Capítulo 14 - Show
14
EU NUNCA PENSEI QUE TIVESSE realmente muito o que dizer sobre mim.
Talvez eu estivesse errada.
Ally Carter. Dezessete. Olhos azuis, cabelos castanhos. Britânica.
E isso era tudo.
Até ser irmã mais velha. E de repente, praticamente uma mãe. Depois, Allyzinha. Fui namorada, fui garçonete. Super estudiosa. Super trabalhadora.
Super traumatizada.
Já pude ser chamada de perseguida. Já pude ser chamada de antissocial, de nerd. E, uma vez, multi-instrumentista. Claro que não posso esquecer do clássico e estranhamente carinhoso: coisa inglesa.
Mas nunca pensei que carregaria comigo o título de mentirosa nata. De namorada falsa.
E, principalmente, de apaixonada.
E eu nunca pensei que sentiria a famosa e temida dor de cotovelo.
Alguns dizem que a expressão veio da dor da pancada no cotovelo, que é longa e demorada.
E outros dizem que é a dor que surge no cotovelo por se ficar longas horas com eles apoiados na mesa de um bar, afogando as mágoas.
Confio cegamente na segunda teoria. Não é para menos, já que eu literalmente estou vivendo isso.
O bar está lotado.
Reconheci muitos rostos familiares da escola.
O pessoal realmente queria ver os meninos tocando.
Ontem, todos eles espalharam cartazes do show pela cidade. A The Player publicou em suas redes sociais e colocou como atração do dia.
Três garotos gatos que compõem uma banda. Sinceramente, não é muito estranho que as pessoas queiram ver isso.
Por isso a maioria dos rostos são femininos.
Consegui uma mesa na frente do palco junto com a Rose, o Josh e o Charles, já que chegamos cedo. Fomos inteligentes, poucas horas depois essa boate já estava lotada de pessoas, algumas ficando em pé só para verem o show.
Nicolas me contou que eles estão confiantes.
Os instrumentos pretos contrastam perfeitamente com o jogo de luzes que eles escolheram: Azul e branco. O palco nunca esteve tão vivo, já que até hoje, a The Player apenas aceitou Dj's.
E, até agora, nada dos meninos.
As pessoas já estão ficando impacientes.
—Você que acha que eles vão se dar bem? —Rose perguntou roendo as unhas e olhando fixamente para o palco. Josh, que está ao seu lado, deu um tapa fraco em sua mão, para ela parar de roer.
—Claro que sim. —Charles respondeu por mim— Fala sério, é o Érick, a voz dele é maravilhosa. —completou após dar um gole em sua cerveja— E o O'brian e o Nicolas tocam muito bem.
Rose pareceu relaxar um pouco e deitou sua cabeça no ombro de Josh, que fez carinho em seus cabelos.
Virei o rosto para outro lado, não queria ficar vendo a tocha olímpica que eu estava segurando ali -sendo que, ironicamente, eu não estou.
Pelo menos, é o que o braço de Charles ao redor dos meus ombros insinua.
Eu estou nervosa.
Tem um tempo que eu não o vejo.
Por sorte, ainda não vi Carol por aqui.
Talvez eu devesse adicionar "super apaixonada por um cara que está muito longe de ser meu" à minha lista de títulos.
Ou talvez seja longo demais, no fim das contas. Apenas azarada deve bastar.
Fui tirada de meus devaneios quando ouvi aos pessoas ao meu redor gritando e aplaudindo animadas.
Olhei para o palco, vendo os garotos se ajustando ali e sorrindo para o público.
Oh, céus.
Não preciso dizer para quem meus olhos foram direto.
Foi uma jogada inteligente os meninos usarem smokings e trocar os paletós por jaquetas de couro.
Mas, nesse momento, pouco me importa como os outros estão lindos.
Porque meus olhos não desgrudam de Thomas O'brian.
Extraordinariamente belo.
Talvez seja pouco.
