a avenida em que andavam dava acesso ao município vizinho, mas agora quase nunca era usada por ninguém, já que uma nova e melhorada tinha sido construída em seu lugar, diminuindo o tempo de percurso entre as cidades. Era comum que as pessoas treinassem direção e esportes lá, pois não havia trânsito para atrapalhar.
A área da reserva, mais conhecida na cidade como "O Bosque", quando olhada em um mapa, tinha mais ou menos o formato de um grande triângulo. Na face inferior dele havia uma rua extensa que crescia para os dois lados, onde ficavam as casas de Lia, do lado esquerdo e de Anabel, do lado direito, só que separadas por vários quilômetros de árvores.
Já a avenida de onde estavam vindo, saía do topo do triângulo para o lado esquerdo, e, por isso, às vezes elas atalhavam pelo interior do Bosque, que saía num ponto intermediário entre as casas das duas, ao invés de contornarem toda a extensão da reserva.
No caminho de volta Lia se perguntou se tinha sido uma boa ideia pegar emprestado o skate de Renan, em primeira instância. Anabel tinha o costume de se empolgar um pouco demais, e ela não queria que ninguém se machucasse, e nem queria devolver o skate em pedaços. Se é que devolveriam.
Passaram as férias todas com ele, e Lia não tinha caído sequer uma vez. Essa era uma das muitas coisas que ela e Anabel tinham de diferente. Ela andava com calma, sem tentar nada extravagante, pegando confiança antes de partir pra próxima etapa. Já sabia subir e descer o meio-fio, dar meia volta, o famigerado 180, e até uma volta completa. E não precisou de nenhum joelho ralado para isso.
Anabel sabia as mesmas coisas, mas tinha caído dezenas de vezes ao aprender. Mal tinha subido no shape e já inventou de descer a avenida a toda velocidade. As duas tinham meios diferentes de atingir um propósito, por assim dizer.
- Falando nisso - Anabel quebrou o silêncio, já que as duas não estavam realmente falando sobre nada. - Você viu o Renan nessas férias?
- Não. A última vez que vi ele foi quando peguei o skate. Deve fazer umas cinco semanas, sei lá.
- Será que ele não saiu de casa nem um dia?
- Olha, pelo que eu conheço dele, deve ter passado as férias inteiras jogando videogame com o irmão.
- Ah.
O tom de desapontamento era nítido na voz de Anabel. Ela tinha uma quedinha pelo Renan desde o quinto ano. Pois é. Quatro anos apaixonada em segredo por um menino com quem mal tinha conversado.
E, para sermos justos, Renan era uma péssima pessoa pra se ter uma quedinha, especialmente na adolescência, onde todo mundo já é extremamente inseguro, quanto mais uma pessoa tão tímida, e especialmente por todo esse tempo.
Renan era o menino mais tímido de todos os meninos tímidos que Lia conhecia. Daquele tipo que fica com as orelhas vermelhas quando fala com qualquer garota, nunca responde com mais de duas sílabas na mesma frase, e nunca te olha direto nos olhos.
Daqueles que por mais que você queira ser amigo, não adianta esperar mais dessa amizade do que um silêncio confortável, talvez um projeto de sorriso de canto e um olhar atravessado.
Estranhamente, ele dividia uma amizade assim com Lia. Ela era uma das únicas pessoas que conseguia se aproximar dele, mas, dadas as circunstâncias, os dois nunca realmente conversavam sobre as coisas, e tal.
Era mais algo do tipo: os dois trocavam "bom dia" no corredor do colégio, às vezes Lia fazia uma piada, e ele estava perto o suficiente pra ouvir e soltar uma risada desconfiada, ou, no máximo, os dois sentavam no sofá da casa dele e jogavam algumas rodadas de videogame.
Nem a própria Lia sabia como foram parar no ponto em que ela frequentava a casa dele. Mas sei lá. Eles tinham catorze anos, e moravam em uma cidade onde literalmente nada nunca acontecia. Bem, não literalmente, mas enfim. Nenhum adolescente tinha nada pra fazer a não ser vagar pelas ruas, entre as casas dos amigos.
Deve ter sido assim, numa tarde ociosa de andanças, que Lia foi parar na casa dele. Ou, mais provável, talvez sua mãe tivesse visitado a mãe dele, já que a maioria das mães da cidade eram amigas, e ela acabou indo junto.
