18
Quando O Sol Nasce No Ocidente | dezoito.
Foi difícil disfarçar o ódio que eu estava quando abordei Asher e o chamei para uma conversa privada no vestiário. Faltam menos de cinco minutos para o sinal da primeira aula tocar. Zach está na quadra, bloqueando a porta para ninguém nos interromper.
Tenho que me segurar para não quebrar a cara sonsa e arrogante que ele tem.
— Vou te fazer uma pergunta e espero que você fale a verdade, Asher. Não quero piadinhas!
— O que foi agora, Arthit?
— Foi você que falou sobre o Alec para o Quentin?
Ele ri, como se fosse a piada mais engraçada que ouviu aquela manhã.
— Seu desgraçado! — exclamo, o empurrando e pressionando o meu braço com força contra o seu peito. — Você sabia que ele e mais dois retardados intimidaram o Alec no corredor?! Sabia que ele teve uma crise de pânico depois disso?
— Calma aí, Arthit! — exclama, ainda rindo. Ele não resiste ou revida. — Foi só uma piada!
O empurro com mais força.
— Piada?! Tudo pra você é piada?!
— Você leva tudo muito a sério, Arthit! Por que você é tão chato e certinho?!
— Vai se foder, Asher!
Me seguro para não socá-lo.
Meu punho direito dói de tanto que o aperto.
— Por que você tá tão preocupado com o Stevens?
— Por que você não deixa ele em paz?!
— Por que você se importa?!
O solto e me afasto imediatamente para não agredi-lo. Sinto meu corpo ferver de raiva. Chuto um dos armários e arremesso uma das bolas de basquete com toda a força contra a parede.
— Aaaah, nããão! — exclama, debochado e boquiaberto. — Por acaso é o que estou pensando?!
— O que sua mente cheia de merda está pensando agora?
— Você gosta do Stevens?!
Balanço a cabeça, negando.
Se Asher já o incomoda, descobrir o que sinto só vai piorar as coisas.
— Ficou maluco? — questiono, disfarçando. — Só não curto o que você tá fazendo com ele! Ele é meu amigo!
— Ele é meu amigo também — diz, cruzando os braços. — Eu gosto do Stevens, de verdade!
Ignoro essas palavras.
Não entendo como Asher Cooper consegue ser tão otário e sem noção.
— Para de perturbar o Alec, Asher — digo, voltando a encará-lo.
— Se não o quê?! — questiona, em tom desafiador.
— Quebro a sua cara — falo, sorrindo com um ar debochado igual ao dele.
Asher parece não acreditar. Ele volta a rir, dando a entender que encara aquela discussão como uma brincadeira.
— Você nem foi capaz de me vencer na aposta, Arthit! O próximo jogo é semana que vem e você pode fazer parte dele se me vencer.
Talvez essa seja a saída.
— E se eu te vencer?
— Não vai!
— Te garanto que vou! O Alec gosta de mim, não de você!
— Você tem uma pequena vantagem, mas não é páreo para mim.
Talvez eu precise jogar o jogo dele para resolver o problema.
— Quero adicionar uma nova regra à aposta, Asher — digo, me aproximando um pouco mais dele.
— Diz aí!
— Se eu ganhar, você vai ter que deixar o Alec em paz. Não vai incomodar ou contar para alguém sobre ele ser gay! Também não vai contar o que acontecer entre ele e eu. Este assunto vai morrer de uma vez por todas!
— E se eu te vencer?
E eu sei que não vai.
— Faço o que você quiser — digo, e balanço os ombros tranquilamente. — O que você quer?
— Vou pensar sobre isso e te digo depois — diz, animado com a proposta.
— Então está combinado? — pergunto, estendendo a mão a ele.
O sinal de início da primeira aula toca.
— Tem certeza que vai querer arriscar? Você vai ter que fazer o que eu mandar, Arthit!
— Faço sem reclamar, Asher!
Ele aperta a minha mão, com uma força desproporcional.
Retribuo o aperto, querendo quebrar os dedos dele.
— Tá apostado! — confirma, confiante.
Corro para o refeitório após tocar o sinal do intervalo. Alec não respondeu minhas mensagens. Também não o vi na entrada do colégio naquela manhã. Estou aborrecido desde a discussão com Asher no vestiário. Descobrir que ele está por trás do ataque que Alec recebeu me deixou ainda mais preocupado.
— Vamos comer, Arthit? — pergunta Zach, entrando no refeitório na companhia de três garotas da torcida.
— Estou esperando o Alec — digo, olhando em volta.
— Acho que ele não veio hoje, Arthur — diz Milla Jones, da equipe de torcida. — Ele não estava na aula de história.
