Capítulo 9 - Namorada do O'brian
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TODAS JÁ FORAM PARA CASA. Vimos o pôr do Sol e depois fomos em uma lanchonete. Compramos um bolo e todos cantaram parabéns pra mim. Foi incrível.
Ann dorme no banco de trás, enquanto Thomas estaciona o carro. Como sempre, sou a última a ser deixada.
Não fiz menção de me mover e ele não fez menção de me expulsar.
—Eu sinto muito. —dissemos ao mesmo tempo.
Soltei uma risada sem humor.
—Quer falar sobre sua irmã? —perguntei.
Ele segura o volante, olhando pra frente. Negou com a cabeça.
Assenti.
Me virei para frente e ficamos em silêncio.
—Ally. —ele me chamou.
—Hm? —despertei, o olhando.
Ele continua olhando pra frente, segurando o volante com mais força.
—Aquele dia que eu saí correndo da escola foi porque minha irmã tinha piorado. —ele disse— Érick disse que te assustou.
Suspirei. Não ia estender o assunto. Ele disse que não queria falar sobre isso.
—Você é um garoto forte, Thomas. —dessa vez ele me olhou.
—Obrigado Ally. —ele disse–— Posso te pedir algo?
—Acabou de pedir. —pisquei pra ele, em divertimento. Ele soltou uma gargalhada gostosa— Desculpa. Pode.
Ele ficou um tempo se recuperando do riso, antes de respirar fundo e olhar em meus olhos.
–Me chame de Tom. Eu... Eu não me importo. —pediu, com uma expressão que não soube decifrar. Apenas assenti em confusão. Me despedi e desci do carro.
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Segunda-feira chegou.
No domingo, tirei minha bota ortopédica. Fui ao médico com Ester. Ela tomou um susto, mas foi comigo ver se eu poderia retirar, e eu poderia. Meu pé finalmente melhorou e eu consigo andar normalmente.
Assim que cheguei na escola, todos nos encontramos no portão -exceto Thomas-. Nos olhamos em um silêncio constrangedor, mas logo começamos a rir.
—Bom dia gente! —cumprimentei.
Todos retribuíram.
Charles chegou perto de mim e passou o braço sobre meus ombros.
—Como está? —perguntou no meu ouvido.
Apenas assenti, sem dizer mais nada. Ele sorriu e entramos na escola.
Todos nós nos sentamos em uma das mesas de pedra enquanto as aulas não começavam.
—Érick, onde está o Tom? —perguntei, olhando ao redor.
—Tom? Desde quando são íntimos assim? —Rose me perguntou, me dando uma cotovelada fraca.
—Estou sentindo um cheiro de clima romântico, hein. Já rolou beijinho? Edredom? —Nicolas perguntou com um sorriso de fofoqueiro.
–Parem, bestas. —revirei os olhos— Érick?
Ele me olha uma expressão indecifrável.
—Hm, não sei mesmo. —ele olhou ao redor— Ele não é muito de se atrasar. Algo deve ter acontecido.
Dei de ombros e todos entramos em algum assunto banal.
Depois de uns dez minutos, escuto Rose soltar uma exclamação de surpresa.
—Oh, não. De novo não. —Rose diz, olhando fixamente em um ponto atrás de mim.
—O que hou–
—Érickzinho, olha o portão. —Rose me cortou.
No fim, todos olharam para o portão do colégio. Vi Thomas entrar com uma menina que eu nunca havia visto na vida. Ele usa óculos escuros, seu cabelo está preso em cima e solto embaixo. Sua jaqueta de couro contrasta com a fumaça de seu cigarro.
A garota masca um chiclete e usa um coque frouxo. Ela também está usando um uniforme dd líder de torcida, além de um batom vermelho. Ela está tendo seus ombros abraçados por Thomas.
—Quem é... —a frase de Nicolas se perdeu no meio do caminho. Olhei confusa para Rose, que fuzila a garota com os olhos.
—Quem é ela? —perguntei, estranhando o comportamento de Rose e o cenho franzido de Érick.
—Caroline. —Rose respondeu, quase rosnando— Eu odeio essa garota.
—Por quê? —Charles perguntou.
—Ela é um doce. Sério. Um amor. E a maior mentirosa do mundo. —Érick diz, ainda encarando o casal que agora divide o cigarro enquanto caminham calmamente— Ela manipula o O'brian e o afasta de todo mundo. O incrível é que só ele não vê isso. Ele a usa e quando enjoa, a deixa de lado. O fato é que de alguma forma que eu não sei, eles sempre acabam voltando. Sempre. E ela o afasta de novo.
