3
O vento soprava forte do lado de fora e as janelas mal fechadas faziam as cortinas dançarem livremente. Por alguns momentos aquele fora o único movimento existente naquele corredor enquanto Madeline e o paciente misterioso se encaravam. Nem mesmo em seus mais insanos devaneios, enquanto fantasiava em como o homem seria, ela imaginara alguém tão jovem e com tão agradável aparência. Não apenas bonito, mas agradável. Era bom olhar para ele. Confortável. Familiar. Mesmo com aquele sorrisinho torto que ele tinha estampado nos lábios, que fazia uma discreta covinha surgir em sua bochecha esquerda. "Meu sonho…", aquela voz repetia na mente dela as palavras que ele dissera em busca de seu significado. Ao perceber que não conseguiria respostas enquanto não fizesse perguntas, Mad finalmente sai do torpor hipnótico em que se encontrava.
-- Quem é você? -- sua voz sai baixa, quase um sussurro, como se temesse espantá-lo caso falasse alto demais -- Como sabe meu nome? Como fugiu da solitária? Por que tem me perseguido?
Os questionamentos não paravam de escapulir de sua boca e, a cada nova indagação, o sorriso dele aumentava.
-- Minha nossa, quantas perguntas! -- tira as mãos dos bolsos da calça e cruza os braços, desencostando-se da parede onde havia permanecido escorado -- Poderia me dar um tempo para respondê-las ou pretende me bombardear com um interrogatório até que eu decida ir embora?
Aquela ameaça fora vã, ela percebera imediatamente, pois aquele sorriso torto jamais deixara os lábios dele. O homem estava se divertindo. Demasiado. E às custas do desconforto dela.
-- Apenas responda. -- exige -- Ou chamarei os guardas e pode ter certeza que, caso saibam sobre suas aventuras noturnas, essa vai ser a última vez que conseguiu realizar suas andanças.
-- Faça isso, então! E fique a vontade para permanecer um longo, longo tempo remoendo suas dúvidas. -- dá de ombros e sai, caminhando até um banco de madeira que havia há alguns metros deles.
Irritada. Abismada. Aquele homem era absolutamente exasperante! O seguiu até o banco onde havia se sentado e se postou à sua frente, braços na cintura para pontuar seu alto grau de descontentamento com tamanha impertinência. Estava já preparada para derramar sobre ele variadas ofensas quando percebra, pela postura altiva que mantinha mesmo sentado, que aquilo não surtiria efeito algum.
-- Muito bem. -- suspira, rendendo-se, enquanto massageia as têmporas -- Pode começar me dizendo seu nome? -- pede em voz calma, e senta-se ao lado dele.
Contente pela mudança de atitude dela, o homem vira o corpo em sua direção, agora sério, e lhe toma a mão que, lentamente, leva aos lábios.
-- Meu nome é Victor. É um prazer conhecê-la finalmente, meu sonho. -- diz galante.
Aquele gesto tão romântico e puro, que estivera aos poucos saindo de moda, não era oferecido à ela por um homem há muito, muito tempo.
-- Victor… -- prova o nome em seus lábios. Ele sorri. -- E como sabe meu nome?
-- Sei seu nome desde seu primeiro dia nesse lugar, Madelaine.
-- Mas… como? -- franze a testa, confusa.
Victor suspira e se ajeita no banco, acomodando o braço direito no encosto e apoia sua cabeça ali. Mad não pôde deixar de notar que seus cabelos castanhos foram raspados, mas já estavam crescendo bagunçados e aparentavam uma textura tentadoramente macia.
-- Você acha que, por termos uma visão de mundo um pouco diferente, e em alguns casos até mesmo distorcida, não somos capazes de nos aperceber do mundo ao nosso redor? -- levanta uma sobrancelha questionadora -- Mesmo caminhando entre diversas realidades, Madelaine, nós sabemos do que acontece aqui, o hospício Divina Misericórdia é o nosso mundo. Mesmo caminhando entre diversas realidades, eu sempre retorno para ver você, meu sonho.