De toda forma, ele nunca havia mencionado Anabel, nenhuma vez. Ele nunca tinha mencionado garota nenhuma! Lia nem tinha certeza se, algum dia, tinha de fato ouvido a voz dele, ou se a comunicação dos dois era totalmente corporal. Então, melhor seria Anabel desistir de "sondar o território". Melhor seria que ela esquecesse esse menino de vez e seguisse a vida, Lia constantemente aconselhava.
Era, entretanto, um esforço inútil. Era uma fixação além da força de vontade de qualquer uma das duas. E talvez, só talvez, fosse exatamente essa a origem da fixação: o mistério. Será que ele gostava dela? Será que ele gostava de alguém? Será que ele seria capaz de gostar de alguém, e, se sim, como tirar essa informação dele?
Lia, para ser honesta, queria deixar essa história pra lá. Se ele gostasse de alguém, uma hora iria acabar se aproximando dessa pessoa por conta própria. Não adiantava nada criar teorias da conspiração, tentar espioná-lo, ou coisa do tipo.
Não adiantava nem mesmo perguntar diretamente, porque estava claro que ele não iria abrir o coração, assim, de uma hora para a outra. Essa era uma daquelas situações sobre as quais não se tem controle, e não se pode fazer nada a respeito.
As duas estavam tão absortas em seus próprios pensamentos, que Anabel não notou um buraco no chão, no meio da terra, que era grande e fundo o suficiente apenas para encaixar sua perna até o joelho, como se fosse a toca de algum animal.
Ela pisou no buraco, sem ver, e ambas se desequilibraram e caíram. O sangue de Anabel se misturou à terra, sujando seu machucado ainda fresco, e suas roupas.
- Que ótimo - ironizou ela - eu vou chegar na escola amanhã parecendo um saco de pancada.
Lia se levantou primeiro, pois só tinha tido uma queda no dia, e ajudou a amiga a se levantar também. Elas sacudiram a terra do corpo e prosseguiram, ainda mais capengas do que antes.
Mas a parte mais irônica dessa história, não era o fato de Anabel ter levado dois tombos num espaço de tempo tão curto. Nem mesmo o fato de que ela, sendo a menina mais bonita da escola, amava em segredo o único cara que jamais demonstrou qualquer interesse em retorno.
Não, a parte mais irônica dessa história toda é que naquele momento, perdidas em seus devaneios banais, nem Lia nem Anabel tinham a menor ideia de como um evento tão simples como enfiar o pé num buraco, poderia desencadear algo muito, muito maior.
Naquele breve momento que se decorreu, as duas jamais poderiam ter imaginado como um simples acidente como aquele, mudaria para sempre o rumo de suas vidas.
***
O dia seguinte ao da fatídica queda do skate, era o dia do fatídico primeiro dia de aula do nono ano.
Ao chegar, poucos minutos antes do sinal bater, Lia se deparou com um pequeno aglomerado no corredor. Anabel estava no centro, conversando com os colegas e rindo.
Nesse dia ela usava uma saia rodada, que ela reconhecia como uma das criações de sua mãe, tênis de cano alto, e a camiseta do uniforme, com a insígnia da escola. Seu joelho ralado estava aparente, e todos pareciam interessados em como aquilo aconteceu.
Renan estava a alguns passos de distância das outras pessoas, encostado em uma pilastra, ouvindo disfarçadamente o assunto e fingindo desinteresse.
Lia balançou a cabeça quando passou por ele, em uma espécie de cumprimento, e foi correspondida com um aceno de mão discreto e algo que por um momento pareceu um sorriso, mas foi rápido demais pra saber com certeza.
A sala estava vazia quando entrou. Sentou-se no seu lugar de costume, a primeira carteira da fileira do meio, o único lugar onde conseguia enxergar bem todo o quadro.
Lia usava óculos "fundo de garrafa", e, mesmo com eles, às vezes não conseguia ter uma boa visão à distância. Ficar o mais perto possível era sempre melhor.
Até para evitar uma série de perguntas embaraçosas e seguidas sobre o que estava escrito em tal parágrafo.
Abriu sua agenda em uma página previamente marcada e começou a escrever. Minutos depois, o sinal que indicava o início da aula bateu.
E aí, me contem, o que vocês acharam do primeiro capítulo?
A Anabel vai descobrir se o Renan gosta dela ou não?
Obrigada por chegarem até aqui 💗
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