—Eu já cansei de explicar isso pra ele. Sinceramente, eu não vou fazer nada pra ele voltar pra nós dessa vez. Eu estou cansada.
Apenas assimilei as informações, direcionei mais uma vez meus olhos para o casal. Eles se despedem com um selinho e a Caroline entra na escola, enquanto Thomas vem pra nossa direção.
Ele se sentou ao nosso lado na mesa, sem nos cumprimentar.
Todos o encaram.
—Que foi porra? —ele perguntou com o cenho franzido.
Todos mudamos o foco do olhar, menos Rose.
—Então voltou com a Carolzinha? —Rose perguntou com deboche.
Thomas revirou os olhos.
—Cala a boca. Não temos nada, nunca tivemos. Só estou me divertindo.
—Claro, claro. —Rose diz, revirando os olhos.
Logo o sinal das aulas toca e todos nos levantamos.
Enquanto levanto, Thomas e eu nos olhamos sem querer. Ele me dá um sorriso de lado e fala "bom dia" só com o movimento dos lábios, antes de sair pra escola. Olho ao redor e vejo Érick olhando a cena com o rosto desconfiado. Corei e me dirigi a Rose, entrelaçando meu braço ao dela.
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—Vamos na pracinha hoje? —Nicolas pergunta, mastigando seu sanduíche— Vamos aproveitar que hoje não é integral.
Estamos todos sentados na grande árvore do jardim, almoçando. Hoje os professores das matérias obrigatórias tem conselho de classe, então estamos livre.
—Eu apoio. —Rose disse— Érickzinho, leva seu violão. O'brian, leva sua guitarra.
Thomas, que estava mexendo no celular, olha com uma sobrancelha arqueada pra ela.
—E quem disse que eu vou? —ele disse com ironia.
—Por favor Thominhas! —ela pediu sacudindo os ombros dele.
—Para, mulher. —ele disse se esquivando— Eu vou sair com a Carol. Não posso.
Rose fechou a cara instantaneamente. Ela deu de ombros e voltou a comer seu sanduíche.
—Tem certeza? —Érick falou— Vamos, cara. Vai ser legal.
Tom o ignorou e continuou mexendo no celular. Vi Érick magoado, mas ele nada disse.
Comemos em silêncio até a Caroline chegar de repente.
—O'brian! —ela disse melosa, se sentando ao lado dele e abraçando seus ombros. Ele deu um sorriso amarelo e agarrou sua cintura, agora mexendo no celular com uma mão só. Ela faz cachinhos na parte solta do seu cabelo.
—Olha a cobra... —Rose susurrou, bebendo seu suco.
Mas não susurrou baixo o suficiente.
—Ah, oi, Rosemary. Como sempre um doce.
—Não finjo gostar de você da forma que você insiste em fingir que gosta de nós.
A Caroline só piscou os grandes olhos castanhos, numa aura até inocente. Ela realmente parece ser simpática.
—Oi para vocês também, Charles e Nicolas. —ela cumprimentou e eles apenas assentiram— Charles, você estava ótimo no jogo de sexta! —franzi as sobrancelhas, não sabia que ele era do time de basquete da escola. Ele, por sua vez, apenas assentiu desconfortável. Voltei a analisar o sorriso branco de Caroline e me perguntei o porquê dela ser tão arrogante como dizem.
Ela mantém seu olhar por Charles por um longo tempo, antes de desviar com um sorriso curto.
Acho que fiquei muito tempo a encarando, já que nossos olhos se encontraram. Meu coração palpitou com vergonha.
—Eu não tinha te visto. Prazer, Caroline. —ela estendeu a mão de forma simpática pra mim. Olhei pra Rose, que apenas foi mexer no celular, carrancuda. Devolvi o aperto de mãos.
—Hãm, prazer... Ally. —comentei, soltando sua mão.
—Hmmmm, então você é britânica... Interessante. Nunca te vi por aqui.
—Sim, como você viu, ela é britânica, então por favor, não a faça falar. Esse sotaque é de arrepiar. —Thomas disse, finalmente falando algo desde que ela chegou.
Ela soltou uma risada super histérica, como se tivesse sido a coisa mais engraçada do mundo. Chegou a dar um tapinha no peitoral dele, fazendo-o olhá-la feio.