Ele está diferente, definitivamente.
Seus cabelos estão maiores e completamente soltos. Se possível, ainda mais ruivos.
Uma fina barba ruiva contorna seu rosto. Um tipo de barba por fazer, mas que está perfeitamente ajeitada.
Percebi um pequeno brinco em sua orelha, uma argolinha. Está mais magro também, se quer saber.
Talvez eu precise de foco. Mas tudo que eu quero é um microscópio para ver todos os detalhes possíveis de um certo ruivo.
Fechei os olhos e respirei fundo, sentindo minhas mãos trêmulas.
Senti uma mão sobre a minha e olhei pro lado, vendo Charles com um olhar de pena. Dei um sorriso mínimo pra ele e segurei as lágrimas que queriam escapar. Ele soltou minha mão.
Mesmo sem dizer nada, me sinto grata pelo apoio.
Me voltei para o palco.
Os meninos começaram a passar os olhos pelo público e todos os três pararam em nossa mesa. Érick e Nicolas sorriram e acenaram. Thomas se manteve imóvel.
Mas nossos olhos se encontraram.
Eu senti toda a eletricidade e o Efeito Thomas surgiu novamente, no mesmo esquema.
Coração falhar.
Virar um tambor.
Tum tum. Tum tum.
Uma pena que tenha sido só por um segundo, pois ele desviou os olhos logo em seguida. O rosto indecifrável.
Por fim, Érick e o ruivo pararam na frente dos pedestais com os microfones, e o Nicolas se sentou na cadeira da bateria.
E meu coração, mais uma vez, terminou de se partir.
Érick abriu mais um lindo sorriso para o público.
—Boa noite, gente! —todos foram à loucura. Gritos e gritos. Érick soltou uma risada— Obrigado a todos que vieram. —ele disse quando o público se acalmou— Queria fazer um agradecimento especial para a equipe The Player, que nos deu a oportunidade de estar aqui, e ao nosso patrocinador anônimo, que deu a indicação! Muito obrigado! Agora vamos ao que interessa! Que o show comece!
E nem preciso dizer que o público explodiu em palmas, inclusive nós. Assim que ele terminou de falar, Thomas começou com a batida forte na guitarra. E ela competiu com a batida forte do meu coração.
Eu decidi, por esse noite, não ser a vítima. Hoje eu serei apenas Ally Carter. Apenas Ally curtindo um show. Sem Ally com dor de cotovelo ou azarada. Nem todas as outras.
Hoje sou apenas eu. Eu sendo feliz.
E, como que acompanhando meu pensamento, Érick já começou a cantar as primeiras frases de "Welcome To The Jungle".
E todo o público cantou junto com ele. E eu nem preciso dizer que eu estava incluída nessa.
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É claro que eu o olhei durante todo o show e almejei por um olhar seu.
Mas, dessa vez, eu não carreguei tristeza. Eu apenas sinto euforia, pois meus melhores amigos fizeram um show incrível.
Érick interagiu o tempo inteiro com o público. Eles tocaram tão bem que até saíram um pouco do planejamento do show e tocaram duas músicas que o pessoal estava pedindo.
Eu e Rose temos o papel com o planejamento das músicas, caso eles esquecessem qual deveriam tocar ou qual já tinham tocado. As que já tinham tocado, nós riscamos.
No fim eles nem precisaram. Estava tudo perfeito e eles ainda conseguiram encaixar as duas músicas que pediram.
A última música que tocaram foi "Counting Stars". E, ao fim dela, como no fim de todas as outras, o público foi à loucura.
—Muito obrigado, gente! —Érick falou no microfone— Temos ainda mais uma música, que será tocada pelo nosso guitarrista, O'brian! — o público novamente aplaudiu.
Eu e Rose nos encaramos ao mesmo tampo e verificamos a lista.
Não há nada aqui.
—Esquecemos de alguma? —ela perguntou, ainda checando a lista.