— Também não o vi, Arthit — diz Zach.
Os quatro passam por mim, insistindo que eu os acompanhe. Permaneço na entrada do refeitório, prestando atenção tanto nas mesas quanto nos corredores.
— Seu amiguinho faltou hoje — diz Asher, passando rapidamente por mim.
O ignoro.
Minha vontade de quebrar a cara dele ainda não passou.
Thomas Harris passa por mim na entrada do refeitório. Ele é o melhor amigo do Alec no colégio, então deve saber onde ele está. Coço a nuca e fico receoso de abordá-lo, principalmente quando ele encontra e começa a conversar com seus amigos.
— Bom dia! — cumprimento, depois de me aproximar da mesa deles.
Todos me encaram, estranhando minha aproximação. Confusos, não respondem ao meu cumprimento.
— Vocês viram o Alec? — pergunto, depois de um silêncio constrangedor.
— Ele não veio hoje, Arthit — responde Thomas.
— Está tudo bem? Aconteceu alguma coisa?
— Não sabemos — diz Nina. — Ele não apareceu e nem respondeu nossas mensagens.
— Obrigado!
Essa falta não me preocuparia se não fosse um dia depois de toda a merda que Alec passou. Será que tem alguma ligação? Ele parecia mais calmo ontem na saída do colégio. Será que voltou a ter uma crise de pânico?
Abro o celular, mas não há novas mensagens. Penso em ligar, mas não quero incomodá-lo. Talvez não seja nada demais. Talvez ele tenha uma consulta no dentista. Pode ser que tenha dormido demais e perdido a hora. Provável que esteja descansando ou resolvendo algum problema em casa.
O sinal do fim das aulas toca. Perdi a conta de quantas vezes olhei o celular escondido embaixo da carteira para verificar minhas notificações.
Alec não respondeu minha mensagem.
A preocupação com o meu amigo e a raiva acumulada me fez ser mais agressivo e ágil no treino de basquete. Não tive medo de ir para cima, roubar bolas e furar os bloqueios. Mesmo cansado, descarreguei toda a minha ira.
— Bom trabalho hoje, Arthur — diz o treinador, no final do jogo. — Só tenha mais cuidado, pois você quase cometeu faltas desnecessárias.
Assenti, exausto.
Tiro a camisa encharcada de suor. Apesar da baixa temperatura, não sinto frio. Minhas pernas estão doloridas. Meus pés parecem destruídos dentro do tênis. Meus olhos ardem por conta do suor que escorre por minha testa.
— Sim! Bom trabalho, Arthit — diz Asher, também tirando a camisa enquanto se aproxima.
Ele me encara, presunçoso.
O encaro de volta, sem paciência.
— Você já sabe o que tem que fazer para entrar como titular no jogo da semana que vem — diz, passando por mim.
— Otário — resmungo, mas acho que ele não me ouviu.
Sou o último a sair do chuveiro. Percebo que boa parte dos meus colegas já foram embora quando entro no vestiário e tiro a toalha da cintura para terminar de me secar. Asher, ainda com um olhar provocativo, bate a porta do armário para chamar a minha atenção. Ele coloca a mochila nas costas e vai embora, rindo e grunhindo como um retardado.
— O que tá rolando entre você e o Asher? — pergunta Tristan, terminando de se trocar. — Vocês brigaram?
— Ele é um idiota — digo, secando o cabelo.
— Zach pediu para te avisar que está te esperando lá fora.
— Diz para ele que já vou sair, por favor?
Ele assente, saindo do vestiário.
Penduro a toalha no pescoço, abro o meu armário e pego o meu celular em cima da minha troca de cueca. Há uma nova mensagem...
Uma nova mensagem do Alec.
"Estou bem! Tive que resolver uns problemas fora de casa. Te vejo amanhã na aula de inglês!
Alec."
Suspiro, aliviado.
Meu coração derrete e um elefante parece descer de minhas costas.
É quinta-feira e estou, mais uma vez, na entrada do colégio esperando pelo Alec. Cheguei cedo demais. Perdi a conta de quantas vezes olhei as horas na tela do celular, esperando o tempo passar mais rápido. Não conversamos por telefone noite passada. Não quero parecer grudento ou possessivo. Quero dar espaço para ele resolver seus próprios problemas e se acalmar. Claro que fico cheio de vontade de oferecer minha ajuda, mas não...
Não quero parecer grudento.
Ou possessivo.
Mas estou com saudade e não vejo a hora de reencontrá-lo.
— E aí, Arthit! — cumprimenta Thomas Harris.
— Bom dia!
— Falei com o Alec ontem. Ele está bem e já deve estar chegando por aí.