Ela parou de rir na hora e coçou a garganta.
—Então, o que vão fazer hoje? —ela perguntou.
—Vamos pra praça depois da escola. —Charles falou, fazendo Érick dar uma cotovelada nele— Ai... —ele susurrou com um biquinho.
—Sério?! Legal! Vamos, docinho? Será legal! —Carol disse entusiasmada.
—Não. —ele disse simplesmente, sem largar o celular. Céus, ele é viciado nessa coisa.
—Ah, vamos, vai! Por favorzinho! —ela disse melosa, dando beijos no pescoço dele. Ele revirou os olhos e a afastou.
—Se quiser ir, vá. Eu não estou a fim.
—Você vai sim. Fim. —ela disse séria dessa vez, como se toda a sua pose de menina fofa e educada fosse arrancada de uma só vez. Thomas soltou um longo suspiro, mas não negou dessa vez.
Depois disso, todos ficamos em um silêncio constrangedor, exceto pra Thomas, que não largava o celular, e Carol, que estava muito concentrada fazendo carinho em círculos na coxa dele.
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Depois do almoço cada um foi pra sua aula, eu fui pra minha de cálculo. Eu até sou boa na matéria, mas odeio matemática. Sério.
Me sentei na carteira de madeira e abri meu caderno.
—Posso? —Thomas apareceu de repente, apontando para a carteira na minha frente. Acenei em confirmação e ele se sentou.
—Na última vez que sentamos perto um do outro, você foi bem mau educado. —comentei, abrindo meu caderno e vendo as anotações organizadas por cor e data.
Ele me analisou em silêncio, como se quisesse lembrar.
—Ah, verdade. —comentou, após um tempo— Não era um bom dia. Aliás, te achei muito corajosa nesse dia.
—Corajosa? Por quê?
—Mentiu na cara dura. Rose perguntou o porquê de você não ter tempo para namorar e você disse só cuidar da sua irmã. Eu sentia que você estava escondendo algo.
—Por isso você ficou me encarando... —conclui. Ele concordou com um aceno de cabeça.
—Foi. Agora sei o motivo. —ele disse, relaxando mais na cadeira.
Ficamos em silêncio.
—Então, Carol?
—O que tem? —ele arqueou uma sobrancelha.
—Você nunca tinha falado sobre ela.
—Não vi necessidade. —ele deu de ombros, concentrado em seu lápis— Ela não é nada pra mim.
—Ela parece gostar de você.
—Não gosta. —ele deu de ombros novamente— Ela me usa tanto quanto eu a uso. Especialmente quando estamos entediados ou não conseguimos quem queremos. É como uma massagem no nosso ego.
—Uau. —arregalei levemente os olhos— Isso foi bem... Específico. Mas não acredito que seja difícil pra você conseguir quem quer. — comentei, anotando a data de hoje em meu caderno.
Ele me olhou sério.
—Por que não? —ele perguntou.
O olhei com cara de tédio.
—Não seja modesto. Você é bonito e tem esse estilinho de garoto problema, muitas meninas gostam disso. Você é uma pessoa legal. Não deve ser nada difícil.
—Nem todas gostam.
—Difícil imaginar uma que não goste.
—Você gosta? —ele perguntou com um sorriso. Arregalei levemente os olhos.
—Não, não gosto.
—Viu? —ele chegou perto, com seu sorriso de canto— Não foi tão difícil.
Senti seu hálito de cigarro e menta e corei. Ele voltou a se sentar de lado, mas ainda com um sorriso fraco.
—Não é tão fácil assim. Tem garotas que você precisa ir com um pouco mais de calma. —ele disse.
—Por quê?
—Porque essas valem a pena. —ele disse sério.
—Valem a pena pra quê?
Ele ficou em silêncio, voltando a analisar seu lápis.
—Para manter por perto.
—E Carol é uma dessas?
Ele soltou uma risada irônica.
—Não, não. Carol é fácil demais. Bem fácil. Eu a mantenho por perto por costume.
Assenti, entendo aonde ele quer chegar.
—Então você me acha bonito... —um sorriso começou a crescer em seu rosto.
—O que?! Não! Eu não disse isso! —falei um pouco exaltada.
—Disse sim! Admita! —ele disse rindo.
Revirei os olhos.
—E se eu achar?
Aos poucos, ele ficou sério novamente.
—É recíproco. —ele disse.