—Não, acho que não. Essa deve ter sido de última hora.
—Mas o O'brian que vai cantar? Não sabia que ele canta. Érick é o vocalista.
Concordei com ela e nos voltamos para o palco, observando os meninos se reorganizando. Me senti um pouco especial por já ter escutado Thomas cantar.
Dessa vez, Érick e Thomas largaram as guitarras. Nicolas saiu da bateria e foi beber água. Érick buscou um teclado no fim do palco e trouxe para a visão do público, se sentando em seguida. Um microfone está na direção do instrumento.
Apenas Thomas ficou realmente na frente do palco, com o pedestal anteriormente usado por Érick na sua frente e um violão em mãos, pendurado em seu corpo.
—Er... Boa noite. Eu sou o O'brian. —Thomas disse e o pessoal bateu palmas. Sorri minimamente quando ele se encolheu. Certamente, não está acostumado com essa atenção— Essa música foi escrita por mim. Ela se chama "The Messenger". Hm. Espero que gostem.
O público explodiu em palmas novamente. Eu e Rose nos olhamos confusas.
—Você sabe sobre isso? —perguntei, a vendo olhar para o palco com as sobrancelhas franzidas. Ela negou.
Fiquei genuinamente confusa. Mas meu coração, dessa vez no sentido literal, perdeu uma batida ao reconhecer a melodia da música. E, pela primeira vez, eu abri um sorriso enorme ao ver Thomas começar a tocar.
When you feel you're alone
(Quando você sente que está sozinho)
Cut off from this cruel world
(Cortado deste mundo cruel)
Your instincts telling you to run
(Seus instintos te dizem para correr)
Listen to your heart
(Escute seu coração)
Those angel voices
(Aquelas vozes angelicais)
They'll sing to you
(Eles vão cantar para você)
They'll be your guide
(Eles vão ser seu guia)
Back home
(De volta para casa)
Eu não acredito. Sorrio, sorrio e sorrio. Meu coração bate como louco e as lágrimas dessa vez não estão sendo seguradas.
Ele terminou a música.
A música que ele tocou pra mim, quando fui ajudá-lo a estudar para a prova de história.
O dia em que quase nos beijamos.
When life leaves us blind
(Quando a vida nos deixa cegos)
Love keeps us kind
(O amor nos mantém gentis)
It keeps us kind
(Nos mantém gentis)
Érick entra com o teclado e deixa a melodia ainda mais bonita, se é que é possível. É claro que Thomas adicionou isso depois, e eu achei muito esperto deixar a música com um arranjo tão simples.
A partir daqui, não conheço mais letra.
When you've suffered enough
(Quando você já sofreu o suficiente)
And your spirit is breaking
(E seu espírito está se partindo)
You're growing desperate from the fight
(Você está ficando desesperado com a luta)
Pensei na irmã de Thomas e quis chorar ainda mais. O quanto essa menina deve sofrer...
Eu sinceramente não sei como está sendo para o Thomas cantar essa música. O único vestígio de expressão que ele tem, são suas sobrancelhas franzidas e seus olhos fechados, mas sei que é pela concentração.
Eu só espero que essa música esteja tocando as pessoas como está me tocando.
Remember, you're loved
(Lembre-se, você é amado)
And you always will be
(E você sempre será)
This melody will bring you right
(Essa melodia vai te trazer)
Back home
(De volta para casa)
When life leaves us blind
(Quando a vida nos deixa cegos)
Love keeps us kind
(O amor nos mantém gentis)
Ele explodiu nessa parte, elevando o tom da música.
When life leaves us blind
(Quando a vida nos deixa cegos)
E novamente ele abaixou o tom.
Love keeps us kind
(O amor nos mantém gentis)
Oh, oh, oh
Oh, oh, oh
Oh, oh, oh, oh
E ele novamente explodiu. E eu sorri ainda mais.