— Também falei com ele, obrigado!
Thomas me encara, curioso.
— Desde quando você e ele ficaram tão próximos?
— Temos aula de inglês juntos.
— Eu sei!
— Também frequento o cybercafé que ele trabalhava. Ainda bem que o Alec saiu de lá, pois a chefe dele é louca!
Thomas franze o cenho.
— Como assim? Alec saiu do cybercafé? Por quê?
— Ele não te contou?
Thomas insistiu tanto que me convenceu a falar o que aconteceu. Alec e ele são próximos, então não vi problema em contar tudo.
— E posso te pedir um favor?
— Claro!
— Fica de olho e cuida do Alec, ok?
Thomas estranha meu pedido, mas concorda.
Zach, Tristan e Brian chegam juntos. Zach, já sabendo o que estou fazendo plantado na entrada do colégio, franze a testa e suspira com uma expressão engraçada. Tristan me agarra, envolve o braço em meu pescoço e me puxa para entrar com eles.
— Vamos tirar o novo porteiro do colégio do seu posto? — brinca Zach, também me empurrando para dentro.
— Você nunca mais entrou com a gente, Arthit! — diz Brian, dando um peteleco na minha cabeça.
— Estou esperando um amigo, caramba! — resmungo, tentando me soltar.
— Nós também somos seus amigos! Não seja grosseiro! — exclama Tristan, comprimindo ainda mais o braço em meu pescoço para eu não escapar.
A aula de inglês finalmente chega. O dia foi longo e torturante. Essa é a última aula antes do intervalo. Não consegui ver ou falar com o Alec antes disso. A saudade e a ansiedade estavam me matando.
— Se importa em trocarmos de lugar? — pergunto para Lizzy Chatton, que senta ao lado do Alec.
— Sem problema — diz, levantando da carteira.
— Obrigado, Liz! Te devo uma!
Alec ainda não chegou.
— Bom dia, pessoal! — diz o professor de inglês, entrando na sala. — Vamos fazer uma atividade em dupla! Se organizem enquanto esperamos o restante da turma chegar.
Junto minha carteira com a do Alec.
É claro que faremos essa atividade juntos.
— Arthit?! Quer fazer comigo? — pergunta uma das garotas da equipe de torcida.
— Vou fazer com o Alec — respondo, voltando minha atenção para ela.
— Faz comigo, por favorzinho?! — insiste, com uma voz fofa.
Nossos colegas ecoam um grunhido malicioso.
— Prometi fazer essa atividade com ele — minto, ignorando as provocações maliciosas.
— Prometeu? — pergunta Alec, colocando a mochila na carteira.
Não o vi chegar.
Meu coração parece querer pular do peito.
— Como vai, sumido?!
— Oi, Arth!
Ele senta ao meu lado.
Não consigo disfarçar minha felicidade em revê-lo.
— Fiquei preocupado com você ontem — sussurro, segurando a mão dele e a levando para baixo da carteira para ninguém nos ver.
— Tive que resolver alguns problemas — diz, entrelaçando nossos dedos.
— Tem a ver com o cybercafé?
— Não.
— É algo relacionado ao o que aconteceu com aqueles idiotas?
— Também não.
Não acredito nessas respostas. Apesar de também estar feliz em me ver, Alec parece abatido. Seus olhos estão caídos como se ele estivesse com sono. Sua mão está fria e trêmula. Ele parece um pouco mais encolhido e introvertido que de costume.
— Alguém te incomodou? — pergunto, preocupado.
— Não.
— Você tá escondendo alguma coisa de mim?
— Claro que não, Arth.
Ele sorri, mesmo aparentando cansaço.
Não resisto e retribuo o sorriso, mesmo desconfiado.
Alec é a melhor dupla que já tive para atividades do colégio. Ele é cuidadoso, inteligente e criativo. Nunca o tinha visto com aquela carinha fofa de sono. Foi difícil me concentrar no que estava fazendo. Foi mais difícil ainda me segurar e não agarrá-lo ali, na frente de toda a turma de inglês.
— Você tá livre este sábado? — pergunto, enquanto ele revisa nossa atividade.
— Uhun!
— Quer dormir na minha casa?
Ele sorri, balançando a cabeça como se não acreditasse em meu convite.
— É sério, Alec — digo, o empurrando com o ombro. — Podemos estudar um pouco e depois ver um filme. Ainda não assisti a sequência de Pânico.
Ele não responde, receoso.
Volto a empurrá-lo com o ombro.
— Do que você tem medo?
— De nada.
— Então aceita o meu convite?
Alec concorda, com um contido e fofo sorriso.
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