—Eu sei que você se acha bonito Tom, não precisa repetir. —disse rindo. Mas ele se manteve sério.
—Eu não estava falando de mim, coisa inglesa.
Senti meu coração falhar por um momento e fiquei o encarando com os lábios entreabertos, sem saber o que responder. O professor entrou e Thomas me lançou uma piscadela, se virando pra frente e abrindo sua mochila, tirando um caderno de lá.
Fiquei aproveitando o calorzinho em meu peito. É bom ser elogiada.
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—O que vocês querem ouvir? —Érick perguntou enquanto estávamos todos sentados na grama do parque.
No fim, Tom veio com a tal Carol. Ela está com a cabeça deitada nas pernas dele e o corpo na grama. Ele está com cara de tédio, esparramado no chão.
Érick segura o violão, Charles está ao meu lado esquerdo e Rose ao meu lado direito, fazendo carinho em minha mão. Nicolas está ao lado de Érick.
—Britney Spears! —Carol sugere.
Todos fazem cara de tédio. Érick se remexe.
—Hm... eu não conheço muitas músicas dela, na verdade.
—Ah, qual é Érickzinho! –ela exclamou levantando do colo de Thomas e engatinhando na direção de Érick. Olhei pra Rose, que parou de acariciar minha mãe e olhava Carol com nojo, talvez pelo uso com segundas intenções do apelido carinhoso que Rose deu a ele— Impossível! Você parece saber muitas coisas... —ela susurrou sugestivamente.
Érick ficou completamente constrangido e chegou um pouco pra trás, fugindo do toque de Carol. Ela voltou para o lado de Thomas, dessa vez sem deitar em seu colo. Ele, por sua vez, se mantém impassível, como se isso fosse comum.
Todos ficaram em silêncio, então decidi falar.
—Hum... Que tal Queen?
—Pelo amor de Deus! Você tem oitenta anos? –Carol perguntou, revirando os olhos— Não concorda, O'brian? —ela disse, o olhando sorrindo.
—"Love of my life"? —Thomas perguntou para mim, ignorando Carol.
Ela ficou emburrada e me olhou com raiva.
—É uma das minhas favoritas... —comentei em voz baixa, me sentindo desconfortável com o olhar de Carol.
—Vai ser essa então. —disse Érick, posicionando os dedos.
—Ah não gente! —Carol se exaltou— Vocês estão no século dezenove?
—Você sabe que o Queen é dos anos setenta, né? —Nicolas perguntou.
—Exatamente! —Carol disse.
Todos ficamos em silêncio, sem saber se ela estava brincando ou não.
—Me dá isso aqui. —ela arrancou o violão da mão de Érick com brusquidão. Ele arregalou os olhos.
—Chega, Carol. —disse Tom— Já está enchendo a porra do meu saco.
—Foda-se O'brian! Vocês não tocam a porra de uma música boa!
—Chega. —ele disse, se levantando bruscamente— Eu vou embora.
—Não vai nada. —Carol também se levantou— Vai ficar aqui.
—Por favor Carol, não enche. —Thomas disse, se livrando dos toques dela.
—Por favor O'brian! Sério! Por mim!
Thomas a olhou com um certo desdém, antes de virar as costas e começar a andar em passos rápidos.
Me levantei e saí correndo atrás dele, me colocando em frente ao seu caminho. Espalmei uma mão em seu peitoral e ele me olhou surpreso.
—Não vai.
—Não quero ficar aqui, coisa inglesa. —ele disse, segurando minha mão e tentando tirá-la de seu peito. Pressionei minha mão mais forte e cheguei mais perto.
—Por favor, Tom. Pelo nosso acordo de paz. —sorri.
Ele me olhou sério, com uma expressão indecifrável. Depois seus olhos vasculharam meu rosto. Ele suspirou bem fundo e revirou os olhos, olhando minha mão sobre a dele.
—Você é insuportável. —ele disse, soltando minha mão e voltando para roda aos poucos. Sorri e corri para ficar ao seu lado.
—Obrigada.
Ele deu um sorriso quase imperceptível de canto. Percebi que Thomas não é de dizer "sim", ele é mais de suspirar e resmungar.
Voltamos pra roda e todos desviam o olhar de nós.
Exceto Caroline, que nos fuzila com os olhos.
Voltei para o meu lugar.