Oh, oh, oh
Oh, oh, oh
Oh, oh, oh, oh
Érick parou com o teclado e, após alguns segundos, Thomas parou com o violão.
E então, ele finalizou a música.
Houve um momento de silêncio. Mas, assim que ele abriu os olhos, o público explodiu em palmas. Gritos, assobios. Olhei ao redor e consegui ver pessoas limpando as lágrimas. Rose tem as mãos na boca, chocada com a letra. Ela também chora. Josh e Charles estão boquiabertos.
E eu estou cada vez mais encantada. Choro tanto que, certamente, voltei a ser a Ally super apaixonada por um cara que está muito longe de ser meu.
E, ao ver o sorriso surpreso de Thomas, eu sorrio ainda mais.
O que mais me chocou, foi quando seus olhos se encontraram com os meus. E ele sorriu ainda mais. Apenas com o movimento dos lábios, muito discretamente, ele sibilou um "gostou?".
E obviamente eu assenti, falando também com o movimento dos lábios "foi perfeito".
Se é que é possível, ele sorriu ainda mais e jogou os cabelos pra trás, se voltando para a banda. Eles se abraçaram animados e depois deram as mãos, se curvando para o público, como em um teatro.
E parte de mim com certeza foi ao céu.
Eu poderia receber todas as ameaças de Carol.
Porque essa noite, e apenas essa noite, eu sou a garota mais feliz dessa cidade.
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—Uau. —Josh disse de repente, olhando pra trás— Olhem ali.
Todos nós olhamos e sorrimos com a cena.
Os meninos estão praticamente incapacitados de andar. Várias pessoas estão os parando e pedindo fotos. Nicolas está amando, mas Thomas e Érick estão constrangidos.
—Parecem celebridades. —Rose falou.
—Qualquer apresentação de música aqui em Benkeler já os torna um tipo de celebridade. —Josh completou.
—Isso vai levar um tempo. —eu disse com as sobrancelhas franzidas, vendo uma fila se formar para tirarem fotos com os meninos.
E realmente levou. Somente uns trinta minutos depois, ele conseguiram correr em nossa direção.
Apesar disso, vi Thomas os cumprimentando antes de seguir para a direção contrária da nossa.
Reprimi a pequena decepção.
—Meu Jesus. —Nicolas disse ofegante— Acho que vou contratar um segurança.
Todos rimos dele.
—Parabéns, caras. —Charles disse dando soquinhos nas mãos dos dois meninos— Vocês mandaram muito.
Logo depois foi Rose, que se levantou e abraçou cada um deles.
—Vocês foram demais! —Rose disse empolgada.
Josh levantou e deu um aperto de mãos em cada um.
E depois foi minha vez. Abracei Nicolas fortemente, com na animação.
—Viu Allyzinha? —ele perguntou segurando minhas mãos e sorrindo— Eu arrasei!
Sorri sendo contagiada com a empolgação dele.
—Arrasou mesmo! Meus parabéns! —eu disse e depois Nicolas soltou minhas mãos, indo abraçar Charles.
Depois Érick veio em minha direção. Eu sorri pra ele, mas ele estava sério.
Senti meu braço ser puxado para um canto mais afastado das pessoas. Estou um pouco tonta por ter bebido um drink rosa super doce que com certeza escondeu o alto teor alcoólico.
Apenas sorrio quando Érick põe a mão em meus ombros e olha ao redor.
—Ei, parabéns pelo–
—Ally. —Érick me corta com uma expressão séria, me fazendo franzir as sobrancelhas— Me fala agora. O que é tudo isso?
Arregalei levemente os olhos. Do que ele... está falando?
—Isso o quê? —perguntei me afastando das suas mãos. Ele me soltou devagar e olhou em volta mais uma vez.
—Eu vi como você estava olhando para o O'brian o show inteiro. E, eu vi quando ele falou com você ao fim do show. Você estava... —Érick franziu mais as sobrancelhas e começou a gesticular, procurando a palavra certa— Eu não sei! Você estava toda apaixonada! Com Charles bem ao seu lado! O que é isso?