Meu sonho. Victor dissera aquilo com tanta franqueza, como se Mad fosse especial, como se fosse uma ilha segura em meio à um mar revolto. Aquilo a aquecera e, a cada minuto de conversa com ele, a noção da condição da saúde mental daquele homem era varrida para um canto esquecido de seus pensamentos.
-- Por que me chama assim, Victor? -- pergunta apertando as mãos, notando tardiamente que as suas ainda estavam unidas às dele.
-- Porque desde que a vi pela primeira vez, caminhando curiosa por esses corredores escuros e sombrios, fiquei encantado com a luz que irradiava de você. Uma mulher tão jovem, tão inexperiente para um lugar como esse. Desde então sonho contigo todas as noites. Desde então... -- cessa suas palavras deixando a voz morrer, e faz nascer nela o anseio por descobrir o que ele iria dizer.
-- Desde então o que? -- pede, ansiosa.
-- Minha cor favorita passou a ser vermelho. -- diz baixinho, esticando o braço que estava apoiado no banco para pegar uma mecha dos cabelos ruivos dela que haviam escapado do coque.
Calor. Excitação. Inebriada. Aquele toque suave e superficial chegara num lugar profundo do interior de Madelaine, uma partezinha que sempre sonhara ser tocada, uma partezinha que sempre sonhara ser amada. Ela prende a respiração para conter aquele sentimento maravilhoso que aquela faísca de carícia acendeu dentro de si.
-- Isso não responde minha pergunta. -- aponta com voz trêmula.
Victor apenas sorri e retoma a posição confortável em que estivera antes, uma postura informal, relaxada e divertida.
-- Eu estou aqui desde que esse prédio sinistro cheirava a cimento novo. Fui o primeiríssimo paciente do Divina Misericórdia. Mesmo estando hospedado -- fez aspas com uma mão -- na segurança máxima tenho algumas vantagens por conhecer esse lugar bem demais. Então, sempre que encontro uma chance eu tenho, em suas palavras, minhas aventuras noturnas. Você não saberia, meu sonho, mas o ar é diferente aqui fora. É fresco. Puro. Cheira a vida, não a morte e podridão à qual estou familiarizado.
Ele estava divagando, Mad percebera, mas decidira não o interromper pois a cada palavra por ele proferida, sentia que o conhecia mais.
-- Eu a vi pela fresta da porta em seu primeiro dia e escapei de lá assim que pude para me informar sobre a bela novata. Eu conversei com os pacientes aqui de fora e me informei sobre você. Aliás, é assim que me informo sobre tudo. Eu converso com eles, e mais importante, eu os compreendo.
-- E porque me disse aquilo naquele dia?
Ele não a merece, Victor dissera para ela através da porta da segurança máxima.
-- Pois era absoluta verdade e não havia ninguém ali para lhe abrir os olhos. -- ele se aproximou ainda mais e prendeu o olhar dela em seus olhos amendoados, atentos e profundos -- Qualquer um que a faça sofrer não a merece! Minha doce Madelaine, você merece o sol e as estrelas, não poeira e escuridão. Se eu pudesse…
Calou-se e sua feição antes sonhadora tornou-se sombria. Desviou o olhar para os lábios dela e, então, para os próprios pés. Mad percebera que algo o atormentara mas não fora capaz de lhe perguntar o que, mesmo que tenha sentido tal vontade.
-- Está na hora de voltar para a minha realidade, meu sonho… adeus. -- disse e, num pulo, afastou-se a passos rápidos.
-- Espere! -- Madelaine o seguira sem nem mesmo dar-se conta -- Eu o verei novamente?
Victor virou-se e a observa, admirado, por alguns segundos antes de responder-lhe.
-- Quando os pássaros cantarem, meu sonho… quando ouvir os pássaros venha até mim pois esse é o sinal de que eu estarei indo até você.
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