Carol apenas devolveu o violão para Érick, ainda sem parar de me encarar. Dessa vez, ela só me encara séria. Não tem raiva, é apenas... desconfiança.
E mesmo de repente, ela dá um sorriso falso e pega sua carteira.
—Você se chama Ally, não é? —perguntou.
Apenas assenti, confusa.
—Vamos tomar um sorvete. Eu pago.
Olhei confusa para Thomas, que deu de ombros. Me assustei quando Rose susurrou um "vai" no meu ouvido.
—Depois me conta o que ela queria.
Me levantei desconfiada e limpei a grama da minha saia. Ela continuou com aquele sorriso esquisito e se levantou logo depois.
Seguimos juntas para o carrinho de sorvete.
—Então, há quanto tempo você está aqui? —perguntou.
Parei para pensar.
—Acho que um ou dois meses, por aí.
—Hmm... E você e o O'brian são muito íntimos?
Estranhei sua pergunta, sem tirar os olhos do chão.
—O que você quer dizer com "íntimos"?
Ela revirou os olhos.
—Vocês são só amigos?
—Somos, oras. O que mais seríamos?
Ela ficou em silêncio e não disse mais nada.
Chegamos na barraquinha e ela comprou uma casquinha pra mim. Insisti em pagar, mas ela não deixou.
Quando estávamos perto da roda, ela segurou o meu braço e me virou em sua direção.
—Eu não sei o que você e o O'brian tem, mas isso vai acabar agora. —ela disse séria.
—Eu já disse que não te-
—Cala a boca. Minha vez de falar. —me calei, assustada pela interrupção— Você não sabe de onde eu venho. Não tem nenhum parâmetro do poder da minha família. Eu posso acabar com sua vida em um estalar de dedos. —ela disse, estalando os dedos— Então essa sua "amizade" com o O'brian termina agora. Ouviu? —continuei a encarando, confusa— Ouviu?! —ela falou mais alto.
Fiquei um pouco assustada com seu tom. Thomas disse que eles não tinham nada, mas para quem não tem nada ela está bem apaixonada. Eu e ele somos apenas amigos e nada mais. Não sei o porquê de todo esse escândalo.
Apesar disso, me lembro muito bem da última vez que eu ouvi um discurso como esse e como toda a história acabou.
Então, para evitar problemas, apenas assenti.
Ela deu um grande sorriso e voltamos para a roda. Me sentei no meu lugar, tomando meu sorvete que já escorria pela casquinha.
Carol, por sua vez, jogou os braços ao redor do Thomas e virou seu rosto para si, o beijando na frente de todos nós. Quando acabou, ela olhou diretamente para mim, como um aviso. Engoli em seco com desconforto.
O resto da tarde foi extremamente desconfortável. Quando conseguíamos entrar em um assunto, Carol cortava falando alguma história irrelevante de sua vida, deixando todos em um silêncio constrangedor.
No fim, fomos bem mais cedo do que o combinado, só para dar um fim naquilo.
E, quando todos saíram juntos do parque, na hora de atravessar a rua, um homem com sua filha sem querer acabou indo rápido demais com o carro, mas freou bem antes de nos acertar. Ele pediu mil desculpas, mas Carol deu um chilique.
—Você está maluco? Você quase nos matou! Desgraçado! Você vai pagar por isso! —ela disse, já pegando seu celular e discando algum número— Papai? Tenho uma emergência. Um homem tentou me atropelar! —ela pausou, provavelmente ouvindo a resposta do homem— Na frente da praça. Vem logo!
E desligou.
O homem, desesperado, pediu desculpa e saiu do carro. Ele chegou a se ajoelhar, pedindo perdão e pra não fazer nada com ele, pois ele tinha família.
Mas não demorou nem cinco minutos para uma viatura policial aparecer. Dois policiais saíram do carro e Carol nem precisou explicar nada pra eles. Ele apenas foi levado embora na viatura junto com sua filha. Nós, que estávamos chocados, olhamos para Carol em um espanto maior que nós.
—Você é louca?! O homem nem chegou perto de nós! —Rose berrou, apontando o dedo no rosto de Carol.
—Não grite comigo, sua vadia! —Carol gritou, dando um sonoro tapa no rosto de Rose.
Nesse momento, um silêncio ensurdecedor surgiu. É tenso e pesado. Rose nem se deu o trabalho de virar o rosto para cima. Ela parecia se sentir humilhada.