—Érick, eu nã–
—Não venha me dizer que eu vi coisas! —ele me interrompeu novamente, levantando um dedo— Eu sempre achei tudo isso muito estranho... —ele começou, com o olhar perdido em lembranças — Eu lembro do último dia de aula. Você estava arrasada porque ele disse que não ia ao baile. —Érick me olhou— E duas semanas depois você está namorando o cara que ele odeia. E dois meses depois você vem ao show dele, e fica o olhando como se ele fosse o último homem do mundo. Como se o seu sentimento nunca tivesse passado. Então me fala, Ally, o que aconteceu? Por que você está com Charles se ainda está apaixonada pelo O'brian?
Arfei, me sentindo encurralada. Senti a necessidade de cruzar os braços para criar uma distância entre eu e Érick.
Ele é muito observador. E muito esperto.
Como eu saio dessa?
E talvez não tenha como.
Eu preciso de tempo.
—E-eu... —respirei fundo, controlando o nervosismo— Eu posso te explicar tudo, mas não aqui. Não essa noite. —completei, firme— Tudo tem uma explicação, Érick.
—E quando eu vou ouvi-la? —ele arqueou uma sobrancelha.
Algo em mim se enfureceu. Talvez eu apenas esteja farta de tudo isso, e ter uma pessoa jogando na minha cara o quanto eu estou sendo uma pessoa ruim, fez com que eu quisesse explodir.
—Eu não te devo satisfação nenhuma, Érick! —falei levantando um dedo. Ele me olhou surpreso e recuou um pouco— Você acha essa situação ruim? Pois não tem ninguém que odeie mais o fato de Thomas estar magoado do que eu! —gritei, sentindo minha voz começar a embargar— Não julgue o que você não sabe! Não é você que é contra isso?! —terminei me sentindo ofegante e ao mesmo tempo aliviada. Érick arregalou os olhos e começou a ficar vermelho.
—E-eu–
—Olha. —o cortei, coçando uma sobrancelha— Aqui não. Não essa noite. —repeti, saindo de perto dele.
Hoje não.
Fui até o balcão novamente, onde todos estão sentados e bebendo.
—O que o Érickzinho queria? —Rose perguntou dando um gole em seu drink azul.
Dei de ombros.
—Perguntar o que achei do show. —menti por fim— E o Thomas, onde está? —perguntei, ignorando meu coração acelerado.
—Foi embora. —ela bebeu um gole do seu drink— Deve ter ido terminar a noite com aquela namorada dele. —ela revirou os olhos, e os caquinhos do meu coração que estavam se juntando, foram brutalmente separados.
É claro.
Apenas abri um mínimo sorriso dando o melhor de mim para parecer convincente e me virei para Nicolas que me chamou.
—Não trouxe Ann?
Neguei com a cabeça.
—Já foi difícil colocar menores pra dentro. —Rose disse, respondendo por mim— Imagine uma criança? Eles nunca deixariam.
Rose tem contatos aqui, conseguiu fazer com nós entrássemos e bebêssemos livremente. E, é claro, o fato de sermos acompanhantes dos meninos nos deu um certo crédito.
Me sentei em um dos bancos ignorando a conversa deles e pedi mais um drink.
Pelo menos Thomas falou comigo.
E isso já deve ser o suficiente.
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Limpei o suor da minha testa com o antebraço.
Já estou ofegante quando, mais uma vez, tento manter Atena parada.
—Por Deus! —exclamo quando ela começa novamente a rolar no chão, se sujando inteira pela milésima vez.
Bufei, apertando mais meu coque e ignorando o desconforto de usar uma jardineira jeans completamente encharcada.
Respirei fundo, decidida.