Quando ela levantou o rosto, eu vi fúria. Ela parecia estar sentindo um ódio assustadoramente fora de si. Eu não acreditei. Quis voar em Carol.
Rose apenas a olhou com nojo e desdém. Alguns fios de cabelo grudaram em seu rosto e a marca da mão de Carol começou a aparecer.
Rose nada disse. Ela veio na minha direção, pegou no meu braço e me puxou até minha casa.
Assim que chegamos, Teté nos olhou confusa. Ann dorme tranquilamente no sofá.
—Olá menina Ally. Tudo bem?
Apenas assenti, levando Rose para o meu quarto.
Chegando lá, ela se sentou na cama e começou a chorar. Ela me disse o quanto se sentia humilhada. Busquei um copo de água com gelo e um sanduíche pra ela.
Nessa noite, descobri que aquele homem foi condenado a pagar fiança e ainda teve seu carro e documentos confiscados por um ano, pois foi acusado de "dirigir embriagado".
Nessa noite eu entendi o que Carol quis dizer. Entendi esse acontecimento como uma ameaça, me mostrando o que ela pode fazer.
Quando vi aquela pobre menina sentada no carro chorando, lembrei de Ann e fiquei com medo de algo acontecer com ela.
Eu realmente não quero desafiar o poder de Carol.
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Acabou que Rose dormiu na minha casa. Contei sobre papai e ela me deu muito apoio, dizendo que tudo ficaria bem e que logo logo papai estaria de volta. Eu a agradeci.
Teté todos os dias me dá notícias dele, já que é seu marido que está cuidando de meu pai. Ela disse que ele está melhor, está tomando alguns remédios e se distraindo nas atividades recreativas da clínica psiquiátrica. Fico mais aliviada assim.
Eu e Rose fomos o caminho inteiro de braços dados conversando sobre nossas vidas. Quando chegamos na escola, vimos, de longe, todos os meninos -exceto Érick- sentados em uma das mesas de pedra do pátio. Carol se mantém pendurada no pescoço de Tom e todos parecem estar entretidos em algum assunto.
Eu e Rose concordamos que seria melhor não nos juntarmos com eles, então fomos para o jardim. E, para a nossa surpresa, Érick estava lá, sentado debaixo da árvore e ouvindo música com seu fone. Assim que nos viu, deu um sorriso e tirou os fones do ouvido.
—Também está fugindo? —perguntei, me sentando ao lado dele.
—Não consigo ver o O'brian agora. Não sei, de verdade, o porquê dele ainda estar com essa garota.
—Seria pelo dinheiro dela? —Rose sugeriu.
—Não, não. —Érick negou— O O'brian não é assim. Ele não quer o dinheiro dela, mas também não está apaixonado. Na última vez que ela aprontou, ele prometeu que não saíria mais com ela.
Rose concordou.
—O que ela fez? —perguntei.
—Ela furou o pneu de uma menina que o Thominhas gostava. —Rose falou— Gostava não, —se corrigiu— pegava. Eles estavam ficando há uns dois ou três meses. Aparentemente Carol a ameaçou para parar de ficar com ele, e quando a menina não parou, ela furou seu pneu e escreveu um bilhete dizendo que da próxima vez não seria só o pneu. Claramente a ameaçou. Ela obviamente tentou prestar queixa, mas como você viu, a justiça está a favor de Carol. —revirou os olhos— Depois disso ela saiu da cidade.
Engoli em seco.
Realmente, eu subestimei Carol.
É melhor seguir o seu conselho nem um pouco amigável e me afastar de Thomas.
—Falando nisso! —Rose exclamou de repente— O que ela queria com você ontem?
Engoli em seco novamente.
—Hmmm... Ela... Hmmm... Queria saber se o Thomas está com alguém. Foi bem estranho
Eu não queria mentir, mas foi necessário. Não preciso que Rose fique com ainda mais raiva, isso vai fazer mal pra ela.
Rose ficou séria.
—Que garota insuportável. Eu a odeio, gente. É oficial.
—Você a odeia tem anos, Rosemary. —disse Érick.
Ela começou a rir, concordando.
—Mas, é sério... Por que o O'brian quis voltar com essa garota? Até ele sabe que ela é insuportável.
—Não sei, Rose. —disse Érick— Eles geralmente voltam quando estão entediados, ou então... —a voz dele foi abaixando gradativamente.
Olhamos para Érick curiosas. Ele olhou para Rose e depois para mim, antes de levantar e praticamente sair correndo do jardim.
—Oras, o que deu nele? —perguntei.
Ela olhou para a direção que Érick foi, com os olhos cerrados. Depois olhou para mim por um tempo, antes de dar um sorriso meigo.
—Desculpa. Tenho que ir, amiga. Beijos.
Rose foi embora, quase tão rápido quanto Érick. Os dois me deixaram ali, parada e muito, muito confusa.
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Me concentrei na explicação do professor de geografia avançada, enquanto anotava tudo o que ele falava de importante em tópicos.
Ele nos deu um tempo para fazer um exercício na apostila, e foi nessa hora que Thomas entrou na sala, se desculpando pelo atraso. Ele olhou ao redor da sala e assim que me viu, no canto, ele foi em minha direção, se sentando na carteira que está na minha frente.
A turma está fazendo barulho quando Tom se vira para trás e me olha.
—Oi, coisa inglesa. Nem te vi hoje. Bom dia.
Ele falou sério, mas muito educadamente. Franzi as sobrancelhas para seu comportamento super amigável.
—Hãm, bom dia. –falei, voltando a fazer os exercícios.
—Que cara é essa? —perguntou.
—Que cara?
—Sei lá. Desconforto.
Engoli em seco.
Eu definitivamente não quero falar com Thomas. Confesso que estou com um pouco de receio do que Caroline pode fazer.
—Estou bem. Com licença. —falei, voltando a fazer os exercícios. Senti que ele ainda ficou me olhando por um longo tempo, antes de se virar para frente e abrir sua apostila. Até respirei fundo de alívio e terminei meus deveres.
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Depois das aulas, fui andando para casa com Rose, Me despedi dela na nossa esquina. Durante o dia questionei o porquê dela ter saído correndo, ela disse que foi emergência de banheiro. Obviamente não acreditei, mas deixei por isso mesmo. Talvez ela não estivesse confortável para falar.
Fui para casa e assim que destranquei a porta, tive uma surpresa muito agradável.
Papai estava sentado no chão, com Ann ao seu lado. Ambos montam um quebra-cabeça.
—Pai! —falei empolgada, feliz por vê-lo bem. Ele e Ann rapidamente se levantaram e vieram me abraçar— Que bom que estava bem!
—Senti saudades, filha. —ele falou sorrindo e me dando um beijo na testa— Trouxe um presente.
—Allyzinha! Você vai amar! —gritou Ann.
Meu pai entrou em seu quarto e voltou com uma bolinha de pelos minúscula em seus braços.
—Oh, não! Não acredito! —disse feliz, correndo para pegar o cachorrinho minúsculo e peludo do colo de papai. É um Chow-Chow com cor de caramelo. Ele abana o rabinho animado— Que lindo! Muito obrigada, pai! — dei um abraço nele.
—Que bom filha! Mas, na verdade, é fêmea. Ainda não tem nome e nem nada de brinquedos. Vá com Ann ao petshop e comprem algumas coisas.
—Col vai se o nome deia, Allyzinha?
Olhei bem para a filhotinha em meus braços, pensativa.
—Que tal Atena? É a deusa da sabedoria.
—Perfeito, filha. Perfeito.
—Gotei!
—Certo. Agora vão ao petshop comprar brinquedos, sacolinhas, ração e o que mais quiserem, Vou dar-lhes meu cartão.
Enquanto papai pegava o cartão, fui tomar banho e me perfumar. Assim que terminei, fui até a porta e Ann estava me esperando com um macacão de flores.
—Vamos? —perguntei, segurando sua mão.
Ela concordou e fomos andando até o petshop.
Eu sabia que ele ficava na rua da praça, mas não onde exatamente.
—Allyzinha, onde azente tá?
—Perto da praça, Ann. Só quero saber aonde está o petshop...
Depois de andar um pouco mais para frente, achei o estabelecimento branco e verde com um logotipo fofo escrito "amigos das patas e bicos". É um bom nome para um petshop.
Assim que entramos, fui logo procurar as coisas mais necessárias. Peguei uma cestinha e organizei com o rolinho de sacolas, ração e dois potinhos; um para água e outro para comida. Depois procurei uma guia e fui para os brinquedinhos.
E, bem ali, organizando brinquedos de cachorros, não havia ninguém mais ninguém menos do que Thomas. Ele está de costas para mim e usando um avental verde.