—Ok, Ann. —me virei para Ann que também usa uma jardineira, mas rosa— Mesmo plano. Eu seguro Atena, você joga o balde com água e depois coloca o shampoo na minha mão. —comecei a repetir o plano enquanto Ann assentia séria— Depois você vai ali atrás, enche o balde de água de novo e traz pra mim. Combinado?
Ann sorriu e assentiu mais uma vez.
Levantei Atena do chão e a sentei na grama. Agachei e abracei seu corpo. Virei o rosto para o lado pra evitar a água.
—Agora! —gritei e logo em seguida senti água escorrer pelos meus braços. Me virei para Ann e segurei Atena com dificuldades, pois ela se debate tentando fugir da água.
Que cachorrinha porca!
Estendi a mão para Ann e ela rapidamente encheu minha mão de shampoo, logo depois pegando o baldinho e indo para os fundos enche-lo.
Consegui colocar a mão com shampoo na cabeça de Antena. mas dessa vez ela conseguiu se soltar e não demorou a sair correndo. Acabei caindo para o lado por conta de sua correria.
—Droga! —esbravejei ao ver Atena correndo em círculos pelo quintal.
De repente ela começou a ir para a beira da rua, me fazendo arregalar os olhos.
—Atena! —gritei e me levantei, escorregando um pouco, mas sem cair.
Corri em sua direção. Ela parou na calçada e começou a se chacoalhar, pra tirar a água dos pelos.
—Ei, garota! —ouvi uma voz masculina e rapidamente levantei meus olhos.
Érick sorri enquanto faz carinho em Atena, que sentou no chão para receber seu afago. Ele começou a correr para o meu quintal e ela o seguiu, não demorando a se jogar no chão ao meu lado.
—Érick? —perguntei surpresa analisando sua bermuda e sua blusa branca de mangas curtas.
—Oi, Ally. —ele sorriu minimamente. O que ele faz aqui?— Eu vim porque queria conversar com você. —disse esfregando as mãos e desviando o olhar, como se tivesse lido meus pensamentos— Mas acho que está ocupada. —ele sorriu pra Atena— Quer ajuda?
—Sim! —não pensei duas vezes antes de aceitar. Tudo que eu penso são nos meus braços vermelhos e doloridos— Por favor. Se não for te atrapalhar...
—Não vai. —ele sorriu gentilmente quando voltou a me olhar— Só um minuto.
Ele foi até a varanda e tirou a blusa. Arregalei os olhos observando ele dobra-la e colocá-la em uma cadeira na varanda. Pigarreei enquanto ele voltava e vi Ann correndo toda atrapalhada em minha direção com o baldinho, o segurando como se ele fosse uma coroa.
Sorri para ela que começou a fazer uma expressão chateada ao ver que tinha dado errado de novo.
—Di novo, Allyzinha? —Ann perguntou colocando o balde no chão.
—Sinto muito Ann. —falei e ela fez uma carinha emburrada.
Érick veio em nossa direção e parou ao lado de Ann, passando a mão no topo da cabeça dela.
—Oi Ann. —ele disse simpático.
—Oi tio! —ela gritou abraçando as pernas dele— Você vai ajuda azente? —Érick assentiu e ela sorriu— Ainda bem! A Allyzinha não para de cair!
—Ann! —repreendi e ela riu, colocando as mãos no rosto.
Ri junto com ela.
Alguns minutos depois, Érick se agachou ao lado de Atena e abraçou seu corpo.
—Ok. Mais uma vez. —repeti olhando para Ann— Você joga a água, vai lá atrás pegar mais, eu ensabôo, você volta com o balde e a gente vai enchendo até tirar a espuma. Ok?
Ann assentiu.
E repetimos todo o processo. Claro, com sucesso dessa vez. Atena acabou desistindo de se debater em um certo ponto e aceitou que o destino dela era esse.
Depois de terminar a parte do banho e rir de como ela ficou com os pelos molhados, Érick a envolveu em uma toalha e a carregou até dentro da minha casa. Fomos todos para o meu quarto e eu comecei a secar Atena com o jato frio do secador. Pelo menos dessa parte ela gosta.