Automaticamente me lembrei de Rose me dizendo que ele trabalha em um petshop que foi transferido para cá, no dia em que ele saiu correndo da escola -motivo que descobri recentemente pelo agravamento do estado de sua irmã.
Pensei em simplesmente ignorar, se Ann não tivesse gritado um sonoro:
—Titio do cabeio de fogo!
Algumas pessoas da loja nos olharam, mas o olhar mais importante veio de Thomas, que nos encarou com o cenho franzido até perceber do que se tratava.
Ele começou a rir bobo e se agachou no chão, com os braços abertos. Ann correu até ele e eles deram um abraço caloroso. Foi uma cena bonita de se ver.
Ele se levantou com Ann no colo.
—Azente ganhou uma caçorrinha! O nome deia é... Allyzinha, col é o nome deia mesmo?
—Atena, amor.
—Atena, titio!
—Deusa da sabedoria? —ele me perguntou levemente surpreso. Assenti— Boa escolha. Adoro mitologia grega. Já falei pra todo mundo que se um dia eu tiver um filho, ele se chamará Eros.
—Deus do amor... —comentei, após vasculhar na minha memória qual deus Eros era— Parece... Plausível.
Ele franziu as sobrancelhas pro meu tom esquisito.
Eu realmente tenho receio de conversar com ele. Não é por mal, isso dói em mim, mas, eu não quero que nada aconteça.
Ele colocou Ann no chão e pediu licença para atender um cliente.
Peguei todos os brinquedos e fui em direção ao caixa. No caminho, vi uma gaiola com muitos coelhinhos. Ann parou e ficou completamente apaixonada por eles.
Thomas chegou no nosso lado.
—São lindos, não é? Eu tenho vontade de levá-los pra casa todos os dias.
—Jack não ia nem deixá-los respirar a tempo. —comentei brincando.
—Talvez. Acho que nenhum deles sobreviveria.
—Tenho que admitir, —disse, me virando em sua direção, enquanto Ann brinca com os coelhos— Você combina nessa roupinha verde. Já pensou em usar como vestimenta no dia a dia?
—Ha ha ha, engraçadinha. —ele falou revirando os olhos— Hãm... queria ter perguntar um negócio... —ele começou, desviando o olhar e coçando a nuca.
Logo estranhei. Thomas definitivamente não é do tipo que fica constrangido.
—Pode falar.
—Hm... Érick falou algo com você? —ele perguntou, novamente desviando o olhar.
—Não, na verdade. Ele saiu correndo hoje do nada. Você sabe o motivo?
Ele respirou fundo e ficou um tempo em silêncio, vendo Ann brincar com os coelhos.
—Não faço ideia. —ele disse, com sua habitual expressão séria. Assenti.
—Bom, então é isso... Vou ao caixa pagar.
Ele assentiu e pegou Ann no colo, e juntos fomos até o caixa, que estava vazio. Deixou Ann ao meu lado e rodeou o balcão. Ele colocou nossos itens em sacolas de papelão e me entregou.
—Quanto fica? —perguntei, pegando o cartão.
—Fica uma outra saída comigo hoje à noite. Eu, você e Ann. O que acha? É bem menos que um encontro, já que sua irmã estará junto. —falou sério, mas com um tom de divertimento.
Dessa vez eu que desviei o olhar, sentindo um incômodo no peito.
—Hm... Acho melhor não. E então, quanto fica? —perguntei, desviando do assunto.
—Vamos Allyzinha, pufavô!
Ignorei Ann.
Não sei se é possível, mas Thomas ficou ainda mais sério. Sua expressão se fechou e ele desviou o olhar, com raiva.
—Não fica nada. É por conta da casa.
—O que?! Não, Thomas! Me deixa pagar.
Ele me ignorou, pegando dinheiro de seu bolso e colocando no caixa do petshop.
—Thomas, para! —me debrucei no balcão e segurei seu braço.
—Me larga caralho! —ele disse grosseiramente, se soltando de meu aperto e se afastando do balcão, indo pro estoque.
Ele sumiu da minha vista e eu fiquei parada, observando o caminho que ele fez. Engoli em seco, me sentindo chateada. Acho que me desacostumei com as grosserias de Thomas.
Graças a Deus Ann estava distraída olhando para as tartarugas próximas ao caixa.
Respirei fundo e peguei a mão de Ann. A levei andando e com uma leve dor no peito.
Eu realmente, realmente não queria me afastar.
Mas é melhor assim.
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