Assim que eu terminei respirei fundo e pedi para Ann vigiá-la. Pedi licença pro Érick e fui tomar um banho para tirar aquela roupa molhada e com cheiro de cachorro. Após terminar, estendi as roupas no varal e quando eu voltei Érick estava na sala -já de blusa- com Atena e Ann.
Sentei-me ao seu lado e ele me deu um sorriso mínimo. Ann está brincando distraída com Atena no chão quando me viro pra ele.
—O que houve, Érick? —ele me olhou e esfregou as mãos.
—Eu... —ele respirou fundo— Eu vim me desculpar. Por ontem. —ele desviou o olhar constrangido.
Sorri minimamente.
—Não se desculpe. —ele me olhou— Eu estava um pouco alterada também... —falei, com vergonha.
Sinto vontade de chorar. Finalmente alguma outra pessoa vai saber dessa situação.
Eu vou falar com Érick. Eu confio nele.
Ele franziu as sobrancelhas, parecendo em dúvida.
Eu sei que ele quer perguntar, mas não quer invadir meu espaço pessoal de novo. Érick tem muito respeito por isso.
Mas chega. Está na hora de me libertar.
—Vamos pra cozinha. —falei dando uma última olhada para Ann. Ele assentiu com um semblante preocupado e nos dirigimos para a cozinha— Certo... —eu falei, olhando minhas mãos— Antes de tudo, Érick, eu preciso que você me prometa que não vai contar isso pra ninguém. —eu disse com olhos suplicantes e segurei suas mãos— Eu não sei o que pode acontecer se alguém descobrir isso.
Érick tem a expressão cada vez mais preocupada. Ele assente com as sobrancelhas franzidas.
—Há dois meses, no último dia de aula, eu recebi algumas mensagens... Algumas ameaças. —eu desviei o olhar, sentindo as lembranças do meu desespero me tomando novamente— Eu... —respirei fundo, olhando decidida para os olhos confusos de Érick— Na primeira vez que eu vi Carol, que ela me pagou aquele sorvete, ela me ameaçou. Me pediu para ficar longe do Thomas. E eu não fiquei. Porque eu gosto dele. Eu gosto muito, Érick. —obviamente, ele me olhou embasbacado e arregalou os olhos. Mas não dei tempo para ele dizer nada— E Carol também sabe disso. Ela tem me perseguido e me ameaçado. —soltei as mãos dele e peguei meu celular, colocando na conversa de Carol. Enquanto ele lê, eu continuei— Ela ameaçou fazer algo com Ann e até foi ver minha mãe no hospital. Érick, eu nunca gostei do Charles. Não desse jeito, eu... Eu só queria despistar Caroline, pelo menos até eu arrumar alguma solução.
Érick me olha com os lábios franzidos em uma linha fina. Ele parece preocupado e ouso dizer que irritado.
—Como assim, Ally? —Érick tem os olhos arregalados e eu aperto os meus fortemente— Por que você nunca contou sobre isso?
Ri com escárnio.
—Está nas suas mãos o porquê.
Ele deixa o celular em cima da bancada e passa as mãos pelo rosto, antes de vir em minha direção e me dar um abraço.
Meus olhos com certeza estão arregalados, pela surpresa.
Mas... Isso não importa agora. Porque finalmente alguém sabe dessa situação.
E esse é meu primeiro passo para a liberdade.
Retribuí o abraço.
*
|The Messenger não é de minha autoria, pertence à banda Linkin Park. Mas, nessa história, vamos fingir que pertence ao Thomas, ok?
Músicas:
Welcome To The Jungle: https://youtu.be/o1tj2zJ2Wvg
Couting Stars: https://youtu.be/hT_nvWreIhg
The Messenger: https://youtu.be/KDOkMSf-F14|
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